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5 de janeiro de 2012

"2012" por Nuno Reis

Só por ironia que tal começar 2012 com o filme que diz que este ano é o final?


Porque gostamos tanto de dizer mal dos filmes-catástrofe? É uma regra implícita que os filmes sobre catástrofes são sempre dizimados pela crítica. O cataclismo pode ser vir a forma de uma manifestação geológica como erupções, sismos e maremotos, um elemento externo como invasão alienígena ou chuva de meteoros, ou simplesmente o clima. Roland Emmerich é imune a isso e continua a apostar no género com uma variedade que se estende da ficção-científica como “Independence Day” e “Godzilla” até o alerta ambientalista de “The Day After Tomorrow” ou o profético “2012”.
O que temos contra estes filmes? Serão as situações improváveis a que o herói que sobrevive? É o facto de ele ficar com a miúda (por vezes a última)? Não conseguimos ver a destuição no nosso lar? Ou será que simplesmente não queremos admitir aquele lado negro da humanidade que insistem em mostrar, compensado por uma bondade ainda mais inesperada de alguns indivíduos?

Depois de vários receios com o fim do mundo em 2000, agora 2012 é o ano da nossa destruição de acordo com a profecia Maia. Um grupo de geólogos investiga umas perturbações geofísicas que estão a modificar o núcleo da terra. Fazendo alguns cálculos descobrem que o fim do mundo se aproxima e começam um plano de contingência que se estende secretamente a todo o G8. Enquanto isso, um escritor falhado e divorciado vai passar uns dias a acampar com os filhos em Yellowstone. O que era suposto ser um lago de origens vulcânicas é um recinto vedado onde a morte impera. A intervenção militar leva-o a suspeitar de algo e por algum tempo dá ouvidos ao maluquinho local com teorias de conspiração. Até que a ex-mulher lhe liga para voltar imediatamente, a Califórnia está a tremer como nunca.
É entre o mundo do segredo político-militar (geólogo Helmsley) e o do cidadão comum (escritor Curtis) com suspeitas que o filme se divide. Enquanto Helmsley tem meses para lidar com políticos - trabalhando com o próprio presidente - jogos de bastidores e trabalhar sob o estatuto de segredo de estado, Curtis tem dias para perceber o que se passa e fazer aquilo que o ser humano está geneticamente preparado para conseguir: sobreviver.

Está repleto de situações improváveis, personagens cliché, fugas cronometradas ao segundo e tudo o que se esperava. Os americanos são mostrados de acordo com o que é politicamente correcto e os governantes de algumas outras nações seguem o estereótipo que temos deles (tem piada ver que passados três anos tão pouco mudou na política europeia). Não é a tragédia humana o mais chocante, nem sequer a conspiração ou as vidas perdidas por essa conspiração ou pela catástrofe. É o simples facto de 46 países terem chegado a um acordo tão rápido e sem alarido. Será o futuro que os impede de serem humanos no dia-a-dia?

Entre os pontos fortes está a rápida recuperação do filme que após um início decepcionante e tão semelhante a outros do género, depressa recupera o fôlego e trilha o seu próprio rumo por entre duas horas e meia que culminam com os cataclismos. Sendo o mais caro dos filmes de destruição total, tinha a obrigação de apresentar rigor científico e efeitos de primeira. Quanto ao segundo ponto nada a comentar, foi dinheiro bem gasto, mas os erros geológicos, geográficos, físicos e económicos são demasiados para quem não se distrair com as erupções. E fica sempre a questão, de onde veio a água para todo o planeta ficar submergido?

Será o filme ideal para ver no arranque de 2013.

2012Título Original: "2012" (EUA, 2009)
Realização: Roland Emmerich
Argumento: Harald Kloser, Roland Emmerich
Intérpretes: John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor, Thandie Newton, Olive Platt, Thomas McCarthy, Woody Harrelson, Danny Glover
Música: Harald Kloser, Thomas Wanker
Fotografia: Dean Semler
Género: Acção, Aventura, Drama, Ficção-Científica, Thriller
Duração: 158 min.
Sítio Oficial: http://www.sonypictures.com/movies/2012/

