24 de abril de 2014

Pecado Fatal - entrevista a Luís Diogo

Hoje chegou aos cinemas um filme português diferente. Um filme que vem provar como se pode fazer um produto comercial e ao mesmo tempo com qualidade. Refiro-me a "Pecado Fatal" e há dias tive oportunidade de falar com o seu argumentista, realizador e produtor, Luís Diogo.
Nesta entrevista falamos das únicas duas coisas que são precisas para fazer cinema: coragem e sorte.


Antestreia: Estás a promover fortemente o filme numa série de iniciativas ao longo destas semanas. Podes resumir algumas delas?
Além das idas à RTP, tivemos concertos da Daniela Galbin que esteve no estádio do Paços de Ferreira - o Paços de Ferreira já tinha promovido o filme várias vezes no jogo com o Sporting - e a Daniela cantou em discotecas e em bares, para promover o filme. Basicamente a grande promoção tem sido essa. As notícias que têm saído, por exemplo a reabertura dos cinemas de Ovar que foi publicada em praticamente todos os jornais, fazem sempre referência ao Pecado Fatal que é o filme que vai abrir a sala, portanto foi um pouco através disso. O filme entretanto foi seleccionado para mais dois festivais internacionais, que só vou publicar hoje precisamente e enviar para os jornais, é uma forma de ter mais promoção.

Foi um projecto pessoal. O que te levou a correr esse risco?
O facto de os argumentos que eu escrevia não chegarem a produção. Só tinha "A Bomba" de 2002 já, depois tinha o "Gelo" que era o projecto do Luís Galvão Teles, que tinha sido subsidiado em 2005 - é um argumento original meu - e foi sendo adiado constantemente. Curiosamente, foi filmado agora, acabou as filmagens dia 5 de Abril, mas estava continuamente a ser adiado, e uma altura recebi um telefonema do Luís Galvão Teles a dizer que o filme tinha sido novamente adiado, o Instituto Português do Cinema não ia dar o dinheiro esse ano, tinha de adiar um ano. Quando desliguei o telefone pensei “vou fazer um filme. Se eu ficar à espera nunca mais fazem os filmes, vou eu fazer um filme.” Tinha cinco mil euros na conta bancária, decidi fazer um filme.

Deste o teu dinheiro, filmaste na tua casa...
Exacto, assumi tudo. Por exemplo, estive em Chicago a apresentar o filme e no fim ficava a falar com os espectadores. E quando digo no fim do filme que o filme custou o que custou, primeiro pensam que é um erro de tradução, é o meu inglês que não está bom, e eu “não, não, o meu filme custou treze mil dólares”. Tem piada porque estava no festival de cinema latino-americano de Chicago, e estavam realizadores, nós almoçávamos juntos e o pequeno-almoço era junto. Um realizador espanhol [Jesús Monllaó] tinha realizado “Os Filhos de Cain” que tinha feito bem em Espanha, e ele dizia que o filme dele era independente. Um filme de baixo orçamento. Custou dois milhões e tal euros. Ele considerava que uma produção europeia normal custa sete milhões, a partir de sete milhões. O que eu até concordo. Tirando o cinema português que está um pouco à parte. O A Gaiola Dourada custou sete milhões e é só um filme de pessoas a falar com pessoas. E eu “O teu custou dois milhões? Olha, o meu custou dez mil.” E eles ficaram todos “o que é isto?” Nesse festival curiosamente até houve muita gente que veio falar comigo, dois disseram que queriam ser realizadores, tinham sempre medo, mas agora iam fazer, tinham visto que era possível, tinham visto o filme, não notavam nada, e iam avançar. Eu tinha servido de exemplo.

