17 de outubro de 2015

Entrevista a Jaco Van Dormael

Dormael, o herói

Presente no Festival de Sitges para apresentar o seu mais recente filme "Le Tout Nouveau Testament", Jaco Van Dormael, concedeu ao Antestreia uma curiosa entrevista onde nos falou da sua visão do cinema. Realizador dos multipremiados "Toto, Le Héros" e "Mr. Nobody" regressa com uma nova e melancólica visão do mundo e uma crítica feroz aos burocratas da nossa Bruxelas europeia.

Afinal Deus existe. Mas como é um idiota, vive em Bruxelas "onde faz as leis estúpidas para nos lixar a vida". A sua primeira recordação marcante do cinema fantástico foi "Bambi" "uma experiência maravilhosa e aterradora" o que apenas confirma Walt Disney como um mestre incontornável do fantástico, ainda que os seus cineastas de referência sejam Fellini, Gilliam e Tarkovski. Cineasta de uma geração que ama o cinema com paixão, quando interrogado sobre os seus actores favoritos responde de imediato Michel Simon desse inolvidável "Boudu Sauvé des Eaux", e quanto a actrizes prefere a resposta politicamente correcta que as ama a todas, com um sorriso malicioso.

Se é certo que não há perguntas fáceis, Dormael reflecte longamente antes de cada resposta. Podendo escolher encarnar uma outra pessoa, a resposta é surpreendente “talvez Ingrid Bergman... não, não, Lauren Bacall por um dia” afinal, duas mulheres da vida desse sortudo que era Humphrey Bogart. Quando interrogado sobre que projecto gostaria de fazer se não tivesse limitações de tempo nem de orçamento, poderíamos esperar um projecto megalómano e impossível. O seu sonho já se realizou e “Mr. Nobody foi esse filme”, opção com que nós concordamos absolutamente. Para Dormael os maiores medos do fantástico "são os sapatos, porque quando a cena começa a meter medo desvio o olhar para os meus pés". E como um gentleman, recusa responder à questão sobre os piores filmes que viu na sua vida “desses já não me lembro”.

Depois de um embaraçoso silêncio, reconhece que o filme mais bizarro de que se recorda é ""Soy Cuba" de Mikhail Kalatozov, baseado no poeta Evgeniy Evtushenko, com estranhas paisagens e fluidos movimentos de câmara". Conversar com Dormael não é apenas uma lição de cinema. Com o humor tipicamente belga “nós os belgas preferimos rir mais de próprios do que os outros se riem de nós” confessa que actualmente vê mais cinema em casa do que em sala e que tem pouca paciência para ver televisão, até porque reconhece que o que lhe dá maior prazer é não fazer nada. Interrogado porque demora tanto tempo entre filmes, contraria a versão de ser preguiçoso porque "cada novo projecto demora-me a escrever, pelo menos dois anos, pode haver filmes que se façam mais rápido, mas não os meus." E porque estamos em Barcelona, nada melhor do que um exemplo catalão "Demora mais construir uma catedral do que uma casa e a Sagrada Família ainda está inacabada."

Para este autor algum fantástico tem fundamento e "provavelmente existe vida nos outros planetas", mas quanto a existir vida depois da morte, a ironia é evidente "espero que haja vida antes".

O seu mais recente filme confirma a vertente metafórica, imaginária do realismo mágico do cinema belga e a sua centragem em personagens juvenis que acompanham os seus grandes filmes. Não por acaso os seus heróis da literatura são “Ivanhoe”, “D. Quixote” e “Alice no País das Maravilhas”.

Quanto a esta nova adenda ao Novo Testamento, depois das polémicas versões do Evangelho de Saramago, ficamos a saber que “Deus existe, mas é um idiota. Todos falam do JC como seu único filho, mas finalmente é a sua filha Ea quem vai mudar o mundo. E o destino da humanidade fica bem melhor nas mãos de mulheres”.


António Reis

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