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20 de janeiro de 2013

"Mercado de Futuros" por Nuno Reis

Se formos muito poéticos, podemos dizer que quando uma casa é demolida, as memórias que ela contém são libertadas no mundo. É precisamente esse acontecimento que vai despoletar este filme. Uma casa com uma extensa biblioteca vai ser demolida e, partindo desse ponto, vamos percorrer o mundo através do mercado imobiliário. Enquanto na casa antiga temos bonecas e livros, símbolos de uma era terminada, nos mercados temos negociações cheias de promessas, falam de milhões como se fossem trocos, prometem retorno em cinco anos e oferecem condições de sonho.

Quando um documentário tem duração de 110 minutos, espera-se que seja bastante completo. Neste caso não foi bem assim. Em 45 ou 50 minutos diriam o mesmo, o resto está apenas a encher. Há momentos bons. Destacaria a caminhada por cima dos livros onde títulos como "Anna Karenina" e "A Condição Humana" são pisados sem qualquer respeito; a lenga-lenga nos mercados que é um autêntico canto das sereias (no Dubai não há impostos, 0%!) e mesmo no final quando um senhor de idade diz que quer ser cremado e porquê. Tudo mais são sequências de planos quase imóveis, em silêncio, onde nos inundam sem informar e sem sequer fazer uma ponte entre dois mundos tão distintos. O único momento em que há alguma proximidade é quando, na deslocação de uma estátua, os homens têm o cuidado de proteger o braço para que não se parta. Não é por razões sentimentais, é para assegurar que se conserva intacta e valiosa.
Se a um filme se pede que seja envolvente, neste caso em particular podia perfeitamente jogar com isso. Era quente ao mergulhar nas memórias, frio ao falar do mercado. Se fosse para não tomar posições, que se mantivesse distante e imparcial. O que se vê é que é um mero retalho de planos. Sem emoção, sem fio condutor, sem novidade, sem interesse.

Será útil para quem pretender manter-se afastado desse mundo das altas finanças, mas tem uma visão tão crua de tudo, que nem o espectador consegue sentir algo além de tédio. Se a ideia era dar tempo para pensar no que se está a ver, faziam-no mais curto. Quem quisesse pensar, pensava, quem não quisesse, ia ver outra coisa. Era escusado tirar tanto tempo a todos.
Mercado de FuturosTítulo Original: "Mercado de Futuros" (Espanha, 2011)
Realização: Mercedes Álvarez
Argumento: Mercedes Álvarez, Arturo Redín
Narradora: Elvira Prado
Música: Sergio Moure
Fotografia: Alberto Rodríguez
Género: Documentário
Duração: 110 min.
Sítio Oficial: http://futuresmarket.es/

19 de janeiro de 2013

"Arrugas" por Nuno Reis

Enquanto nós jovens nos preocupamos com o dia-a-dia e com a vida que passa a correr, quem está na terceira idade costuma ter dúvidas um pouco mais importantes. Do género “viverei até amanhã?” e “o que ainda faço aqui?”. O cinema tem vindo a abordar este tema cada vez mais e melhor, e uma das últimas grandes obras sobre isso é "Arrugas".

Esta começa por ser a história de Emilio. Um homem que, como tantos outros, a família colocou num lar por não conseguir lidar com o seu estado. Nesse lar vai conhecer Miguel, Antónia, e muitos outros idosos que lá estão porque é a ordem natural das coisas. Um destino que tem tanto de inacreditável como de inevitável.
A primeira metade do filme desenrola-se normalmente. Vamos ver como estas dezenas de pessoas ultrapassam cada dia, por entre recordações de um passado que já lá vai, e sonhos por realizar de uma vida que termina. A segunda metade vai mais além. Vamos conhecê-los na doença. As condições mudaram. Ninguém está preparado. Só os mais fortes sobreviverão.

É preciso dizer que apesar de encontrarmos na equipa muitos nomes sonantes da animação galega, a técnica aqui foi uma das menores preocupações. Foram fiéis ao estilo do comic em que se baseia levemente, mas o importante era a história e conseguir passar uma mensagem. Em imagem real talvez o efeito fosse igual, mas através dos desenhos é dado um ritmo ainda mais controlado às cenas. Rápido ou lento de acordo com a etapa da vida que estas personagens atravessam. A mensagem é sobre amizade, confiança, angústia, aproveitar as coisas boas da vida e lidar com as más. Mas o principal de tudo é saber viver. Não querendo com isso dizer que se deve fazer loucuras até que nos mate, mas que se deve saborear cada dia e o que ele nos traz. Mesmo que o corpo não nos queira levar, teremos sempre as asas da imaginação. É só uma questão de a saber usar.

