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30 de abril de 2011

"Outlander" por Nuno Reis

Dois anos depois da passagem pelo Fantasporto e de algumas distribuições limitadas pelo mundo fora chegou às nossas salas comerciais "Outlander". Sem que o filme alguma vez merecesse o destaque de ter estreia comercial, talvez tenha sido a aproximação da chegada de "Cowboys & Aliens" que motivou o lançamento deste "Vikings vs. Alien". Se a ideia era mostrar que tinham feito a mesma história três anos antes correu mal, porque não só a fizeram mal como o livro que inspirou o novo projecto é anterior.

Kainan despenhou na Terra no início do século VIII, numa região que hoje é conhecida por Noruega. Na sua nave vinha também uma criatura conhecida como Moorwen que aproveitou para escapar. Na busca pelo monstro passa por uma aldeia totalmente destruida e queimada. Ele sabe o que fez aquilo e sabe que tem de deter Moorwen o mais depressa possível, mas pode não ter armamento que chegue. Para piorar as coisas é capturado pelos nativos e, por ser um estranho, é acusado do atentado. Apesar de um aparelho lhe permitir falar a língua, vai ter de provar a sua inocência e ganhar a confiança dos vikings porque só unidos poderão derrotar o monstro vindo do espaço antes de serem todos dizimados e o planeta colonizado por uma espécie invasora.

Quem quiser ver um filme repleto de selvagens, mortes e mutilações sangrentas, com seres criados por CGI tem aqui uma boa oportunidade. A componente bélica do filme é realmente forte e bem coreografada, assim como a fotografia. O problema é que quando se tem estrelas como Jim Caviezel, Ron Perlman e Jonh Hurt e a sinopse diz que há guerreiros e extraterrestres se imagina logo um cruzamento de "Braveheart" com "Predator". Pode ter semelhanças, mas falta-lhe muito para chegar a esse nível. O argumento é cliché e o filme no seu todo é mais um desperdício de tempo do que entretenimento (e a criatura parece mais da família do Alien do que de um Predator).

OutlanderTítulo Original: "Outlander" (Alemanha, EUA, 2008)
Realização: Howard McCain
Argumento: Howard McCain, Dick Blackman
Intérpretes: Jim Caviezel, Sophia Myles, Jack Huston, John Hurt, Ron Perlman
Música: Geoff Zanelli
Fotografia: Pierre Gill
Género: Acção, Aventura, Ficção-Científica
Duração: 115 min.
Sítio Oficial: http://www.outlander-themovie.com/

8 de janeiro de 2010

"The Unborn" por Ricardo Clara

Texto originalmente publicado na Take 14 - http://www.take.com.pt

Se o leitor, atento a estas coisas do terror, tiver pensado qualquer coisa como: «olha mais um filme da treta, com jovens esculturais em trajes menores, a fugir alucinadamente de um fantasma», só lhe posso dar inteira razão. David S. Goyer, o seu realizador, até tem, à partida, alguns atributos interessantes – não estivesse ele na adaptação dos mais recentes Batman. Aliás, convem não esquecer que foi este norte-americano o criador de Blade, e que realizou (com pouco sucesso, diga-se) "Blade Trinity: Perseguição Final" (2004), o que não o torna num debutante no mundo do cinema fantástico.

Em "Espírito do Mal", Casey Beldon (Odette Yustman) é uma bela estudante a braços com um pesado fado. O suicídio da mãe, internada numa clínica psiquiátrica, ainda hoje lhe deixa marcas, às quais se somam estranhos comportamentos do infante vizinho, que inclusive lhe toldam os sonhos. Intrigada com aquilo que lhe parece ser a perseguição por uma assombração, Casey procura Sofi Kozma (Jane Alexander), uma sobrevivente do Holocausto, que fica aterrorizada com a sua presença. Aos poucos, e no lento desenrolar de uma entediante trama, a verdadeira razão emerge. Casey está a ser perseguida por um dybbuk, uma entidade paranormal que "vive" no limbo entre a vida e a morte, e que mais não é do que o irmão gémeo da protagonista, morto ainda antes de nascer. Com a ajuda do Rabi Sendak (um tonto Gary Oldman), procura refazer a sua vida através de um exorcismo, que pode ter trágicas consequências na sua vida.

Claro está que voltamos ao primeiro parágrafo deste texto: "Espírito do Mal" é uma treta de terror, e uma das fitas do género mais entediantes que tive a oportunidade de assistir nos últimos anos. Estranho, até pelo desenrolar do objecto, é o facto de estarmos perante uma obra de um argumentista de raiz e de formação, que nos brinda com diálogos muito pobres (que a direcção de actores vem piorar ainda mais) e com banais mudanças de orientação narrativa. O filme é quase todo um banal cliché de terror – os momentos de "salto na cadeira" introduzidos de forma cronometrada, os espelhos, a chuva, a noite, o armazém, enfim, tudo. De positivo (porque mesmo este tédio tem algumas coisas dignas de registo), louve-se a opção de Goyer de enveredar por um mundo até agora pouco explorado, que é o da mitologia judaica e do misticismo esotérico da Cabala. Noções como exorcismo judaico ou dybbuk são interessantes, se convenientemente aproveitadas (e poupem-nos aquela palermice nazi do campo de concentração, por favor). Mas com esta falta de criatividade, e pela nossa parte, dispensamos liminarmente.

Mais uma ignorante tentativa de terror a sair directamente do forno norte-americano, que ou nos presenteia com isto, ou procura sequelas e remakes orientais.

Título Original: "The Unborn" (EUA, 2009)
Realização: David S. Goyer
Argumento: David S. Goyer
Intérpretes: Odette Yustman, Gary Oldman, Cam Gigandet, Idris Elba, Carla Gugino
Fotografia: James Hawkinson
Música: Ramin Djawadi
Género: Terror, Thriller
Duração: 88 min.
Sítio Oficial: http://www.theunbornmovie.net/

6 de dezembro de 2009

"O'Horten" por Nuno Reis


Este será dos filmes mais invulgares estreados por cá em 2009. Fala da reforma como sendo o início da vida, fala de arriscar, de conhecer pessoas e de sonhar. Fala de viver. Mas não se desenrola de forma linear. O simples acto de ver o filme obriga a estar atento e a reflectir. O cinema torna-se uma nova experiência se abrirmos a mente para algo diferente.

