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12 de junho de 2011

"Match Point" por Nuno Reis

Londres pelos olhos do grande nova-iorquino.

Durante anos Allen esteve apaixonado por Nova Iorque. Dois trabalhos chamados precisamente como a cidade, dois de nome Manhattan e dois Broadway juntam-se a uma dezena de outros que apenas poderiam ter sido filmados naquela cidade. Alguns filmes no início de carreira foram filmados na Europa por questões cénicas ou de orçamento, mas não faziam parte da história do filme. A fase europeia - que começou precisamente em Paris em 1996 - recomeçou há seis anos em Londres. Podia não ser na cidade amada, mas era com uma nova-iorquina quase tão conhecida e que decerto muitos milhões gostariam de percorrer. Foi o primeiro de uma trilogia com Scarlett Johansson e com benefícios para ambos. Por um lado a actriz manteve a credibilidade em alta por esse período, do outro lado, o realizador conquistou toda uma nova geração. Porque "Match Point" não é um filme para quem gosta de Allen, "Match Point" é um filmão.
Match Point

Quem conhece Allen sabe que um dos problemas é a receita ser sempre tão parecida e os filmes terem temáticas semelhantes. A receita deste jogo já tinha sido utilizada num filme dele, o meu preferido "Crimes and Misdemeanours" tem muitos elementos comuns. Só que enquanto no "Crimes" há duas narrativas paralelas que se cruzam magicamente e meia dúzia de actores liderados por Martin Landau, aqui quase só há uma personagem, Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers), e os outros giram em torno dele. Essa especificidade permite a Allen jogar com tudo o que se passa à volta de Chris, trabalhando música, espaços, rostos e até a cidade. As personagens vão sendo transformadas, porque envelhecem, porque mudam de gostos, de sonhos, ou simplesmente porque as pensávamos conhecer sem ter visto em profundidade. Allen mais uma vez ensina que no bom cinema não há personagens menores, quanto muito haverá algumas com personalidades menos interessantes.
Match Point

A manipulação é uma constante neste jogo perigoso. Um espectador vendo o filme pela primeira vez estará desarmado. À segunda talvez se proteja melhor, mas continuará a tomar partidos, uma coisa que neste match leva sempre à derrota porque todos perdem. E assistam-no de mente limpa e coração puro, com confissão feita e penitências superadas. Procurem aquele bocadinho de malvadez escondido no vosso coração e arranquem-no antes que "Matchpoint" o encontre. Porque é por aí que este filme vai pegar, para torcer num movimento contínuo e tortuoso que levará à prostração.
Match Point

Da primeira vez que vi o filme achei um pouco monótono a meio. Agora percebo que era propositado, era o filme a funcionar, a fazer-me sentir aquilo por que Chris estava a passar na sua escalada social. Não é uma obra perfeita. Como sempre uma pessoa que queira implicar encontrará falhas menores no argumento. Acontecimentos que não fazem tanto sentido como se gostaria, mas que ao espectador normal passam despercebidos. Detalhes insignificantes num filme que ombreia com os maiores deste autor.

Match PointTítulo Original: "Match Point" (EUA, Irlanda, Reino Unido, Rússia, 2005)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Jonathan Rhys Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Matthew Goode
Música:
Fotografia: Remi Adefarasin
Género: Crime, Drama, Romance, Desporto, Thriller
Duração: 124 min.
Sítio Oficial: http://www.dreamworks.com/matchpoint/

21 de agosto de 2007

"Vinicius" por Ricardo Clara

Passou despercebido aquando da estreia comercial o delicioso documentário "Vinícius" de Miguel Faria Jr., e que recita em imagens o mel que Vinicius de Moraes escreveu e cantou nos seus 67 anos de intensíssima vida.