15 de junho de 2011

"Vicky Cristina Barcelona" por Nuno Reis

Barcelona é aquela cidade de que é difícil não gostar. Toda a sua história, cultura, arte, beleza e mesmo aspirações autonómicas fazem com que seja um farol no meio de um continente que teima em viver no passado. Não admira que tenha uma das canções jamais dedicadas a uma cidade. Faltava-lhe ainda o filme de referência e para isso lá estava Woody Allen, já farto de Inglaterra, mas sempre encantado com a Europa.
Vicky Cristina Barcelona

Vicky e Cristina são duas amigas completamente opostas. Enquanto Vicky está noiva e visita Barcelona para aprofundar conhecimento, útil para o mestrado em cultura catalã, Cristina vai apenas para espairecer e se divertir. Aqueles dois meses de Verão depressa se transformam numa aventura quando um sedutor pintor as convida para um fim-de-semana em Oviedo de sexo a três.
Vicky Cristina Barcelona

Além de ser a musa do momento do cineasta, Johansson é Allen. Artista incompreendida e frustrada, apaixonada pela Europa e revoltada contra a “cultura puritana e materialista da América”, divide-se entre cinema, poesia, fotografia. Até tem uma úlcera para que não passe despercebido a ninguém qual o papel que desempenha nesta estória. Mas ela pouco importa porque como Vicky temos Rebecca Hall. A “desconhecida” em quem Allen apostou para este filme já tinha trabalhado com Johansson em “The Prestige” onde fazia de esposa de Christian Bale. Faltava-lhe um filme onde as mulheres pudessem brilhar e aqui conseguiu-o. A nomeação para Golden Globe prova que aqui nasceu uma estrela. Mas este filme estava destinado a consagrar outra pessoa. Um ano depois do Oscar para Bardem o mundo aguardava por outra estrela espanhola que se juntasse a Garci, Trueba, Almodóvar e Amenábar. Penélope Cruz chega a meio do filme e faz tudo como mandava a receita para levar o Oscar, mas Rebecca Hall continua a ser a estrela. Ressalvo que um dos pontos altos do filme é a forma expressiva como os dois actores europeus conseguem intercalar os idiomas.

Vicky Cristina Barcelona

A história original foi feita para San Francisco e guardada numa gaveta, apenas a proposta de financiamento catalão, 10% do filme, levou Allen a filmar lá o argumento mais portátil que tinha pronto (a referência a Oviedo é por a cidade ter uma estátua em tamanho real do cineasta). O maior problema disso é que a Barcelona percorrida é a dos turistas. Falta aquele toque pessoal que um argumentista e um guia separados não conseguem. Faltou pensar o filme sentindo a cidade, sendo Barcelonés. Claro que como sempre a música é fenomenal e basta começar com aqueles acordes inesquecíveis para que fiquemos rendidos à cultura catalã, mas nem isso chega para fazer um filme acima da média.
Contudo para muita gente mais importante do que o filme é a moral que o percorre, lição dada por quem já muito viveu e se considera uma autoridade em amor: mais vale arrepender do que se fez, do que arrepender que não se fez. E por isso é um filme que se deve ver pelo menos uma vez, de preferência quando se pensa estar apaixonado.


Vicky Cristina BarcelonaTítulo Original: "Vicky Cristina Barcelona" (Espanha, EUA, 2008)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penelope Cruz, Patricia Clarkson
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Género: Drama, Romance
Duração: 96 min.
Sítio Oficial: http://www.vickycristina-movie.com/

14 de dezembro de 2010

"New Moon" por Nuno Reis

Depois de um auspicioso primeiro filme que serviu de cartão de visita da saga para os desconhecedores dos livros, o resto da trilogia atingiu o estatuto de blockbuster, filme de culto ou como quiserem chamar. O que é certo é que tem dos fãs mais devotados da história do cinema, os seus actores tornaram-se ídolos de milhões do dia para a noite - especialmente à noite por causa do problema com o sol – e os filmes seguintes foram recordistas de bilheteira desde o primeiro dia.