Paços de Ferreira não costuma ter produção cinematográfica. Como lidaram as pessoas com essa novidade?
Acho que aqui passa tudo ao lado. Houve uma altura que pensei que Paços de Ferreira ia ser a melhor sala, mas mesmo em relação aos espectadores começo a duvidar. Será que as pessoas vão mesmo ver? Parece que passa tudo um pouco ao lado.
Não houve apoios. A Câmara forneceu apoio logístico. Nós precisávamos da Polícia, eles punham lá a Polícia para parar o trânsito, o camião da recolha do lixo tinha de ser contratado com a SUMA, eles é que contactaram a SUMA para os pôr em contacto connosco, electricistas, precisamos de electricistas para uma cena final do filme e eles mandaram os eletricistas colocar luz numa rua que não tinha... Nós não tinhamos essas despesas que no fundo a Camara fazia.
Em termos de apoios institucionais, só houve duas Juntas, a de Paços de Ferreira e a de Frazão, que se limitaram a pagar um almoço à equipa - era uma equipa pequena, eramos oito ou dez pessoas de vez em quando.
Depois houve uma empresa... Mandei um email para várias empresas de Paços de Ferreira, quase todas as que encontrei os emails - estamos a falar de centenas de empresas - só respondeu uma, dava cem euros para o filme se um carro com o nome da empresa, aparecesse no filme. No fundo é o único patrocinador oficial do filme. Foi a única pessoa que deu dinheiro para o filme. Foi o único dinheiro que não saiu do meu bolso.

E o Tertúlia porque foi escolhido? Não é propriamente perto.
Eu na altura estava a morar em Paços de Ferreira há um ano e tal. Não conhecia pessoas ligadas a bares daqui. Havia várias hipóteses, mais tarde vim a saber que até seria fácil filmar nesse tipo de bares, na altura em tinha pensado num bar no Porto, chegamos a falar com eles, mas depois começaram a pedir condições, tinhamos que pagar ao empregado que lá estava na rodagem, tinhamos que pagar as bebidas do filme a preço de bar e coisas assim. Eu comecei a achar que mais valia tentar outro bar. Eu já achava o Tertúlia mais bonito, apesar de estar um bocado mais desviado. Contactei o Tertúlia e eles aceitaram. Não puseram condição nenhuma, não pediram dinheiro para nada, cederam o espaço, cederam as bebidas, acabou por ser o espaço escolhido.

Quanto tempo passou desde a ideia até ao fim da rodagem? E quando foi isso?
Foi muito rápido. Na última semana de Março de 2012, está agora a fazer dois anos. O filme demorou dois anos e um mês desde aquele telefonema até à estreia. Já tinha argumentos escritos, só pensei qual seria o melhor. Até ao início da rodagem penso que não terá chegado a seis meses.
Por comparação o "Gelo" foi subsidiado em 2005, recebeu em 2005 setecentos mil euros, e só vai estrear no final do ano, em princípio será em Dezembro. Estás a ver a diferença de um filme com orçamento? E o “Sei Lá" que estreou no dia 3 de Abril que era a nossa data - e nós fugimos dessa data porque o “Sei Lá” calhou aí - curiosamente eu escrevi "A Bomba" em 2000, na atura vendi ao Tino Navarro e perguntei lá dentro quanto tempo achavam que iria demorar a ser feito. Na altura disseram que isso demorava, o “Sei Lá” estava a ser reescrito e ia demorar muito. Em 2000 estava a ser reescrito e saiu em 2014! Costumo dizer que o ritmo português se vê nestes casos. E o meu filme, em dois anos e um mês passa as fases todas. O casting, tudo. Ao contrário da maior parte dos filmes independentes, eu não conheço as pessoas que fizeram o filme. Por exemplo, o “Assim Assim” foi feito pelos amigos do realizador. Eu não conheço praticamente ninguém do meu filme. Conheço o Costa Valente da Filmógrafo, o meu irmão que não é da área do cinema e me prestou uma ajuda, a minha ex-mulher que me prestou uma ajuda, e da equipa técnica conheço o técnico de som - porque o técnico que tinha contratado comunica-me que não vai fazer o filme cinco horas antes das filmagens, tive que adiar um dia as rodagens e contactei outro técnico de som que já tinha trabalhado comigo - não conhecia mais ninguém da equipa técnica. Dos actores, tirando a Ana Margarida Carvalho e o namorado que fazem uma cena como compradores de móveis e já trabalharam comigo, não conheço praticamente ninguém, foi tudo através de castings, de contactos que as pessoas iam dando.
Foi um processo muito rápido arranjar estas pessoas todas especialmente tendo em conta que eu tenho outra profissão, tenho de dar aulas todos os dias e tratar de outras coisas, mesmo assim com alguma rapidez consegui pôr o filme a rodar, mesmo com os contratempos todos: o técnico de som desaparecer, o director de fotografia desaparecer a um mês da rodagem, sempre a arranjar substitutos à última da hora. Porque eu estipulei logo prazos e para serem cumpridos. às vezes perguntavam “achas que já tens os actores todos?” e eu dizia “Tenho os que tenho. O prazo para encontrar actores era esta data, se eu começo a adiar isto, a certa altura adio tudo!”. Como durante as filmagens, onde acabaria uma cena idílica de um passeio de bicicleta, eu já tinha escolhido o lugar, o mar ao fundo, o sol a pôr à hora certa, eles chegam ali e ela diz “que bonito”. Quando chegamos para filmar, havia um grande incêndio. Nem se via o mar. Não podíamos filmar ali! Queriam voltar no dia seguinte, e eu “Neste filme não se adia nada, vou já procurar aqui e daqui a cinco minutos estamos a filmar noutro lugar qualquer”. Ou seja, não se adiava nada. Tudo o que era para filmar naquela data, era para filmar naquela data. O filme foi todo feito nessa condição. Porque eu sei como é este sistema do cinema português. As coisas adiam-se, e depois acabam por não ser feitas. Eu vendi o argumento do "Gelo" em 2005, eu era outra pessoa, teria sido completamente diferente para mim se o filme tivesse estreado em 2006, 2007, mesmo em termos de carreira. No fundo não tenho nada desde esse ano até agora, em que por acaso vão estrear dois no mesmo ano. O filme foi sendo adiado por coisas assim estranhas.