O poetinha, como era (e com bastante escárnio) apelidado por muitos, foi um dos maiores autores e músicos mundiais, uma referência incontornável da criação brasileira e criador da famosa corrente Bossa Nova, a par de nomes como Tom Jobim e João Gilberto. Diplomata de carreira, intelectual de formação e músico do coração, Vinicius é visto neste documentário por uma lente de enorme saudade e reverência, em entrevistas muito bem montadas, a homens e mulheres tão importantes como Chico Buarque, Toquinho, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil, passando pelas filhas Mariana, Maria, Susana, Luciana e Georgiana, todas "de Moraes", com testemunhos fascinantes sobre a vida do pai, um apaixonado da vida e das mulheres, um sedutor por excelência, um boémio inveterado.

São duas horas de uma bela reflexão sobre a vida (e quando feita num documentário, ganha pela veracidade e pela vivência), com testemunhos emocionados e muito conseguidos, rasgados de saudade e muitas vezes de inveja, revivendo o envelhecer de Vinicius, os seus 9 casamentos, os filhos, a genialidade de trabalhos com Tom Jobim, Toquinho ou Baden Powell (com quem criou uma corrente africana da bossa nova) e a ligação umbilical com a sua eterna bebida, o whiskey ("whiskey é o melhor amigo do homem, é cachorro engarrafado") - deliciosa as histórias contadas a este propósito por Chico Buarque, soltando sinceras e desprendidas gargalhadas, deixando-nos cair naquela inveja de nunca podermos ter tido o prazer de privar com Vinicius.

Belíssima a opção por filmar uma espécie de teatro sobre o autor, com fantásticas interpretações e récitas de Ricardo Blat e Tônia Carrera, as ternas imagens de arquivo de Vinicius, e as palavras cantadas por Adriana Calcanhoto, Olivia Byington, Edu Lobo, Zeca Pagodinho e Chico Buarque, numa peça essencial para (re)descobrir o homem que sobre si deixou escorrer: "De manhã escureço / De dia tardo / De tarde escureço / De noite ardo".


Título Original: "Vinicius" (Espanha / Brasil, 2005)
Realização: Miguel Faria Jr.
Argumento: Miguel Faria Jr. e Rubem Braga
Intérpretes: Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Ricardo Blat e Maria Bethânia
Fotografia: Lauro Escorel
Música: Luiz Cláudio Ramos
Género: Documentário / Biografia
Duração: 110 min.

25 de março de 2007

"An Inconvenient Truth" por Ricardo Clara

Um aviso com Óscar ao lado


"Olá, o meu nome é Al Gore e eu já fui o futuro Presidente dos Estados Unidos da América". É difícil encontrarmos um qualquer documentário que comporte uma mensagem ou aviso e que não caia (a não ser que seja essa a intenção) na tentação de cair na questão política da "coisa". "Uma Verdade Inconveniente" não é excepção. E confirmamo-lo com esta frase que Albert Gore, antigo congressista do Senado norte-americano e que se candidatou nas presidenciais de 2000 a "líder do mundo livre", como pomposamente gostam de se apelidar. Nessa altura, e como se devem recordar, chegou à Casa Branca o actual presidente George W. Bush, numas controversas eleições onde se discutiu (e ainda se discute) se houve ou não resultados falseados no populoso estado da Flórida.
Discussões e polémicas à parte, Al Gore, que já enquanto estudante, e mais tarde como congressista, desenvolveu uma atenção especial pelas preocupações ambientais, aproveita a folga que a "derrota" nas eleições lhe ofereceu para iniciar um périplo mundial no qual fez uma apresentação dessas mesmas preocupações com o futuro do planeta, para audiências tão díspares como as da China, Coreia do Sul ou Índia. E, após todas as palestras, estudos e conversas com especialistas do ramo, Gore chegou a uma conclusão alarmante, que não obstante vir sendo tema de alerta por parte da comunicação social, não o é ainda que conscensialize as pessoas em geral - estamos a caminho de uma grave crise ambiental. O então ex-futuro presidente decide passar para documentário essas palestras, tentando transmitir as suas preocupações e medos, misturando aí um pouco das suas vivências enquanto jovem rural, enquanto filho, pai e irmão. E, no meio destas premissas, o realizador Davis Guggenheim dirige e monta uma sólida peça documental, equilibrando dramas pessoais do orador com dramas ambientais à escala mundial, bem orquestrado com imagens e com música mas, claro, não conseguindo abster-se de enviar alguns recados políticos que, quiçá, não seriam desnecessários.
Efectivamente, "Uma Verdade Inconveniente" tem como base uma das palestras leccionadas por Al Gore (e, claro, a única que possuía aqueles recursos audiovisuais e de panafernália técnica), onde somos avisados desse grave problema que é o aquecimento global, por intermédio de fotografias, números, cálculos, estatísticas, gráficos e desenhos (onde nem o "Futurama" de Matt Groening falta), numa tentativa de despertar consciências e abanar convicções. Tem o mérito de o fazer de forma competente e lúcida, de fácil tangibilidade e com fórmulas muito bem delineadas nas chamadas de atenção, unindo a vertente didática com uma montagem muito conseguida, onde descobrimos em Gore um óptimo narrador (isto, claro está, se deixar para trás a carreira política). A (re)ver.


