31 de julho de 2009

"Two Lovers" por António Reis


Drama romântico muito melancólico com o tema recorrente do triângulo amoroso, "Duplo Amor" chega ao mercado português com mais de um ano de atraso. Apresentado em Cannes como um dos grandes candidatos americanos e recebido por um público entusiasta que encheu as diferentes salas, "Duplo Amor" parece ter a maldição de Cannes: filmes do festival têm carreiras comerciais pouco aliciantes e estreias em geral tardias. Não sendo propriamente um drama, nem tendo grandes momentos de comédia triste, não se tornando notado pela inovação na resolução do triângulo amoroso, o filme de James Gray afasta-se da receita mais convencional do género. Alicerçado sobretudo num quarteto de grandes actores, o mais conseguido do filme é a definição das personagens-tipo, ainda que neste sentido se aproxime muito dos estereótipos do judeu, do falhado, da amante e do vilão.

No seio de duas mais que convencionais famílias judias que combinam o casamento dos respectivos filhos, ocorrem alguns contratempos inesperados. Leonard (Joaquin Phoenix) o promitente noivo é um suicida falhado, confidente apaixonado pela sua fulgorosa vizinha Michelle (Gwyneth Paltrow).
Michelle é amante de um homem casado e acalenta a ilusão de que ele abandonará a mulher para se casar com ela, provando que afinal esta loura também não prima pela inteligência, apesar de utilizar o argumento mais que estafado de uma gravidez indesejada como forma de pressão.
Sandra Cohen é a prometida, sofredora silenciosa que acredita no grande amor da sua vida.
Ruth (Isabella Rossellini) é a matriarca que compreende os sentimentos do filho melhor que todos os outros e confia que uma intervenção divina acabará por pôr ordem neste universo caótico de sentimentos e paixões.
Com esta definição dos personagens e das situações facilmente se percebe que o problema maior de "Duplo Amor". Falta de originalidade temática e um impossível happy end. Numa época em que o cinema pretende ser o escape da crise, este filme deixa-nos ainda mais deprimidos que a própria realidade.

Apesar de nomeado para o César de melhor filme estrangeiro, augura-se uma passagem meteórica e discreta pelas salas de cinema.

Título Original: "Two Lovers" (EUA, 2008)
Realização: James Gray
Argumento: Ric Menello, James Gray
Intérpretes: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rossellini, Elias Koteas
Fotografia: Joaquín Baca-Asay
Música:
Género: Drama, Romance
Duração: 110 min.
Sítio Oficial: http://www.twoloversmovie.com/

Reflectindo "The Boat That Rocked"


Em 1966 metade da população ouvia rádios pirata. Não era para ser do contra, mas simplesmente porque os canais oficiais não lhes davam o que queriam. A crise actual das editoras de música e cinema será culpa dos consumidores (tão piratas como na época) ou das próprias políticas? Se há 40 anos as rádios se mantinham em funcionamento sem queixas das editoras, o que mudou? A ganância aumentou. Apesar do aumento da procura a oferta (tantas vezes fraca) satura o mercado. E as labels, à falta de música que valha o dinheiro pedido, preferem atacar para destruir em vez de negociarem acordos em que ambos ganhem.
Enquanto tentarem atacar com mais leis, os fora-da-lei ganham sempre e o consumidor é um dano colateral. Que tal tentarem aproveitar essas redes de distribuição para chegar a mais gente?

"The Boat That Rocked" por Nuno Reis


Texto foi escrito ao som de Leonard Cohen.


Mais importante do que saber fazer música, é saber ouvi-la. Nesta década a Internet permite que novas bandas se promovam com singles gratuitos e podemos ouvir pelo menos um excerto das músicas antes de comprar o cd. Mesmo que o álbum ainda não tenha chegado ao nosso país cada um faz playlists personalizadas numa qualquer rádio online com o que quer.
Nos anos 60 os ingleses deliravam com bandas como Beatles, Rolling Stones, Doors, Beach Boys e o mesmo Leonard Cohen que esta noite nos canta e encanta. Mas a BBC, senhora absoluta das ondas de rádio britânicas, transmitia menos de uma hora diária de pop/rock. O que se pode fazer para combater essa política? O que ainda hoje se faz: fugir para águas internacionais onde não se aplicam as mesmas leis.
Imensas rádios-pirata tinham assentado arraiais na água para conseguirem liberdade de transmissão. os DJs deste "Barco do Rock" são reencarnações das lendas que por alguns anos alimentaram ouvidos. Os seus seguidores eram "apenas" metade da população britânica. Mesmo tendo a simpatia da opinião pública, a minoria que os queria ver fechados é que estava no poder e seguia a filosofia de "se não gostas de algo, torna-o proibido". Usando música como única arma quanto tempo poderão resistir a este injusto combate?