Em termos de ajudas, Avanca deu o apoio técnico e agora tem ajudado com as salas.
A Filmógrafo - Cineclube de Avanca, já tinha feito as minhas curtas. Parto sempre do princípio que estão interessados e geralmente estão. O material de iluminação e de som, que normalmente teria de alugar ou de ter, cederam-mo gratuitamente. O Costa Valente tem conhecimentos que às vezes surge um imprevisto e ele resolve com alguma facilidade. Depois eles fazem a parte burocrática da coisa. Contratos, as licenças de distribuição, tratam da parte burocrática.
Em termos de salas, temos a sala deles de Ovar, todas as outras salas, a RTP, a TAP, foram sempre estabelecidos por mim. Até que chega uma parte em que as empresas gostam de negociar com empresas, eu comunico à Fimógrafo, e eles fazem a parte burocrática toda. Claro que fazem mais além disso, tentam fazer alguma promoção, gravam os blu-rays que envio para os festivais, e quando estou no estrangeiro eles tratam de tudo.
Foi uma ajuda preciosa, provavelmente o filme não teria sido feito se não tivesse o material deles. Estão sempre prontos a ajudar, não só no meu caso, mas basicamente qualquer pessoa que queira fazer um projecto deste género, pode sempre recorrer ao Cineclube de Avanca. Dentro do panorama do cinema português, acaba por ser um caso único de uma empresa que apoia. Quem quiser fazer um filme, quase de certeza que eles vão tentar apoiar, porque o objectivo do Costa Valente é que as pessoas produzam filmes, e que as pessoas que não têm outras possibilidades também produzam filmes. Eles têm produzem filmes institucionais e subsidiados, têm várias curtas subsidiadas, a primeira longa-metragem portuguesa de animação foi produzida por eles, apesar disso tentam sempre apoiar quem quer fazer bons projectos.