Um filme de ritmo muito pausado, mas que a qualquer momento nos consegue levar às nuvens e fazer repensar as prioridades. Porque ninguém está imune à velhice e temos de o aceitar, para a podermos aproveitar.
A sociedade moderna já conseguiu prolongar a vida para além do que se imaginava possível. Está na hora de começar a torná-la melhor. Até lá, deixem filmes assim fazerem o que é possível.
ArrugasTítulo Original: "Arrugas" (Espanha, 2011)
Realização: Ignacio Ferreras
Argumento: Angel de la Cruz, Ignacio Ferreras, Rosanna Cecchini e Paco Roca (também autor do comic)
Intérpretes: Tacho González, Álvaro Guevara, Mabel Rivera
Música: Nani García
Fotografia: David Cubero
Género: Animação, Drama
Duração: 85 min.
Sítio Oficial: http://www.arrugaslapelicula.com/

"También la Lluvia" por Nuno Reis

No ano de 2010 referi neste espaço a descontracção com que Luis Tosar encarou o facto de estar nos três filmes que Espanha considerava nomear a Oscar. Apesar de "También la Lluvia" ter sido o eleito, demorou a estrear aqui. E em 2012 tivemos oportunidades quase consecutivas de o ver, com a Cinefiesta em Novembro e a estreia comercial em Dezembro.
O tema aparente é Cristovão Colombo, mas na realidade é muito mais profundo. É sobre como nada mudou em quinhentos anos de civilização.

Uma equipa de filmagens está a trabalhar num filme sobre o famoso explorador que entregou as Américas a Espanha. Falará do desembarque, do contacto com os nativos, da religião e das vozes que se levantaram contra a escravatura nessas primeiras décadas. A grande ironia é que filmar nas Caraíbas (entre viagens, equipamento e mão-de-obra) ficava extremamente caro e por isso estão a filmar na Bolívia. Ter os Andes em vez de mal não é um problema. O momento é que não é o melhor. A população está revoltada porque o governo entregou as águas públicas a uma companhia estrangeira. Para recuperar o investimento os preços triplicaram e a conivência governamental chega a tal ponto que fecham por "razões sanitárias" qualquer poço que possa fazer concorrência à água canalizada. Uma guerra civil prestes a acontecer pode não ser motivo de preocupação para os espanhóis, mas quando o nativo principal do filme é o líder desse movimento e está constantemente preso ou a ser disfigurado à pancada, gera situações complicadas de resolver.

Este é um drama humano do século XX e com tendências a piorar no XXI. O equilíbrio frágil entre investimento e exploração não pode ser quebrado. Um povo que nunca teve problemas com a água, ser obrigado a pagar o que não pode por um serviço do qual não precisaria, é escandaloso. Noutros sítios a situação pode ser diferente, mas a metáfora é a mesma. Passados quinhentos anos, o tesouro dos estrangeiros mudou, mas continuam a ser explorados.
Apesar de toda a situação ser devidamente apresentada, muito falta para a história cativar. Um dos problemas é que os actores Bernal e Tosar são demasiado actores para ser vistos como director e produtor. Os restantes actores ficam muito bem, seja o estreante Juan Carlos Aduviri ou o veterano Karra Elejalde, mas as estrelas demoram a convencer como algo que não são.
O argumento está bem construído. Vai dando a devida importância a cada tema e dá o Antón (personagem de Elejalde) um papelão. Aliás, o filme dentro do filme é muito apelativo. E os momentos de convívio da equipa de filmagens captados pelo documentário são o mais reais que era possível inventar. Quando esse documentário salta para a Bolívia, é desperdiçado como possível fio condutor, como aconteceria na realidade. Onde faltam as grandes cenas é no filme principal. Muita indecisão e medo, mas sempre a vontade de fazer o correcto. É demasiado artificial e nem assim tem diálogos extraordinários.

Quanto à mensagem que pretende transmitir, estava conseguida quase desde o princípio. Era bom que todos os governantes vissem este filme antes de darem o seu país aos estrangeiros e venderem os cidadãos como mão-de-obra escrava. E que também o povo, veja para acreditar que nenhum governo pode agir contra os interesses da população. Senão qualquer dia, também nos querem tirar a chuva.

