24 de maio de 2015

É muita música

O panorama musical no cinema não tem vindo a mudar. Desde que os musicais voltaram há baila no início da década passada - tanto em obras originais como “Moulin Rouge!” como em adaptações como “Chicago”, “Nine”, “Mamma Mia!”, “Rock of Ages” até “Into the Woods”, entre muitos outros - que se tem ouvido cantar bastante nas salas. Os biopics e documentários sobre músicos e bandas também estão em crescimento, arrecadando prémios e prestígio em todo o mundo, como “Control”, “Ray”, “Walk the Line”, “Dreamgirls”, “I’m Not There”, “Shane a Light”, "Kurt Cobain: Montage of Heck"... Mesmo os que são ignorados pela crítica, cumprem o seu dever de informar o grande público sobre uma banda que já não era lembrada. Pensemos em “The Runaways” e “Jersey Boys”.
Criar ficção nesta área é um pouco mais complicado. Os falsos compositores precisam de criar obra em condições e com um estilo uniforme (como “Coyote Ugly” que pediu músicas a LeAnn Rimes, ou a sorte que John Carney teve com Glen Hansard, Markéta Irglová e Gregg Alexander). O melhor é falar sobre quem ensina música existente. Desde “Music of the Heart” e “Dangerous Minds”, até “High Fidelity” e “School of Rock”...
Já devem ter uma boa ideia de como a música tem estado sempre presente. O que está a mudar é o público. Os musicais já não são a ovelha negra do cinema, ou algo que os avós gostam de ver. São algo moderno e apelativo para os jovens. E particularmente para os estúdios que podem vender o filme e a banda sonora. Se nos anos 80 era porque tinhamos “Fame”, hoje em dia é devido a “Smash” e especialmente “Glee”. Enquanto “Smash” foi buscar rostos conhecidos do cinema para que ajudassem a vender o seu novo produto, “Glee” foi buscar talentos aos palcos e ao seu concurso de talentos para que (en)cantassem. Tendo ambas as séries desaparecido longe dos seus tempos áureos, deve ser gratificante olhar para trás e ver o que nos deixaram.

Smash” passou actores para várias outras séries. Na área musical, apenas duas actrizes (Megan Hilty e Anjelica Houston) que encontramos nas aventuras animadas de Sininho, Brian d'Arcy James em “Shrek the Musical” e duas actrizes que foram bailarinas não-creditadas em “Annie”. Nada que se apresente.
Já do lado de “Glee” foi o oposto. Amber Riley e Darren Criss dão concertos, Lea Michelle lançou um disco, até Damian McGinty conseguiu uma carreira na sua distante Irlanda graças à breve participação na série. Quanto ao cinema musical, Melissa Benoist foi a actriz mais importante (ainda que secundária) do oscarizado Whiplash e Kevin McHale ocupou o lugar de professor no colégio especializado em ensino musical que vimos em Boychoir. Ambos os papéis podiam ser desempenhados por pessoas sem formação musical - McHale ainda fala brevemente de ritmo, mas a personagem de Benoist não tem qualquer relação com música - qual o interesse por estes actores específicos? Sabem que são apelativos para o público de Glee, o público que talvez saiba apreciar música, o público que se quer a encher as salas. E essa escolha de casting nos dois títulos de ficção mais importantes do último ano em termos musicais, significa que a indústria está atenta. Aproveitemos enquanto nos chegam bons filmes e antes que comecem a entrar nos exageros das outras modas a que Hollywood nos acostumou. Por enquanto, foi um excelente trabalho.