Na banda sonora colaboraste com DJWild e descobriste Daniela Galbin.
O filme teve vários azares. A certa altura o director de fotografia dizia “Este é daqueles projectos em que tudo o que podia correr mal corre mal”. E em certos pontos foi. Ainda está a ter. Eu tenho histórias inacreditáveis, algumas não vou divulgar agora pois poderiam jogar contra o filme, mas todos os dias há uma história inacreditável que eu tenho que resolver. Ao mesmo tempo, para compensar isto tudo, houve três ou quatro momentos de sorte. São basicamente o facto de eu encontrar a Sara Barros Leitão porque o tio dela era professor na minha escola. Essa foi a maior sorte do filme, quando se vê o filme, a Sara Barros Leitão é basicamente o filme. Se fosse outra actriz, dificilmente o filme... ela é que consegue fazer o filme viver. Essa foi uma sorte incrível, foi uma sorte à última da hora saber que há uma actriz que é sobrinha de um colega meu de escola, e depois foi a banda sonora. Foi uma sorte inacreditável. A banda sonora do "Pecado Fatal", sinceramente, não me parece que haja nos últimos anos do cinema português grande concorrência em termos das canções e da banda sonora em si. Está num nível que o orçamento não faz adivinhar.
Aliás, as pessoas que ouviam a Daniela Galbin nos concertos ao princípio pensavam que era a cantora do "Pecado Fatal", mas ao ouvir - e falo de pessoas que trabalham com som e acostumadas a grandes concertos, como no Tertúlia que tem grandes nomes - tinham uma reacção, “Que é isto? Não era isto que estava à espera. Pensava que era uma coisa muito mais modesta.” E ela aparece-me assim, porque foi ao casting. E o DJWild também foi porque a minha ex-mulher conhecia-o pessoalmente, falava-me dele. E acho que estiveram muito acima do que era espectável quando eu os convidei.
Aliás, havia as montagens antes, e as montagens depois. Eu arrependo-me muito de ter mostrado à Lusomundo uma montagem sem a banda sonora, muitas distribuidoras foram recusando o filme porque viram uma primeira montagem. Um aviso que eu faço é não acreditem quando as distribuidoras disserem que depois vêm a segunda, eles não vão ver a segunda. A montagem final do "Pecado Fatal", não as contei, mas deve ser uma vigésima montagem. Foi sendo afinada umas vinte vezes. Eu mostrei a primeira sem a banda sonora do DJWild, sem as canções da Daniela, não tem nada a ver o filme. Eles fazem o filme ter outra dimensão. Quando comparo essa primeira montagem que me lembro, com a estável, não tem nada a ver. Até porque quando chega à banda sonora do DJWild ela não só se põe sobre o filme, o próprio filme se adequa a ela. Tento fazer a montagem para em certas cenas bater. A banda sonora era tão boa que valia a pena ser o próprio filme a aproveitar a banda sonora que estava feita.

