Mostrar mensagens com a etiqueta Autores Convidados. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Autores Convidados. Mostrar todas as mensagens

3 de novembro de 2017

"Porto" por Joana Soares

Para compensar a ausência de publicações nos últimos tempos, hoje trazemos um texto de uma autora externa, a blogger e jornalista Joana Soares do Histórias de Metro a Metro que nos leva numa visita a um outro Porto. O de Gabe Klinger que está em exibição na Invicta e um pouco por todo o país.

Porto, meu amor

Gabe Klinger, realizador e argumentista do filme "Porto", a rodar nas salas de cinema da cidade, captou muito bem o timbre pardacento do Porto que faz do Porto o que o Porto é. Ainda consigo ouvir num plano do filme a voz de uma vendedora do Bolhão a dizer: anda cá ‘mor – o que traduzido para inglês seria qualquer coisa como ‘come here luv’. Mas todos sabemos que não é a mesma coisa. O ‘mor do Porto vem de dentro, da alma, é genuíno, é local. O filme cai que nem ginjas no marketing da cidade. Funciona como imagem de marca – uma montra que afaga turistas.


O filme "Porto" rodou em 2015 na Invicta, chegou este mês às salas de cinema portuenses. E é um must see.
É uma espécie de boy meets girl que versa precisamente sobre a dificuldade em ser-se um, em estar-se a dois e a violência da entrada em cena do “terceiro elemento” que faz a chama apagar e o mundo voltar a ser mundo.
É um filme independente que conta a história de um norte-americano de 26 anos, filho de pais diplomatas, Jack Kleeman (Anton Yelchin) e uma francesa, de 32 anos, Mati Vargnier (Lucie Lucas), a fazer investigação arqueológica em Portugal. A história é muito fragmentada, vai à frente e regressa ao passado em encontros e desencontros.


A história está brilhantemente contada sobre a beleza da imagem cinematográfica que arrancou as melhores críticas internacionais. E como o belo é também louco, este Porto fala do amor num registo neurótico, imprevisível, quase improvável. Porque este é um boy meets girl atormentado por uma ideia frustrada de futuro e por uma intensa vontade de perpetuar a fugaz felicidade do instante. O instante da paixão não passará, contudo, de sinalizar o mais lancinante fogo.


É um filme de bolinha vermelha. Eu não conservadora me confesso aqui um quê conservadora: as cenas de sexo são tão evidentes que magoam a arte. A simplicidade teria sido boa conselheira nesta primeira obra de ficção de Gabe que quer tratar o amor como-que-mortal de uma maneira mais trendy.
O embrulho acaba por ser mais interessante que o conteúdo de um filme que fala de paixões intensas “de uma noite só”, onde o Porto ganha asas ao exibir para o mundo os seus cafés, ruas, rio, o cinzento do ar onde dançam gaivotas. Tudo isto sob os acordes de Tsegué-Guèbrou e John Lee Hooker.

PortoTítulo Original: "Porto" (Portugal, França, EUA, Polónia, 2016)
Realização: Gabe Klinger
Argumento: Gabe Klinger, Larry Gross
Intérpretes: Anton Yelchin, Lucie Lucas, Paulo Calatré, Françoise Lebrun
Fotografia: Wyatt Garfield
Género: Drama, Romance
Duração: 76 min.
Sítio Oficial: https://www.facebook.com/portomovie

20 de outubro de 2013

"Enemy" por António Reis

Saramago adaptado em Enemy

A genialidade de José Saramago não se mede apenas na literatura, mas também na capacidade de atrair realizadores de múltiplas origens que não resistem ao apelo de adaptar os seus textos.
Com projectos mais falhados como “A Jangada de Pedra” de George Sluizer ou super-produções como “Blindness” de Fernando Meirelles, passando por incursões de “A Flor Mais Grande do Mundo” ou da longa-metragem de António Ferreira "Embargo”, a ficção de Saramago tem ainda muito para ser explorada. Em Sitges, “Enemy” de Denis Villeneuve – conhecido em Portugal por “Incendies” que foi nomeado a Oscar – conquistou o Méliès d‘Argent para melhor filme fantástico europeu do festival.