Odd Horten é um maquinista que se aproxima da reforma. na noite antes da sua última viagem os companheiros fazem um jantar de despedida, mas Horten acaba fechado fora de casa. Animado pela bebida ou pela alegria da festa, decide subir pelas escadas de incêndio e isso mudará a sua vida. Conhece um miúdo que o convida a entrar, adormece e... atrasa-se para o comboio. Esta falha no final da carreira vai levá-lo a percorrer a cidade com novos olhos, conhecer novas pessoas e começar a vida novamente. Porque a reforma é apenas mais uma etapa e o tempo é para ser aproveitado.
Odd é um nome comum norueguês para a geração representada, mas em inglês significa estranho, invulgar... Horten merece o nome que tem, pois tudo e todos que encontra são estranhos. Mas Horten não lhes fica atrás. Mesmo que os seus actos sejam menos loucos, a compreensão/aceitação do que os outros fazem é quase por si só sinal de loucura.
Quando este singular indivíduo reformado chegar ao fim da sua deambulação vai encarar a vida de outra forma. E também os espectadores que não adormeceram.

Foi um dos filmes que revi no Fantas com mais gosto. Ver uma vez não chegou para compreender e interiorizar tamanha riqueza de conteúdo e detalhe. Não só é preciso ir com olhos e mente aberta, como é preciso adoptar uma nova filosofia ao ritmo da história. O argumento criativo, as interpretações fenomenais e a banda sonora magnífica tornam este filme uma obra completa. A história em si não é muito memorável, mas a mensagem que passa fica.
O desenrolar pausado não é muito apelativo, mas é o ritmo a que Horten vive, a idade não permite mais. Para a maioria dos espectadores será um suplício ver um filme com tão pouca acção e com uma mentalidade tão única. Compreendendo o estilo é uma comédia que, não arrancando gargalhadas, faz sorrir por dentro. Quem quiser apreciar cinema tem aqui uma raridade que deve ter chegado por acidente à sala (está apenas numa).


Título Original: "O'Horten" (Alemanha, França, Noruega, 2007)
Realização: Bent Hamer
Argumento: Bent Hamer
Intérpretes: Baard Owe, Espen Skjønberg, Ghita Nørby
Fotografia: John Christian Rosenlund
Música: John Erik Kaada
Género: Comédia, Drama
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: http://www.sonyclassics.com/ohorten/

11 de agosto de 2009

"Quarantine" por António Reis


Pagar um milhão de dólares por um argumento de um filme espanhol de sucesso pode ser um bom negócio para quem o vendeu. Tenho sérias dúvidas que o tenha sido para quem o comprou e, pior ainda, para quem o foi ver como espectador. O filme de que falo é "Quarantine", a versão americana de "[REC]", que parte do pressuposto raras vezes correcto, de que os americanos conseguem fazer de argumentos europeus e asiáticos, blockbusters mundiais em formato standard. Tudo o que "[REC]" tinha de bom perdeu-se na sua remake. O estilo amador, a autenticidade das situações, a originalidade de um terror plausível, o sentido de humor que Balagueró e Plaza mantinham em todo o filme, desvanece-se na pretensão de se fazer uma média produção americana. Mesmo a vantagem adicional de ter sido em simultâneo um sucesso de público na Europa, bem recebido pela crítica, e multi-premiado em festivais do fantástico, não foi suficiente como promoção para Quarantine.
A questão é mesmo de se saber qual o interesse de fazer uma remake um ano depois do filme original, quando nada se acrescenta. Pelo contrário, parafraseando Lavoisier, "tudo se perde quando nada se cria, nada se transforma". A presunção de que a máquina de fazer cinema americana é mais eficaz no estilo e na publicidade, logo consegue vender melhor um produto mundialmente foi neste "Quarantine" um erro crasso. O que em "[REC]" parecia autêntico, em "Quarantine" é pastiche. As interpretações que eram verosímeis no primeiro, são meras representações no segundo. O camâra à mão que em "[REC]" era o essencial do estilo e de narrativa, torna-se em "Quarantine" apenas mais uma virtualidade técnica. Para quem como nós assistimos a "[REC]" em festivais de fantástico, com audiências ao rubro como em San Sebastian, Sitges e Fantasporto, resta-nos esperar por "REC 2" que está mesmo a sair e a confirmar que Jaume Balagueró e Paco Plaza são dois casos sérios do terror tanto a nível do argumento como de realização.
"[REC]"/"Quarantine" são a prova irrefutável de que existem diferenças substanciais entre cinema europeu e americano. Se viu "[REC]" evite "Quarantine". Se viu "Quarantine" veja "[REC]". Se não viu nenhum... veja "[REC]".

Título Original: "Quarantine" (EUA, 2008)
Realização: John Erick Dowdle
Argumento: John Erick Dowdle e Drew Dowdle inspirados no argumento de Paco Plaza, Luis Berdejo e Jaume Balagueró
Intérpretes: Jennifer Carpenter, Steve Harris, Jay Hernandez
Fotografia: Ken Seng
Género: Terror
Duração: 89 min.
Sítio Oficial: http://www.containthetruth.com/

"Transsiberian" por Nuno Reis

Quis a ironia do destino que Brad Anderson, depois de filmar um inesquecível maquinista, voltasse ao cinema para o mais célebre comboio do mundo.

A bordo do transsiberiano, um comboio que vive mais do turismo e curiosidade do que da necessidade de transporte terrestre entre os extremos orientais, o casal civilizado e humanitário Roy e Jessie (Woody Harrelson, Emily Mortimer) embarca para o que seria uma viagem de regresso cheia de encanto. A bordo do comboio vão conhecer outro casal, Carlos e Abby (Eduardo Noriega, Kate Mara), com dezenas de carimbos nos passaportes. Roy relaciona-se com eles e desfruta dos conhecimentos de turista que possuem, mas Jessie acaba por se ver presa num pesadelo. A viagem torna-se cheia de mistério, discretos crimes sucedem-se, um polícia com instinto (Ben Kingsley) investiga sem saber o que procura e Jessie cada vez se sente mais presa. Não sabe se é melhor ficar num comboio cada vez mais claustrofóbico ou sair para um país terceiro mundista, onde dificilmente se faz entender e não passa despercebida.