Título Original: "An Inconvenient Truth" (EUA, 2006)
Realização: Davis Guggenheim
Intérpretes: Al Gore
Fotografia: Davis Guggenheim e Bob Richman
Música: Michael Brook
Género: Documentário
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: http://www.climatecrisis.net

14 de janeiro de 2007

"Babel" por António Reis


De Marrocos ao México passando pelo Japão

Que o dinheiro não faz a felicidade aí está “Babel” para o comprovar. Iñarritu deixa-se seduzir pela possibilidade de contratar grandes actores, de filmar em lugares exóticos, ainda que mantenha a estrutura narrativa não cronológica que já tinha explorado em “Amor Cão” e “21 Gramas”. Como nos seus filmes anteriores as histórias cruzam-se com a particularidade de em Babel a geografia ser o factor mais variável. Um casal americano de férias em Marrocos à procura de alguma reconciliação no seu casamento em crise desconhece que na fronteira entre o México e os Estados Unidos os seus filhos menores estão perdidos no deserto e a mulher é atingida por um tiro de espingarda cujo ex-proprietário vive no Japão. Contada assim a história parece ter um sentido lógico embora de verosimilhança duvidosa. Mas o que é o cinema senão essa capacidade de nos surpreender e tornar possível o improvável.
Babel, é um filme desenraizado ao contrário do que sucedera com Amor Cão onde Iñarritu falava do seu México natal que conhecia bem. E o título mesmo atendendo à sua ironia é enganador. Nesta Babel não é a língua que separa os personagens nem é a cultura ou a civilização em que vivem. Os personagens estão perdidos dentro deles próprios.
Premiado em Cannes pela realização e pelo prémio ecuménico – aparentemente por trazer uma mensagem de que a humanidade é apenas uma e somos todos cidadãos de um mesmo mundo. Babel tem o pecado capital de apresentar um trailer que é um embuste. O trailer centra-se sobre o fait divers do filme - a hipótese de que seja um atentado terrorista contra cidadãos americanos num país árabe – tornado numa ficção política contemporânea, quando a intenção de Iñarritu seguramente está longe de assentar nesta tónica. Os problemas que o filme aflora mas não consegue nunca aprofundar são manifestamente relevantes: a emigração mexicana para os Estados Unidos, a divisão entre civilizações tecnológicas e culturas tradicionais, a disfuncionalidade familiar, a incomunicabilidade. Mas talvez não bastem temas profundos, e visões ecuménicas bem intencionadas, para transformar um filme interessante numa obra-prima. Se tudo está bem quando acaba bem, de um cinema de autor esperava-se soluções de génio menos convencionais. Nas mãos de produtores americanos o filme faz as concessões que a indústria quer para vender. Ser bom e estar bem feito não chega.