Porque opressão e revolução, não é só na Bolívia.
También la LluviaTítulo Original: "También la Lluvia" (Espanha, México, França, 2012)
Realização: Icíar Bollaín
Argumento: Paul Laverty
Intérpretes: Luis Tosar, Gael García Bernal, Juan Carlos Aduviri, Karra Elejalde, Raúl Arévalo, Carlos Santos, Milena Soliz
Música: Alberto Iglesias
Fotografia: Alex Catalán
Género: Drama, História
Duração: 103 min.
Sítio Oficial: http://www.tambienlalluvia.com/en/

"Las Aventuras de Tadeo Jones" por Nuno Reis

Uma das maiores lendas do cinema de acção e aventura é Indiana Jones. Como os direitos sobre essa personagem está bem protegidos, a alternativa era fazer alguém totalmente diferente. Usar o nome para fins promocionais, mas apresentar um indivíduo que nunca pudesse ser o herói e galã interpretado por Ford. Ele é Tadeo Jones, arqueólogo amador, trapalhão profissional e anti-herói de ocasião.
”Tadeo
Tadeo sempre sonhou ser um arqueólogo. Idolatrando um pai que não conheceu, vai fazendo a sua vida comum, sempre alegre e esperançoso, mesmo que sem grandes possibilidade de alguma vez conseguir o que quer. Até que um dia, uma descoberta nas obras o vai levar ao museu. As visitas de Tadeo ao museu são frequentes, e são todas descobertas inglórias, mas desta vez é diferente. Pela primeira vez na vida, está no lugar certo à hora certa e vai partir numa enorme aventura em busca do tesouro mais desejado do mundo.
”Tadeo
Com muita franqueza, toda a trama é mais do que previsível. Há algumas situações inesperadas (“homenagens” ao Indy que tiveram muita lata em fazer) e algumas das personagens são deveras divertidas, mas para quem estiver fora do escalão etário do filme, vai ser menos apelativo. O seu grande trunfo é a múmia guardiã do tesouro que, essa sim, vai ser diferente de tudo o que se possa imaginar. Após 80 minutos de aventuras a bom ritmo, temos o final feliz que se queria, aberto para muitas sequelas.
Do ponto de vista técnico o genérico inicial é logo uma boa surpresa e a animação não desilude. A animação espanhola continua a dar trunfos num mercado competitivo. Só faltam as ideias novas.
Las Aventuras de Tadeo JonesTítulo Original: "Las Aventuras de Tadeo Jones" (Espanha, 2012)
Realização: Enrique Gato
Argumento: Javier López Barreira, Gorka Magallón e outros
Vozes: Óscar Barberán, Fiona Glascott, Carles Canut, Pep Anton Muñoz, Mac Macdonald
Música: Zacarías M. de la Riva
Género: Animação, Aventura, Comédia
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: http://www.tadeojones.com/

3 de dezembro de 2012

"El Sexo de los Ángeles" por Nuno Reis

Por entre a grande quantidade de filmes que passaram na Cinefiesta, um que pode ter passado despercebido, infelizmente, é "El Sexo de los Ángeles". O mais recente filme de Xavier Villaverde (que os seguidores do Fantasporto recordarão de "Trece Campanadas") é uma fabulosa e muito acessível história sobre o amor fora do convencional.

Temos Carla e Bruno, dois estudantes universitários que se amam desde sempre, moram juntos e vão ser felizes para sempre. Uma manhã, ao enfrentar um carteirista, Bruno leva uma pancada na cabeça que lhe vai mudar completamente a vida. Drogas ligeiras, ocupação de casas, homossexualidade... Ele não era assim! Pode parecer o mesmo jovem, mas o seu comportamento não é igual. Enquanto isso, Carla continua a derradeira luta para salvar o jornal académico pelo que não se apercebe das diferenças até ser tarde de mais. Vai-se distraíndo das suas obrigações devido a este dilema, o que lhe traz consequências profissionais e junto com a situação dos pais aumenta o seu nervosismo.
A ironia do filme está em isto não ser uma consequência da pancada. Bruno ainda é jovem, está a descobrir quem é. As drogas parecem já ter sido parte da sua vida, a ocupação não foi propositada, e a homossexualidade, foi uma questão de encontrar a pessoa certa. Ele não gosta de homens no geral e não deixou de gostar de mulheres. Simplesmente da mesma forma que ama Carla e a prefere a qualquer outra, também Rai é o único homem de quem gosta. Porque o amor/desejo não pode ser limitado a um género. O amor/desejo é por um indivíduo.

