31 de julho de 2007

"The Simpsons Movie" por Ricardo Clara

Sou um enorme fã e seguidor da família Simpson. Aliás, sou um confesso admirador de todo o trabalho de Matt Groening. Enquanto série televisiva, tem o brilhantismo de se encontrar no ar à cerca de 18 anos consecutivos, moldando e desenhando novos patamares da comédia, parodiando, quer a sociedade americana, quer a sociedade em global, nunca esquecendo uma auto-crítica mordaz e atenta, que elevou "The Simpsons" a série de culto.
É inevitável traçar a linha da série com a do filme, que se juntam amiude, cruzando-se todas as personagens históricas, que em muitos casos fizeram episódios peças automáticas de culto. Mas a série está, de à uns anos para cá, a sofrer de um défice de criatividade. Continua a crítica e o apontamento certeiro, mas faltam rasgos de genialidade como um Michael Jackson branco (bom, albino...) ou as perseguições de Sideshow Bob a Bart, sem esquecer episódios como "A Fish called Selma" ou todos os "Treehouse of Horror". São lugares que Groening e a sua equipa raramente conseguiram chegar nas últimas temporadas, mas que não me afastaram do acompanhamento religioso, não fosse ser umas das minhas devoções atentas.
E é neste prisma que entra "The Simpsons Movie", uma espécie de episódio grande, e que tem a capacidade de ser suficiente por si só, não caíndo na banalidade nem no tédio. Estão lá Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie, bem como todos aqueles que ao longo de quase 400 episódios fizeram a história de Springfield e arredores. Recupera, igualmente, alguma capacidade de transformar excertos em deliciosas obras de arte de comédia (a sequência em que Marge se interroga como é que pegadas de porco haviam ido parar ao tecto, olhando em acto contínuo para o lado, e vislumbrando Homer a segurar um porco de pernas para o ar a caminhar no tecto, enquanto entoa o tema de Spider Man, trocando man por... pig: "Spider-Pig, Spider-Pig. / Does whatever a Spider-Pig does. / Can he swing / from a web? / No he *can't*, / cause he's a *pig*. / Look out! / He is the *Spider-Pig*!", é um objecto de culto instantâneo e que faz relembrar antigas abordagens de Groening à familia Simpson), e transporta para a tela uma quantidade enorme de gags, que funcionam na perfeição e que estão muitíssimo bem interligados entre ele, ficando a sensação de que havia tempo e espaço para mais. Uma peça a ver por todos, dos fãs da série aqueles que não a seguem.

Título Original: "The Simpsons Movie" (EUA, 2007)
Realização: David Silverman
Argumento: Matt Groening e James L. Brooks
Intérpretes (vozes): Dan Castellaneta, Julie Kavner, Nancy Cartwright e Yeardley Smith
Música: Hans Zimmer
Género: Comédia / Animação
Duração: 87 min.
Sítio Oficial: http://www.simpsonsmovie.com

O Cinema de luto

(Michelangelo Antonioni, Foto: AP)

(Ingmar Bergman em plena rodagem, Foto: AP)

Num único dia, a morte veio ceifar a vida a dois mestres do cinema europeu, deixando mais pobre o universo das imagens em movimento. Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni faleceram ontem, com 89 e 94 anos de idade, respectivamente, nas suas pátrias, Suécia e Itália.


INGMAR BERGMAN (1918 - 2007)

Nascido a 14 de Julho de 1918, em Uppsala, filho de um pastor protestante, Bergman teve uma educação severa, que se repercute na sua lente. A falta de comunicação com os outros e com Deus, bem como a relação com a morte, são pontos essenciais na sua cinematografia, de onde se destacam películas como "Fanny and Alexander" (1983), filme galardoado com quatro Oscares, "Morangos Silvestres (1957), "The Devil's Eye" (1960), "Shame" (1968) e "Saraband" (2003), esta a sua última obra. Fundador da Academia Europeia de Cinema, Bergman pautava a sua realização pelos constantes medos que o atormentavam, tendo sobre eles dito em 2001, numa entrevista, que "os demónios são incontáveis, aparecem nos momentos mais inoportunos e criam pânico e terror. Mas aprendi que se posso dominar as forças negativas e vira-las a meu favor, então, podem trabalhar em meu benefício".


MICHELANGELO ANTONIONI (1912 - 2007)

Nascido no seio de uma família de classe média, o mestre italiano estudou economia e comércio em Bolonha, tendo em ido em 1939 para Roma, onde estudou cinema na Escola de Cinema. Filho do puro neorealismo italiano, Antonioni produziu magníficas obras, como "Le Amiche" (1955), a trilogia "L' Avventura" (1960), "La Notte" (1961) e "L' Eclisse" (1962), tendo com elas granjeado projecção internacional, realizando o aclamado "Blow Up" (1966), para o qual foi nomeado para dois Oscares. Com estilos difusos na direcção, o realizador chegou a admitir que "quando estou a filmar, nunca penso como o quero fazer; simplesmente faço-o. A minha técnica, que difere de filme para filme, é completamente instintiva, e nunca resulta de considerações tecidas anteriormente".


30 de julho de 2007

Como?