Seguindo a incontornável receita Filmax "Transssiberian" tem muito orçamento, nomes sonantes no cartaz e alguns dos maiores espanhóis da sétima arte em outros postos, a fazer currículo. Mas para fazer um bom filme é preciso começar por um bom argumento e este é muito insosso. Se os primeiros minutos prometem, os restantes comprometem. O filme tem um arranque convincente, vai ganhando intensidade, mas não consegue prender a atenção de um espectador. O argumento não é original, as interpretações não são arrebatadoras (Emily Mortimer é a excepção) e nas categorias técnicas está apenas um pouco acima da média. Ben Kingsley e Eduardo Noriega têm uma enorme capacidade expressiva e carisma, mas o filme precisava deles ao máximo, pedia mais que simples presença de ecrã. Woody Harrelson, Kate Mara e Thomas Kretschmann parecem estar lá só para criar situações específicas.
O argumento está hilariantemente recheado de situações pouco credíveis, comportamentos estranhos e acasos convenientes que depressa se tornam previsíveis. Talvez por isso a segunda metade não seja vista com a mesma expectativa. O clímax chega quando o filme já está moribundo e qualquer desenlace é bem-vindo.

Considerando os recursos financeiros, técnicos e humanos era justo esperar um grande filme. Este não sai da mediocridade e será uma grande desilusão para quem espera um novo "El Machinista".

Título Original: "Transsiberian" (Alemanha, Espanha, Lituânia, Reino Unido, 2008)
Realização: Brad Anderson
Argumento: Will Conroy, Brad Anderson
Intérpretes: Emily Mortimer, Woody Harrelson, Ben Kingsley, Eduardo Noriega, Kate Mara, Thomas Kretschmann
Fotografia: Xavi Giménez
Música: Alfonso Vilallonga
Género: Crime, Drama, Mistério, Thriller
Duração: 111 min.
Sítio Oficial: http://www.firstlookstudios.com/films/transsiberian/

25 de junho de 2009

"Palermo Shooting" por Nuno Reis

Wim Wenders na sua passagem pelo Fantasporto em 2009 tornou-se parte da história do festival. O seu filme foi ovacionado no Rivoli assim como o homem na cidade (parou na ponte D. Luís para dar autógrafos, teve cânticos improvisados na Rua das Flores) e serão precisos muitos anos para que o público esqueça que esteve entre nós um dos maiores cineastas do mundo. Correu tudo muito bem e Portugal está de parabéns, desta vez foi uma excepção positiva e dos poucos países onde estreou.

Finn é mais do que um fotógrafo, é o fotógrafo. Pode-se dar ao luxo de escolher os trabalhos que aceita e impor as suas condições como, por exemplo, fotografar Milla Jovovich em Palermo. Terminada a sessão tira uns dias para descanso, decidido a repensar a sua vida. Vai percorrer Palermo de máquina em punho e música nos ouvidos. Nas suas deambulações irá conhecer uma cidade obcecada pelo tempo, em especial pela morte, e uma artista que lhe mudará a forma de ver o mundo. Dependendo das suas decisões e da sua sorte poderá ser uma nova vida ou o fim da sua vida. Ou será aquele arqueiro que mais ninguém vê uma alucinação resultante do esgotamento que atravessa?

Este é um dos filmes mais pessoais de Wenders. Não só escreveu o argumento, como o adaptou à cidade enriquecendo a história. Além disso o que era para ser uma homenagem aos clássicos do cinema sobre a profissão de fotógrafo ("Blow Up" de Antonioni) e sobre duelo com a Morte ("The Seventh Seal" de Bergman) acabou por ser uma homenagem aos homens por trás dos filmes, falecidos durante a conclusão do argumento. Ligado como era aos mestres (co-dirigiu "Beyond the Clouds" com o italiano, dirigiu a Academia Europeia do Cinema com o sueco) transpôs todo o seu sentimento para esta história perturbadora de forma a torná-la digna de quem o inspirou. Uma excelente fotografia e uma poderosa banda sonora (estrategicamente colocada no iPod do protagonista) fazem com que este mundo surreal envolva o espectador na beleza de uma cidade milenar. A moral Carpe Diem, tão adequada a um filme sobre a Morte, está presente num dos seus expoentes máximos. Falta algo no filme, mas tem tantos artifícios sonoros e visuais que nem se repara. É uma delícia.

Wenders está cada vez mais próximo de ser consagrado como o maior cineasta do velho continente. Numa época em que um filme é feito com o lucro como objectivo presenteia-nos com duas horas de Cinema como arte. É bom ver que as velhas estrelas como Dennis Hopper ainda encontram projectos onde conseguem fazer a diferença.

Título Original: "Palermo Shooting" (Alemanha, França, Itália, 2008)
Realização: Win Wenders
Argumento: Wim Wenders e Norman Ohler
Intérpretes: Campino, Giovanna Mezzogiorno, Dennis Hopper, Milla Jovovich
Fotografia: Franz Lustig
Música: Irmin Schmidt
Género: Drama
Duração: 124 min.
Sítio Oficial: http://www.palermoshooting.senator.de/

22 de junho de 2009

"Choke" por Nuno Reis


Filme que se apresenta como sendo do mesmo autor que "Fight Club" é para ser reverenciado ainda antes de ser filmado. Talvez por isso as expectativas fossem demasiado altas. Chuck Palahniuk é um escritor incrivelmente criativo, mas não só "Choke" não é "Fight Club" como o actor tornado realizador Clark Gregg não é Fincher.

"Choke" acompanha um homem que é deveras singular. Victor (Sam Rockwell) ganha a vida encenando situações históricas e falta às sessões do grupo de apoio para viciados em sexo para ter relações com qualquer uma das viciadas. Engasga-se no meio dos restaurantes de luxo para conseguir a simpatia (monetária) de pessoas abastadas e assim poder manter a mãe (Anjelica Huston)num lar onde adiam o enlouquecimento. A relação de Victor com a mãe é dos aspectos mais curiosos do filme. Como ela não o reconhece ele disfarça-se de um amigo dela, e depois precisa do amigo Denny (Brad William Henke) para se fazer passar por ele próprio. Tudo isso com a conivência da médica responsável (Kelly Macdonald), também ela uma pessoa perturbada e que aceita esses comportamentos.