Baseado em “O Homem Duplicado” e contando com uma dupla soberba interpretação de Jake Gyllenhaal, “Enemy” constrói-se nesse conflito de um homem que descobre incrédulo um outro Eu, um clone com uma outra existência, um outro emprego, uma outra vida familiar.
Num crescendo de intensidade dramática onde Gyllenhaal cria dois personagens de temperamentos diferentes, cedo se perde qual é o genuíno eu e o seu alter-ego. Da dificuldade em admitir uma existência duplicada, até ao desejo voyeurista de saber como será esse outro eu, vai um pequeno passo. E daqui até ao desejo de mudar a vida e de ocupar o lugar do outro/ele próprio, apenas uma pequena fronteira o separa da loucura.

O fantástico é ainda mais assustador quando se cria a partir de uma situação plausível. De uma perda progressiva das rotinas a que nos habituamos. Afinal nada está seguro, tudo é incerto.

Num festival onde o terror costuma ser a nota dominante, aparecer um filme que obriga o espectador a reflectir sobre o sentido da vida é uma autêntica pedrada no charco da programação. Mas o prémio e os aplausos do público provam que há espectadores inteligentes para filmes inteligentes.

EnemyTítulo Original: "Enemy" (Canadá, Espanha, 2013)
Realização: Denis Villeneuve
Argumento: Javier Gullón (baseado no livro de José Saramago)
Intérpretes: Jake Gyllenhaal, Sarah Gadon, Mélanie Laurent, Isabella Rossellini
Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans
Fotografia: Nicolas Bolduc
Género: Thriller
Duração: 90 min.
Sítio Oficial:

14 de outubro de 2012

"Invasor" por António Reis

António Reis em Sitges fala-nos de alguns dos filmes exibidos.


O Iraque entra no cinema espanhol

Sabendo-se oque as guerras do Vietname e do Iraque fizeram pelo cinema norte-americano, não é de espantar que Espanha quisesse também ter o seu "The Hurt Locker". Ou seja, deixar uma marca em forma de filme da sua infausta participação na guerra do Iraque.

"Invasor" de Daniel Calparsoro pretende três objectivos: demonstrar a capacidade técnica em meios materiais e humanos para se fazer uma produção de gama alta no género de acção; contar uma história que seja politicamente correcta; e agradar a um grande público. São objectivos demasiado ambiciosos. Relativamente à qualidade técnica tanto das cenas de guerra como dos planos no deserto à que reconhecer que o cinema espanhol não fica atrás dos seus congéneres. Os outros dois objectivos são bem mais difíceis de alcançar porque esta história baseada num livro é tão politicamente correcta que acaba por ter um efeito oposto. Para atingir um público mais vasto o argumento não é o suficiente, nem os actores conseguem competir com os seus colegas de renome internacional.

História de um soldado envolvido a contragosto num massacre reportado como morte de terroristas e em convalescença de um atentado, cedo se percebe que lhe vai ser difícil o regresso a normalidade. A sua memória em stress pós-traumático só regista fragmentos de uma verdade que lhe querem esconder. O que sobra ao filme em acção falta-lhe em densidade dramática dos personagens que o tornasse convincente, o que não quer dizer que não funcione bem no mercado televisivo até pela sua estética. Para quem aprecia o cinema de guerra é mesmo infinitamente melhor rever "The Hurt Locker".
InvasorTítulo Original: "Invasor" (Espanha, 2012)
Realização: Daniel Calparsoro
Argumento: Jorge Arenillas, Javier Gullón
Intérpretes: Alberto Ammann, Antonio de la Torre, Karra Elejalde,
Música: Lucas Vidal
Fotografia: Daniel Aranyó
Género: Acção, Guerra, Thriller
Duração: 99 min.

13 de outubro de 2012

"The Impossible" por António Reis

António Reis em Sitges fala-nos de alguns dos filmes exibidos.