"Boychoir" por Nuno Reis

François Girard não é um cineasta qualqer, é um homem das artes. Além de realizar vários filmes tendo a arte como tema, já dirigiu teatro, ópera e circo. Tendo começado pelos videoclips - e vencido um Grammy por Peter Gabriel’s Secret World - depressa saltou para as obras visuais, filmando interpretações de Bach por Yo-Yo Ma e o filme "Le Violon Rouge" (1998). O filme venceu um Oscar pela composição musical. Por não ser um homem do cinema e não precisar de fazer filmes para sobreviver, quando Girard se põe atrás das câmaras, é um pecado não contribuir para a rara obra de arte que traz aos comuns mortais. Em 2007 foi "Silk". À semelhança de outro ermita que não faz cinema permanentemente, Malick, Girard apostou nos cenários deslumbrantes deixando a história internacional de amor proibido para segundo plano. O público não gostou. Em 2014 apostou numa receita quase comercial, mais garantida. Com um elenco que incluía Dustin Hoffman, Josh Lucas, Kathy Bates, Eddie Izzard, Debra Winger e Kevin McHale, traz-nos uma história original de Ben Ripley ("Source Code", sequelas de "Species", não tem nada a ver).
Stet é um rapaz problemático. Causa alguns problemas na escola, mas a directora acredita que ele pode ser alguém, e o caminho da salvação passará pela música. Para isso, convida a National Boychoir para uma atuação na escola, na esperança que, ouvindo o coro, Stet se renda à música. Para ser perfeito, é só o coro também se render a Stet e ficar com ele, levando-o para longe e para uma carreira (ou vida) de sucesso. Claro que as coisas não são assim tão fáceis e Stet terá muito trabalho para se convencer e os convencer que precisam um do outro. Sorte nossa que somos brindados com excelente música enquanto o vemos a praticar para chegar ao nível que exigem dele.
"Boychoir" nem tenta ser uma obra única nem foi feito com prémios em vista. É simplesmente a história de um rapaz perdido que encontra o seu rumo na música. Ao contrário de várias propostas em sala que nos querem capturar pelos olhos, aqui as sensações são todas auditivas. É pela música que nos apanha e mesmo quem achar que não gosta de música, facilmente mudará de opinião ao ouvir algo muito parecido com o som de um coro de anjos.
A prestação de Hoffman como “mau da fila” é muito invulgar. As intrigas infantis parecem pouco densas para a trama do filme, e das duas situações mais adultas que envolvem Stet, uma é ignorada e a outra quase esquecida. Chegando ao fim, foi apenas música que Girard nos deu. Como uma refeição gourmet, sabe a pouco para quem esperar outra coisa, mas na verdade é o suficiente.
A única conclusão que se pode tirar é que o filme é igual à mensagem que nos passa: aproveitemos os momentos grandiosos da vida enquanto duram, e guardemos essas recordações para o resto da vida. E claro, ouçamos a música. Se normalmente já é maravilhosa, quando é interpretada de forma magistral, é de outro mundo. Ou voltando às analogias alimentares, é como uma sobremesa: mesmo quando é mau, é bom.
BoychoirTítulo Original: "Boychoir" (EUA, 2014)
Realização: François Girard
Argumento: Ben Ripley
Intérpretes: Dustin Hoffman, Kevin McHale, Josh Lucas, Debra Winger, Garrett Wareing, Joe West, Eddie Izzard, Kathy Bates
Música: Brian Byrne
Fotografia: David Franco
Género: Drama
Duração: 103 min.
Sítio Oficial: N/A