Sobre a história, surgiu um mito urbano que foi inspirada em factos reais.
Sim, aliás, foi logo ao princípio. Foi muito estranho, porque fui buscar uma actriz idosa que faz parte do final do filme, e quando a fui buscar para fazer uma cena, ela diz-me que achou muito bem que eu fosse buscar esta história. Eu disse que aquilo nunca tinha acontecido, mas a ela todos lhe diziam que era uma história verídica de Paços de Ferreira. Portanto, já há dois anos que o dizem. Eu tenho a certeza que não aconteceu, mas talvez porque entretanto as primeiras pessoas contaram como se tivesse acontecido... Neste tipo de localidade há esse tipo de histórias que se propagam. Eu tenho um caso como professor, em que a jogar futebol na escola parti uma costela e deixei de ir às aulas. No dia seguinte um vizinho diz-me “Você está aqui? Disseram-me que tinha sido atropelado por um camião”. Achei que fosse uma piada. À noite o meu ex-cunhado, que não tem nada a ver com a minha escola, telefona-me porque lhe tinham dito que eu tinha sido atropelado por um camião. Como é possível em tão pouco tempo a história chegar a alguém que não tem nada a ver com Paços de Ferreira? É um exemplo desta terra. A história de "Pecado Fatal" tenho a certeza que não é verdadeira, foi eu que inventei. Agora há esse mito urbano que uma rapariga foi abandonada em Paços de Ferreira e às vezes até me questiono se não devia aproveitar porque as pessoas gostam mais quando a história é verídica.
Mas não houve nada real que te tenha inspirado?
Às vezes uma pessoa ouve nos telejornais essas histórias, pessoas que são abandonadas em contentores do lixo ou noutro lugar qualquer, curiosamente depois começa-se a reparar em histórias que surgiram logo a seguir também muito parecidas no Brasil, na China um miúdo estava num cano de esgoto e assim, mas todos nós já tinhamos ouvido histórias deste género, de alguém que foi abandonado no dia que nasceu.
Talvez porque é uma história muito terra a terra. Que seria possível. Qual é o segredo para um argumento ser plausível, algo que tanto falta no nosso cinema?
Por acaso a maior parte dos meus argumentos não são plausíveis, "A Bomba" claramente não é um argumento plausível, o "Gelo" muito menos, é completamente... a maior parte dos meus argumentos seriam improváveis, não diria que não fossem possíveis, o ponto de partida é que seria improvável. Ou seja, o mesmo aliás que em "Pecado Fatal", o ponto de partida em si é pouco provável - alguém que dorme com outra pessoa naquela situação - mas depois eu trato de forma realística. N’"A Bomba" não, obviamente, era uma comédia absurda, mas nos outros, trato de uma forma o mais real possível. Com os diálogos mais reais, para que as reacções tenham mais impacto. Porque se nós tratamos as reacções de uma forma irreal, ela depois não vão ter impacto. As pessoas percebem que estão a ver um filme.
Eu já vi o filme várias vezes, na do Fantasporto notou-se mais porque a sala estava cheia. Ao princípio parece que as pessoas estão a ver uma comédia. A sensação que dá, há umas piadas na fase inicial e tal, o filme começa com uma situação assim mais leve, e a certa altura, o filme começa a ficar mais denso, há aquele momento, as pessoas riem-se de uma piada e a Sara faz um olhar assim “isto é a sério” e parece que as pessoas ficaram “isto já é a sério, isto é drama”. Como se separassem de repente. Porque o filme aos poucos vai começando a ficar mais dramático, mas como é tudo assente na realidade, quando chega a parte emocional, as pessoas sentem mesmo. Não estão desligadas do filme. É isso que tento sempre fazer em termos de diálogos. Eu gosto de diálogos construídos.
Os meus diálogos teoricamente não aconteceriam. São daqueles que a resposta teria de estar muito bem pensada, como na cena do pequeno-almoço, mas ao mesmo tempo que o diálogo não é muito plausível, faço com que os actores o façam como se fosse a coisa mais normal do mundo. Muito fluído. Não como acontece às vezes no cinema português que quando há um diálogo é bom, os actores fazem pose para o espectador “vejam como este nosso diálogo é espectacular”. Não. Eles estão ali a falar como se fosse a coisa mais normal do mundo. Não perdem tempo para o espectador pensar: Fazem tudo como é natural. A preocupação que eu tinha quando eles estavam a interpretar era não darem espaços entre os diálogos. No cinema português dão sempre um espaço enorme entre os diálogos... Faz uma pergunta, responde logo! Eu sei que na realidade este tipo de diálogo super-elaborado não seria assim, mas é melhor fazerem tudo fluido porque a fluidez é que dá aquela sensação de normalidade. Porque num diálogo nós não esperamos.
Se calhar arrependemo-nos das coisas que dizemos, não conseguimos ter diálogos tão perfeitos como os do filme, que vai bater certo no fim com o início do diálogo. Aquela “Estás na idade dos porquês” e ela acaba o diálogo “porquê?”. É um diálogo claramente contruído, que parece completamente natural.