Compreenda-se o drama de Bayona. Depois do sucesso de “El Orfanato” que o colou à marca do género, estava muito condicionado nas opções para um novo projecto. Ou se mantinha fiel ao terror arriscando-se a ficar preso enquanto cineasta, ou preferia trilhar novos caminhos que lhe abrissem a carreira. Em qualquer dos casos era uma jogada arriscada porque as expectativas estavam muito elevadas.
Cinco anos depois “The Impossible” demonstra que Bayona se conseguiu libertar do fantástico, mas manteve uma marca de autor. Quase impossível foi a odisseia desta família que serve de inspiração ao filme. Preparada para umas férias natalícias num idílico resort tailandês, está no sítio errado no momento errado. Um devastador tsunami vai transformar as suas férias num pesadelo. Bayona ficou impressionado ao assistir a um programa televisivo onde era contada esta história e rendeu-se à emoção e ao drama para o seu filme.
Produzido em moldes internacionais com um elenco de topo onde se destacam obviamente Naomi Watts e Ewan McGregor, mas onde o personagem desempenhado pelo jovem Tom Holland o revela como um dos adolescentes prodígio da nova geração. Trinta milhões de euros depois, “The Impossible” justifica o investimento. O seu argumento está ao nível das mais importantes produções mundiais, os efeitos especiais são de imensa qualidade (filmados na falida Cidade da Luz de Valencia) e o realizador na conferência de imprensa não fugiu à questão de que as expectativas para o filme eram elevadas não apenas a nível comercial, mas também na nomeação para os Oscares, sobretudo nas categorias técnicas, mas não só.
Mais uma vez se prova que o fantástico e o terror podem estar na nossa vida quotidiana. Bayona ganhou a aposta, conquistou o público e abriu a porta a uma carreira que a partir de agora terá que ser internacional. Um bom filme que emociona até às lágrimas, sem cair na tentação do exagero dramático.
The ImpossibleTítulo Original: "The Impossible" (Espanha, 2012)
Realização: J. A. Bayona
Argumento: Sergio G. Sánchez
Intérpretes: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Geraldine Chaplin
Música: Fernando Velázquez
Fotografia: Óscar Faura
Género: Acção, Drama, Thriller
Duração: 107 min.
Sítio Oficial:

11 de outubro de 2012

"Frankenweenie" por António Reis

António Reis em Sitges fala-nos de alguns dos filmes exibidos.


Burton recria Frankestein

Burton está para o cinema de animação como Spielberg está para a ficção. Ambos são adultos com coração de criança e criam, cada um a seu modo, obra-primas que marcam o fantástico. Sobretudo têm uma cultura e memória do cinema que integram nos seus filmes e fazem a delícia dos cinéfilos mais atentos. Tim Burton refaz quase trinta anos depois a sua média-metragem homónima, optando desta vez pela animação em vez da imagem real. Foi como se concluísse um sonho interrompido e confirmasse, se necessário fosse, que a animação também é o seu terreno de eleição.
Recriar o mito de Frankenstein numa óptica supostamente infantil é apenas o início de uma aventura mágica pelos ícones do fantástico. Como diz a publicidade, está tudo lá: a criação prometaica do mostrinho canino, a feira popular, o incêndio do “castelo”, Godzilla, Gremlins, Eduardo Mãos-de-Tesoura, Batman e tantos outros momentos que são um tributo ao fantástico em que todo o cinema de Burton mergulha. A música sinfónica de Danny Elfman dá a “Frankenweenie” uma dimensão épica para a história deste Victor, um pequeno Frankenstein que aspira a fazer reviver a sua mascote. Mas Victor talvez nem seja o personagm principal já que a figura do excêntrico professor de ciências despedido por fazer muitas perguntas e despertar a curiosidade dos seus alunos, acaba por roubar parte do protagonismo.
Num cuidado preto e branco que remete para os originais de época, “Frankenweenie” agarra tanto o público infantil que se pode rever no universo escolar do argumento, como para adultos de coração mole, nostálgicos de uma infância que nunca tiveram, ou de um cinema fantástico que já não volta.
Visionado em 3D, de novo se nos coloca a questao se era mesmo necessário este gadget tecnológico. A resposta no nosso ponto de vista é negativa. E esta concessão a uma moda que esperemos passageira é talvez o único handicap de um filme fabuloso, manufacturado com ternura pela fábrica de sonhos que é a mente de TIm Burton.
FrankenweenieTítulo Original: "Frankenweenie" (EUA, 2012)
Realização: Tim Burton
Argumento: John August (baseado no argumento de Leonard Ripps que foi baseado numa ideia de Tim Burton,)
Intérpretes: Catherine O'Hara, Martin Short, Martin Landau, Winona Ryder, Charlie Tahan
Música: Danny Elfman
Fotografia: Peter Sorg
Género: Animação, Comédia
Duração: 87 min.
Sítio Oficial: http://disney.go.com/frankenweenie/

"Sightseers" por António Reis

António Reis em Sitges fala-nos de alguns dos filmes exibidos.