"Whiplash" por Nuno Reis

O maior outsider nos Oscares deste ano era "Whiplash". A sua história simples sobre um potencial baterista parecia simples e incapaz de competir contra blockbusters que tinham custado vários milhões e facturado muitos mais. Quando a cerimónia terminou, era também o que tinha conseguido o feito mais notável: o único dos multi-nomeados que tinha vencido em mais de metade das categorias. Num ano invulgar em que todos ganharam algo e os mais fortes candidatos - com nove nomeações - se ficaram pelas quatro estatuetas, e outros com cinco a oito nomeações saíram com apenas uma itória, vencer três em cinco foi um feito notável.
Damien Chazelle completou trinta anos em Janeiro. Até então tinha feito uma carreira discreta onde se destacaria apenas o argumento de "Grand Piano" que Eugenio Mira tornou num filme com Elijah Wood. Entretanto, Chazelle estava a fazer uma curta de nome "Whiplash" que, à semelhança de muitos outros cineastas como Neill Blomkamp, Andy Muschietti e Sean Ellis, foi o seu passaporte para a liga principal. A ideia original sempre foi uma longa, a falta de financiamento é que o "obrigou" a fazer uma curta que venceu Sundance, um belo precursor para o que viria a ser a consagração neste Fevereiro. Por acaso a longa também passou por Sundance, além de Cannes, Toronto, Deauville... Fazer uma curta como veículo promocional parece ser uma excelente ideia.
Focando na versão longa-metragem, é a história de Andrew, um jovem músico que entrou num exigente conservatório e sabe que tem de dar o máximo todos os dias para ser alguém. Depressa dá nas vistas e o lendário Fletcher, mentor da orquestra da escola, diz-lhe para treinar mais. Andrew vai intensificar a sua preparação a um ponto que se torna doentio. A competição pelo lugar aumenta tão depressa como a capacidade interpretativa de Andrew e parece que mais sacrifícios terão de ser feitos. Físicos, mentais e emocionais. Na guerra e na música vale tudo.
Se esta componente da história por si só parece pouco entusiasmante, a componente sonora por si só merece o visionamento. O detalhe da câmara, a forma como a edição de imagem e de som se completam para nos darem uma pequena perspectiva do que é a magia de fazer música. Uma verdadeira homenagem aos músicos que faz o comum dos mortais perceber quão pouco realmente se sabe de uma arte até viver em função dela.
Mesmo que o desempenho fenomenal de Miles Teller e J.K.Simmons sozinhos justifiquem ir ver "Whiplash", uma homenagem à arte por si só vende pouco. Por isso há toda uma trama desenvolvida a partir daí, que muda o rumo do filme num instante, tornando-o sobre humanos quando parecia ser sobre música. Se foi pela música que nos conquistou, será pela humanidade que o recordaremos. Porque podemos pensar que um artista, um grande artista, sacrifica ter uma vida para se tornar lendário, mas nunca podemos esquecer que será sempre uma pessoa, um animal, e terá impulsos, momentos de fraqueza e de força. A forma como lida com isso é igualmente importante na definição do sucesso. E "Whiplash" equilibra perfeitamente as duas faces do ser humano.
WhiplashTítulo Original: "Whiplash" (EUA, 2014)
Realização: Damien Chazelle
Argumento: Damien Chazelle
Intérpretes: Miles Teller, J. K. Simmons, Melissa Benoist, Paul Reiser, Austin Stowell
Música: Justin Hurwitz
Fotografia: Sharone Meir
Género: Drama, Música
Duração: 107 min.
Sítio Oficial: http://sonyclassics.com/whiplash/

23 de maio de 2015

Vencedores do Black & White são conhecidos hoje


Hoje serão conhecidos os vencedores da 12ª edição do Festival Audiovisual Black & White. O programa do último dia tem início às 15h00, com a sessão de competição áudio.
Serão apresentadas cinco obras, seguidas uma hora depois pela competição de fotografia.

A última sessão vídeo, agendada para as 17h00, integra a exibição de sete curtas-metragens. “Preto ou Branco!”, do brasileiro Alison Zago – que retrata a ditadura brasileira, relacionando-a com a actuação do jornalista Eduardo Pena – e “The Labyrinth”, da autoria do belga Mathieu Labaye – centrada na história de um indivíduo que tem apenas seis metros quadrados para viver – são duas das obras em competição. A tarde termina com a apresentação dos trabalhos da competição “4:40”, desafio intensivo de curtas-metragens durante o qual os participantes, divididos em equipas de dois, têm apenas 40 horas para criar um vídeo de quatro minutos.

Nova edição regressa em Maio de 2016
O momento mais esperado está agendado para as 21h45. A partir dessa hora, o júri da 12ª edição do Festival Audiovisual – único no mundo por celebrar a estética a preto e branco – anuncia o nome dos vencedores nas categorias vídeo, áudio e fotografia e, ainda, o grande vencedor Black & White. A iniciativa termina com mais uma noite Black & White. A 13ª edição está de regresso à Escola das Artes da Católica Porto em Maio de 2016.