Claro que não é um tema fácil. E "El Sexo de los Ángeles" foi feito para chocar um bocadinho as mentes mais conservadoras. Não é demasiado explícito no sexo entre homens, e antes de o mostrar, tem sempre um muito mais ousado acto sexual entre homem e mulher. Quem for terminantemente contra as relações homossexuais não gostará do filme apenas por isso. Quem for curioso, pode-se focar demasiado nesse ponto e perder a verdadeira mensagem. Quem estiver preparado e for capaz de se abstrair do género dos intervenientes, para ver apenas os dilemas de uma relação a três, vai ter uma experiência única.
Por um lado temos Bruno dividido entre o amor e o desejo, entre a relação estável a a aventura. Depois temos Carla que se sente traída, mas é capaz de perdoar. E finalmente Rai que se envolveu apenas por diversão e acabou a sentir mais do que esperava. Ora tudo isto é universal. Abstraindo-nos do género - e perdoem-me repetir sempre isto, mas será a maior dificuldade para quem assista - não são três rumos narrativos possíveis para um qualquer drama romântico?
Além desse drama apresentado com sentimento, há ainda uns toques de humor (não eram necessários, mas não destoam) e o grande trunfo de ser orgulhosamente falado em catalão sempre que os intervenientes o são. Para um estrangeiro isso pode passar despercebido, mas é um passo importante para aceitar a multiculturalidade espanhola.

Depois da sessão sai-se com muito em que pensar e com a satisfação de tempo bem passado pois desde a dança perfeitamente sincronizada da abertura, até ao último frame, que não revelo, experimenta-se todo o género de emoções. Um filme para rever assim que estreie.

El Sexo de los ÁngelesTítulo Original: "El Sexo de los Ángeles" (Espanha, Brasil, 2012)
Realização: Xavier Villaverde
Argumento: Ana Maroto, Xavier Villaverde, José Antonio Vitoria
Intérpretes: Astrid Bergès-Frisbey, Álvaro Cervantes, Llorenç González, Sonia Méndez, Julieta Marocco
Música: Eduardo Molinero
Fotografia: Sergi Gallardo
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 105 min.
Sítio Oficial: http://www.elsexodelosangeles.es/

2 de dezembro de 2012

"La Chispa de la Vida" por Nuno Reis

A vida é feita de momentos. Por vezes basta ter uma ideia genial para mudar a nossa vida. E basta uma decisão errada para darmos cabo dela. Roberto Gómez (José Mota) é um publicitário desempregado. A mulher (Salma Hayek) lembra-o constantemente como foi genial há vinte anos, quando inventou o slogan “A Faísca da Vida” para uma popular marca, mas do que ele se lembra é que há dois anos que não tem trabalho, o subsídio de desemprego acabou e as perspectivas de emprego não melhoraram com a crise. A entrevista de hoje tem de ser a tal. Os seus antigos colegas de certeza que lhe conseguirão um lugar para que se recomponha. Ou então, uma série de eventos vai atirar Roberto para o evento mais mediático do ano, onde terá de jogar com a própria vida para garantir a subsistência da família.

Alex de la Iglesia raramente foi comedido nas suas críticas. Nos anos mais recentes tem sido ainda mais frontal e aqui todos ouvem o que não queriam. É a crise, são as televisões em busca de sangue, são as empresas de relações públicas e os políticos... e, enquanto isso, uma família que nos relembra do que é realmente fundamental.

O filme começa bem, com uma ideia simples e estereótipos odiáveis. Faz críticas mordazes e vai acertando nos pontos que doem. Infelizmente perde-se nas variações entre a comédia que é, os temas sérios que trata e as personagens ridículas (ou melhor, distintas) que aparecem no final para dar um ar mais credível à família. Até a piada do product placement foi sobreaproveitada. E o ataque a alguém das televisões parece demasiado específico para não ser uma referência a alguém real. Só lamento não perceber quem.

No elenco Mota tem um papel um pouco parado, mas divertido. Por oposição Fernando Tejero mexe-se muito, e acaba por ser demasiado demasiado alegre para o verme nojento que desempenha. Salma Hayek tem uma personagem muito interessante, permitindo ser sensual e ao mesmo tempo mãe de família, assim como fazer um pouco de comédia e drama. A presença de Carolina Bang pode ser motivada pela sua relação com Iglesia, mas não compromete em nada o filme. É uma personagem simpática e que acaba por ter bastante relevância na história.