Confesso que não partilho a admiração generalizada por “Kill List”. Mesmo depois de o ver duas vezes não encontrei motivos suficientes que levaram a maior parte da crítica a premiá-lo e/ou considerá-lo das grandes surpresas do ano. Por esta razão as minhas expectativas quanto a este “Sightseers” não eram tão elevadas quanto a da maior parte do público que assistiu à sua exibição em competição no festival de Sitges. Menos ainda quando o seu realizador em palco garantiu com uma candura britânica que o seu filme era sobre “sexo, violência, sexo, pequenos cães e caravanismo”.

(video SciFiWorld)

Vendo o filme condicionado por uma plateia predisposta a rir-se e a apreciar a experiência, reconheço algumas qualidades a este chefe de fila de uma nova vaga que pretende recuperar algum do realismo social que fez a glória do cinema britânico nos anos 60, com um humor completely british e uma violência gratuita para gáudio dos fas de algum fantástico de terror.

O conceito de fazer férias numa caravana por alguns dos mais improváveis ícones do turismo inglês é o leitmotiv para esta viagem. Ao longo da viagem este casal de desajustados vai descobrir que, apesar de terem em comum uma tendência para deixar cadáveres ao longo do caminho, manifestam uma absoluta psicopatia.

O Hollywood Reporter considerou-o o melhor da britcom desde “Hot Fuzz”, o que convenhamos, é um grande elogio para o filme, mas não deixa de nos inquietar quanto à qualidade da produção britânica de comédia.
A classe média-baixa inglesa sempre foi um lugar privilegiado para a comédia e aqui acaba por ser tambem o palco do terrir. Uma visão cáustica de Inglaterra capaz de agradar a um público alargado.
SightseersTítulo Original: "Sightseers" (Reino Unido, 2012)
Realização: Ben Wheatley
Argumento: Amy Jump, Alice Lowe, Steve Oram
Intérpretes: Alice Lowe, Steve Oram
Música: Jim Williams
Fotografia: Laurie Rose
Género: Comédia
Duração: 88 min.
Sítio Oficial: http://sightseersmovie.com/

10 de outubro de 2012

"O Apóstolo" por António Reis

António Reis em Sitges fala-nos de alguns dos filmes exibidos.


Pelos caminhos de Santiago

A animação é uma das imagens de marca da indústria cinematográfica da Galiza e tem produzido filmes que em termos de estrutura narrativa e de qualidade técnica nada ficam a dever ao melhor da animação mundial. “O Apóstolo” é o último e o mais elaborado exemplo da afirmação de como se pode encontrar a inspiração no lendário tradicional para construir histórias universais. De Tim Burton recebeu os maiores elogios pela sua qualidade artística e não por acaso ele foi buscar uma parte substancial da equipa para trabalhar no seu “Frankenweenie”. Isto porque “O Apóstolo” teve uma produção demorada e problemas de distribuição que inviabilizaram a sua estreia durante mais de dois anos. Concebido para estar integrado nas comemorações do Jacobeo passado, este atraso acabou por alimentar a curiosidade sobre o filme.

Agora que as peregrinações a Santiago estão na moda, esta história gótica sobre uns caminhantes perdidos nos caminhos que conduzem à Catedral revela uma faceta do fantástico de terror que é muito popular no cancioneiro tradicional. Afinal a estrada que leva à redenção dos pecados pode obrigar a confrontar com os medos e os perigos que se escondem na Galiza profunda.

Seguindo a estrutura da animação norte-americana que aposta nas vozes de actores famosos, também aqui “O Apóstolo” se revela muito interessante. O omnipresente Luis Tosar empresta corpo e voz a um Malamadre animado, assim como o mítico Paul Naschy encarna o ambicioso Arcipreste de Santiago “que não descarta o papado”, a par com Geraldine Chaplin entre um elenco vocal de luxo. Poderá parecer estranho dizer-se que os actores emprestam o corpo aos bonecos. Mas a verdade é que estas marionetes filmadas em stop motion replicam gesto a gesto os tiques e as expressões dos actores. Os melómanos atentem à música que combina Philip Glass com o cancioneiro tradicional.