Carl é um jovem que é enviado pela mãe para junto do padrinho como castigo por fumar. Neste antro de maus hábitos vai aprender que pertence a um género de pessoas para quem as regras não têem valor. É aqui que vai aprender as maiores lições da vida. Convivendo com oito DJs e alguns outros fãs incondicionais da música, depressa se adapta ao barco-transmissor, um mundo à parte onde apenas a música interessa. As comparações com "Almost Famous" começam aqui, mas em vez de Penny Lane temos Marianne (por isso é que me lembrei de ouvir Cohen) e Carl em vez de os orientar para uma vida melhor torna-se parte dos "marginais".
Uma enorme panóplia de personagens habita este barco. Curtis volta a trabalhar com dois dos seus actores favoritos, Bill Nighy e Rhys Ifans, com o incontornável Kenneth Branagh e com o comediante Nick Frost. Como representante dos EUA tem o enorme Philip Seymour Hoffman. E a estes juntam-se ainda mais uns dez actores de topo do cinema inglês. Cada um tem os seus momentos, nem que seja por apenas 3 minutos como as deslumbrantes Gemma Arterton e January Jones. Só se percebe como são muitos quando vão a terra e, lado a lado, ocupam toda a rua. Grande momento de cinema, bem ao estilo britânico. Ao longo do filme é impossível dizer quem está melhor, cada um contribui à sua maneira para a história e por muito insignificante que seja faz falta para a pluralidade da rádio e da micro-sociedade do barco. Poucos conseguem trabalhar com um leque assim de actores, mas Richard Curtis já tinha dominado um grupo igualmente difícil em "Love Actually".

A selecção musical é extremamente forte. Em filmes musicais as associações de músicas aos acontecimentos são obrigatórias e aqui nessas ocasiões não toca o tema mais óbvio para nós, mas sim o tema que foi mais marcante na época. Para apreciar completamente este filme é preciso saber de música, ser muito nostálgico, ou ter pelo menos cinquenta anos. A banda sonora divide-se por dois CDs onde faltam alguns clássicos da época, mas mesmo sem isso revive uma década de ouro para a música.

Uma história sobre o rock, sobre as pessoas, sobre os loucos anos 60 e sobre amor. O amor das pessoas pela música que colocou nos ombros deste pequeno grupo de heróis do mar o pesado fardo do bom gosto. Eles vivem os melhores anos das suas vidas e têm o melhor emprego do mundo, mas estarão dispostos a dar a vida pelo sonho? Quando esse momento chega relembrei a pergunta que fizeram a Johnny Cash: "se estivesse a morrer na valeta e tivesse tempo para uma única música, uma última música pela qual seria recordado, qual seria essa música?" Estes DJs terão o mesmo dilema pela frente muitas vezes nos sucessivos ataques que lhes são feitos. Percebo que queiram morrer ao leme da sua rádio. Morrer por aquilo em que se acredita, por aquilo que se ama e para tornar os outros um bocadinho mais felizes. Com 25 milhões de ouvintes emitir uma música de três minutos significa viver 75 milhões de minutos através dos outros. São 130 anos cheios de música. É uma despedida em grande.
Os exageros não são do filme, são próprios destes indivíduos. São estranhos, mas sempre iguais a eles próprios. Por muito artificias que pareçam são inspirados nos DJs e no barco da Radio Caroline. Os momentos previsíveis e as piadas velhas fazem parte da magia da rádio. Permite passar uns bons momentos entre toda a nostalgia.

O filme não foi feito a pensar em quem gosta de música, mas para gostar do filme o maior requisito é gostar da música.

Título Original: "The Boat That Rocked" (Alemanha, Reino Unido, 2009)
Realização: Richard Curtis
Argumento: Richard Curtis
Intérpretes: Bill Nighy, Philip Seymour Hoffman, Nick Frost, Kenneth Branagh, Tom Sturridge, Rhys Ifans, Talulah Riley
Fotografia: Danny Cohen
Música: Steven Price
Género: Comédia,Musical
Duração: 129 min.
Sítio Oficial: http://www.theboatthatrocked.co.uk/