Título Original: "Babel" (EUA, México, 2006)
Realização: Alejandro González Iñárritu
Intérpretes: Brad Pitt, Cate Blanchett, Boubker Ait El Caid, Gael García Bernal, Kôji Yakusho
Argumento: Guillermo Arriaga, Alejandro González Iñárritu
Fotografia: Rodrigo Prieto
Música: Gustavo Santaolalla
Género: Drama
Duração: 142 min.
Sítio Oficial: http://www.paramountvantage.com/babel/

6 de abril de 2006

"Basic Instinct 2" por Nuno Reis

Sharon Stone pode ter sido nomeada para um Óscar por “Casino” mas a resumir a carreira a um filme ele seria “Basic Instinct”. É incrível como um simples descruzar de pernas pode marcar toda uma carreira. Mais de dez anos depois foi feito um esforço para criar um remake digno do original, Michael Caton-Jones realizou, Charlotte Rampling é uma das secundárias e o argumento é dos autores de “Venus Rising”. Sharon Stone voltou por quase 20 vezes mais do que recebeu no original (subiu de 750000 para treze milhões e meio). O resultado? Uma desilusão pior do que o esperado.

A história volta a seguir Catherine Tramell, uma sedutora psicopata que mata impunemente apenas pela emoção. A vítima da intriga volta a ser um polícia mas desta vez o protagonismo é assumido por um psicanalista (David Morrisey). O filme começa com Catherine a ter relações num carro que se afunda, nesse acidente morre um famoso futebolista o que a lança num rodopio de mediatismo coincidente com as suas ambições. Michael Glass é o homem indicado pelo Ministério para traçar o perfil dela e determinar se pode sair em liberdade. Como todos antes dele também o doutor acabará por se apaixonar e cair numa trama de sentidos que o levará a ser acusado dos crimes que ela comete.

Stone tem um bom papel e mais uma vez encaixa na personagem como ninguém. Apesar dos cinquenta anos continua a ser deslumbrante e não tem nada de que se envergonhar nas variadas cenas de nudismo. O resto do filme tenta afastar-se dela e mostrar o drama de Michael mas cai em vários lugares comuns e repete tudo aquilo que foi visto em demasiados filmes. É um título para esquecer.




Título Original: "Basic Instinct 2" (EUA, 2005)
Realização: Michael Caton-Jones
Intérpretes: Sharon Stone, David Morrissey, Charlotte Rampling
Argumento: Leora Barish e Henry Bean
Fotografia: Gyula Pados
Música: John Murphy, Jerry Goldsmith
Género: Crime/Drama/Thriller
Duração: 114 min.
Sítio Oficial: Basic Instinct 2

3 de abril de 2006

"V for Vendetta" por Nuno Reis


Com a chegada das férias começam a estrear por cá alguns dos blockbusters que já causaram sensação um pouco por todo o mundo. Hoje o destaque vai para “V for Vendetta”, um filme futurista que alerta para os perigos escondidos na actualidade. A sociedade desta nova Inglaterra foi inspirada na Alemanha dos anos 30. Também aqui os não cristãos, os homossexuais e os revolucionários da oposição são exterminados, a normalidade é a necessidade absoluta e o Chanceler tudo fará para a conseguir.

O super-herói desta banda desenhada escapa ao normal. O (anti-)herói da história é V, um homem misterioso que usa sempre máscara, é imune às balas e move-se com uma velocidade estonteante. Em tudo o resto não se parece com um herói pois não tem identidade secreta e é capaz de fazer tudo, sem sentir remorsos… Como nenhum homem poderia combater o sistema, essa tarefa é assumida por um ideal, V não é um humano, é a encarnação desse ideal.