Com um design de cenários que a colocam ao nível da obra-de-arte (atente-se por exemplo no detalhe da Catedral) e uma animação de primeira linha, este é um filme para os amantes do fantástico. Numa região onde as bruxas são meigas, a estreias comercial do filme será na Noite das Bruxas. Para quem já está a pensar em presentes de Natal, a Artefacto vai editar um livro/DVD com o making of, imagens de produção e muitos extras. Um edição de luxo a não perder.
O ApóstoloTítulo Original: "O Apóstolo" (Galiza, 2012)
Realização: Fernando Cortizo
Argumento: Fernando Cortizo
Intérpretes: Carlos Blanco, Xosé Manuel Oliveira, Paul Naschy, Jorge Sanz, Geraldine Chaplin, Luis Tosar
Música: Xavier Font, Philip Glass, Arturo Vaquero
Fotografia: Matthew Hazelrig
Género: Animação
Duração: 80 min.
Sítio Oficial: http://www.oapostolo.es/

9 de outubro de 2012

"The Lords of Salem" por António Reis

António Reis em Sitges fala-nos de alguns dos filmes exibidos.


Rob Zombie encontra “Rosemary’s Baby”

Se a fama de Rob Zombie deriva mais da sua importância nos meios underground da música com laivos satânicos , a sua aparição no cinema acabou por ser uma transferência natural, mas apesar disso marginal. Os seus primeiros filmes tiveram impacto por via dos fãs da sua música, e obviamente o cinema de terror tinha que ser o género escolhido. “The House of 1000 Corpses” e “The Devil’s Rejects” conquistaram uma franja de espectadores e o relativo sucesso que obtiveram, sobretudo no circuito dos festivais, talvez tenham convencido Rod Zombie que tinha uma carreira promissora como realizador. Convenhamos que quem lhe impingiu esta expectativa estava redondamente enganado e este “Lords of Salem” confirma a célebre frase de Churchill que se pode enganar muita gente durante algum tempo, mas não toda a gente durante muito tempo.

Recuperar a exaurida história das bruxas de Salem, as possessões satánicas e a semente do diabo com o heavy metal satânico e um design kitsch de televisões radicais é uma receita esgotada. Para estes temas é preferível rever os clássicos como “Salem’s Lot”, a sua versão de comédia “The Witches of Eastwick” ou o perturbador “Rosemary’s Baby” de Polanski. Todos os clichés do sub-género satânico estão incluídos, pena é que falte uma ideia redentora e original que justificasse o visonamento do filme. Neste ponto é que a experiência de Rob Zombie na área musical poderia ter feito a diferença.
Os verdadeiros seguidores de Satanás devem estar a rir-se desta caricatura. Porque mesmo para quem não crê em bruxas, que as há, há, e que o diabo anda à solta entre nós também é verdade. Basta ver as notícias.
The Lords of SalemTítulo Original: "The Lords of Salem" (Canadá, EUA, Reino Unido, 2012)
Realização: Rob Zombie
Argumento: Rob Zombie
Intérpretes: Sheri Moon Zombie, Bruce Davison, Jeff Daniel Phillips, Ken Foree, Fee Wallace, Meg Foster, Maria Conchita Alonso
Música: John 5
Fotografia: Brandon Trost
Género: Horror, Thriller
Duração: 101 min.
Sítio Oficial: http://robzombie.com/movies/the-lords-of-salem/

8 de outubro de 2012

Falidos e poliglotas

Pedimos a António Reis que nos desse a sua opinião sobre a terrível situação em que a Cinemateca se encontra.