Em "Twilight" a pálida Bella apaixona-se por um vampiro vegetariano que lhe quer sugar o pouco sangue. Parece que todos a querem beber porque depressa vampiros nómadas começam a rondar a pacata vila, mas a draculeana família Cullen defende eficazmente o seu território de caça e o mais recente membro da família. Neste segundo capítulo para melhorar as coisas, e perdoem-me mas esta informação já não é spoiler para ninguém, juntam lobisomens aos vampiros. Edward, o vampiro, quase causa a morte dela e decide sair de cena de forma trágica, deixando o caminho aberto para o licantropo Jacob que já tinha aparecido no primeiro episódio. Com um dilema emocional causado pelo amor de dois não-homens, Bella tem ainda de enfrentar a realeza vampírica em Itália e ser a fiel depositária auto-nomeada dos segredos da fantástica tribo Quileute.

Este é o defeito das pseudo-trilogias. Quando o primeiro fascículo é introdutório e o terceiro tem um combate épico, o segundo raramente serve para mais do que uma transição. Não li os livros em versão original, e confesso que detesto a tradução portuguesa, mas a história é viciante e foi lendo "Lua Nova" que me maravilhei com a táctica utilizada para representar a passagem dos meses em que nada importava. No filme aguardava esse momento e a cena é aceitável, mas depois do filme terminado também parece ser o que teve de melhor... Esta película nada mais é do que um longo desfilar de novas personagens (na maioria bons actores), péssimos efeitos digitais e situações timidamente ligadas entre si. Se não fosse pelos actores nem pareceria da mesma saga. Claro que o fantasma Edward tornava a narrativa um desafio, mas também era um dos detalhes que podia ajudar a fazer um grande filme. Assim não foi grande, foi apenas demorado.

Já chega de tentar fazer um filme de terror light, um romance e um filme para miúdos num só. É preciso tomar um rumo e como o quarto filme não é para gente pequena já podiam ter deixado a novela para trás. A mudança de realizador foi um fracasso e apenas a vontade de ver como tudo "acabava" me levou a ver a terceira parte. Será melhor?

New MoonTítulo Original: "New Moon" (EUA, 2009)
Realização: Chris Weitz
Argumento: Melissa Rosenberg (baseaada no livro de Stephanie Meyer)
Intérpretes: Kristen Stewart, Taylor Lautner, Robert Pattinson, Billy Burke, Anna Kendrick, Ashley Greene
Música: Alexandre Desplat
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Género: Drama, Fantasia, Romance
Duração: 130 min.
Sítio Oficial: http://www.newmoonthemovie.com/

3 de abril de 2010

"Inglorious Basterds" por Nuno Reis

Bridget von Hammersmark: I know this is a silly question before I ask it, but can you Americans speak any other language besides English?

"Once upon a time in Nazi occupied France" é como começa um filme que depressa se juntará aos maiores clássicos do cinema. "Once upon a time" como se fosse uma obra de Sergio Leone. "In Nazi occupied France" porque esta se desenvolve noutra época e noutro lugar. São os anos quarenta, o mundo aguarda em suspenso o desfecho de uma guerra e França é o centro da confusão. De um lado está o exército de Hitler, do outro o exército dos Aliados e do outro o exército invisível dos rebeldes, la Résistance. Para aumentar a confusão há ainda uma quarta força composta por judeus que pretende derrotar os nazis através do medo. Matar, escalpar, marcar, vale tudo... desde que não façam prisioneiros e ninguém escape. Eles são os Bastardos e têm como única missão matar com o mínimo de humanidade possível. Além deles uma judia que esperava ter escapado ao pesadelo vê cair-lhe nas mãos uma hipótese única de se vingar de todos os responsáveis pela morte da família. Entre nove mercenários raivosos e uma mulher furiosa não há como escapar. A única esperança dos nazis reside em Hans Landa, um caçador de judeus inteligente e imparável, com o dom de estar no sítio certo à hora certa. Sozinho pode decidir o rumo da guerra.

Temos aqui actores de fama internacional que se aglomeram e esforçam por um pouco de atenção. Brad Pitt, Diane Kruger, Michael Fassbender, todos têm os seus momentos. Eli Roth além da divertida personagem que interpreta ainda pôde fazer o filme dentro do filme. Entre os talentos locais desde Til Schweiger a Daniel Brühl, Tarantino teve quem quis, mas a sorte maior veio de fora da Alemanha. Num filme com vinte personagens seria difícil alguém ter destaque, mesmo que se estenda por mais de duas horas. No entanto, Christoph Waltz causa a impressão de que podia ter feito o filme todo sozinho que não seria pior por isso. Waltz é um actor como raramente se encontra. Mesmo sendo na vida real pai de um rabino é aqui com muito gosto o mais sanguinário caçador de judeus de que há memória. Chamá-lo actor secundário é ofensivo pois ele é o filme desde a primeira cena até à última e sem ele não haveria esta obra-prima. Mélanie Laurent também é uma fantástica revelação pela fabulosa performance que dá cruzando medo e coragem em todos os seus actos.