Avanca é uma festa

Em Portugal não faltam festivais, encontros ou mostras de cinema. Em ano de eleições não há aliás cidade que não queira ter o seu roteiro cultural em que se inclua também um festival para convencer os eleitores mais renitentes. Só que em Avanca não é disso que se trata. Avanca 09 - encontros internacionais de cinema, televisão, vídeo e multimédia - é uma das mais interessantes, originais e criativas formas de pensar o cinema em Portugal, uma experiência única que merece os mais rasgados elogios. Inserido numa vasta e produtiva actividade que gira em torno do Cineclube de Avanca, o festival é o culminar anual de um amor pelo Cinema que é forçoso realçar. Festival menos de filmes e mais de workshops sobre o audiovisual, a sua capacidade de atrair largas dezenas de jovens como escola de Verão a cinco dias de intensa actividade teórica e prática e um autêntico fenómeno, um case study de sucesso.
Workshops com temas tão interessantes como:
O TRATAMENTO POÉTICO DA REALIDADE COMPLEXA – DA ESCRITA À REALIZAÇÃO
HISTÓRIA PRÁTICA DO CINEMA
CINEMATOGRAFIA - DIRECÇÃO DE FOTOGRAFIA COM A LUZ DISPONÍVEL
DESENVOLVIMENTO DE PROJECTOS CINEMATOGRÁFICOS – FROM ZERO TO HERO
HUMOR E DOCUMENTÁRIO
À PROCURA DE UNIVERSOS NA ANIMAÇÃO
O ACTOR NO TRABALHO
são um espaço de aprendizagem, criatividade e discussão, retomando uma das grandes tradições do cineclubismo nos anos 50 e 60. Curiosa é também a ideia da sessão de abertura corresponder à entrega dos prémios da edição anterior, no que creio ser uma originalidade absoluta e que permite que os vencedores do ano transacto orientem alguns dos workshops e transmitam a sua experiência a outros públicos.

Por último é gratificante ver-se de que forma o pólo onde o festival se insere se dinamiza em torno da escola secundária, do centro paroquial e da Casa Museu Egas Moniz, numa comunidade cultural. Ver a escola em período de férias totalmente transformada e disponível para o cinema é um projecto multi-disciplinar que deveria servir de exemplo a todas as escolas deste país.

Recebidos como amigos que partilham a mesma paixão, não surpreende que mesmo em festivais com a dimensão de Cannes o Short Film Corner reconheça a especificidade e o interesse de Avanca no panorama dos festivais mundiais. Ser-se pequeno e diferente é uma vantagem competitiva.

Parabéns a toda a equipa liderada por Costa Valente que torna possível esta utopia de colocar Avanca no mundo.


António Reis

20 de julho de 2009

Especial - Aniversário da chegada à lua (IX)

"Imagination will often carry us to worlds that never were. But without it we go nowhere."
Carl Sagan


Isto é uma das mais belas definições do que é preciso para fazer Cinema e Ciência. Deixo-vos a série com que Sagan entrou nas nossas casas (600 milhões de espectadores nos anos 80) e mudou as mentalidades para sempre. Para que a chegada à Lua seja um dia vista como um pequeno passo porque, um dia, todo o Universo será a nossa casa.


Especial - Aniversário da chegada à lua (VIII)

Especial - Aniversário da chegada à lua (VII)

Muitos chegaram à Lua sem abandonar o planeta Terra.


Especial - Aniversário da chegada à lua (VI)


A própria FC como género cinematográfico de excelência nasceu com as viagens à Lua.


Especial - Aniversário da chegada à lua (V)


E claro, não só o Cinema como também a Música reconhecem a ida à Lua como algo belo e único.


Especial - Aniversário da chegada à lua (IV)


Ainda nos nossos dias o cinema produz magníficos filmes em ambiente lunar. Como por exemplom este "Moon". Já tive oportunidade de ver e merece toda a publicidade que tem sido feita.

Especial - Aniversário da chegada à lua (III)


A outra grande frase da NASA veio também de um voo Apollo: "Houston, temos um problema". E quantos problemas! O número 13 confirmou as superstições e deixou muita gente com o coração nas mãos e o que podia ter sido a primeira tragédia espacial, tornou-se mais um prova da capacidade humana para superar obstáculos.

O Cinema reconheceu esse feito com um grande filme. Tanto que este ainda é para muitos o único bom filme de Ron Howard.

Especial - Aniversário da chegada à lua (II)


Caso tenha sido um embuste foi obra do mestre Kubrick, que inventou os desembarques lunares perfeitos alguns anos antes da NASA arriscar a missão.


Especial - Aniversário da chegada à lua (I)


Data: 20 de Junho de 1969
Local: Lua
Frase: Um pequeno passo para o Homem, um gigantesco salto para a humanidade.