21 de maio de 2015

“Bicicleta” de Valter Hugo Mãe marca terceiro dia “a preto e branco”


Amanhã, sexta-feira, 22 de Maio – terceiro dia do Festival Audiovisual Black & White –, a Católica Porto é palco de mais uma competição vídeo, totalmente a preto e branco. São seis as curtas-metragens apresentadas, destacando-se, por exemplo, “Ajuste de Contas”, do português Alexandre Martins, ou “Tekilla – Só há um”, da autoria de Bernardo Caldeira e Francisco Gomes. A primeira conta a história de dois agentes que interrogam um suspeito acusado de ter cometido um grave crime. Já a segunda centra-se no “Só há um”, tema retirado do álbum “Erro perfeito”, de Tekilla. A exibição das obras tem início às 21h45, no campus Foz da Católica Porto.

O programa de sexta-feira inicia-se, contudo, às 11h00, com a sessão de screening com Toni Bestard, vencedor da última edição do Festival Black & White. O momento integra a exibição de “El perfecto desconocido”, que mostra como a chegada misteriosa de um estrangeiro a uma pequena vila numa ilha do Mediterrâneo provoca o súbito interesse de um grupo diversificado de vizinhos que acreditam que ele irá reabrir uma velha loja. A história mostra, todavia, que as intenções do estrangeiro escondem-se por detrás de uma velha fotografia Polaroid, que o levou até aquele lugar à procura de respostas.

Já a tarde reserva dois momentos de screening, um a cargo do Cineclube do Porto e outro dinamizado por Luis Vieira Campos, realizador de “Bicicleta”, escrita por Valter Hugo Mãe, e que venceu o prémio Melhor Curta-Metragem no XX Festival Caminhos do Cinema Português. A história assume-se como uma reflexão sobre o instinto de sobrevivência e a extrema defesa da dignidade que mostra, ainda, o Bairro do Aleixo como uma cidade vertical. O dia termina com mais uma noite Black & White. A entrada é gratuita.

20 de maio de 2015

Competição vídeo em destaque no segundo dia do "Black & White"

Programa integra uma sessão de screening com Toni Bestard, vencedor da última edição, e ainda uma artist talk com o fotógrafo Nelson Garrido

O programa do segundo dia, quinta-feira, 21 de Maio, do Festival Audiovisual “Black & White” – promovido pela Escola das Artes da Católica Porto – convida os apaixonados pelo cinema a preto e branco a assistir à competição de oito curtas-metragens. “H”, que explora sentimentos e observa os limites existentes entre dentro e fora ou paz e guerra, e "Surrounded", que retrata a história de uma fábrica de impressão de vinis, assumindo-se como a biografia de uma máquina, são apenas dois dos trabalhos exibidos a partir das 21h45, no campus Foz da Católica Porto.

A manhã do segundo dia fica marcada pela palestra “Cinematografia digital Sony”, agendada para as 11h00 e dinamizada por Fernando Antunes, responsável pela área de vídeo profissional e broadcast da Sony Portugal. Já a tarde reserva uma sessão de screening com Toni Bestard, vencedor da última edição do Festival Black & White. “El Viaje”, “Niño Vudú” e “Foley Artist” são alguns dos vídeos apresentados.

A tarde termina com a artist talk “Resgatados à história”, conduzida pelo fotógrafo Nelson Garrido. “Resgatados à história” centra-se da recuperação das imagens de campos de concentração como Auschwitz ou Buchenwald, que eram, até há pouco tempo, apenas pedaços da história mundial. Entre documentos históricos e memórias de familiares, as vidas de milhões de pessoas são, finalmente, resgatadas ao passado. A note termina, como habitualmente, com mais uma noite “Black & White”. A entrada é livre e gratuita.

19 de maio de 2015

Festival “Black & White” arranca amanhã na Católica Porto

Iniciativa aposta na exibição dos projectos mais emblemáticos dos últimos anos e, ainda, na competição de curtas-metragens, áudios e fotografias

Amanhã, quarta-feira, 20 de Maio, o único festival a preto e branco do mundo regressa à cidade do Porto. Durante quatro dias, 37 projectos – oriundos de 17 países e divididos pelas categorias de vídeo, áudio e fotografia – participam na iniciativa promovida pela Escola das Artes da Católica Porto. Além das competições, que reúnem trabalhos dos mais diversos formatos, a iniciativa conta, ainda, com um programa cultural paralelo que promete animar as noites dos cineastas.

