6 de junho de 2015

"Begin Again" por Nuno Reis

Dan: Musicians for the most part are monosyllabic teenagers who really don't have a whole lot to say.
Feito em 2013, mas estreado apenas no Verão de 2014, "Begin Again" corria sérios riscos. Por um lado era o regresso de John Carney ao seu velho sucesso sobre um homem e uma mulher que encontram na música o significado das suas vidas. Como se isso na bastasse, em Portugal estreou sob o nome "Num Outro Tom", dando seguimento a "Once" que aqui tinha ficado conhecido como "No Mesmo Tom". Por outro lado, seis anos passados e com um Oscar na carteira, foi bem mais fácil reunir um elenco sonante. Tão sonante que se poderia esperar um filme mais convencional e mainstream, ainda que sejam todos actores com uma carreira bem alicerçada no indie. Perdido entre ser “mais do mesmo” ou “rendeu-se a Hollywood”, "Begin Again" não tinha boas hipóteses com os espectadores. Por sorte, quem o viu ficou agradado e certamente não cometerá esse erro ao terceiro musical de Carney, que aguardamos ansiosamente ("Sing Street" estreia ainda este ano).
Em "Begin Again conhecemos Dan, um produtor musical americano com um passado repleto de êxitos, que hoje em dia vive na miséria, num constante estado de embriaguez e a sofrer com um divórcio que não desejava. Incapaz de perceber que a sua vida está miserável, vive à espera que o próximo sucesso lhe apareça à frente. Em oposição a Dan, chega de Inglaterra Dave, um jovem prodígio musical ansioso por gravar um álbum com uma importante label. De arrasto traz a sua co-compositora e namorada Gretta, que a editora se encarrega de afastar discretamente à medida que os dias passam para que Steve seja mais apetecível para as mulheres. Sozinha numa cidade estranha, encontra um amigo que a leva a um clube nocturno onde acaba a cantar e desperta a atenção de um bêbedo ao balcão, Dan. Ele está convencido que ela é o talento secreto que sempre procurou, ela não tem nada melhor para fazer, e vão ajudar-se mutuamente enquanto compôem um álbum.
A música vai-nos sendo servida em pequenas e deliciosas doses desde o início, enquanto os actores vão compondo uma fabulosa banda sonora que no fim talvez seja gravada em álbum. Sim, as semelhanças com "Once" são muitas, ainda que tenha misturado alguns conceitos. Enquanto no primeiro a rapariga estava num país estranho com uma família a cargo, e o rapaz procurava um rumo para a sua vida solitária, agora a rapariga continua num país estranho e o rapaz procura um rumo, mas é ela a solitária e ele tenta criar alguns laços com a filha adolescente. Os seus problemas são para uma geração um pouco mais adulta. Os mesmos espectadores que seis anos antes viram "Once". O público-alvo não se limita a eles pois Keira Knightley ainda cativa a geração dos vinte a trinta anos e Hailee Steinfeld faz a ponte com a geração mais jovem. Repetindo o papel de adolescente inconsciente que fez em "Three Days to Kill", é uma rapariga que cresceu praticamente sem pai e que ganha um quando ele percebe que a sua vida não tem valor e tenta reparar os erros do passado. Um papel insignificante apenas para melhorar a representação feminina (que já em “Once” era superior à média) e para reforçar que nem todos podem ser músicos.
Tal como aconteceu com o díptico de Roberto Benigni "La Vita è Bella"/La Tigre e la Neve, não é que este filme seja mau, mas é demasiado parecido com uma obra-prima anterior do mesmo autor. Pela ordem contrária, talvez a obra-prima parecesse um filme menor. Provavelmente não.
Begin AgainTítulo Original: "Begin Again" (EUA, 2013)
Realização: John Carney
Argumento: John Carney
Intérpretes: Mark Ruffalo, Keira Knightley, James Corden, Catherine Keener, Hailee Steinfeld, Adam Levine
Música: Gregg Alexander
Fotografia: Yaron Orbach
Género: Drama, Musical
Duração: 104 min.
Sítio Oficial: http://beginagainfilm.com

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