Não se enganem pensando que é um filme americano. Tarantino sempre fez os filmes com as suas regras bem claras e a filmar um filme na França ocupada por nazis fez como devia: os americanos e os britânicos falam inglês, os franceses falam francês e os alemães falam alemão. Isso gera alguma confusão para os americanos, ridicularizados na frase indicada inicialmente.
As referências ao cinema da época são magníficas, indecifráveis para a maioria e mesmo quem perceba metade delas terá de estudar bastante antes de compreender tudo o que é dito por Hicox. Aliás, este filme em si é um caso de estudo pela forma magnífica como está feito: pelo desempenho dos actores desde o ridículo propositado à mais rigorosa perfeição; pelo rigor histórico corajosamente transformado em ficção; por ser um filme de guerra em que não se vê uma única batalha (se excluirmos os minutos finais é dos que tem menos sangue e mortes em toda a carreira do realizador) e por ser um filme sobre cinema.
O melhor filme de Tarantino? Por enquanto sim, mas está visto que quando achamos ter esgotado a capacidade de inovar sendo igual a si mesmo... é sempre capaz de surpreender novamente.

Título Original: "Inglorious Basterds" (Alemanha, EUA, 2009)
Realização: Quentin Tarantino
Argumento: Quentin Tarantino
Intérpretes: Brad Pitt, Christoph Waltz, Diane Kruger, Mélanie Laurent, Eli Roth, Michael Fassbender, Daniel Brühl, Til Schweiger
Fotografia: Robert Richardson
Género: Drama,Guerra
Duração: 153 min.
Sítio Oficial: http://www.inglouriousbasterds-movie.com/

4 de fevereiro de 2010

"The Private Lifes of Pippa Lee" por Ricardo Clara

Texto originalmente publicado na Take - http://www.take.com.pt
Sem pompa nem circunstância estreou na última semana de 2009 "As Vidas Privadas de Pippa Lee", um drama bipartido em duas épocas com um elenco bastante interessante, pela extensão de figuras que nos habituamos a serem de proa nas suas produções.

Pippa Lee (Robin Wright Penn) mudou-se com o seu marido, o veterano editor livreiro Herb (Alan Arkin), para uma comunidade de terceira idade em Connecticut erigida para o efeito. Por lá, mostra-se exactamente como sempre foi: uma esplêndida dona de casa, bonita e perfeita na arte de receber visitas, sem nunca perder uma certa aura de mistério que sempre pairou sobre ela. Daquela relação nasceram o estudante de direito Ben (Ryan McDonald) e a fotojornalista Grace (Zoe Kazan), que mantêm uma conturbada convivência com a mãe. A estranha fachada que é Pippa começa lentamente a cair, junto à decadência cardíaca do marido. Assim, somos transportados amiúde para a sua infância e adolescência, em todo diferente da estabilidade que agora tem. Filha de uma viciada em anfetaminas e devoradora de comprimidos (uma Maria Bello frenética, num belo papel), viu-se envolvida numa sessão de fotografias explícitas pela mão da namorada da tia, Kat (uma passageira Julianne Moore), terminando por entrar numa viciante espiral de drogas e sexo. É neste mundo que conhece o actual marido, erguendo com ele uma vida misteriosa (não totalmente desconhecida por Herb, mas certamente enigmática para o resto dos amigos), e com quem enfrenta o medo da morte nos dias de hoje, numa procura pela sua verdadeira essência.

Com um elenco muito consistente - Wright Penn e Maria Bello impecáveis, Alan Arkin forte e uma neurótica Winona Ryder como melhor amiga de Pippa, num papel a fazer lembrar as suas melhores interpretações no início dos anos 90, As Vidas Privadas de Pippa Lee encontra nesta reunião de actores o ponto mais forte da sua produção (onde ainda despontam Mike Binder, Monica Bellucci e Keanu Reeves). Alternando entre as cores garridas dos anos 50 e uma comédia negra com drama à mistura, observamos um argumento que navega nas águas revoltas da inconsistência, numa narrativa por vezes mal explicada, e que se sente perdida em vários pontos do filme. Louvamos com atenção a interpretação de Wright Penn, num papel que podia candidatar-se a alguns prémios, fruto de uma confusão positiva com a própria Pippa.