Cinco de Novembro é a data fulcral. V anuncia com um ano de antecedência que pretende fazer explodir o Parlamento exactamente no mesmo dia em que Guy Fawkes o tentou e usando sempre uma máscara desse revolucionário vai matando alvos seleccionados. Enquanto isso Fich, o inspector encarregado de o capturar, em busca da identidade de V vai juntando as peças do passado e percebe que algo de errado foi escondido em relação aos atentados perpetrados por terroristas vinte anos antes que levaram às rápidas transformação político-sociais. Teria o governo sido capaz de realizar um ataque contra o seu próprio povo para levar as pessoas a odiar e a combater? Não foi isso insinuado em relação à tragédia do 9/11? Uma sociedade tão facilmente comparável à de “1984” e porém tão igual ao mundo em que vivemos. O medo do terrorismo e a paranóia da segurança levou os governos a limitarem ao máximo a liberdade do indivíduo. A obra de Orwell era mais ficcionada e esta é menos extremista, contudo leva-nos a pensar aquilo para que nos dirigimos.
Este filme como blockbuster assumido de raiz, prima pelo elenco reunido. Argumento dos irmãos Wachowski baseados numa BD da DC Comics, o protagonismo foi entregue à oscarizada Natalie Portman e a Hugo Weaving (que nunca mostra a cara), como vilão de serviço o incomparável John Hurt e ainda participações de Stephen Rea e Tim Pigott-Smith.
Como drama e filme de acção está bom, como ficção está assustadoramente credível. Tem alguns momentos irreais mas tem também muitos daqueles tão bem feitos que dão vontade de rever o filme ainda antes de ter acabado. Sobra a moral do filme: as massas são facilmente controláveis, tanto pelo bem como pelo mal, quem controlar o povo controla o país.





Título Original: "V for Vendetta" (EUA, 2005)
Realização: James McTeigue
Intérpretes: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt
Argumento: Irmãos Wachowski
Fotografia: Adrian Biddle
Música: Dario Marianelli
Género: Acção/Drama/Thriller
Duração: 132 min.
Sítio Oficial: http://vforvendetta.warnerbros.com/

31 de março de 2006

"La Tigre e la Neve" por Nuno Reis


La Vita è Bella” foi o filme que lançou Benigni para o estrelato. O drama de um pai que consegue manter o filho vivo e feliz num campo de concentração foi um daqueles filmes que marcou a sua época (final dos anos 90), relançou a confiança mundial no cinema europeu e é na minha opinião um dos melhores filmes de sempre.
Frase como “Mille punti!” ou “Buon giorno, Principessa!” são inesquecíveis e Benigni será para sempre recordado por isso. Nos anos que se seguiram com “Pinocchio” e participações no filme “Astérix et Obélix Contre César” caiu na vulgaridade, esta era a última oportunidade de relançar a carreira. E aqui Benigni, com o seu tradicional ar cómico e as diversas desaventuras que atravessa, torna-se um Chaplin dos nossos tempos.
Em “La Tigre e La Neve” repete a receita vencedora da obra-prima: um homem invulgar, divertido, indiferente ao perigo e muito apaixonado, totalmente fascinado por uma mulher, vê-se separado dela pela guerra. Quando a sabe ferida nos confins do mundo, a sua dedicação irá levá-lo até lá e o Amor irá realizar todos os milagres necessários para a salvar.
Desde a primeira cena, em que um estranho casamento é interrompido, o espectador é confrontado com a possibilidade de o filme não seguir os padrões habituais. Quem não viu “La Vita è Bella” adorará este filme, quem viu irá pensar que é o mesmo. Benigni não pode ser criticado por ter repetido o seu único êxito, se o primeiro foi um filme do agrado de todos, este também o poderia ser. Numa época em que os efeitos especiais são o actor principal, o regresso às simples estórias de amor deve ser aplaudido.