Já se passaram quarenta anos e ainda nenhuma missão espacial empolgou tanto o mundo como este momento. A Humanidade ultrapassou os limites da última fronteira, atingindo o planeta mais próximo.



17 de julho de 2009

Filminho 2009


Está a decorrer desde quarta até domingo o Filminho. Sugiro que se desloquem a Vila Nova de Cerveira ou a Goián para uma sessão do festival ibérico. Eu estou precisamente a fazer isso, vou para lá agora mesmo.

O programa desta noite inclui "The Werepig" de Sam (esteve no Fantas em 2008 com "El Ataque de los Kritters Assessinos") e "Aquele Querido Mês de Agosto", nomeado português para os Oscares deste ano.






12 de julho de 2009

"Transformers: Revenge of the Fallen" por Nuno Reis


Este filme tinha tudo para ser um estrondo. Os lucros do primeiro eram um argumento inquestionável para total liberdade orçamental. Os actores a repetir personagens não se podiam queixar de falta de tempo para se prepararem, assim como quase toda a equipa. Todo o mundo aguardava esta sequela e o lançamento no jubileu da série apelava à nostalgia. Há dois anos foi-nos prometido um espectáculo sem paralelo, um combate épico com muito sangue, suor e óleo. As versões em digital, 3D ou IMAX duvido, mas podem ter ficado muito bem. Não sei nem quero saber, vi em cinema tradicional e poderá bem ser o maior barrete que me enfiaram.

Desta vez a história começa muitos milénios no passado. Uns homens primitivos deparam-se com uns invasores mecânicos e a aniquilação é inevitável. Depois estamos de volta ao mundo moderno onde a equipa especial NEST combate os Megatrons em todo o globo com a ajuda dos Autobots. Este duelo pelo que nos é dito já tomou lugar em todos os continentes, mas desta vez atinge proporções que o tiram do secretismo. Os Autobots correm o risco de serem dispensados e expulsos do planeta, Sam e Mikaela separam-se geograficamente para ele estudar numa faculdade e o mundo enfrenta a destruição às mãos do Vencido. É difícil controlar o riso ao pensar que algo chamado vencido possa trazer o fim do mundo, e o nome assusta tanto como o robot em si. A partir daqui é uma corrida de vários grupos em busca de algo que ninguém sabe o que é, onde está ou o que faz. Há combates urbanos, florestais, debaixo de água e no deserto, espionagem no espaço e ataques náuticos estilo Pearl Harbor. Há robots grandes, pequenos, bons, maus, mudos, faladores, machos, fêmeas, em forma de máquina, animal e humano. Ao contrário do primeiro filme são demasiados, são anónimos (poucos são apresentados) e enjoam.

As falhas de continuidade dentro do filme e entre filmes deixo para outros, irei apenas indicar falhas inadmissíveis aquando da pesquisa. Tal como em Armageddon o dia e a noite são simultâneos em todo o globo. Um ex-militar supostamente inteligente escala ao topo da pirâmide enquanto ela é desmontada para indicar as coordenadas, como se isso não fosse visto pelos satélites que tinham sido apontados para lá. E as coordenadas que ele indicou... referiam-se a uma área de 3 quilómetros quadrados. Para isso era escusado subir. Mas três quilómetros não são nada, já que consideraram Petra, Aqaba e Gizé como locais vizinhos. Por falar nisso, já me acostumei a que destruam a torre Eiffel - como no trailer "G.I. Joe" que deu antes do filme - e não me incomoda que destruam Xangai ou uma qualquer universidade americana, mas era escusado irem à região do mundo com mais monumentos históricos e vandalizarem tudo o que se lembraram. Por momentos achei que ainda passassem no Vale dos Reis, mas a cultura não deve ter chegado para tanto.

Não há história, nem eu pedia muito nesta área. Mas era exigido entretenimento. Num filme que depende dos efeitos especiais para prender o espectador espera-se no mínimo que os saibam usar. Os robots gigantes apareciam cortados no ecrã, uma pessoa a correr sozinha tinha direito a slow motion e os dois indistinguíveis monstros de metal agarrados não. Se 3D e IMAX não ajudarem a perceber isto então a asneira ainda é maior do que imaginava.

A estrela que leva é por me ter apresentado uma muito interessante Isabel Lucas e porque a uma hora do fim - quando achei que já não suportava mais atentados à minha inteligência e capacidade de apreciação artística - tinha uma piada que me fez rir. Antes de o filme acabar já tinha esquecido a segunda, a primeira ainda não.