Além da sessão de abertura do festival e da primeira competição de vídeo, que decorrem às 21h45, de quarta-feira, o primeiro dia do festival fica marcado pela exibição de projectos que marcaram as últimas edições do festival. Fontelonga (de Luís Costa), Píton (de André Guiomar), La Pionnière (de Daniela Abke) e The Lizards (de Vincent Mariette) são alguns dos filmes que fazem parte das exibições agendadas para as 15h00 do primeiro dia. A sessão de abertura integra, ainda, um momento de homenagem a Manoel de Oliveira, que foi presidente honorário do festival.

Filmar quatro minutos em 40 horas

Instalar a adrenalina e pressão de um deadline nos participantes é o principal objectivo da competição intensiva de curtas-metragens “4:40”, organizada durante o festival. O desafio é simples: Numa corrida contra o tempo, os participantes, divididos em equipas de dois, têm apenas 40 horas para criar uma curta-metragem de quatro minutos e que deve responder ao tema que lhes é apresentado. Todas as actividades do Festival Audiovisual são livres e de entrada gratuita.

17 de maio de 2015

"Mortdecai" por Nuno Reis

Johnny Depp tem-nos acostumado a papéis muito diversos e alguns deles moderamente loucos. Por exemplo, em 2014 fez de inteligência artificial em "Transcendence", de despistado investigador canadiano em "Tusk e de lobo mau em "Into The Woods”". Mas ainda assim, continua a surpreender-nos e este "Mortdecai" é uma prova disso mesmo.
Lord Charlie Mortdecai é um bon vivant e um criminoso de circunstância. Em risco de ficar sem a mansão onde vive por já não ter a fortuna da família, vai negociando arte com criminosos. As únicas coisas que o mantiveram vivo até agora foram uma sorte imensa, e o dedicado criado/motorista/guarda-costas/tudo Jock que o salva dos agressores e das situações mais complicadas. Mortdecai é casado com a encantadora Johanna, uma mulher com charme e classe que o faz andar mais ou menos na linha. No momento mais difícil das suas vidas, e quando estão a dias de perder tudo, Mrtdecai recebe a visita de um velho conhecido da polícia que precisa dos conselhos do especialista para lidar com um caso de arte roubada. Mortdecai vai dar o seu melhor para encontrar o quadro, ganhar dinheiro, e manter o bigode.
Estamos perante uma arriscada comédia que satiriza a aristocracia britânica, assim como os esterótipos que eles têm das restantes culturas. A obra original é de Kyril Bonfiglioli, um britânico que conhece o mundo da arte e da ficção-científica entre outras coisas. Originalmente publicados nos anos 70, os livros Mortdecai nunca atingiram a popularidade que se esperaria porque misturavam de forma incompreensível o género crime, com a comédia de costume e muita crítica social. Passados trinta anos, a mensagem passada é praticamente a mesma. A sociedade londrina continua a ser uma desgraça aos olhos de Mortdecai, cujos pecados parecem ser pura necessidade entre toda a sujidade que o rodeia. Não que Mortdecai seja bom, ele admite que é um criminoso e vigarista, mas só porque está acostumado a uma vida de conforto.
A atractividade do filme é precisamente a aposta arricada numa obra controversa, tanto por parte do realizador - um americano ainda em busca de afirmação - como dos actores, a enverederem por algo diferente. Ewan McGregor é um dos poucos cavalheiros, Gwyneth Paltrow repete a personalidade que vimos em “Iron Man”, mas aqui com um homem/ego bem mais fácil de suportar, Johnny Depp é simplesmente estranho, ainda que não fique desenquadrado. Parabéns ao marketing que conseguiu espalhar bem a mensagem do bigode para que não o detestássemos sem dar uma oportunidade de se afirmar. Mas a estrela do filme é Paul Bettany, ele sim, bem diferente do que nos acostumamos a esperar dele e muitas vezes brilhante, no papel mais físico e fácil de adorar do filme. A narrativa não cativa e o humor é repetido à exaustão, todavia, "Mortdecai" consegue dar um ar de graça mais pelo diferente que é. Numa época em que se consegue ver a mesma receita de filme todos os meses no cinema com títulos diferentes e a afirmar-se como o melho filme do ano do género (não interessa qual), é bom variar ocasionalmente e ver algo saído dos anos 70 que sabe ser mau.