Enquanto terceira obra de Rebecca Miller, segue a mesma linha mediana dos seus anteriores trabalhos, "Velocidade Pessoal" (2002) e "A Balada de Jack e Rose" (2005), com o plus de ser uma história decadente, assente nas premissas das famílias disfuncionais. Miller continua nesta obra apostada também na escrita dos argumentos que filma (são todos da sua autoria), mas apostamos que continuará a não sair deste tom num futuro próximo.

Título Original: "The Private Lives of Pippa Lee" (EUA, 2009)
Realização: Rebecca Miller
Argumento: Rebecca Miller (livro da própria)
Intérpretes: Robin Wright Penn, Alan Arkin, Maria Bello, Winona Rider, Mike Binder, Julianne Moore, Monica Bellucci, Blake Lively, Keanu Reeves
Fotografia: Declan Quinn
Música: Michael Rohatyn
Género: Drama, Romance
Duração: 98 min.
Sítio Oficial: http://www.pippalee.com/

"Couples Retreat" por Ricardo Clara

Texto originalmente publicado na Take - http://www.take.com.pt
A indústria cinematográfica norte-americana está a sofrer de uma gigantesca depressão no que diz respeito à comédia. Mas, claro está, nem tudo são espinhos. Vince Vaughn e Jon Favreau são uma gota no imenso oceano de incapacidade criativa neste género. O primeiro, por ter participado em comédias de relativo sucesso como "Os Fura-Casamentos" (2005) ou "Separados de Fresco" (2006) (no qual surge ao lado de Favreau), com boas receitas nas bilheteiras. O segundo, por uma sustentada carreira, repartida entre a realização e a interpretação, com relevo para papéis em "Impacto Profundo" (1998) e "Uns Sogros de Fugir" (2008), mas especialmente por ter sido o comandante em "Homem de Ferro" (2008), filme que coleccionou prémios, e que se prepara para ter uma sequela, já em 2010, novamente com Favreau na realização. Todos este títulos não passam de boas apostas comerciais, mas de tímidas comédias que pouco ou nada acrescentaram ao género. Se pensavamos que Vaughn e Favreau tinham encontrado um rumo, "Terapia Para Casais" vem negá-lo.

A história, simples. Quatro casais partem para uma ilha paradisíaca, convencidos de que o destino são uma merecidas férias. Errado, pois Jason (Jason Bateman) e Cynthia (Kristen Bell), mentores da viagem, passam por graves provações matrimoniais, e encontram em Eden (nome do local) uma óptima proposta de aconselhamento matrimonial. Com eles, seguem Dave (Vince Vaughn) e Ronnie (Malin Akerman), Joey (Jon Favreu) e Lucie (Kristen Davis), e o recentemente divorciado Shane (Faizon Love) e a namorada Trudy (Kali Hawk). Até que, e depois de ludibriados pelos interessados, descobrem que Eden não é realmente o que parece. Se uns casais estavam sólidos, deixam de o estar, para os que necessitam de ser salvos verem a sua tarefa dificultada pelos estranhos métodos de Marcel (Jean Reno).

Terapia Para Casais, como já demos a entender, é uma pobre desculpa de comédia. Penosamente escrito e interpretado, revela uma incapacidade gritante na complicada arte de fazer rir, como se propunha desde o início. Aliás, o que mais incomoda nesta nova tendência norte-americana é a repetição até à exaustão das mesmas piadas, nos mesmos contextos, sem nunca largar o escabroso ou a conotação sexual brejeira. Por aqui, aposta-se que em 2010 teremos mais desta obsessão em enveredar por caminhos (re)pisados e que não oferecem absolutamente nada de novo ao cinema comercial, o que nos assusta, até porque começa a ser cada vez mais comum assistirmos a filmes de elevada qualidade que ficam às portas da exibição na tela, e que são chutados directamente para cinema em casa, só para ceder aos caprichos das produtoras e distribuidoras que não se cansam de estar obcecadas pelos mesmos temas.