Um filme que podia ter sido bastante mais se não abusasse da comédia. Bastava a ironia da situação.
La Chispa de la VidaTítulo Original: "La Chispa de la Vida" (Espanha, França, EUA, 2011)
Realização: Alex de La Iglesia
Argumento: Randy Feldman
Intérpretes: José Mota, Salma Hayek, Carolina Bang, Blanca Portillo, Juan Luis Galiardo, Fernando Tejero
Música: Joan Valent
Fotografia: Kiko de la Rica
Género: Comédia, Drama
Duração: 98 min.
Sítio Oficial: http://www.lachispadelavida.es/

"Tengo Ganas de Ti" por Nuno Reis

A juventude é um período em que tudo é possível, tudo é permitido, e o tempo funciona ao contrário. A juventude é um estado de espírito. "Tengo Ganas de Ti" parecia um vulgar romance juvenil. Vê-lo assim é possível, mas há muito mais por trás.
A primeira coisa a fazer é desligar o cérebro. A plausibilidade é rara. O acaso e a sorte movem-se por todo o lado. Todavia, com um olhar menos crítico, as situações que essas "liberdades" narrativas permitem, podem ser apreciadas.

A história parece familiar. Rapaz e rapariga gostam um do outro. Namoram, acabam e não se voltam a ver. Os amigos acham que eles deviam continuar juntos, mas a simples referência a esse facto basta para ele a esquecer e ir jantar com a ladra que encontrou pelo caminho e que o andava a perseguir discretamente. Subitamente é uma história muito mais complexa onde além de amores desencontrados e relações impossíveis, há um fantasma (não no sentido literal) do passado a assombrar um grupo de amigos. E o protagonista pode bem ser esquizofrénico pois gosta muito de falar com esse fantasma não-literal.

Por vezes é uma vulgar história de amor, outras é o retrato possível de uma geração demasiado jovem para conseguir lidar com o fim da vida. Ao mesmo tempo é sobre adolescentes a procura de afirmação e que recorrem às drogas para serem livres, acabando por entrar noutra prisão. E é sobre amizade incondicional e uma obrigação eterna que se tem perante aqueles a quem se jurou amor eterno. E é sobre fracassar a defender essas pessoas, tanto as que nos deixaram como as que nós deixamos. Porque ninguém consegue fazer tudo e estar em todo o lado.
É esta absurda quantidade de ideias que se cruzam no filme. Uma simples comédia romântica com potencial, que se desgraça a partir do momento em que tem mais fios condutores da narrativa do que personagens. Tenta ser uma obra completa e falha redondamente, desperdiçando um bom trabalho de realização em apenas algumas cenas memoráveis. Mas será assim tão mau?
Até que tudo faz sentido: apesar de o programa da Cinefiesta não ser claro nesse ponto, isto é uma sequela! É preciso ver "Tres Metros Sobre el Cielo" para saber do que falam, para entrar na história à primeira, para conhecer as personagens e o que lhes vai na mente. Só assim, como entre velhos amigos, todos os silêncios passam a pertencer a uma história maior. Continuam a ser demasiados problemas, mas quem vê sente-os como seus, sabe como lidar com eles.

"Tengo Ganas de Ti" pega na grande história de amor que os adolescentes espanhóis queriam saber como terminaria, e transporta-a para o mundo real. Onde não há finais felizes só porque se ama.
É uma chamada à realidade, não o típico romance cor-de-rosa. Com um bocado mais de cuidado no argumento podia ter ficado um bom filme.
Tengo Ganas de TiTítulo Original: "Tengo Ganas de Ti" (Espanha, 2012)
Realização: Fernando González Molina
Argumento: Ramón Salazar (livro de Federico Moccia)
Intérpretes: Mario Casas, María Valverde, Clara Lago, Álvaro Cervantes, Marina Salas, Andrea Duro
Música: Manel Santisteban
Fotografia: Xavi Giménez
Género: Drama, Romance
Duração: 124 min.
Sítio Oficial: http://www.tengoganasdetipelicula.com

28 de novembro de 2012

"Blancanieves" por Nuno Reis

Depois de "The Artist" ter conquistado tantos Oscares, é um bocado suspeito que Espanha apresente à Academia, um candidato filmado ao estilo do cinema mudo. E podem dizer que “Blancanieves” é um aproveitamento de uma receita que funciona para prémios. Contudo não é a que estão a pensar. Nâo é a que venceu no concurso do ano passado. É uma receita velha, mas que vem do tempo dos irmãos Grimm e tem encantado gerações. É a história da Branca de Neve.

