24 de maio de 2012

Portugal fora do mercado


O que fizemos


Ao contrário do que pensava Lavoisier, no mercado nada se perde, tudo se cria, tudo se transforma. O nada se perde é um pouco relativo visto que nestes dias finais o desperdício é enorme. Já sobre transformação a reciclagem nesta região francesa é uma anedota. Mas se falarmos exclusivamente de espaços de mercado, a verdade é que as diferenças são mínimas. Quem voltar sabe onde se encontra cada um dos pavilhões: se não estiver no mesmo sítio, é porque desapareceu. Digo isto porque a ausência de Portugal dificilmente terá sido notada. O nosso lugar na Village foi imediatamente ocupado pela Argélia, essa enorme potência do cinema mundial que produz cinema há cinquenta anos e tem uma estrutura para tal há seis...
Tendo Paz dos Reis feito tudo há mais de século para que estivessemos na vanguarda da sétima arte, não é um pouco triste perdermos agora o nosso lugar para uma nação tão insignificante? Não é que tenha alguma razão de queixa deste cinema - saí com referências e espero bons filmes para os próximos anos - e o nosso pavilhão com a utilização que teve nos últimos anos era puro desperdício de dinheiro, mas no ano em que tinhamos prémios de Locarno, San Sebastian e Berlin, algo concreto para mostrar, fazemos ainda menos que o nada de outros anos?
Eramos apenas mais um entre tantos pavilhões por onde se passava sem notar. Nos anos anteriores se não fosse a nossa bandeira e a saudade da nossa língua, nem eu teria entrado por não haver motivos para isso. É verdade que nestes eventos não é preciso fazer nada, basta ser visto. Em tempos tivemos uma caravela na marina, promovemos os Açores, a Madeira e os estúdios do Allgarve, até o Vinho do Porto. Podemos não ter falado de cinema, mas em algum dia de cada ano não faltava visibilidade. E subitamente é um vazio? Quem passar não verá diferenças entre Portugal e a Argélia porque tal como nunca soubemos valorizar o nosso passado, agora desperdiçamos o presente e comprometemos o futuro.
Não duvido que o Mercado consiga criar um novo cantinho para nos vender, mas estaremos algum dia preparados para o aproveitar?

O que podemos fazer


Veja-se o exemplo das nações ibero-americanas. No A5 (zona das salas Riviera) estão em harmonia todas as regiões espanholas, o governo através do ICEX e inclusivamente empresas como DeAPlaneta, Imagina, Latido e Vertice. Em torno encontramos o México, a Filmax e o ICAA. Para negócios em espanhol este é o local.
No outro piso, junto ao principal bar, temos o pólo brasileiro. O anúncio na coluna diz que o governo dá apoios de 250000 dólares americanos para a divulgação do cinema no estrangeiro. Nessa ilha coexistem 26 empresas e entidades do cinema brasileiro. Eram estes exemplos que deviamos seguir.

Passemos para o exterior, para a Village. Espanha e Brasil não estão aqui presentes porque investiram tudo no interior, outro investiram tudo no exterior.
Os países mais antigos estão num de dois blocos na zona Riviera. Os que entretanto foram chegando (Áustria, Egipto, Suécia, Estónia, Kosovo, Letónia) estão num terceiro bloco, no Pantiero, onde não se entra a não ser que se procure algum ministério, o patrocinador automóvel, ou alguma associação de autores. Não tenham ilusões, se voltarmos será para este subúrbio.
A nível de boas vizinhanças temos o exemplo da Eslováquia e da República Checa que continuam a trabalhar juntas uma década depois da separação, ou no pavilhão seguinte, o do Sudeste Europeu, onde se encontram Bósnia-Herzgovina, Bulgária, Chipre, Croácia, Eslovénia, Macedónia, Montenegro e Sérvia. O pavilhão seguinte é da Grécia que, apesar de ter uma austeridade pior do que a nossa, nisto não cortou.
Sugeria que criassemos um pavilhão da lusofonia com os restantes ausentes da CPLP. Se vamos começar, ao menos que estejamos em grande número para que apareçam muitas ideias e haja movimento. Assim até poderemos parecer um país próspero e multi-cultural para o qual o cinema é uma festa.

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