Como descreverias as personagens?
Os filmes às vezes têm que ter várias personagens trabalhadas, às vezes nem tanto. Eu acho que o personagem deste filme que tem de ser totalmente trabalhado é o da Lila. A minha preocupação sempre foi o dela. Os outros já não exigiam trabalho, tiveram umas indicações muito básicas do que o personagem era. Os outros vivem do que a cena os obriga a viver, a Lila é que nós tivemos muito cuidado com o personagem. É uma pessoa que é um bocado frustrada, mas ao mesmo tempo tem confiança nela mesma. Chega a casa de alguém que não conhece, pega no tabaco dele, não tem problemas nenhuns com as pessoas. Em termos de vestuário houve um cuidado. Uma coisa que eu não gosto nos filmes é que um personagem tem sempre um estilo. Olhas para eles, aquele é o estilo daquele personagem. A maior parte das pessoas não tem estilo a vestir. Se olhares em volta, as pessoas não tem um estilo. São poucas as pessoas que têm um estilo. E nos filmes incomoda-me porque todos os personagens têm um estilo. Eu disse à Sara que a Lila não tem estilo. É uma pessoa que se está nas tintas para o estilo. No fundo, o estilo dela é o mau gosto. Ela tem mau gosto a vestir-se. Ela veste tudo. Vai andar de botas, de sandálias, depois com uns trapos... Na altura havia um programa de televisão, os Ídolos, por acaso a Sara tinha lá uma amiga a concorrer, na fase final do concurso - que não costumo ver, mas por acaso vi - havia uma rapariga alentejana que tinha isso: um certo mau gosto a vestir-se. E eu disse à Sara “tu ias lá às sessões com a tua amiga, estás a ver aquela rapariga? Repara bem. A Lila é assim terra-a-terra, veste-se de forma completamente diferente, a tua personagem está-se nas tintas para o que as pessoas pensam dela, não anda preocupada”.
É uma pessoa obcecada pela verdade. Há um tema ao longo do filme, se eu perguntar qual é acho que não me dizem, o que não me preocupa. Porque no fundo o tema não é importante. Acho que tem de lá estar. Há filmes que sentimos que são vazios. Outros sentimos que são mais preenchidos, mas não conseguimos explicar porquê. Porque o argumentista sabia o que estava lá. O espectador não tem obrigatoriamente de perceber. Para mim há um tema muito claro neste filme que é a busca da verdade. Basicamente há uma personagem que vai em busca da verdade, é apanhada numa mentira, ela é obcecada pela verdade, há uma cena, quando ela confronta o rapaz com a namorada, em que vemos claramente que ela não suporta traições. Não suporta a mentira - em momento algum suporta a mentira - ela quer a verdade, a verdade, a verdade, a verdade, a verdade, a verdade, a verdade E no último diálogo que ela diz do filme, vê-se que ela aprendeu algo, ela pede a mentira. A última coisa que ela diz, ela pede uma mentira. Ela aprende que por vezes é preciso mentir por amor. Esse será o tema do filme. Alguém que vai ter que aprender que a verdade pode ser perigosa e que às vezes mente-se por amor. Basicamente ninguém repara nisso, mas é muito claro. O último diálogo do filme é “mente”. “Oculta a verdade”. O tema do filme é essa obsessão com a verdade. A verdade não pode ser sempre dita. Ela está obcecada pela verdade. Está-se nas tintas para os confrontos, mas vai aprender que a verdade pode ser perigosa.

Miguel podia ter sido apenas o elo entre as personagens, mas mantém-se sempre num segundo plano, como que para recordar que, apesar do que Nuno fez, há homens piores.
O Miguel e o idoso estão lá para dizer uma coisa muito clara. Para dizer ao espectador “olhem que este tipo é um bom tipo. Ele fez aquilo, mas é um excelente tipo”. Isso é muito claro, eles estão lá para isso. O Nuno, não sendo o personagem principal, é um dos personagens principais e era muito perigoso se ele fosse mesmo um filho da mãe. No fundo há um romance. Se ele fosse um filho da mãe, não iam querer que eles se envolvessem. Iam querer proteger a Lila. Era bem claro que ele não era um filho da mãe, por assim dizer. Ele é uma pessoa com princípios, aquilo acontece porque ele não tem coragem de dizer à Sara “olha que sou eu”. Está sempre com aquele receio de provocar. Era muito claro que ele era assim.
O outro, o amigo, ele é um filho da mãe, mas não seria um assassino ou coisa do género. É um daqueles tipos que se está um bocado nas tintas para tudo.

Quantas vezes já falaste da filha abandonada nos filmes? “Desta Água”, “A Noite Gélida/Fria em Castelo Branco”...
Quando estava a filmar este aqui é que eu reparei nisso. Já escrevi treze longas-metragens. Treze. Só foi feita "A Bomba", esta e agora o "Gelo". Mas já escrevi treze e olhando para os outros não tem nada a ver. N’”A Bomba” há uma personagem que a certa altura fala do pai que foi para a prisão, mas por coincidência, de todos os filmes que eu escrevi, os que filmei foram aqueles que tinham uma ligação à paternalidade. Eu não tenho nenhum problema com a paternalidade. Acho que foi mesmo uma grande coincidência.

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