Uma história com tudo para ser divertida e polémica acaba por se tornar um quase fracasso em ambos os esforços. A polémica está lá com todas as letras. Além do sexo, que é praticamente uma personagem autónoma, há uma criativa sugestão de cariz religioso. Essa deverá ser a parte mais memorável de tudo o que se passa. Quanto à diversão assenta tanto nas situações como nas personagens. Se nas situações nunca consegue arrancar gargalhadas, as personagens só por existirem bastam para se esboçar um sorriso. O desempenho de Sam Rockwell é extraordinário e Anjelica Huston tem um papelão como não me lembro de a ter visto. Só que um bom livro e bons actores não bastam para fazer um bom filme. A realização é fraca e faltam uns 10 a 15 minutos ao filme. Excepto a veterana Huston que sabe sempre exactamente o que tem de fazer, notou-se a falta que faz a direcção de actores. Denny precisava de mais tempo para ganhar relevância e a médica para o que está lá a fazer era dispensável.

É um filme provocador e divertido, salvo da desgraça por um bom twist a meio que o reinventa. Precisava de mais sexo, mais escândalo, mais vulgaridade para ser inesquecível. Ter humor negro não basta.


Título Original: "Choke" (EUA, 2008)
Realização: Clark Gregg
Argumento: Clark Gregg baseado no livro de Chuck Palahniuk
Intérpretes: Sam Rockwell, Anjelica Huston, Brad William Henke, Kelly Macdonald
Fotografia: Tim Orr
Música: Nathan Larson
Género: Comédia,Drama
Duração: 92 min.
Sítio Oficial: http://www.foxsearchlight.com/choke/

29 de março de 2009

Vozes de "Ice Age 3"


O terceiro capítulo da saga Ice Age conta as aventuras dos nossos amigos mamíferos num mundo perdido em que ainda existem dinossauros.
Uma grave falha foi só terem dito esta semana que Simon Pegg vai dar a voz a uma doninha zarolha.

Após uma breve investigação descobri que as outras vozes novas no filme são dos pequenos Atticus Shaffer e Joey King. Quem esteve no Fantas de certeza que se lembra deles: Shaffer foi Matty em "The Unborn" e King fez de Briana em "Quarantine" (o equivalente à Jennifer de "REC").





"Eden Lake" por Nuno Reis

É frequente pessoas normais acharem que os amantes do cinema de terror sofrem algum tipo de perturbação. Quem me conhece e ainda não tinha pensado isso... com "Eden Lake" pensou isso e muito mais. Em menos de um ano assisti quatro vezes ao filme em tela. Em duas décadas que levo a ver filmes penso que foi a minha melhor marca. Talvez o meu primeiro motivo para ir ao filme fosse Kelly Reilly. A incursão da actriz no horror era razão mais do que suficiente para ignorar a restante dezena de filmes que Cannes oferecia à mesma hora. Cheguei, vi e fiquei convencido. Desde então sempre que calhou estar num festival que tinha Eden Lake lá estava eu na sala.
Claro que o efeito surpresa passou depressa. Que o diga quem esteve ao meu lado e teve - a pedido – alertas com cinco segundos de antecedência para todas as cenas fortes.
Deu para reparar em todos os detalhes, desde os comentários da rádio no início do filme, até às relações entre as personagens. A degradação psicológica da Jenny é especialmente notória quando a voltámos a ver a brincar com crianças. Que mudança! Desde professora querida até sobrevivente cobarde e finalmente lutadora, temos um desenrolar de emoções perfeitamente encadeadas. Não fossem os acordes musicais a prenunciar sustos mais fortes que aguardavam vez, o filme seria uma grande surpresa para os incautos.

Esta é a história de um jovem que se quer propor à namorada junto a um lago maravilhoso. O fim-de-semana na Inglaterra rural começa por ser pouco agradável, mas estão felizes e ainda se conseguem divertir com a situação. No lago tudo piora e aquilo que seria um curto par de dias de sonho torna-se num infindável pesadelo. O retiro e sossego por que ansiavam vai-se chamar isolamento. Sem comunicação com o exterior nem transporte, vão ter de correr e lutar pela sobrevivência. O inimigo que os atormenta não é um extraterrestre, animal ou vampiro saído da imaginação de um qualquer argumentista imaginativo. A ameaça é a sociedade, a falta de valores morais que assolam a juventude actual.
O medo sentido pelo espectador não é daqueles que estão limitados ao filme e terminam passados os 90 minutos, este passa para além da tela porque revela os monstros que habitam na nossa rua. É um problema que, não parecendo tão grande como as criaturas do fantástico, é muito mais preocupante porque ataca qualquer um, em qualquer lugar e a qualquer altura. É mais que plausível, é um problema real.

Mais do que ser um filme de que se gosta ou não, é um filme que provoca sempre desconforto. O principal motivo é não haver heróis para apoiar. No lago não se distingue os bons dos maus, são todos selvagens. O comportamento do casal é realista, não reagem de forma muito inteligente, mas é porque estão numa situação indesejável e imprevista, agem apenas por instinto. Se pensarmos nos miúdos dentro do seu contexto familiar, não desculpamos, mas compreendemos o seu comportamento.
Tudo corre como se previa, não como se queria. A sensação de impotência do espectador estende-se até ao último minuto.

Um país é caracterizado pelas pessoas que o ocupam. Este é o retrato de um país sem rumo, sem respeito pelo indivíduo, sem futuro. Basta olhar em volta e percebemos que é para esse cenário que todos os países civilizados se dirigem. Urge uma mudança cultural que vai muito além da escola. Para quando requisitos mínimos para ser pai?



Na ficha optei pelo poster francês que é o mais apelativo entre os poucos existentes. Brilhante como mostra a ameaça animal com um simples sinal de trânsito.

Título Original: "Eden Lake" (Reino Unido, 2008)
Realização: James Watkins
Argumento: James Watkins
Intérpretes: Kelly Reilly, Michael Fassbender, Jack O'Connell
Fotografia: Christopher Ross
Música: David Julyan
Género: Terror
Duração: 91 min.
Sítio Oficial: http://www.edenlakemovie.co.uk/

14 de março de 2009

"The Wrestler" por Nuno Reis

Foi com grande expectativa que este filme chegou a Portugal. A exibição estratégica horas antes da cerimónia dos Oscares foi um dos momentos-chave do Fantas deste ano. Falhou a conquista do Oscar, mas o público portuense reconheceu a qualidade do filme. É difícil escapar ao cliché de ver "The Wrestler" como o regresso de Rourke, mas para mim esse filme foi há quatro anos.

