21 de setembro de 2013

"The Butler" por Nuno Reis

A melhor forma de contar a História é através da história de um homem. Associar acontecimentos marcantes a situações comuns do dia-a-dia. Lembrar que cada grande salto da Humanidade foi também o pequeno passo de um homem. Isso foi feito com Forrest Gump que acompanhou três décadas da história americana. Repetir o feito de forma decente e sem ser acusado de plágio seria impossível, nenhum outro homem poderia ter estado envolvido em tantos acontecimentos-chave. Contudo, conseguiram. Metade do século XX pelos olhos de um homem que esteve no centro de grandes decisões. Não as tomou e não interferiu nelas, mas de certa forma influenciou e trabalhou para que acontecessem, como inúmeros outros ao longo de décadas. "The Butler" não é apenas um filme sobre um mordomo. É sobre uma família que, de uma forma ou outra, esteve presente em quase tudo o que a raça negra passou no século XX até conseguir a igualdade.

Cecil nasceu nas plantações de algodão do sul, onde a vida de um negro valia menos que a terra onde seria enterrado. Decidiu partir em busca de algo melhor assim que possível. O início da vida adulta foi difícil, muito difícil. O Medo e a Fome eram uma companhia constante. Até que uma tentação o mandou bater à janela da oportunidade de uma vida. A partir desse momento o destino sorriu-lhe. Nos anos 50 já estava a servir na Casa Branca onde se vai cruzar com todos os presidentes, de Eisenhower a Reagan. Homens cujas atitudes faziam avançar e recuar os direitos dos seus semelhantes. Enquanto Cecil assiste às decisões e discussões que mudariam o país, o filho mais velho parte nas Freedom Rides, é atacado pelo Ku Klux Klan, marcha com Martin Luther King, junta-se aos Panteras Negras, manifesta-se contra o apartheid... O filho mais novo segue um terceiro rumo, alistando-se para lutar pelo país numa guerra que não era a deles.

Dizer que é um marco cinematográfico sobre o tema seria pecar por excesso. Mas parecia. O argumento demorou um mandato presidencial a sair do papel, todavia fê-lo com o máximo de visibilidade. Basta ver que Oprah Winfrey tem um papel. A carreira dela como produtora tem dezenas de títulos sobre negros como "Precious" e "The Great Debaters, mas a carreira dela como actriz de cinema, estava suspensa há quinze anos, os títulos contam-se pelos dedos de uma mão e têm "The Color Purple" à cabeça. Para tal regresso, tinha de ser algo grande. Foi com esse nível de expectativa que o fui ver. Sabendo que o elenco tinha oscarizados como Forest Whitaker, Vanessa Regrave, Cuba Gooding Jr., e que tinha cameos presidenciais de Robin Williams, John Cusack, Liev Schreiber, Jane Fonda, Alan Rickman e James Marsden. Seria impossível enganar tanta gente profissional, o projecto tinha de ser mesmo bom.

O argumento acabou por não ser tão bom como esperava, mas é muito mais completo do que parece pela duração. "The Butler" é uma grande lição de história. Refere os principais momentos da emancipação, as dificuldades, a mentalidade vigente. Usa sempre o ponto de vista dos afro-americanos, ocasionalmente mostrando também o dos presidentes, figura de topo de uma sociedade branca e teoricamente distantes da realidade, mas que (maioritariamente) tomavam e defendiam as difíceis posições que protegiam tão grande percentagem da população. Dificuldades que podiam ir de um insulto ou um encontrão, até espancamento e morte. Estamos a falar de acontecimentos com mais de um século, mas alguns com apenas trinta anos. Atrocidades contemporâneas de muitos nós e cometidas na suposta terra da liberdade. Infelizmente, "The Butler" é apenas uma lição de história. Personagens que deixam as próprias vidas passar ao lado enquanto se focam no futuro comum. Uma luta na qual participaram, mas na qual não se destacaram. Na qual ninguém se destacou pois foi um trabalho de séculos e de milhões. Essa visão discriminada tem o seu público específico. Se mostrasse o outro lado (como "The Help" tentou ainda recentemente) ajudaria a perceber as causas da segregação e de o sonho de Lincoln ter demorado mais de um século a tornar-se realidade. Como foi feito, todos os que não apoiam a igualdade, usando ou não as máscaras, parecem membros do KKK, variando entre as máquinas de matar carregadas de ódio e os apáticos que apenas têm nojo.