MortdecaiTítulo Original: "Mortdecai" (EUA, Reino Unido, 2015)
Realização: David Koepp
Argumento: Eric Aronson (baseado no livro de Kyril Bonfiglioli)
Intérpretes: Johnny Depp, Paul Bettany, Ewan McGregor, Gwyneth Paltrow, Jeff Goldblum, Olivia Munn
Música: Derek Ambrosi, Jill Savitt
Fotografia: Florian Hoffmeister
Género: Acção, Comédia
Duração: 107 min.
Sítio Oficial: http://mortdecaithemovie.com

11 de maio de 2015

Estes dias não há desculpas

5 de maio de 2015

Banner, poster e spot para o Black&White 2015


De 20 a 23 de Maio de 2015, a Escola das Artes da Universidade Católica no Porto volta a abrir portas à estética a duas cores. A 12ª edição do Festival Audiovisual Black & White, que recebe vídeos, áudio e fotografias a preto e branco, levará a competição obras provenientes dos 4 cantos do mundo.
Com características únicas a nível mundial, a iniciativa nasceu da necessidade de responder a uma crescente sensibilidade do público para a especificidade do preto e branco, abandonando o preconceito que relaciona esta estética com obras dos primórdios do cinema.
Além da aposta em vídeos e fotografias a duas cores, o festival estimula igualmente a criação de ambientes sonoros que remetam para o "preto e branco".

Ao longo de quatro dias, para além das competições, serão levadas a cabo diversas actividades ligadas ao mundo audiovisual, desde artist talks, screenings, até extensões de outros festivais internacionais. As noites serão também animadas com um programa cultural paralelo.


Programa Geral


Quarta-feira - 20


15:00 VENCEDORES “B&W 2014”
SCATTERED IN THE WIND – Lori Felker (EUA) 5:30 (Melhor Vídeo Musical)
PALEOSOL 80 SOUTH – Jonathan Doweck e Amir Yatziv (Israel) 17:53 (Melhor Experimental)
LA PIONNIÈRE – Daniela Abke (Alemanha) 13:00 (Melhor Documentário)
ANIMO RESISTENTE – Simone Massi (Itália) 4:30 (Melhor Animação)
THE LIZARDS – Vincent Mariette (França) 14:00 (Melhor Ficção)
FOLEY ARTIST – Toni Bestard (Espanha) 18:00 (Grande Prémio B&W - Ibertelco / Sony)

17:00 SI – B&W
PRETO E BRANCO – João Rodrigues (Portugal, 2004) Doc, 10:00 (Menção Honrosa no “1º B&W”)
ON A MAGAZINE – João Rei Lima (Portugal, 2006) VM, 3:15 (Prémio do Público no “3º B&W”)
EM GUARDA – Pedro Lemos (Portugal, 2007) Exp, 3:05 (Prémio do Público no “4º B&W”)
POR UM FIO – Miguel Alves (Portugal, 2007) Fic, 16:00 (Menção Honrosa no “4º B&W”)
EXPRESSIVE PROCESSING – Helena Figueiredo (Portugal, 2007) Exp, 3:34 (Melhor Vídeo Experimental no “4º B&W”)
TALKING TO GHOSTS – Sofia Magalhães (Portugal, 2007) VM, 3:46 (Melhor Vídeo Musical no “4º B&W”)
PÍTON – André Guiomar (Portugal, 2007) Doc, 20:00 (Melhor Documentário, Prémio do Público e Grande Prémio B&W - Ibertelco / Sony no “8º B&W”)
FONTELONGA – Luís Costa (Portugal, 2013) Doc, 14:00 (Prémio do Público no “10º B&W”)

21:45 CERIMÓNIA DE ABERTURA + COMPETIÇÃO VÍDEO 1

23:00 “NOITES B&W”