Esta é a história de um homem que não soube crescer. Robin Raminski começou por inverter os nomes e trabalhou sob o nome de Randy Robinson. Tornou-se um dos maiores wrestlers de sempre e os seus combates entraram para a história do desporto, mas como pessoa o destino não lhe sorriu. Algo está mal quando se chega sozinho aos 50 anos e se passa a semana a carregar caixotes e os fins-de-semana ou a dar autógrafos ou nos ringues a bater com cadeiras nas pessoas. Randy não consegue admitir, mas o seu tempo já passou. Em tempos foi o ídolo das multidões, agora é apenas a nostalgia que lhe traz (pouco) público.
Randy "The Ram" passou a vida em lutas de brincar, esquivando-se às responsabilidades e sem conseguir manter a família. Tem uma existência precária, triste e solitária. Além dos amigos que mantém dos velhos tempos - cada um em pior estado que o anterior - a única pessoa que lhe dá alguma atenção é Cassidy, uma stripper que ele visita sempre que o dinheiro permite.

Algumas cenas podem impressionar. Aqui toda a falsidade do wrestling é desmascarada, mas também vemos que o sangue que escorre é verdadeiro - como Shylock dizia "se me picarem não sangro como vós?" - tudo aquilo que se crava na pele tem de sair e isso deixa marcas. Ram teve vários ossos partidos e deslocados, guarda cicatrizes dos outros tempos e continua a criar novas. Um dia o seu coração falha e isso obriga-o a dar o passo que adiou toda a vida. Reforma-se da luta, do sonho... Vinte anos a ser agredido e aquilo que mais o magoa é parar para enfrentar a realidade.
"The Wrestler" é um retrato da degradação humana. Sem entrar em complicadas produções traz-nos uma história bem simples de um homem com um passado glorioso, um presente miserável e um futuro incerto. Ram é uma boa pessoa que comete muitos erros e que não podemos deixar de o admirar. irrita-nos vê-lo falhar, mas perdoamos depressa porque debaixo de todo aquele músculo está um coração frágil e bondoso (tal como o mesmo Rourke fez em "Sin City" mostrando um Marv de pedra que se derretia ao ver gatinhos). Robin não pode ser novamente Robinson. Procura conforto em Cassidy, tenta reatar os laços há muito perdidos com a filha, mas nada o consola. Servir saladas e cortar carnes no supermercado não é nada excitante comparado à adrenalina de saltar de um escadote para as costas de alguém, de ser atirado às cordas, de se sentir vivo. Mas é atrás do balcão que vamos admirar mais a sua coragem e perseverança. É aí que enfrenta os seus medos e revela o homem em que se devia ter tornado mais cedo.

Há momentos memoráveis no filme. A introdução onde apresentam a ascensão e queda de Randy com simples recortes de jornal, as eróticas danças de Cassidy, a entrada de Robin para as suas novas funções acompanhado pelos gritos da multidão, cada momento de humanidade nas lutas. Mas o que faz o filme grandioso é o humano que Rourke tão bem encarna. Ram vai ter de se decidir entre um dos amores. A sua decisão pode parecer a mais fácil e a mais cobarde, mas na verdade é a mais nobre que poderia tomar. Tem de ficar com quem esteve sempre com ele. Os merecidos aplausos no final do filme são dirigidos ao todo da obra com especial destaque para o actor, se fossem para a personagem não estariam pior entregues. Bravo Randy!

Título Original: "The Wrestler" (EUA, França, 2008)
Realização: Darren Aronofsky
Argumento: Robert Siegel
Intérpretes: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
Fotografia: Maryse Alberti
Música: Clint Mansell
Género: Drama
Duração: 111 min.
Sítio Oficial: http://www.foxsearchlight.com/thewrestler/

4 de março de 2009

Momento Fantas 2009


A vantagem dos festivais de cinema é que não há grandes ou pequenos nomes do cinema, todos se misturam e falam como iguais. Que o diga Nicky Lianos, realizadora da curta "Monsters and Rabbits". A organização ao saber da admiração que a realizadora tinha por Pil-Sung Yim fez com que a curta fosse apresentada na sessão de "Hansel & Gretel" para que estivessem juntos em palco.

Melhor do que isso só se conseguisse ajuda dos seus ídolos para promover a sua curta-metragem. E não é que o fez? Aquele que para mim foi o momento do festival ficou guardado para a posteridade e já começou a ser divulgado via Facebook.

Pil-Sung Yim e Wim Wenders de manhã imitaram coelhos, horas depois seriam agraciados com dois troféus cada.

Entrevista "Samurai Avenger"

O Antestreia fez uma pequena entrevista exclusiva a Kurando Mitsutake à sua passagem pelo festival portuense no passado dia 21. Farwest intemporal povoado de zombies, sangue e vísceras, "Samurai Avenger: Blind Wolf" foi uma excelente forma de começar o festival.



Antestreia: No catálogo há uma referência a outros filmes onde o herói era cego como Rutger Hauer em Blind Fury ou Zatoichi. Serviram-lhe de influência ou é apenas coincidência?
Kurando Mitsutake : Absolutamente. Para o meu filme "Samurai Avenger" foram uma grande influência. Shintarô Katsu é uma das grandes figuras do cinema japonês e definitivamente a minha grande inspiração para o Samurai Avenger.

A: Como foi a experiência de dirigir e interpretar um cego num filme de terror?
KM: Ser o protagonista e o realizador de um filme é um desafio difícil. Para um filme de baixo orçamento como o nosso foi uma vantagem. Sempre que havia algum atraso eu estava disponível. Quando alguém precisava de uma caracterização específica mais trabalhosa, se estivesse a demorar muito tempo, eu saltava a frente das câmaras e roubava a cena. Adiantava trabalho para poupar tempo. Eu ser o actor principal ajudou a produção.

A: Em que passo está a distribuição para o Japão?
KM: Ainda estamos a procurar distribuidora.

A: E o circuito dos festivais?
KM: Hoje estou aqui, foi a antestreia mundial do filme, para a semana estarei a promovê-lo em Yubari no Japão e penso que o filme também estará no Cinequest em San Jose no final do mês.

A: O que achou da reacção portuguesa ao seu filme?
KM: Foi avassaladora, muito mais do que estava à espera. A projecção era às 23:15, quando vinha a voar para cá pensava "e se só lá estiverem 3 pessoas", mas não, a sala estava quase cheia. Pareceu-me que toda a gente adorou, por isso estou muito satisfeito.

A: Os momentos de reacção do público corresponderam às expectativas? O público português reagiu quando e como devia aos diálogos e à acção ou tiveram uma visão diferente da imaginada por um oriental?
KM: Acho que correspondeu, reagiram quando esperava. Não tive nenhuma surpresa da parte do público. A reacção mais forte que teve foi na cena do bebé, quando a mulher zombie é morta e o bebé sai disparado… acho que foi a mais forte.