Esta invulgar adaptação da Branca de Neve tem algumas características únicas. Para começar ser mudo e a preto e branco, como não se via há muito tempo. Mas especialmente começar numa praça de touros. Sevilha, início do século XX. O grande toureiro Antonio Villalta vai enfrentar seis animais de rajada. Na bancada, a sua mulher Carmen de Triana assiste, emocionada e grávida. A criança vai nascer abençoada com talento para a tauromaquia como o pai e para a dança como a mãe, mas o azar vai persegui-la toda a vida.

Pablo Berger não será dos nomes mais conhecidos do cinema espanhol, nem sequer para os seus conterrâneos. Este é apenas o terceiro filme que apresenta. No entanto logo na primeira curta - “Mama” (1988) ficção-científica sobre uma família escondida numa cave - tinha um jovem Alex de la Iglesia às suas ordens (desenho de produção). Com o reconhecimento obtido nessa demonstração de talento foi estudar cinema para o estrangeiro por onde ficou alguns anos. A proposta seguinte - “Torremolinos 73” - é uma comédia sobre um casal que descobre fama e fortuna no cinema pornográfico. Como se passa disso para um filme artístico de época? Muito bem aparentemente.
O argumento aproveita tudo o que a história tinha para dar, e organiza-o da forma mais conveniente. Com muito humor e bastante drama, reconta-nos uma história que sabemos de cor e mesmo assim desejamos que tenha um rumo mais feliz para Branca (que na verdade é Carmen). Mas até ao fim os infortúnios sucedem-se, como em todas as reencarnações de Branca de Neve. E quando achamos que vai acontecer o que todos esperam, talvez a história mude, só para provar que o espectador não pode dar palpites.

Há uma clara crítica sobre os anos 20 e a sociedade de então. É algo comum a todos os filmes espanhóis sobre esse período. Os anos 20 foram um período de prosperidade sob o domínio do General Rivera, antes do regresso da República que levaria à Guerra Civil e a Franco. A própria vida desta Branca pode ser interpretada como uma metáfora da existência espanhola: uma inesperada passagem por alegria incompleta, sofrimento justificado, jubilo e, finalmente, inanição. A tourada por outro lado é a alma espanhola. Tinha de fazer parte. Mesmo sendo contra essa forma de tortura, é difícil negar a beleza dos movimentos tão bem trabalhados para cativar o espectador. Aí, como em tudo o resto, mais do que da realização o filme vive da montagem. A perfeita sintonia entre música e imagem. As sequências de frames sem tempo de ganharem movimento. A expressividade corporal e de rosto do elenco. É uma hipnotizante história que dispensa bem os diálogos e que fica bem gravada na memória.

BlancanievesTítulo Original: "Blancanieves" (Espanha, 2012)
Realização: Pablo Berger
Argumento: Pablo Berger
Intérpretes: Macarena García, Sofía Oria, Maribel Verdú, Daniel Giménez Cacho, Imma Cuesta, Ángela Molina
Música: Alfonso Vilallonga
Fotografia: Kiko de la Rica
Género: Comédia, Drama
Duração: 98 min.
Sítio Oficial: http://www.blancanieves.es/

27 de novembro de 2012

Para ver na Cinefiesta: El Sexo de los Ángeles

"El Sexo de los Ángeles" de Xavier Villaverde

Bruno e Carla estão apaixonados e vivem juntos. Ainda que discutam algumas vezes, nada os separa. Até que um dia, um jovem encantador chamado Rai entra nas suas vidas e provoca uma crise inesperada: ele e Bruno começam uma relação secreta, embora Bruno continue apaixonado por Carla, e ela também não o queira perder. As coisas complicam-se quando Carla decide entrar no jogo...El Sexo de los Ángeles
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Para ver na Cinefiesta: También La Lluvia