Comparando com outros filmes que tinham a mesma mensagem, este é o mais inofensivo. No fundo, é o retrato fiel de várias gerações lutadoras que foram sendo desperdiçadas por não haver presidentes com coragem de seguir as pegadas de Lincoln. Um número gigantesco de não-heróis a precisar de liderança.
O filme mostra uma luta com um início há tempos idos e que teve um fim em 2008, quando um negro ocupou o lugar de “líder do mundo livre”. Mas por estar fechado no seu tema é como se morresse depois de terminar a sessão. Todos aqueles presidentes tiveram algo mais mais com que se preocupar. O único caso mostrado foi o de Nixon, não só porque o escândalo é incontornável, mas especialmente porque o filme é Democrata e o único presidente Republicano que não foi enxovalhado foi Eisenhower (apesar de o terem mostrado reticente quanto a começar uma Guerra Civil como Lincoln). "The Butler" podia ser muito mais se parasse de olhar para o umbigo e usasse essa experiência de resistência passiva para lutas que ainda se verificam nos Estados Unidos e no mundo: a diferença entre classes no acesso à educação e saúde; a discriminação e violência contra homossexuais. Mas isso já não é com Cecil. A causa dele está encaminhada, que se ergam outras vozes mudas para as outras causas.
É um projecto curioso que se vê bem e que serve de súmula para quem precisa de um incentivo antes de ir estudar o século XX estado-unidense. Nem mais nem menos do que isso.

The ButlerTítulo Original: "The Butler" (EUA, 2013)
Realização: Lee Daniels
Argumento: Danny Strong (baseado num artigo de Will Haygood)
Intérpretes: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Banner, David Oyelowo
Música: Rodrigo Leão
Fotografia: Andrew Dunn
Género: Biografia, Drama, Histórico
Duração: 132 min.
Sítio Oficial: http://www.weinsteinco.com/sites/leedanielsthebutler

13 de setembro de 2013

It's Not Porn!

A importância de construir uma reputação (e ter séries de qualidade também ajuda).

10 de setembro de 2013

Primeiros Nomeados aos Sophia

A Academia Portuguesa começa a dar os primeiros passos.
Hoje foram anunciados os nomeados para a primeira cerimónia de prémios e não há grandes surpresas com "Tabu", "Florbela", "As Linhas de Wellington", "Operação Outono" nomeados a melhor filmes e líderes em várias categorias, secundados por "Aristides Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus", "A Vingança de Uma Mulher", " Estrada de Palha", "Em Câmara Lenta", O Gebo e a Sombra", "A Moral Conjugal" e "Paixão" todos multi-nomeados.

Melhor Filme
Florbela
Tabu
As Linhas de Wellington
Operação Outono

Melhor Ator Principal
Carlos Santos, Operação Outono
Albano Jerónimo, Florbela
Vitor Norte, Aristides Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus
Ivo Canelas, Florbela

Melhor Atriz Principal
Dalila Carmo, Florbela
Laura Soveral, Tabu
Teresa Madruga, Tabu
Rita Durão, A Vingança de Uma Mulher

Melhor Ator Secundário
António Fonseca, Florbela
Adriano Luz, As Linhas de Wellington
Nuno Melo, Estrada de Palha
Carlos Paulo, Aristides Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus
Albano Jerónimo, As Linhas de Wellington
João Reis, Em Câmara Lenta
Luís Miguel Cintra, O Gebo e a Sombra

Melhor Atriz Secundária
Anabela Teixeira, Florbela
Maria João Bastos, A Moral Conjugal
Elisa Lisboa, A Teia de Gelo
Maria João Luís, Em Câmara Lenta
Carla Chambel, Operação Outono

Melhor Argumento Original
Vicente Alves do Ó, Florbela
Pedro Lopes, Assim Assim
Rodrigo Areias, Estrada de Palha
Margarida Gil e Maria Velho da Costa, Paixão
Carlos Saboga, As Linhas de Wellington

Melhor Argumento Adaptado
Bruno de Almeida, Frederico Delgado Rosa e John Frey, Operação Outono
Rui Cardoso Martins, Em Câmara Lenta
Júlia Bûisel, O Gebo e a Sombra
António Torrado e João Nunes, Aristides Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus

Melhor Realizador
Miguel Gomes, Tabu
Vicente Alves do Ó, Florbela
Bruno de Almeida, Operação Outono
Rodrigo Areias, Estrada de Palha
Francisco Manso e João Correa, Aristides Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus

Melhor Fotografia
Luís Branquinho, Florbela
Rui Poças, Tabu
André Szankowski, As Linhas de Wellington
Acácio de Almeida, Paixão

Melhor Direção Artística
Sílvia Grabowski, Florbela
Isabel Branco, As Linhas de Wellington
Zé Branco, Operação Outono
Fernanda Morais , Aristides Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus

Melhor Som
Jaime Barros, Tiago Matos e Elsa Ferreira, Florbela
Ricardo Leal, António Lopes, José Moreira e Miguel Martins, As Linhas de Wellington
Joaquim Pinto, Nuno Leonel e Vasco Pimentel, A Vingança de Uma Mulher
Quintino Bastos e Vasco Carvalho, A Moral Conjugal
Ricardo Leal e Miguel Martins, Operação Outono
Vasco Pimentel, Miguel Martins e António Lopes, Tabu

Melhor Guarda- Roupa
Sílvia Grabowski, Florbela
Tânia Franco, As Linhas de Wellington
Lucha D’Orey, Operação Outono
Susana Abreu, Estrada de Palha

Melhor Caracterização
Íris Peleira, As Linhas de Wellington
Abigail Machado e Mário Leal, Florbela
Aracelli Fuente Basconcillos e Donna Meirelles, Tabu
Sandra Pinto e Ana Ferreira, Aristides Sousa Mendes – o Cônsul Bordéus

Melhor Montagem
João Braz, Florbela
Telmo Churro e Miguel Gomes, Tabu
Tomás Baltazar, Estrada de Palha
Roberto Perpignani, Operação Outono

Melhor Música
The Legendary Tigerman e Rita Redshoes, Estrada de Palha
Guga Bernado, Florbela
Joana Sá, Tabu
Dead Combo, Operação Outono

Melhor Filme Documentário em formato de longa-metragem
Linha Vermelha, José Filipe Costa
É na Terra não é na Lua, Gonçalo Tocha
Kolé San Jon é Festa di Kau Berdi, Rui Simões
Cartas de Angola, Dulce Fernandes

Melhor Curta-Metragem de Ficção
Luz da Manhã, Cláudia Varejão
Cerro Negro, João Salaviza
O dia mais feliz da tua vida, Adriano Luz
O Facínora, Paulo Abreu

Melhor Curta-Metragem de Animação
Kali, o pequeno vampiro, Regina Pessoa
Sem querer, João Fazenda
Lágrimas de um palhaço, Cláudio Sá
Do céu e da terra, Isabel Aboim Inglez

Melhor Curta-Metragem em Formato de Documentário
Raúl Brandão Era Um Grande Escritor, João Canijo
A Rua da Estrada, Graça Castanheira
A Comunidade, Salomé Lamas
A Luz da Terra Antiga, Luís Oliveira Santos

Claro que podiam melhorar detalhes, do género ordenarem os filmes alfabeticamente, não chamarem Areais a que se chama Areias (duas vezes), Nâo acrescentarem artigos nos títulos dos filmes... Mas o importante é que esteja a andar.

9 de setembro de 2013

E mais além!

Há momentos-chave na vida de um blogger. Todos se lembram da sensação de criar um blog, receber um comentário ou ter links noutros blogs. Depois há um segundo grupo de sensações que nem todos conseguem sentir. Ganhar um prémio de melhor blogger está nessa lista. Ser convidado para grupos de elite como o extinto CineBulição no Brasil, ou o CCOP em Portugal também. E depois há outra liga. Há a Online Film Critics Society. Esta sociedade internacional com 16 anos de história reúne 271 críticos cinematográficos que trabalham maioritariamente online e, no ano de 2013, aceitou um terceiro crítico de terras lusas. Excluindo os prémios tradicionais da imprensa, normalmente interditos a quem escreve online, é a maior honra a que um blogger pode aspirar.

Aqui fica expresso o meu agradecimento aos membros que me escolheram. Espero seguir o excelente exemplo do Paulo Peralta e do Tiago Ramos que tanto dignificam a Sociedade Online de Críticos de Filmes.