A: Pensa que os filmes do género de horror japonês sejam muito diferentes do criados pelo cinema ocidental?
KM: No Japão actualmente temos uma maior censura nos filmes mainstream os de grande orçamento e para televisão. Para os de baixo orçamento são uma resposta a essa censura, a cada ano se tornam mais violentos como algum do trabalho ultraviolento de Takeshi Miike. Miike está a tornar-se um realizador mainstream, a violência está a desaparecer dos seus filmes. Não sei a situação da indústria cinematográfica coreana, mas parece haver problemas entre os criadores, desejosos de criar algo, e a censura.

A: O seu filme será lançado sem censura?
KM: Espero que sim, ainda não sei, mas é o mais provável.

A: Qual é a diferença? São as salas onde os pode projectar?
KM: Quando eu era pequeno o Japão não utilizava a regulação etária. Agora dizem proibida a entrada a menores de 15 ou 18, ou algo assim, estão a definir regras concretas. O meu filme deve ser classificado como "maiores de 15".

A: E era o pretendido?
KM: Estou bem com essa classificação. Algumas cenas do meu filme não deveriam ser vistas por crianças abaixo dos 15. Eu compreendo.

A: Já tem projectos para o seu próximo filme?
KM: Acabamos este filme em Novembro e ainda estou a recuperar do processo de criação cinematográfica. Já comecei a recolher ideias para a sequela de "Samurai Avenger", mas preciso de uns meses de descanso antes de pensar nisso a sério.

25 de fevereiro de 2009

Entrevista de Eden Lake

Esta entrevista ocorreu em Sitges no passado mês de Outubro. O cineasta James Watkins concedeu-nos em exclusivo esta entrevista quando o filme já estava seleccionado para o Fantasporto.
O filme vai ser exibido esta noite e é um dos favoritos do Antestreia. Amanhã será seguramente tema de conversa entre os espectadores.

Antestreia: Quando fez este trabalho que filmes tinha em mente?
Watkins: Bob Dylan dizia que somos o que comemos. Por isso cada filme que alguma vez consumi acaba por sair novamente. Não estou certo... Acho que as referências devem ser mais subconscientes do que inconscientes. Assim sendo os filmes dos anos 70, especialmente do início dos anos 70, títulos como "Deliverance", "Straw Dogs" estavam na minha mente pela forma nauseante como utilizavam o horror e a violência.
Esses filmes transmitem uma certa moral e conforto, talvez por saírem na fase pós-Vietname, Watergate, todas essas situações. Não sei como será em Portugal, mas em Inglaterra essa situação repete-se. Com a crise no crédito, a mudança de milénio, são tempos conturbados. Temos um sentimento generalizado de medo da juventude. Pode não ser justificado, mas está lá e merece ser explorado.

A: Na sua opinião valerá a pena justificar o comportamento do vilão, ou será melhor não ter nenhum motivo ou que o espectador não o saiba?
W: Não quis fazer um filme onde seis miúdos perturbados começassem a matar. Tentei encadear os acontecimentos. Mas era um só miúdo a liderar um gang, os restantes podem ver que estão assustados, são cobardes e incapazes de se oporem. Tentei também mostrar que o miúdo mais violento era também o mais brutalizado. Joguei com a ideia da violência como consequência.

A: Temos vindo a assistir a muitos filmes onde o criminoso é um jovem, mas o seu filme é dos que mais explicita a violência. Alguma vez pensou até onde poderia ir? Quais os limites do tema?
W: A minha prioridade ao falar da violência passa por mostrar as consequências. Pela minha experiência digo que é um tema desagradável, sujo, perturbador e não-resolvido, de maneira alguma queria dar glamour à violência.
Em relação aos jovens em particular há dois tabus a que o filme se refere. Um é a violência cometida por jovens, a outra é a violência contra jovens. São assuntos que não agradam às pessoas, não gostam que se fale disso. Por isso achei que seria interessante falar deles num contexto de género, num filme de terror, onde se pode explorar e representar a violência de forma realista.

A: Sente-se parte deste movimento recente do cinema de terror britânico liderado por Neil Marshall? Quem serão os futuros nomes dessa geração que nos está a trazer belíssimos filmes de terror?
W: Conheço um pouco o Neil. Trabalhei com o Jon Harris em "Eden Lake" que, como devem saber, é o realizador de "The Descent 2" e também trabalhei um bocado no argumento desse filme. Por isso sim, no meu ponto de vista há uma relação entre nós, suponho que sejamos um grupo à parte no cinema britânico o que é excelente. O Neil faz filmes muito distintos, adoro os filmes dele mas são diferentes.

J: Também em França surgiu simultaneamente uma nova geração de cineastas como Pascal Laugiers (“Martyrs”). Há pontos em comum entre as duas cinematografias, não são como o cinema de terror tradicional, são quase um sub-género com violência mais física do que psicológica, com tortura intensa como em "Frontiére(s) ou "Haute Tension". Que referências comuns os inspiram? São os clássicos dos anos 70?
W: Ainda não vi "Martyrs" pelo que não posso comentar o filme. Não tenho a certeza de concordar com isso, a violência tem de ser psicológica, não apenas física. Por exemplo a cena mais violenta do meu filme, a cena de tortura, é sobre o líder de um gang que impõe a sua autoridade sobre os restantes e leva-os a um ponto sem retorno, é essa perda da inocência de uma criança no seio de um gang. Não me interessa a violência pura, "Eden Lake" é muito diferente de "Hostel". Penso que tem razão ao traçar paralelismos entre esses filmes e os dos 70. Muitos cineastas olham para esses filmes como filmes onde os autores tinham poder e conseguiam combinar simultaneamente o desenrolar de uma história apelativa com a sua perspectiva pessoal.


J: O desfecho da história foi uma forma de mostrar o contexto social onde cresceram os jovens?


A: Nos últimos meses/anos um programa televisivo inglês tem mostrado filhos de famílias inglesas que são uns autênticos delinquentes e serial killers em potência Que tipo de documentação do mundo real utilizou para criar as personagens?
W: Tem graça porque enquanto fazíamos a montagem do filme, viajava com a equipa de comboio até ao estúdio diariamente. Algumas pessoas diziam "isto é tão extremo! Nunca poderia acontecer!", então o Jon Harris e eu todos os dias levávamos um daqueles jornais gratuitos e havia sempre notícias macabras de alguém que tinha sido queimado, esfaqueado, foram basicamente as únicas referências que precisávamos. Não quis fazer um filme sobre a realidade social, queria fazer um filme de género. O que quis fazer foi inseri-lo na realidade para que as performances dos actores fossem credíveis. Este filme é de terror mas não é sobre monstros, lobisomens ou vampiros, é algo que cresceu assim, perto de nós e de que não podemos escapar.