"También La Lluvia" de Icíar Bollaín

Sebastián, jovem realizador idealista, jurou fazer um filme sobre uma das mais icónicas figuras mundiais, Cristóvão Colombo. Contra a mentira de um génio liderando uma missão divina de ganhar “almas para Cristo”, Sebastián está determinado em mostrar o outro lado do mito da chegada da Civilização Ocidental às Américas como uma força do bem. O seu filme mostrará aquilo que Colombo desencadeou: a corrida ao ouro, a escravização dos povos, e a terrível violência com que foram reprimidos os indígenas que ofereceram resistência. O brilhante ator que representa Colombo desafiará constantemente o realizador, acusando-o de hipocrisia e manipulação barata. Costa, desacreditado produtor e amigo de Sebastián, não quer saber. Tudo o que lhe importa é que o filme fique pronto a tempo e dentro do orçamento. Costa tem um plano louco. Apesar da fúria de Sebastián, eles filmarão na Bolivia, o mais barato, mais “indígena” dos países latino americanos. Enquanto filmam nos arredores da cidade de Cochabamba, um clima de inquietude civil e política se instala, à medida que o fornecimento de água da cidade é privatizado e vendido a uma multinacional anglosaxónica. A violência aumenta de dia para dia, até que a cidade explode naquilo hoje conhecido pela Guerra da Água (Abril de 2000). 500 anos depois de Colombo, paus e pedras novamente confrontam a tecnologia do exército moderno. David contra Golias. Só que desta vez a luta não é pelo ouro, mas pelo mais simples e vital dos elementos, a água.También La Lluvia
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26 de novembro de 2012

Para ver na Cinefiesta: La Chispa de la Vida

"La Chispa de La Vida" de Alex de la Iglesia

Roberto, um publicitário desempregado, é recusado por todas as agências onde busca trabalho. A sua situação financeira é desesperante. Já ninguém liga que tenha sido ele a inventar o slogan da Coca Cola “a faísca da vida”. Tudo muda quando ele sofre um acidente que o põe entre a vida e a morte. Fica encarcerado de tal modo que nem o Inem, nem os bombeiros, nem sequer os médicos chegam a acordo de como o resgatar. O absurdo e o dramático do sucedido atraem o interesse dos meios de comunicação.La Chispa de La Vida
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Para ver na Cinefiesta: Blancanieves

"Blancanieves" de Pablo Berger

Adaptação livre, de carácter gótico, do popular conto dos irmãos Grimm, passada na Espanha dos anos 20. Branca de Neve é Carmen, uma bela jovem com uma infância atormentada pela sua terrível madrasta Encarna. Fugindo do passado, Carmen empreenderá uma apaixonante viagem acompanhada por novos amigos: um grupo de Anões Toureiros.Blancanieves
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Para ver na Cinefiesta: Mientras Duermes

Por enquanto este é o único filme da selecção já criticado no blog.

"Mientras Duermes" de Jaume Balagueró

César é porteiro num prédio. Pode não ser o melhor trabalho do mundo, mas a verdade é que não o trocaria por nenhum outro, já que este lhe permite conhecer a fundo todos os inquilinos do imóvel, seus movimentos, seus hábitos. Controla as suas idas e vindas, estuda-os, descobre seus pontos fracos, os seus segredos. Se quisesse poderia inclusive controlar as suas vidas, intervir nelas como se fosse Deus, sem ninguém suspeitar. César tem um jogo secreto: gosta de magoar, mover as peças necessárias para criar dor em seu redor. A nova vizinha do 5ºB sorri, entra e sai todos os dias radiante, cheia de luz, convertendo-se assim na sua próxima vítima. A sua obsessão. O jogo de César vai começar a complicar-se, tornando-se imprevisível. Perigoso. Se não tiver cuidado, pode inclusive voltar-se contra ele.Mientras Duermes
Crítica no Antestreia

Para ver na Cinefiesta: Fin

"Fin" de Jorge Torregrossa

Após anos sem se ver, um grupo de amigos reúne-se para um fim de semana na montanha. Mas a espreitar por trás das risadas está um episódio sombrio do passado, que continua pairando sobre eles. Durante a primeira noite, um estranho incidente altera os seus planos, deixando-os completamente isolados do exterior. Decidem sair e procurar ajuda, mas no percurso o grupo se desintegra à medida que uma nova ordem natural se impõe.Fin
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25 de novembro de 2012

Para ver na Cinefiesta: Tengo Ganas de Ti

"Tengo Ganas de Ti" de Fernando González Molina

Após uma temporada em Londres, Hache volta para casa distanciado do seu inesquecível primeiro amor por Babi. Enquanto tenta reconstruir a sua vida, uma rapariga alegre e efervescente, Gin, o faz acreditar que é possível apaixonar-se outra vez. Mas, mais tarde ou mais cedo, o reencontro de Hache e Babi será inevitável.Tengo Ganas de Ti
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Para ver na Cinefiesta: Grupo 7