Edição DVD portuguesa:

Monty Python Flying Circus: Malucos do Circo.

Como? Malucos do Circo? Talvez os sucessores dos Malucos do Riso.


28 de julho de 2007

Pré-época

Após um mês de intensíssima actividade profissional, o Antestreia regressa aos posts regulares. Até já!

25 de julho de 2007

BSA - Nova Arcadia



Hoje trago, na Banda Sonora Antestreia, os Nova Arcadia, um projecto embrionário de elevadíssima qualidade, e que está a lutar para encontrar a sua oportunidade no exigente universo musical, e que cá pelo burgo consegue ser bastante ingrato.
O quarteto é composto por Zé Teibão, Fred Novais, Hugo Morgado e Edgar Silva, combinando voz, viola, baixo e guitarra portuguesa, numa fusão deliciosa e que deixa antecipar um grande futuro pela frente.
Como qualquer projecto em fase de arranque, ainda não se encontra muita informação pela internet, mas creio que muito rapidamente se assistirá a esse suporte de divulgação. Por agora deixo aqui o endereço do conhecido hi5 (http://novaarcadia.hi5.com), e o conselho a todos de lá irem fazer uma visita, quase obrigação, inclusive aqueles que não estão registados - não custa nada, e incentivar este projecto é um bem à sociedade musical. Lá entrando, clicar em play no canto superior direito e ouvir o single Desistir. Parabéns ao quarteto.


8 de julho de 2007

"Harry Potter and the Order of the Phoenix" por António Reis


Harry Potter na crise da adolescência

O envelhecimento dos heróis em cinema é um processo normalmente traumático. Veja-se Stallone a regressar penosamente a Rocky, Bruce Willis a escapar-se menos mal em Die Hard e Radcliffe a passar para a adolescência fingindo mal que é pré-adolescente. Adaptar o volume cinco da saga é um processo complexo, sobretudo por estar condicionado pelo próprio texto literário e, não menos importante, estar condicionado pelo visual dos filmes anteriores. Neste sentido a escolha de David Yates compreende-se no pressuposto de que o filme decorre como se de um seriado de TV fosse. Escorre lentamente, sem grandes picos narrativos, sem emoção e quase sem história, seguindo com fidelidade aquilo que o livro já tinha sido: uma seca.
No fundo percebe-se que Harry Potter está a entrar na adolescência e que a crise da adolescência em Hogwarts não é muito diferente das escolas normais. Se os personagens se debatem com os seus próprios fantasmas e medos, não admira que o público a que se destina este Harry Potter pareça ser mais os que acompanharam o crescimento dos personagens e estarão assim no mesmo estádio de desenvolvimento. A ideia poderia ser interessante, fidelizando o público que acompanha o herói desde o início, mas tem o risco de poder alienar audiências mais jovens e por isso não se augura o mesmo sucesso de bilheteira que os anteriores. Pode-se reforçar os efeitos visuais, mas algumas das melhores ideias em termos de efeitos parecem já esgotadas. Chris Columbus conseguiu dar humor ao filme, Cuarón faz uma incursão num universo mais dark, Newell conseguiu acentuar o carácter mágico e onírico, Yates limita-se a gerir o processo sem grande talento.
Quando a história começa a enveredar pelo cliché do personagem em luta com o seu alter-ego maligno, quando o bem e o mal se confundem, talvez mesmo só a mão de Del Toro, caso se confirmem os palpites de espectadores mais clarividentes, poderá salvar Harry Potter do flop. Harry pode estar em vias de acabar o curso, mas o seu futuro pode ser o desemprego. Aos sete livros previstos da saga pode estar a acontecer o mesmo que ao espectáculo das sete maravilhas. À falta de ideias começa-se a “engonhar” como diriam os Fedorentos.



Título Original: "Harry Potter and the Order of the Phoenix" (EUA, UK, 2007)
Realização: David Yates
Argumento: Michael Goldenberg, J. K. Rowling (livro)
Intérpretes: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Gary Oldman, Imelda Staunton
Fotografia: Slawomir Idziak
Música: Nicholas Hooper
Género: Aventura/Drama/Fantasia
Duração: 138 min.
Sítio Oficial: http://www.harrypotterorderofthephoenix.com/

"Harry Potter and the Order of the Phoenix" por Nuno Reis


Depois de um ano de interregno nas estreias o feiticeiro mais famoso do mundo volta aos ecrãs. Associado ao acontecimento histórico que é o lançamento do último livro – aguardado há mais cinco anos com uma expectativa incomparável – Harry Potter vai ser a personagem de ficção mais falada dos próximos meses.
Neste episódio Harry tenta alertar o mundo os feiticeiros para a chegada eminente de Voldemort. Dumbledore secunda-o no aviso, mas o Ministro da Magia tenta a todo o custo desacreditar tanto o estudante como o professor. Para o ajudar nessa missão de descrédito, Fudge coloca uma das suas assistentes ministeriais a controlar a escola e aquilo que é ensinado. Toda a disciplina de Defesa Contra a Magia Negra, fulcral para a sobrevivência num combate contra criaturas ou feiticeiros malignos, é resumida a um curso básico e exclusivamente teórico. Temendo que Voldemort tenha o caminho livre para destruir tudo e todos, Harry irá tomar em mãos a missão de ensinar isso aos seus colegas. E enquanto a escola se torna uma ditadura os gémeos Weasley tudo fazem para se rebelarem contra Mrs Umbridge e para darem alguma alegria aos jovens alunos.