Título Original: "Transformers: Revenge of the Fallen" (EUA, 2009)
Realização: Michael Bay
Argumento: Ehren Kruger, Roberto Orci, Alex Kurtzman
Intérpretes: Shia LaBeouf, Megan Fox, Josh Duhamel, John Turturro, Isabel Lucas
Fotografia: Ben Seresin
Música: Steve Jablonsky
Género: Acção, Aventura, Ficção-Científica
Duração: 150 min.
Sítio Oficial: http://www.transformersmovie.com/

8 de julho de 2009

"The Young Victoria" por Nuno Reis

Hoje li em algum sítio chamarem à recente moda de filmes sobre rainhas Queensploitation. Será meia dúzia de filmes suficiente para esse termo? Depois das Elizabeth haveria muitas mais de quem falar? Há uma incontornável de nome Victoria que dentro de uma semana terá o seu filme em exibição. Esse mais recente elemento do género será provavelmente o último digno de destaque, visto que já começaram a surgir variações como "a duquesa que é irmã do tetravô daquela que podia ter sido rainha consorte".

Por ter casado filhos e netos com casas reais de todo o continente esta rainha ficou conhecida como a avó da Europa. O título com referência à jovem que se tornaria rainha especifica que vai falar da outra parte da vida dela, quando uma adolescente herdou do avô uma nação e todas as responsabilidades associadas. Quem a baptizou Victoria não imaginava como estaria correcto. Se existe uma palavra que sintetize o seu reinado é vitória. Esta mulher tornou a Inglaterra na maior potência do mundo sem prejudicar a vida pessoal.

Victoria tornou-se rainha um mês depois dos dezoito anos. A impetuosidade própria da idade numa época em que o público não permitia falhas marcou o início de reinado. As suas relações com o governo, as conversas com o primo, a teimosia que causou a queda de um governo, as tentativas de assassinato, toda a juventude está em tela. Drama, romance e uma enorme dedicação aos seus ideais tornaram esta rainha numa personagem tão digna da ficção como foi da História. Seria bom que os políticos do presente tivessem algum do discernimento, da coragem e do amor pelo país que esta governante demonstra.
O retrato social é curioso, mais pelo que não mostra do que pelo que mostra. Nesta época a nobreza já não era o que foi em tempos. Os nobres não vivem num mundo só seu. Pela acção da imprensa e pela discussão política começam a ser vistos como pessoas, mais do que alguma vez antes, especialmente quem governa. Foram tempos conturbados - com jogos de interesses, intrigas, várias tentativas de regicídio - e exigiram um pulso firme, especialmente a quem não se sujeita a eleições para o cargo máximo.

A reconstituição histórica a nível de conteúdos, cenários e guarda-roupa está fenomenal. Quando o tema é a vida de um ícone o argumento escreve-se sozinho. Juntando a isto uma actriz encantadora como Emily Blunt, apoiada por talentosos actores como Rupert Friend, Jim Broadbent, Paul Bettany e Miranda Richardson, o resultado tinha de ser um bom filme. "The Young Victoria" supera as expectativas. Seja pela sua beleza ou pela sua determinação fica-se cativo desta rainha que consegue combinar como poucas as vidas pessoal e profissional. Em ambas vemos que teve a inteligência de ouvir quem a aconselhava e acreditar apenas naqueles de quem gostava. Para o país foi um choque, mas foi também o empurrão que precisava há muito.

Dois jovens que supostamente seriam apenas peças num secular jogo político fintam o destino e moldam as suas obrigações aos seus desejos. Literatura de cordel? Como dizia Joseph Mankiewicz, "a diferença entre a vida real e um argumento, é que o argumento tem de fazer sentido". De tão parecido com a vida o filme quase perde o sentido. É lamechas, tem muitas frases feitas, e se fosse uma obra de ficção passada no presente era facilmente esquecido. Mas há algo naquele ambiente do século XIX que nos hipnotiza e torna tudo mais plausível. Distribuido pela Ecofilmes este discreto épico não deverá ter muita publicidade comparado com os pesos-pesados do Verão. Mas pelo que tenho visto até agora, está acima de todos eles.


Título Original: "The Young Victoria" (EUA, Reino Unido, 2009)
Realização: Jean-Marc Vallée
Argumento: Julian Fellowes
Intérpretes: Emily Blunt, Rupert Friend, Paul Bettany, Miranda Richardson, Jim Broadbent
Fotografia: Hagen Bogdanski
Música: Ilan Eshkeri
Género: Drama, Histórico, Romance
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: http://www.theyoungvictoria.co.uk/