Quinta-feira - 21


11:00 IBERTELCO / SONY

15:00 TONI BESTARD
EL VIAJE – Toni Bestard (Espanha, 2002) Fic, 9:00
NIÑO VUDÚ – Toni Bestard (Espanha, 2004) Fic, 22:00
EQUIPAJES – Toni Bestard (Espanha, 2006) Fic, 12:00
INTERCANVI – Toni Bestard (Espanha, 2010) Fic, 8:00
FOLEY ARTIST – Toni Bestard (Espanha, 2010) Fic, 18:00

17:00 Artist Talk: NELSON GARRIDO
Resgatados à história
Até muito recentemente, as imagens de campos de concentração como Auschwitz ou Buchenwald eram apenas pedaços da História mundial que julgávamos não ter qualquer relação com a nossa própria história. Hoje, sabemos que não é assim. Durante a II Guerra Mundial, os campos nazis onde morreram milhões de pessoas também acolheram portugueses. Deportados por serem judeus ou por razões políticas, passaram fome, sofreram maus-tratos e foram submetidos a trabalhos forçados. Alguns morreram lá. No final da guerra, os que sobreviveram, não voltaram a Portugal, mas regressaram ao país de acolhimento, França. O país que os viu nascer continuou, assim, a ignorar as suas histórias por muitas décadas. Elas estão espalhadas por fichas de entrada nos campos de concentração, nas listas de transportes dos deportados, nos livros dos mortos nazis e nos cartões de antigos deportados que os seus familiares guardaram até morrer. Entre documentos históricos e as memórias dos familiares, as suas vidas foram, finalmente, resgatadas ao passado.
Este trabalho foi realizado para o jornal Público em conjunto com a jornalista Patrícia Carvalho.');"> + 

21:45 COMPETIÇÃO VÍDEO 2

23:00 “NOITES B&W”

Sexta-feira - 22

11:00 TONI BESTARD II
EL PERFECTO DESCONOCIDO – Toni Bestard (Espanha, 2011) Fic, 90:00

15:00 CINECLUBE DO PORTO

17:00 BICICLETA – Luís Vieira Campos (Portugal, 2014) Fic, 48:00

21:45 COMPETIÇÃO VÍDEO 3

23:00 “NOITES B&W”

Sábado - 23

15:00 COMPETIÇÃO ÁUDIO

16:00 COMPETIÇÃO FOTOGRAFIA

17:00 COMPETIÇÃO VÍDEO 4

18:30 COMPETIÇÃO 4:40

21:45 CERIMÓNIA DE ENCERRAMENTO - ENTREGA DE PRÉMIOS – APRESENTAÇÃO DOS PREMIADOS

23:00 “NOITES B&W”