A: O filme foi interpretado como do género de terror ou mais como crítica a um mau sistema educativo e pais negligentes?
W: Em Inglaterra felizmente foi muito bem recebido, como um filme assustador e intenso, mas também atraiu atenções para algumas destas questões. Espero que consiga causar tantos sustos como reflexões.

23 de fevereiro de 2009

Mais bilhetes para o Fantas


Mais uma vez o Antestreia está a oferecer bilhetes para uma sessão do Fantas. O filme amanhã será:

17h - "Absurdistan" de Veit Helmer, realizador que já venceu no Fantasporto com "Tuvalu"

Temos para oferecer convites duplos aos cinco primeiros leitores que amanhã se dirijam ao gabinete de imprensa do festival.


21 de fevereiro de 2009

20 de fevereiro de 2009

Abertura do Fantasporto 2009

Dentro de duas horas a dose dupla de Benicio Del Toro vai dar início a mais uma semana de cinema fantástico no Porto. Até agora foram filmes com a desculpa da arquitectura - "Blade Runner", "AI", "Metropolis" e "Dark City" são filmes que deviam dar todos os anos no Fantas – mas a partir desta noite já é a doer. Esqueçam as noites de sono. Esqueçam família, emprego e todos aqueles que não compraram lugar cativo. Os festejos de Carnaval como vem sendo hábito ficam adiados para depois do encerramento.

Fantasporto 2009


Durante a sessão de abertura um discreto "Bellini e o Demónio" na sala pequena é o primeiro filme competitivo a ser exibido. Ainda não conta como sessão competitiva, mas visto que essa é domingo às 15 alguns espectadores podem querer deixar mais tempo para o almoço dominical e ver já a proposta brasileira. Às 23:30 o Grande Auditório inicia a Semana dos Realizadores com "The Deal". Depois sem nenhuma justificação volta a dar "Blade Runner". O público agradece.
Quem não quiser ver estes dois tem propostas bem alternativas na sala abaixo. Primeiro o série B "Samurai Avenger" onde temos uma cornucópia de ideias loucas que cruza espadachins cegos, pistoleiros e zombies. Quem não estiver a dormir ou a reincidir no eterno "Blade Runner" estará seguramente a testar o seu estômago em "Schramm", primeira sessão dedicada ao torturante Buttgereit.

18 de fevereiro de 2009

"Metropolis" por Nuno Reis

Uma obra maior que o tempo

Metáfora orwelliana anterior ao próprio Orwell, Metropolis é uma sociedade onde um povo oprimido trabalha para sustendar o modo de vida da elite à superfície. A divisão entre as duas comunidades é apenas por conveniência, logo ao início ouvimos “vejam os vossos irmãos e irmãs”. Fredersen dirige a cidade, Grot controla a máquina subterrânea, Maria lidera as massas. Sentimentos de revolta são partilhados pelos trabalhadores, mas Maria mantém-os calmos prometendo-lhes um mediador para o conflito. Freder, filho de Fredersen, apaixona-se por Maria e segue-a para os subterrâneos onde vai testemunhar o sofrimento. Acaba por se juntar aos revoltosos, mas o pai e o antigo rival Rotwang têm um plano maquiavélico para destruir toda a oposição. Conseguirá Maria salvar a cidade ou será a causadora da destruição de Metropolis?

Fritz Lang é o cinema alemão dos anos 20 e 30. A letra M sozinha, como inicial de Metropolis ou de Mabuse quase que sintetiza a sua carreira onde não pode deixar de ser referida a saga dos Nibelungos. Foi mais um dos génios que o país perdeu para os EUA pelas suas raízes judaicas. Goebbels chegou a oferecer ao austríaco o lugar de presidente do Instituto de Cinema Alemão. O realizador fugiu para Paris e o lugar ficou para Riefenstahl. Durante 20 anos trabalhou nos EUA, tendo voltado para a Alemanha apenas quando já ninguém queria trabalhar com ele.
Mas o M de Lang neste caso é mais do que Metropolis ou M-Máquina ou a Máquina-homem. Aqui é M de Maria. Brigitte Helm teve em Maria a sua estreia em cinema. Encarnar a agora mítica mulher foi uma missão tão heróica como a da personagem. Refugiou-se do cinema em 1935, desiludida com o cinema sonoro e angustiada pelo controlo nazi sobre a indústria na Alemanha. Até essa data recusou alguns papeis que se viriam a tornar históricos, mas o seu lugar no Olimpo do Cinema estava reservado há muito tempo.


A cidade do futuro imaginada por Lang é isolada, uma cidade-estado sem contacto com o exterior. Será o último reduto da Humanidade? Os prédios à superfície são enormes. As estradas com três a cinco faixas em cada sentido estão super-lotadas. Aviões circulam a baixa altitude. A civilização não chegou aos subterrâneos. Para a cidade a máquina é um coração silencioso, para o submundo é o coração, o centro, a razão de existência. O largo dos elevadores, os túneis por onde a água flui, as casas rectas, as escadarias das catacumbas, tudo tem uma arquitectura diferente. Em Metropolis combinam-se dois futuros.
Como retrato social lança um perigoso alerta. As massas são incontroláveis e quando uma maioria está oprimida as posições invertem-se facilmente. As segregações, propositadas ou como consequência económica, resultam sempre em guerra. Sendo um tema que agora nos cansámos de ouvir, nos anos 20 poucas vozes alertavam para isso. H. G. Wells foi dos melhor sucedidos com "The Sleeper Awakes" (anterior) e "The Shape of Things to Come" (posterior).
Como romance é absolutamente magnífico. A velha história do príncipe e do pobre que trocam de lugar ou do príncipe que se apaixona por uma mulher do povo são aqui contadas de forma linda. Também o triângulo amoroso da geração anterior, apesar de secundário, consegue ter uma enorme influência na história. Mais do que crítica social ou profetização de catástrofe é um hino ao amor. "Entre a cabeça que planeia e as mãos que executam, tem de existir um mediador. Tem de ser o coração."