Fazendo a comparação com o filme mais próximo, “O Cálice de Fogo”, tem menos voos de vassoura, menos criaturas, mais feitiços e uma enorme vantagem: apesar de tudo o que retiraram ao livro é uma história fácil de perceber e acompanhar sem necessidade de uma leitura anterior.
Este capítulo tem uma desvantagem logo à partida pois é baseado no livro mais simples de todos. O filme tem um início frouxo e que se alonga demasiado, quando finalmente começa a ter acção, resumem tudo em meia hora e sem referir alguns dos pontos mais importantes do livro. Quem não acompanha a saga não verá nada de extraordinário em mais um filme sem início nem fim bem definidos, pode substituir uma leitura do livro mas não é independente da série.
O blockbuster irá bater recordes por voltar a ter estreia simultânea em todo o mundo e poderá mesmo ser o último grande êxito da saga. Os livros apesar de cativantes vão-se tornando menos apelativos e o mesmo sucede com os filmes, especialmente com os intervalos que fazem entre eles. Cada vez mais considero a saga merecedora não de sete visionamentos isolados mas de uma maratona de 20 horas.




Título Original: "Harry Potter and the Order of the Phoenix" (EUA, UK, 2007)
Realização: David Yates
Argumento: Michael Goldenberg, J. K. Rowling (livro)
Intérpretes: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Gary Oldman, Imelda Staunton
Fotografia: Slawomir Idziak
Música: Nicholas Hooper
Género: Aventura/Drama/Fantasia
Duração: 138 min.
Sítio Oficial: http://www.harrypotterorderofthephoenix.com/

3 de julho de 2007

"Transformers" por António Reis


Michael Bay no seu melhor

Para que se saiba desde o início, Transformers é Michael Bay, para o melhor e para o menos bom. Hesitando entre o registo de origem dos desenhos animados de matriz infanto-juvenil e o filme de teenagers para a silly season, todo o filme é um espectáculo de efeitos digitais, grandes panorâmicas, acção permanente e conversa de treta para encher.

Bay faz um cocktail que nos leva de "Christine – o carro assassino" de Carpenter a "Top Gun", passando pela "Guerra dos Mundos" e "Air Force One". Além de se plagiar a ele próprio decalcando o "Dia da Independência", "Pearl Harbor" e "Armageddon". Porque a verdade é que os argumentistas ou estavam com preguiça ou receberam ordens para copiar ideias de todos os sucessos de bilheteira das últimas décadas. Desde Shia LeBeouf a andar de bicicleta num E.T. um pouco tardio, ao Megatron empoleirado como King Kong mecânico, ao carro dotado de emoções que escolhe o condutor como Christine ou o Herbie, cenas de porta-aviões roubadas de Pearl Harbor, esquadrilhas de helicóptero em formação emprestada a "Dia da Independência", decepticons com cara de sáurios jurássicos, ou cenas de batalha próximas de "Máquina Zero". São apenas exemplos de uma roubalheira desenfreada num filme que pisca o olho a todos os clichés de filme de acção.

É talvez um pouco penoso nos seus 144 minutos de duração, mas de uma eficácia narrativa irrepreensível. Deixa o espectador extenuado de tanta animação virtual, porque estes extraterrestres não biológicos, vindos de uma galáxia distante, têm sentimentos humanos entre as suas jantes e o radiador e dispõem de energia inesgotável, ou seja, vence qualquer espectador pelo cansaço.

As transformações são magníficas, as animações da batalha de qualidade superior, mas a estrutura do argumento desliza abruptamente com o sentido de humor de fraca qualidade e personagens que pretendem ser caricaturas, mas são apenas ridículas. John Turturro e Jon Voight deviam estar desesperados e com a conta bancária a zero para aceitarem os respectivos papeis. A banda sonora começa por ser redundante ao adaptar-se a cada estado de espírito do par romântico, mas nós acabamos por nos habituar. Para quem for ver o filme deixa-se só uma pista: o futuro da humanidade está à venda no eBay.

Já que está na net recomendo que veja a cena do filme que se encontra no YouTube. Fontes da produção garantem que esta longa-metragem não é um gigantesco anúncio do serviço Prime da Optimus. Três questões finais: afinal a que público é que se destina "Transformers"? por que diabo Spielberg se lembrou de produzir isto? Porque é que Megan Fox aparece tão pouco em cinema?






Título Original: "Transformers" (EUA, 2007)
Realização: Michael Bay
Argumento: John Rogers, Roberto Orci, Alex Kurtzman
Intérpretes: Shia LaBeouf, Megan Fox, Josh Duhamel
Fotografia: Mitchell Amundsen
Música: Steve Jablonsky
Género: Acção/Ficção-Científica
Duração: 144 min.
Sítio Oficial: http://www.transformersmovie.com/