Falidos e poliglotas

O ministro Vítor Gaspar tem razão. Os portugueses são um povo fantástico. Acima de tudo têm essa capacidade de serem poliglotas o que lhes dá uma vantagem competitiva fundamental quando se trata de emigrar. Confirmando que o governo estava preparado desde o início para esta nobre missão de espalhar a pieguice pelos quatro cantos do mundo, chega-nos a informação da Cinemateca de que os seus filmes vão passar a ser exibidos em versão original, sem legendas em português.
Lamentamos informar que a Cinemateca se vê obrigada a interromper algumas aquisições de serviços normalmente associadas às nossas actividades, por decorrência de recentes medidas de controlo orçamental (Despacho do Senhor Ministro das Finanças de 12 de Setembro).

Assim, informamos que nas sessões abaixo indicadas, contrariamente ao que tinha sido anunciado no programa mensal, não haverá legendagem electrónica das cópias exibidas, a não ser que a autorização para a contratação desse serviço nos seja concedida e comunicada, em tempo útil, pelo Ministério das Finanças.

(Os filmes são exibidos em versão original sem legendas, com eventuais legendas em outras línguas – ver caso a caso):

8 out.
19.00 – THE HUNGER, Tony Scott
21.30 – LA LIBERTAD, Lisandro Alonso
22.00 – HHH – PORTRAIT DE HOU HSIAO-HSEN, Olivier Assayas

9 out.
19.00 – LOS MUERTOS, Lisandro Alonso
22.00 – LA LIBERTAD, Lisandro Alonso

10 out.
19.00 – LIVERPOOL, Lisandro Alonso
22.00 – LOS MUERTOS, Lisandro Alonso

11 out.
18.00 – SALTO NEL VUOTO, Marco Bellocchio
22.00 – LIVERPOOL, Lisandro Alonso

16 Out.
21.30 – WANDA, Barbara Loden

20 out.
15.30 – LE LEGIONI DI CLEOPATRA, Vittorio Cottafavi
19.00 – UCCELLACI E UCCELLINI, Pier Paolo Pasolini
19.30 – NOSFERATU, FW Murnau
22.00 – THE EDGE, Robert Kramer

27 out.
21.30 – UN CHIEN ANDALOU / SIMON DEL DESIERTO, Luís Bunuel

30 out.
19.00 – ALL THE MARBLES, Robert Aldrich
Fonte: Cinemateca

O motivo invocado de corte de despesa é que me parece pouco fundamentado. Não é para poupar dinheiro, mas para dotar os cinéfilos de uma vasta cultura linguística, capaz de os fazer embrenhar nos futuros países de acolhimento de acordo com as suas preferências cinematográficas. Sem legendagem em português, o espectador estará mais atento aos sotaques regionais dos diferentes países e provará, se isso fosse necessário, que somos um povo sui generis na nossa capacidade de aprender.

Esta medida em vez de ser criticada, deveria merecer um Nobel especial para o multi-culturalismo, para a linguística, ou da paz pelo seu esforço na integração dos portugueses. Falidos, mas fadados para as línguas, o nosso futuro está garantido. Parabéns ao Ministro das Finanças, que já agora poderia aconselhar o seu Secretário de Estado da Cultura a aplicar o mesmo critério para o seu Plano Nacional de Cinema.
Ficaremos atentos se as próximas sessões da Cinemateca estenderão esta visão cosmopolita dos portugueses para línguas com grande futuro como mandarim, coreano, tailandês, árabe ou japonês.

A ver vamos se, com tanto jeito para as línguas, não começamos a melhorar também o nosso jeito para a má língua.

António Reis

"Robot & Frank" por António Reis

António Reis em Sitges fala-nos de alguns dos filmes exibidos.


Robot e Frank, a simpatia em metal e osso

Quando se escolhe ir ver um filme onde Frank Langella contracena com Susan Sarandon, é quase inevitável que seja um bom filme. “Robot & Frank” é um desses filmes ternurentos e simpáticos que a brincar, a brincar, vai obrigar-nos a reflectir sobre temas muito sérios: a velhice e a solidão que acarreta, o esquecimento, o conflito de gerações, e as novas tcnologias incorporadas no nosso dia-a-dia.