Título Original: "La Tigre e la Neve" (Itália, 2005)
Realização: Roberto Benigni
Intérpretes: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Jean Reno, Tom Waits
Argumento: Roberto Benigni e Vincenzo Cerami
Fotografia: Fabio Cianchetti
Música: Nicola Piovani e Tom Waits e Kathleen Brennan com a canção "You Can Never Hold Back Spring"
Género: Comédia/Drama/Guerra/Romance
Duração: 114 min.
Sítio Oficial: http://www.letigreetlaneige-lefilm.com/

"Capote" por Nuno Reis


Capote possivelmente foi um dos autores mais marcantes do século passado. Em 1961 muitos pensaram que tinha atingido o pico da fama pois em simultâneo com a adaptação do seu livro “Breakfast at Tiffany’s” para cinema, foi um dos responsáveis pela adaptação de uma das obras primas de Henry James para cinema: depois de diversos filmes homónimos “Turn of the Screw” finalmente tornou-se um clássico com o título “The Innocents”. O jornalista tinha atingido a consagração, agora para ser melhor teria de ser excelente, e é a isso que se propõe.
A tragédia a que Capote se associou para atingir esse objectivo foi um massacre inexplicável ocorrido numa pequena vila do Kansas. Apoiado pela sua vizinha Harper Lee (que seria a autora de “To Kill a Mockingbird”) parte para lá. Não procura desvendar o mistério, apenas pretende captar as emoções e torná-las num livro inesquecível.
Este filme narra a vida de Capote no tempo que decorreu entre a primeira publicação do crime num jornal até à publicação do livro, o seu último. Conta os problemas do homem e do escritor, os seus desejos, a sua forma de trabalhar e as suas relações dando especial destaque à amizade criada com Perry Smith, um dos criminosos. Capote é uma constante surpresa a todos os níveis e isso deve-se ao talento do actor que o encarnou. Hoffman já participou em diversos grandes filmes e era um talento comprovado, teve diversos troféus mas também a ele faltava a joía da coroa. Logo à primeira nomeação e sem discussão, venceu nos Globes, nos Bafta e ainda nos Oscares.
O filme tenta utilizar a reviravolta de “In Cold Blood” para fechar mas para quem tenha lido o livro ou visto o filme decerto que essa surpresa não foi esquecida por isso o filme termina de forma um pouco inglória. É uma reconstituição brilhante e a interpretação de Philip Seymour Hoffman foi a melhor do ano para a Academia. O resto do filme é apenas o suporte.


Título Original: "Capote" (EUA, 2005)
Realização: Bennett Miller
Intérpretes: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper e Bruce Greenwood
Argumento: Dan Futterman adaptou o livro de Gerald Clarke
Fotografia: Adam Kimmel
Música: Mychael Danna
Género: Biografia/Drama
Duração: 114 min.
Sítio Oficial: http://www.sonyclassics.com/capote/

9 de fevereiro de 2006

"Rumor has It" por Nuno Reis

Esta semana a grande maioria dos espectadores estará a pensar em ir ver o rei das nomeações “Brokeback Mountain”, mas gostaria de referir uma alternativa. Também hoje estreia “Rumor Has It”, uma comédia inspirada no clássico “The Graduate”.

Sarah é uma trintona que volta com o noivo de New York até Passadela (Los Angeles) para assistir ao casamento da irmã mais nova. O regresso às origens traz de novo a estranheza que sente em casa, um problema de inadaptação à família e sensação de ser diferente. Quando a avó lhe revela um velho segredo, a mãe ter passado uma semana desaparecida antes do casamento, e um comentário do noivo a faz perceber que foi concebida antes do casamento dos pais decide investigar. Através de uma conversa com uma tia descobre que a vida da mãe se assemelha muito à de Elaine Robinson. Será a sua avó a Mrs. Robinson da canção? Será ela na realidade filha de “Benjamin Braddock”? Partindo do boato que diz ser o filme baseado numa família verdadeira, foi construído um novo argumento que homenageia o original mantendo um toque humano. Este filme narra a vida de uma mulher que usa o presente para conhecer o seu passado e acaba por destruir o futuro.