Quanto a críticas, podem esperar ler muitas mais e por vezes maiores (têm um mínimo de 400 palavras para serem consideradas). Até lá, espreitem as que estão a ser publicadas na SciFiworld para o eminente MOTELx 2013.


As melhores séries para a WGA


A Writers Guild of America pronunciou-se recentemente sobre as séries alguma vez escritas para televisão. Claro que só contavam as escritas em Hollywood, mas é um caso em uqe não se discute muito. As melhores séries tendem a ser americanas devido à forte indústria televisiva que em todos os aspectos supera a maioria das indústrias cinematográficas mundiais.

Essa lista é muito variada em temas e antiguidade. O top 10 é tão variado como que tem "The Sopranos", "Seinfeld", "The Twilight Zone", "All in the Family", "M*A*S*H", "The Mary Tyler Moore Show", "Mad Men", "Cheers", "The Wire" e "The West Wing". A lista prossegue com muitos Daily Show, títulos que todos conhecem como Simpsons, Breaking Bad, Dick Van Dyke, Hill Street Blues, Arested Development, Six Feet Under...
Como seria de esperar, esta lista tem muitos títulos que concordarão, alguns que discordarão, e muitos para descobrir depressa. O que mais choca é o que não aparece onde devia. Terão de me explicar como é que arranjaram 94 séries para ficarem à frente de "Family Ties". E porque não vejo o "MacGyver"? Se esta gente não gostava de tais séries, tenho muitas dúvidas que saibam escrever televisão de qualidade. Como vejo a Buffy em 49º, por enquanto não impugno tal listagem. Algum sentido de humor terão.

Vejam a lista completa aqui.

8 de setembro de 2013

As petições dos sonhos desfeitos

Atingimos o cúmulo da interactividade no cinema. Primeiro eram protestos contra o fim de séries televisivas (a mais recente foi "True Blood"). No mês passado as petições contra o Batffleck. Agora há inclusivamente petições para definir os actores do "50 Shades of Grey". O livro que ninguém admitiu gostar de ler e que foi um sucesso de vendas em todo o mundo, provou que tem bastante gente interessada no filme. O pior é que são muito opinativos. Dizem quem deve ser Grey e a sua vítima submissa (a última proposta foi Matt Bomer e Alexis Bledel), a seguir dirão de que ângulo querem ver a actividade sado-masoquista. Provavelmente a seguir vão pedir uns chicotes e algemas para melhorar a experiência em sala, para a tornar mais autêntica. O ideal seria que falassem todos e se organizassem em pares para fazerem uma recriação das cenas preferidas enquanto o filme passa. Ou então, porque não esquecem o filme e se dedicam apenas ao sexo?
A liberdade de expressão e a internet permitem a muita gente dar a sua opinião. Inclusivamente em temas onde a opinião não interessa, pois vão ver com quem quer que seja escolhido. Podem ameaçar com boicote, mas é filme para ir ver sem grande alarido, discretamente, talvez mesmo sozinho. Quem o boicotasse num dia ia a correr ver noutro. É irresistível.


O maior problema é que todos acham que podem pedir o que quiserem e isso não é bem assim. As relações sexuais são um tema muito sensível. Não podem simplesmente extravasar as vossas loucas fantasias para o filme. Basta ver o problema que Abdellatif Kechiche teve ao obrigar as suas actrizes a fazerem uma cena de sexo para ganhar a Palme d’Or. Podem dizer que elas estavam a ser esquisitas - eu tomaria o lugar de qualquer uma delas com muito gosto - mas filmes com nudez e sexo não se podem encarar levianamente. São situações embaraçosas, são frames que vão ficar eternamente na internet. Um actor tem o direito de recusar o papel e, inclusivamente, de se arrepender depois de o fazer.

Lá porque querem fazer coisas esquisitas com a Alexis ou o Matt ou outro qualquer, não vão pedir isso em filme para todo o mundo ver. Se não conseguem controlar esse desejo, escrevam aos agentes deles e tentem explicar a situação. Talvez não acabem os dois num quarto vermelho, acorrentados, a fazer amor louco como sonharam, mas pode ser que recebam uma fotografia de rosto assinada para se consolarem ou, no máximo, um convite para uma qualquer aparição pública a milhares de quilómetros de distância onde poderão acenar ao longe e exibir cartazes ou mesmo as partes íntimas.