Metropolis é daqueles filmes que nos deixa estupefactos. Vendo com ou sem som, a preto e branco ou colorido, é uma obra onde mesmo isso é secundário. É a todos os níveis arte no seu máximo esplendor.

Título Original: "Metropolis" (Alemanha, 1927)
Realização: Fritz Lang
Argumento: Thea von Harbou
Intérpretes: Alfred Abel, Brigitte Helm, Gustav Fröhlich, Rudolf Klein-Rogge, Heinrich George
Fotografia: Karl Freund, Günther Rittau, Walter Ruttmann
Música: Vários
Género: Drama, Ficção-Científica, Romance, Thriller
Duração: 153 min.
Sítio Oficial: http://www.kino.com/metropolis

Big Brother is watching (and hearing) you



Uma das grandes vantagens dos festivais é trazerem grandes filmes que o público poderia nunca ver. Se nas antestreias ainda pode haver desilusões, nas retrospectivas esse público mesmo sem os ver já sabe com o que conta. São filmes que foram vistos no festival em anos anteriores, alguém já arranjou em dvd, pelo menos já leram sobre ele. Quando o filme tem meses, como é o caso do "Blindness", percebe-se que saibam pouco, quando tem 80 anos como "Metropolis" deviam saber tudo.

Na sessão de ontem das 21 horas duas espectadoras estavam a assistir ao filme de Fritz Lang e a discutir se valia a pena continuar ali ou se deviam mudar para "Dark City". A pessoa à frente delas mandou-as calar e as gralhas dizem algo do género "chega tarde e ainda se põe a mandar vir". A conversa prolongou-se mais espaçadamente até ao final do filme. Pelo que me lembro das minhas idas ao cinema quem chega tarde incomoda uma vez. Quem fala incomoda sempre que abre a boca.

Devo agradecer a essas palradoras a sua presença. Combinando essa recordação à estreia recente de mais um filme de Jason, desconfio que terei uns sonhos bem sangrentos, adequados ao espírito festival.

Moral da história: Ninguém deve ir ver um filme contrariado. Desperdiça tempo e estraga a sessão aos outros (e às vezes esse outro é um blogger de mau humor).

17 de fevereiro de 2009

Fantasporto - Dia 1

Enormes coincidências unem os dois filmes do primeiro dia de Fantas. No primeiro numa Los Angeles no ano de 2019 a engenharia genética cria super-humanos para trabalhar e existe uma polícia especial para matar um grupo de seis fugitivos. No segundo numa Los Angeles de 2019 a engenharia genética cria clones a troco de milhões e uma força de elite é contratada para capturar/eliminar dois foragidos.
Tirando estas semelhanças exageradas, pouco mais haverá em comum. São diferentes como o dia e a noite. Se na ilha é preciso estar dentro de um tubo para conseguir sombra, no clássico o sol surge uma única vez e a janela é imediatamente fechada. Na ilha estão pessoas perfeitas, na cidade negra está apenas a escória da sociedade.

"Blade Runner" foi filmado por um Ridley Scott acabado de sair de "Alien" e que quatro anos antes tinha ganho melhor primeira obra em Cannes com "The Duelists". "The Island" foi filmado por Michael Bay que depois dos sucessos comerciais "Bad Boys", "The Rock" e "Armageddon" se desgraçou com uma sequela para "Bad Boys" e "Pearl Harbor" pelo que conseguiu a segunda nomeação para Razzie.

Blade Runner tem um Harrison Ford que já fez American Graffiti, dois Star Wars e um Indiana Jones. Tem um Rutger Hauer que já foi "Soldado da Rainha" e começa a sua enorme carreira internacional. Revelou ainda duas promissoras estrelas, Sean Young e Daryl Hannah. O filme de Bay basicamente utiliza seis actores. Steve Buscemi, Sean Bean e quatro estrelas com nomeações recentes para Oscares e Golden Globes: Ewan McGregor ("Moulin Rouge"), Scarlett Johansson ("Lost in Translation"), Djimon Hounsou ("In America") e Michael Clarke Duncan ("The Green Mile").
Enquanto dos actores do primeiro se pode dizer que têm o desempenho de uma vida, no segundo estão todos longe do seu melhor.

Versus


Já que é essa a secção, falemos pois de arquitectura. No filme de Scott o futuro tem arranha-céus negros, prédios do início do século XX abandonados, aglomerados de apartamentos com 80 andares e mais de trinta habitações por piso. As ruas estão tão cheias de gente que parecem estreitas. Na obra de Bay vivemos em torres rodeadas pelo mar. Os espaços são amplos tanto no deserto como nas largas avenidas de LA.
Para a equipa visionária de Sid Mead o futuro 37 anos depois seria uma miscelânea de nacionalidades em cidades sujas e poluídas enquanto quem tem posses parte para o espaço exterior. Pelo monólogo inesquecível de Roy Batty temos uma ideia do esplendor e imensidão desse mundo longínquo. O trabalho de Douglas Trumbull nos edíficios e naves ontem como em 81 é de tirar o fôlego a qualquer um. Já quem fez o filme à beira mar plantado olhando 14 anos para a frente imagina que as cidades fiquem altas e limpas. Concorda com os arranha-céus de 70 andares. A nível de transportes mudam algumas curvas nos camiões, os comboios seguem carris magnéticos - como é prática corrente no Japão - e as motas ficam voadoras.

A vantagem de isto ser cinema é que posso dizer "só vendo" e partilhar os trailers.





16 de fevereiro de 2009

Os fanáticos invadem o Porto

Notam algo mágico na atmosfera? As ruas da baixa portuense enchem-se novamente de gente e decorações. As pessoas estão mais alegres, um bocadinho nervosas, mas com um sorriso no rosto. Os amigos voltam de longe para estarem alguns dias connosco. Por duas semanas eles serão a única família que vemos e o Rivoli a nossa casa. Temos de aproveitar bem que só temos disto uma vez por ano.

O calendário de todos nós tem um F no dia de hoje, tem F's em todos os dias até 1 de Março. Não são feriados, mas deviam ser.

Vamos ter reencarnações de Kubrick e Bava. Tanto nos podemos cruzar com corvos, zombies e bebés sedentos de sangue, como com Replicantes, Maria e um clone de Scarlett Johansson. Tudo é permitido, até mesmo os filmes de Buttgereit. O impossível torna-se vulgar e o vulgar impossível. É só esperar que este barril gigante dê o pontapé de saída e... Next stop, the Twilight Zone!