O elenco reunido é de luxo: Jennifer Aniston é a protagonista e o noivo é Mark Ruffalo. A irmã é interpretada por Mena Suvari e avó por Shirley MacLaine. O candidato a pai é interpretado por Kevin Costner. Richard Jenkins é o pai legal, tem alguns grandes momentos e merecia mais tempo no ecrã. Mark Ruffalo esteve bem em “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” mas depois não ficou bem em nenhum personagem. Aniston aguenta sozinha com o filme nos ombros mas a maior estrela é a veterana. MacLaine em “Bewitched” pegou numa personagem inesquecível (Endora) numa homenagem a Elizabeth Montegomery e à sua obra máxima, a feiticeira Samantha. Aqui a homenagem é à recém-falecida Anne Bancroft e à sua irresistível Mrs. Robinson. E tenho de dizer que tanto a actriz como o filme estão bem acima do que vimos em “Bewitched”.

Rob Reiner fez vários filmes que se tornaram clássicos. Depois de “When Harry Met Sally” e “Stand By Me” fez este filme que se escuda na magia de muitos clássicos (especialmente “The Graduate” e “Casablanca”) para tentar ser irrepreensível. O filme é agradável de ver, reactiva o suspense em vários momentos para manter o interesse e como comédia romântica cumpre os seus objectivos. Foi muito bem escolhida a semana de estreia pois inclui o Dia dos Namorados. Como pseudo-sequela está óptimo, muito melhor do que se fizessem uma sequela normal. Falha apenas na cena final ao cair em situações-tipo e piadas previsíveis. Mas isso não acontece com todos os filmes deste género?
Um conselho que devem seguir é ver/rever “The Graduate” antes de verem este filme. Torna muito mais fácil encaixar as histórias. Se não o fizerem antes irão fazê-lo na primeira oportunidade.



Título Original: "Rumor Has It" (EUA, 2005)
Realização: Rob Reiner
Intérpretes: Jennifer Anniston, Kevin Costner, Shirley MacLaine, Mark Ruffalo
Argumento: Ted Griffin
Fotografia: Peter Deming
Música: Marc Shaiman
Género: Comédia/Drama/Romance
Duração: 96 min.
Sítio Oficial: http://rumorhasitmovie.warnerbros.com/

12 de janeiro de 2006

"Jarhead" por António Reis

Desenganem-se os que pensam que “Jarhead” é a versão de Sam Mendes de “Platoon” ou “Full Metal Jacket”. Também não é “Three Kings” apesar do contexto. É um filme de recrutas e de uma guerra mas o tom é genuinamente de Sam Mendes. Baseado numa história verídica de um fuzileiro jarhead (cabeça de frasco) designação da gira ds fuzileiros, é um filme sobre o primeira guerra do Iraque a célebre Tempestade no deserto que libertou o Kuwait, apesar de o deixar em chamas.
Começando como um filme de recrutas, daí o título português se aproveitar do conceito de máquina zero, cedo o filme passa dos rituais de iniciação às técnicas de combate e ás torturas de caserna para a situação em cenário de guerra virtual como foram os três meses que o exército americano passou na Arábia Saudita antes da invasão. É assim um filme sobre uma guerra virtual, sempre adiada, contra um inimigo invisível, onde só a areia imensa do deserto e os repórteres de televisão em busca de algumas “cachas” povoam o quotidiano. Neste pelotão abandonado nos confins de uma fronteira imaginária só a loucura parece estar presente. E nesta guerra original, o valente soldado Swoff consegue não matar um único iraquiano e só dispara para comemorar o triunfo. Pelo meio fica a paisagem surreal de um deserto com os poços de petróleo em chamas, a areia viscosa de nafta, um cavalo perdido das coudelarias dos sultões e as carcaças e cadáveres do automóveis e seus ocupantes apanhados ela aviação americana na auto-estrada para Bagdad. Uma visão cínica sobre o serviço militar, sobre a guerra do Bush pai e os interesses do petróleo e sobretudo sobre a anormalidade dos dramas individuais no regresso a casa.
Uma das muitas cenas memoráveis é a exibição de “Apocalipse Now” e da sua cavalgada das valquírias perante a assistência ululante dos fuzileiros prestes a partir para o combate, ou a cena da cassete com o genérico de “Deer Hunter” de Cimino que esconde uma cena hardcore entre a mulher do fuzileiro e um seu vizinho. Apreciem a banda sonora sobretudo o original de Tom Waits que só por si valia o filme. Os fãs de filmes de guerra saíram desiludidos, os fãs de Sam Mendes também, os fãs de cinema não seguramente.