Título Original: "Couples Retreat" (EUA, 2009)
Realização: Peter Billingsley
Argumento: Jon Favreau, Vince Vaughn, Dana Fox
Intérpretes: Vince Vauughn, Jason Bateman, Jon Favreau, Faizon Love, Malin Akerman, Kristen Bell, Kristin Davis, Kali Hawk, Jean Reno
Fotografia: Eric Alan Edwards
Música: A.R. Rahman
Género: Comédia
Duração: 113 min.
Sítio Oficial: http://www.couplesretreatmovie.com/

31 de janeiro de 2010

"My Sister's Keeper" por Nuno Reis

Most babies are accidents. Not me. I was engineered. Born to save my sister's life. É com esta curiosa frase que Andromeda se apresenta. É um nome raro tal como é raro aparecer uma personagem tão querida num filme. Quanto ao nome pode tratá-la por Anna como toda a gente, quanto ao ser uma querida não há nada a fazer. Abigail Breslin é assim. Lembram-se dela de "Nim's Island", "Zombieland" ou "Little Miss Sunshine". Já disse bem dela como pessoa num artigo sobre Sitges e agora tenho de dizer bem como actriz. Mais uma vez vou ser parcial no comentário. É que parti para Sitges no fim-de-semana de lançamento do filme. Confessei-lhe que não o tinha visto, comprometi-me a vê-lo quando chegasse. Estava proibido de não gostar.

Voltemos à criação de Anna. Como pode alguém ser criado com uma missão tão difícil (salvar vidas) e específica (da irmã)? Deram-lhe super-poderes? Foi força sobre-humana ou clarividência? Não, é apenas um clone com peças sobresselentes. Essa revelação bombástica feita logo à partida coloca o espectador em sintonia com esse ponto de vista sobre o problema. Depois falta conhecer o outro lado. Sara e Brian têm um filho e uma filha. Enquanto o problema do filho é incómodo, o da filha é mortal. Tem leucemia e uma vida condenada a tratamentos paliativos que apenas adiarão a morte até à juventude. Num passo ousado, ilegal e desesperado criam in vitro uma segunda filha, compatível com a primeira. É irónico que baptizem a filha com o nome de Andrómeda. Segundo a mitologia grega, a princesa Andrómeda da Etiópia foi sacrificada para salvar a cidade. Foi acorrentada a um rochedo para ser devorada. Esta nova Andrómeda ao longo da infância não foi devorada, mas foi "mordiscada". Doou várias partes de si como sangue e medula. Até que lhe pedem um rim. Aí a mais jovem heroína do filme (porque todos são heróis) pega no seu dinheiro, vai ter com o advogado da TV e diz-lhe "Chamo-me Anna, tenho 11 anos e quero-me emancipar". Só passaram cinco minutos e já não há como fugir. Estamos conquistados.

Há muitos heróis no filme. Anna que luta por si e se recusa a ser mártir. Kate tem de viver cada dia sentindo o corpo a falhar e a família a sofrer. Jesse, o irmão, que tem de lutar sozinho por si, pelas irmãs e pela harmonia familiar. Sara que se recusa a desistir de alguma das frentes de batalha, não percebendo que está a perder em todas. Brian perante todos estes problemas não tem para onde se virar e ainda trabalha a salvar outras vidas quando a própria filha morre a cada dia que passa. Esta sim, esta é uma família com problemas.
A nível de interpretações cada caso é um caso. Abigail Breslin está fenomenal como sempre. A personagem não tem grande destaque, mas prende o espectador entre as diversas tramas cruzadas. Pai e filho (Jason Patric e Evan Ellingson) são figurantes nesta batalha de mulheres. Deambulam com personagens menores e geralmente silenciosas numa batalha onde são meros espectadores. Não se resignam, mas aceitam. Quem não se resigna é Sara. Cameron Diaz tem a interpretação de uma vida como a mãe lutadora. É curioso como uma actriz que se associa à comédia tem sempre melhores desempenhos no drama. Para terminar devo dizer que Sofia Vassilieva (Ariel na série "Medium") está fenomenal. As personagens moribundas, especialmente jovens, costumam causar elevada empatia, mas a actriz transcende-se para fazer a condenada Kate. É a estrela maior do filme.