O que poderia ser um daqueles dramas insuportáveis sobre o quotidiano dos séniores, é aqui abordado com a fina ironia do seu argumento e sobretudo interpretações fabulosas. A história na sua aparente banalidade resume-se a um velho com manifestos sinais de perda de memória funcional, e aos problemas de consciência que isto acarreta aos seus filhos. Para pôr alguma ordem no seu quotidiano nada melhor que um robot mordomo eficaz, atencioso e sempre disponível. Se está programado para cumprir as três leis da robótica de Asimov, bem depressa ele adapta-se e começa a ter opiniões. O robot passa a ser o melhor amigo do homem.
Pela descrição ficaram convencidos que era um filme lamechas estilo "Bicentennial Man"? Errado. É uma história de amizade e complicidade entre homem e máquina e de como se pode apreciar a vida depois dos 70. Produção mais do que económica, “Robot & Frank” é o primeiro filme de Jack Schreiber e revela um talento enorme na gestão do guião e na capacidade de fazer rir com inteligência. Apresentado no festival de Sitges, conseguiu a proeza de não desagradar a ninguém, mas sobretudo de agradar muito a um sector de público que reconhece que há cinema interesante para lá dos efeitos especiais. E que no cinema o essencial é a capacidade de saber contar uma boa história. Recomendamos vivamente. Um filme que nos põe de bem com o mundo e com o cinema e que prova que a vida pode ser fantástica todos os dias.

Robot & FrankTítulo Original: "Robot & Frank" (EUA, 2012)
Realização: Jake Schreier
Argumento: Christopher Ford
Intérpretes: Frank Langella, Susan Sarandon, James Marsden, Liv Tyler, Peter Sarsgaard
Música: Francis and the Lights
Fotografia: Matthew J. Lloyd
Género: Comédia, Drama, Ficção-Científica
Duração: 89 min.
Sítio Oficial: http://robotandfrank-film.com/

11 de julho de 2012

"The Raven" por António Reis

António Reis em Neuchatel fala-nos de alguns dos filmes exibidos.


Entre os grandes clássicos do mistério e terror, Edgar Allan Poe tem sido o autor menos bafejado em termos de resultados das adaptações das suas obras para cinema. Autor de imaginação prodigiosa, de uma qualidade literária genial, a par de uma vida turbulenta e breve, Poe é um dos mestres fundadores do terror e do fantástico. Como na ficção quase que se aplica o princípio de Lavoisier no qual “nada se cria, tudo se transforma”, as ideias de Poe têm sido plagiadas à exaustão, mas às suas obras falta um grande filme. Muitas adaptações no período áurea de 40-60 do século passado rondaram a mediana, nomeadamente as que contavam com as interpretações de Vincent Price e a produção da mítica AIP de Roger Corman. Os seja, filmes de série B, para os autor de classe A.

Nos últimos anos diversos filmes recuperaram a vida e a obra de Edgar Allan Poe, sobretudo aproveitando a efeméride dos 200 anos do seu nascimento. Mas apenas dois o fizeram de forma criativa. Coppola com "Twixt" vai buscar o fantasma de Poe para uma metáfora do amor, do sangue e da morte que tem como leit motiv um escritor alcoólatra, neste domínio émulo do próprio Poe, desesperadamente em busca de inspiração. É um Coppola longe da sua genialidade, mas mesmo assim uma belíssima homenagem ao universo do escritor. "The Raven", realizado por James McTeigue que os fãs do fantástico conhecem de "V for Vendetta", cria uma ficção onde incorpora as obras de Poe e apresenta uma hipótese plausível para a sua morte.

Retomando uma premissa não de todo original de um criminoso que plagia os crimes inventados pelo escritor, propõe um pacto em que Poe será o narrador dos crimes, ao mesmo tempo que é o consultor da polícia na sua resolução. John Cusack compõe o personagem de forma interessante na sua loucura genial ainda que acentue exageradamente o lado irónico do escritor. Não sendo a melhor homenagem a Edgar Allan Poe, pelo menos é um filme que cativa o grande público o que é sempre uma forma de alargar o interesse pela literatura.

The RavenTítulo Original: "The Raven" (Espanha, EUA, Hungria, 2012)
Realização: James McTeigue
Argumento: Ben Livingston, Hannah Shakespeare
Intérpretes: John Cusack, Luke Evans, Alice Eve, Brendan Gleeson, Sam Hazeldine
Música: Lucas Vidal
Fotografia: Danny Ruhlmann
Género: Mistério, Thriller
Duração: 110 min.
Sítio Oficial: http://www.theravenmovie.com/