"Grupo 7" de Alberto Rodríguez

Para o Grupo 7, os meios justificam os fins: violência, coação, mentiras e meias verdades, vale tudo. Entre Ángel, jovem e inteligente aspirante a detetive, e Rafael, o polícia arrogante, surgirá uma estranha compreensão e descobrirão parecer-se mais do que alguma vez teriam imaginado. Ángel transita com cada vez mais à vontade pelo caminho da ambição e dos excessos policiais, enquanto algo se transforma no interior de Rafael graças ao amor inesperado pela bela e enigmática Lucía.Grupo 7
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Para ver na Cinefiesta: Arrugas

"Arrugas" de Ignacio Ferreras

Longa-metragem de animação 2D para um público adulto baseada na aclamada banda desenhada homónima de Paco Roca (Premio Nacional del Comic 2008). 'Arrugas' narra a amizade entre Emilio e Miguel, dois idosos internados num lar. Emilio, que acaba de chegar num estado inicial de Alzheimer, será ajudado por Miguel e outros colegas para não acabar no piso superior da instituição, o temido andar dos “assistidos”, que é como ali chamam aos casos perdidos. Este tresloucado plano traz humor e ternura ao entediante dia-a-dia do lar, pois embora para muitos a vida esteja a chegar ao fim, para este grupo ela só agora está a começar.Arrugas
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Para ver na Cinefiesta: Tadeo Jones

Amanhã a CineFiesta chega ao Porto. Podem ver o programa aqui, mas para ajudar vamos publicando a ficha de cada filme na véspera.

"Las Aventuras de Tadeo Jones" de Enrique Gato

Devido a um mal entendido, confundem Tadeo, um pedreiro sonhador, com um famoso arqueólogo e enviam-no para uma exploração ao Perú. Com insólitos ajudantes, a começar pelo seu fiel cão Jeff, tentará salvar a mítica cidade perdida dos Incas de uma mal-intencionada incursão de caça-tesouros.Las Aventuras de Tadeo Jones
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21 de novembro de 2012

20 de novembro de 2012

Cinefiesta 2012 - algumas considerações

Havendo duas localizações para este evento, é inevitável fazer uma comparação.
Um ponto logo a favor é a igualdade. Filme que passe em Lisboa também passa no Porto. O número de sessões é inclusivamente superior a Norte, devido à repetição de várias sessões. As animações que em Lisboa passam duas vezes no Porto passam quatro. Aguns filmes que em Lisboa passam apenas uma vez, no Porto repetem. No total o Porto tem mais oito sessões. O meu único alerta iria para a hora das sessões. "Arrugas" por ser de animação e a meio da tarde (Como "Tadeo Jones") pode ser encarado pelo público como um filme infantil quando é um filme para um público adulto.
O segundo ponto é a distribuição. Lisboa tem a facilidade de ter um Sâo Jorge e uma Cinemateca pelo que a divisão dos filmes entre os dois é muito transparente. No entanto Documentários e Retrospectiva passam na Cinemateca, para um público mais específico, e a Ficção passa na sala com público mais diversificado. Infelizmente muitas delas são em simultâneo, mas também são menos dias. No Porto a segregação é ainda maior com Ficção nas salas comerciais, Documentários na Biblioteca e Retrospectiva no Campo Alegre. Em três espaços geograficamente distintos mas horários compatíveis, uma pessoa com as tardes livres pode perfeitamente ver todos os filmes ao longo dos sete dias.
Finalmente, os convidados. O ideal seria ter Luis Tosar, rosto do cinema espanhol moderno com vários filmes aqui apresentados, ou o mediático Gael Garcia Bernal. A vinda de quatro convidados sabe a pouco (especialmente porque o mais famoso, Jaume Balagueró, é visita habitual) e a sua limitação a Lisboa também, mas comprende-se. São as salas com aspecto para "estrangeiro ver" e é onde a imprensa está. Quanto ao número, veremos o que a imprensa faz com estes, antes de se pedir mais.

Falando dos filmes, é uma selecção variada. O título mais conceituado é "También la Lluvia", mas inclui vários Goyas e cobre vários géneros e autores. Permite ter uma boa ideia do que o cinema espanhol tem feito nos últimos anos.