2 de maio de 2015

"Big Eyes" por Nuno Reis

Quem tem acompanhado a carreira de Tim Burton é capaz de o associar imediatamente ao fantástico, a nomes como Johnny Depp e Helena Bonham Carter e ao padrão zebrado entre vários tons escuros. Pois "Big Eyes" é quase a antítese de tudo isso. Na verdade há uma camisola às riscas pretas e brancas. E há algumas breves cenas ligeiramente psicadélicas. E participam nomes habituais como Danny Elfman e Colleen Atwood. Mas tirando isso é um filme com um pouco de romance, um pouco de comédia, muito cor-de-rosa... Surpreendidos? Não estejam. Afinal, Burton é senhor para fazer o que lhe der na cabeça e neste caso, convinha-lhe ser brando na introdução de uma história tão negra e fascinante como aquelas a que nos tem acostumado. O filme não era para ser realizado por ele, mas como era um velho admirador de Margaret Keane, depressa assumiu as rédeas do projecto, para nossa satisfação.
"Big Eyes" é a história de uma mulher numa altura em que não era fácil ser mulher, o final dos anos 50. Margaret fugiu de um marido abusivo para a vibrante San Francisco, terra de artistas e liberdade cultural. A vida era difícil, mas tinha de sustentar a filha e por isso trabalhou como decoradora de mobília. Nos dias livres, era artista de rua, criando caricaturas de quem passasse. Foi aí que conheceu Walter Keane, um pintor bon vivant e entusiasmado com tudo na vida. Depressa casaram e a iniciativa de Keane colocou-os em exposição num clube da moda onde depressa começaram a vender. Só que como ambos assinavam Keane, ele foi ficando com o crédito pela obra dela, e ela, menos dotada para a promoção, deixou-o continuar na mentira. Os anos foram passando e a mentira foi crescendo tão depressa como a fama. Margaret quis acabar com a farsa e revelar-se ao mundo, mas Walter não o permitia.
Sendo um filme de Burton e sobre pintura, a cor é de enorme importância. Tentei fixar as mais relevantes, perdoem qualquer falha ou imprecisão. A primeira cor no filme é o verde. Quando Margaret deixa o primeiro marido e a moradia nos subúrbios, partindo rumo ao desconhecido. Simboliza a felicidade, liberdade e esperança. Depois surge o rosa, o mundo de sonho para onde Walter a levou. Mas é um rosa forçado, enjoativo, a fazer recordar “Charlie and the Chocolate Factory” e os seus excessos de cor. As cores vão perdendo importância e os quadros começam a surgir. Cada um com a sua história. Cada um com uma nova mentira. O império vai crescendo, o dinheiro vai entrando, Walter está delirante e Margaret destroçada. Lentamente, a cor dominante é o amarelo. Tal como naquele quadro da rapariga loira com o gato com o qual as mentiras começaram. É a cor da dor, da traição, do fogo. Finalmente vem o azul, como o céu e o mar do Havai. Cor da liberdade. Cor de uma nova fase de progresso como Picasso poderia dizer. Todas essas cores podem ser vistas em vários adereços, mas o fundamental é o vestido da filha, Jane. Ela é o farol que guia Margaret e a cor que enverga diz muito sobre o estado de espírito de ambas. O branco normalmente é um novo começo.
No elenco temos os inconfundíveis olhos de Amy Adams, uma das actrizes mais adoradas de Hollywood e que nos tem trazido inúmeras interpretações de pessoas reais com quem simpatizamos imediatamente. A forma como equilibra emoções como o medo e a felicidade são fabulosas e como normalmente interpreta personagens frágeis tem sempre o carinho e apoio do espectador. Quase do lado oposto estava Christoph Waltz, um dos nossos vilões favoritos. Mesmo quando é mau gostamos dele, por isso não é nada difícil gostar dele quando aparece bem-disposto a recordar o tempo que viveu em Paris. A sua progressão para um manipulador agressivo é gradual e com momentos bipolares, algo que só grandes actores conseguiriam fazer e Waltz faz brilhantemente. Mesmo depois de tudo revelado e de sabermos quão perigoso é, ainda não é fácil antipatizar com ele. A acompanhar a dupla estão Delaney Raye e Madeleine Arthur, respetivamente como a pequena e a não tão pequena Jane, criança entediada, maravilhada ou aterrorizada. Há ainda um momento do grande Terence Stamp, convidado de luxo de Burton para desestabilizar a mentira estabelecida. Com actores assim, é tão fácil fazer grandes filmes.
Sintetizando, "Big Eyes" é a escolha perfeita para quem não apreciar o estilo único de Burton. A sua história simples e já conhecida, assim como os rostos conhecidos em personagens simpáticas, são uma excelente forma de ficar a conhecer o realizador mais ousado da actualidade. Depois poderão passar para “Big Fish” e seguir por aí em diante até aos títulos mais pesados. Para quem não for estranho ao Burton mais estranho, será uma surpresa ver este lado “normal” dele (ainda que o cineasta ocasionalmente aproveite para nos surpreender com uns olhos grandes). É preciso ver sem pensar que é de Burton, mas seguramente depressa ficarão arrebatados e esse exercício será tão natural como perder a noção da respiração.
Big EyesTítulo Original: "Big Eyes" (Canadá, EUA, 2014)
Realização: Tim Burton
Argumento: Scott Alexander, Larry Karaszewski
Intérpretes: Amy Adams, Christoph Waltz, Danny Huston, Kirsten Ritter, Terence Stamp, Jason Schwartzman, Delaney Raye, Madeleine Arthur
Música: Danny Elfman
Fotografia: Bruno Delbonnel
Género: Biografia,Drama
Duração: 106 min.
Sítio Oficial: http://bigeyesfilm.com/