Ganhem juízo e não se metam nas decisões dos estúdios que sabem o que é melhor para todos nós. O filme vai ser com quem eles disseram e nenhuma petição vai mudar isso. Deixem os actores prepararem-se sossegados para os difíceis papéis e acreditem que foram as melhores escolhas possíveis. Aquilo já é complicado sem toda esta pressão.

Para quem não percebeu, fui sarcástico ao longo de grande parte do texto. Mas esta situação começa a ficar incontrolável e receio mais um mundo em que os estúdios obedecem aos caprichos dos espectadores do que um em que vão contra os nossos interesses. Se os estúdios estivessem dispostos a ouvir, perguntavam.

Quanto à ideia dos chicotes que dei no início, se alguma sala quiser aproveitar, estejam à vontade. Até existem uns conjuntos oficiais que podem vender à saída.

6 de setembro de 2013

O Fim do Fantasporto

Tentei que as situação financeira se resolvesse como todos os anos, mas desta vez é diferente. E por isso venho até vós, como blogger e cinéfilo preocupado, com uma notícia que me tem tirado o sono.

Dia treze de Março, ainda mal tinha acabado a trigésima terceira edição do Fantasporto, foram despedidos praticamente todos os que faziam parte da cooperativa organizadora do Fantasporto, a Cinema Novo. Os convidados não fazem ideia do sucedido. Para eles esta edição foi tão boa como qualquer outra. Ou melhor. Os números divulgados não dão margem para dúvidas: tanto o festival como o Baile foram um sucesso. Então o que correu mal?

O problema em parte foi da sempre anunciada falta de patrocínios. A estrutura fixa, que trabalhava como distribuidora de cinema, começou a ser um custo incomportável na ausência de negócio ou ajudas financeiras para o festival. Faz sentido? Não. A distribuição é um mercado saturado e a conjuntura é péssima, mas teria de haver uma forma de manter a estrutura em funcionamento. Nem que fosse partindo em busca de outro tipo de negócio. Dificuldades todos temos, mas há quem além de dificuldades tenha responsabilidades. O festival não pode parar. Esse é o único passo necessário para o deixar morrer e destruir um legado de mais de trinta anos.

Da mesma forma que cresci e fui educado no Carlos Alberto, nos Lumiére, no Rivoli, no Institute Français, no Passos Manuel, no Auditório da Biblioteca Almeida Garrett, nas salas AMC de Gaia e nas ZON de todo o país, muitos de vocês também o foram. Pois hoje quero que os nossos filhos e as gerações seguintes possam dizer que aprenderam a gostar de cinema no Fantas. Quero que os jovens continuem a marcar na agenda aquelas duas semanas como férias. Quero que os não tão jovens se voltem a sentir com vinte ou trinta anos. Quero multidões que ficam a discutir cinema até ao nascer do sol. Quero ouvir gritos, aplausos e corações acelerados. Quero cinema de qualidade e profissionais que me ensinem a gostar mais de Cinema a cada dia, seja com aulas de mestre numa sala lotada ou numa simples conversa informal à mesa de jantar.

Falhar uma edição é perder tudo o que foi feito. É urgente fazer algo. Nós - o Porto, o Norte, Portugal! - precisamos do Fantas. Se não parte das empresas ou dos governos, então que parta das pessoas, mas o festival tem de ser salvo.
Devem achar que agora vou pedir dinheiro. Não. Sugeria que dessem apenas ideias. O que pode ser feito? O que tem de ser feito? O que está bem e o que está mal? Quem pode ajudar?
Durante quinze dias, dezenas de milhares de pessoas passaram pelo Rivoli. Chegou a hora de saber se foram porque estavam por perto, porque era o acontecimento do momento, porque queriam ver um filme específico, ou porque têm um bichinho escondido a suplicar por cinema, convívio e emoção.
Acredito que se durou trinta e três anos foi porque convenceu pelo menos duas gerações. De que forma podemos chegar à terceira?

O Fantas é um amigo, um refúgio, e uma das coisas que tenho de mais certas na vida. Não o abandonarei nunca. Nem que tenha de o fazer sozinho. Nem que tenha de o fazer com outro nome.

4 de setembro de 2013

Para quem está em dieta

Aprendam com o Monstro das Bolachas e Tom Hiddleston.