Título Original: "Jarhead" (EUA, 2005)
Realização: Sam Mendes
Intérpretes: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Jamie Foxx, Chris Cooper
Argumento: William Broyles Jr. baseado na autobiografia de Anthony Swofford
Fotografia: Roger Deakins
Música: Thomas Newmann
Género: Drama, Guerra
Duração: 123 min.
Sítio Oficial: http://www.jarheadmovie.com/

"Dreamer" por Nuno Reis

Há muitos anos que Dakota Fanning se afirmou como a mais talentosa actriz da sua geração e uma das melhores na sua idade que o cinema já viu. Depois de um ano menos bom em que teve um bom papel num mau filme e um mau papel num bom filme, chegou o momento de voltar a ter um grande papel num grande filme. “Dreamer” é um daqueles filmes para a família como davam antigamente na televisão aos domingo de tarde. Esta é a saga dos Crane, uma família que enriqueceu numa geração para na seguinte perder tudo, que, por um capricho do destino, agora poderá ou retomar a sua subida ou cair de vez. Cale Crane, interpretada por Fanning, é o mais novo elemento da família. Num dia em que acompanha o pai ao emprego herda a hereditária ligação com o mundo dos cavalos que o pai tinha tentado cortar. Aquilo que ela vê fascina-a, os extraordinários animais que participarão na corrida são das coisas mais belas que já viu e Sonya, a égua campeã que a equipa do seu pai tem a competir torna-se imediatamente a sua favorita. Todos os Crane acabarão a adorar esse animal que é mais do que uma mascote para eles, é uma razão para sonhar. Sonya é a abreviatura de Soñador.
Ao longo de duas horas de filme vemos a família a atravessar tantas dificuldades que, se não fosse imperativo um filme destes acabar (minimamente) bem, se poderia apostar na falência dos Crane. Mas ao longo dessas duas horas os desafios vão sendo superados e Cale tem sempre uma nova razão para sorrir. Mesmo que os intentos de Cale sejam logicamente impossíveis quando ela os apresenta, assim que ela sorri toda a audiência fica convencida que ela conseguirá, pois ninguém consegue impedir uma criança de sonhar e ninguém impedirá esta criança de ser feliz. Ela simplesmente merece ter os seus sonhos realizados: passar mais tempo com o pai; ter um cavalo como mascote; ou receber o seu animal como um campeão e colocar-lhe uma coroa de flores.
O filme está de parabéns por conseguir recuperar Kurt Russell para os dramas, por confiar a uma pequena estrela como Dakota Fanning o estrelato, e por dar a Elisabeth Shue e Kris Kristoferson papeis secundários com um mínimo de qualidade (Shue em “Hide and Seek” “cai” da janela de Fanning; Kristoferson tem sido morto, ressuscitado e clonado vezes sem conta nos “Blade”s). Sacrifice (o “actor” que faz de Soñador) é um animal excepcional, torna este filme indispensável para os amantes de cavalos e consegue as simpatizas daqueles que não gostavam de cavalos. É um filme que toda a família pode ver e que todas as crianças deveriam ver para saber o que é preciso fazer e sofrer quando se tem um sonho.






Título Original: "Dreamer: Inspired by a True Story" (EUA, 2005)
Realização: John Gatins
Intérpretes: Kurt Russell, Dakota Fanning, Kris Kristofferson, Elisabeth Shue, David Morse
Argumento: John Gatins
Fotografia: Fred Murphy
Música: John Debney
Género: Drama, Familiar
Duração: 98 min.
Sítio Oficial: http://www.dreamworks.com/Dreamer/