O filme está extremamente bem feito. Apesar da dificuldade do tema consegue manter o espectador interessado e envolvido e obriga a pensar num assunto sensível de todos os ângulos. Entre a filha que quer viver, a que não quer morrer, e a mãe que quer controlar a vida e a morte, é difícil não apoiar algum dos lados. Não há como ver sem sofrer, se bem que não chegue ao ponto de obrigar à lágrima melodramática. Quando termina sabe a pouco.

Título Original: "My Sister's Keeper" (EUA, 2009)
Realização: Nick Cassavetes
Argumento: Nick Cassavetes e Jeremy Leven (livro de Jodi Picoult)
Intérpretes: Abigail Breslin, Cameron Diaz, Jason Patric, Alec Baldwin, Emily Deschanel
Fotografia: Caleb Deschanel
Música: Aaron Zigman
Género: Drama
Duração: 109 min.
Sítio Oficial: http://www.mysisterskeepermovie.com/

30 de janeiro de 2010

"The Goods: Live Hard, Sell Hard" por Nuno Reis


Se há profissão a que a crise não afecta são os vendedores de carros usados dos filmes. A figura clássica do vigarista nunca tem problemas em vender gato por lebre e ganhar uns milhares no processo. Contudo neste filme passa-se o contrário. A família Selleck (Vendedores Sell-eck? falta de originalidade...) está com dificuldades no negócio e o patriarca lembra-se "se tiver algum problema, se ninguém me consegue ajudar e se os conseguir encontrar talvez eu consiga contratar uns vendedores mercenários!". Basicamente esta classe profissional consegue chegar, ver e vender. Liquidam stocks e partem para outra terra sem criar laços.

Seja o que for que queira vender Don Ready é o homem para o serviço. A sua equipa extremamente competente é a melhor no que faz só que muitos meses seguidos na estrada destruiram o que lhes restava de humanidade. De momento vivem para vender e até isso lhes custa com a fatídica lembrança de Albuquerque... Chegados à loja dos Sellick terão de vender 211 carros num fim-de-semana prolongado. Só que, como é óbvio, nem só de vendas se faz um filme e passam-se outras coisas. No início a personagem choque é Babs com as suas raras. Depois o foco passa para a sensibilidade escondida de Jimmy. Por momentos Don tem o protagonismo que lhe era devido, mas não faz nada de jeito com isso. No fim é o homem que se esconde no coração de Don que tem a atenção.

Tirando o humor foleiro, as tentativas de se distinguir com personagens sensíveis e a completa falta de história, é um filme terrível que merece ser esquecido urgentemente caso seja visto até ao fim (o que também não aconselho pois piora drasticamente). Ter actores semi-conceituados não ajudou. Ed Helms e Rob Riggle ainda este ano estiveram em "The Hangover" com muito melhor desempenho. Se compararmos os seus papéis Helms passou de dentista desprezado a vilão desprezível, e Riggle passou de polícia ridicularizado a miúdo ridículo. Uma coisa inconcebível. De todos só se aproveita Kathryn Hahn - por pouco tempo - e Ken Jeong (mais um vindo de "The Hangover") que não tem personagem suficicente para se sair mal.

Há quem ache graça a estas piadas sem nível, metralhado sem dar tempo para o espectador pensar se é mau ou bom. O alerta da minha parte está feito. Vejam por vossa conta e risco.

Título Original: "The Goods: Live Hard, Sell Hard" (EUA, 2009)
Realização: Neal Brennan
Argumento: Andy Stock, Rick Stempson
Intérpretes: Jeremy Piven, Ving Rhames, David Koechner, Kathryn Hahn, David Koechner, Ed Helms, Jordana Spiro
Fotografia: Daryn Okada
Música: Lyle Workman
Género: Comédia
Duração: 89 min.
Sítio Oficial: http://www.livehardsellhard.com/

"G-Force" por Nuno Reis

No final de 2009 estreou um filme com Sam Rockwell, Penelope Cruz, Tracy Morgan, Jon Favreau, Nicolas Cage, e Steve Buscemi. Podem ter visto o filme, mas a eles não viram: eram roedores. "G-Force" combinou o poder do marketing Disney com um elenco de luxo e uma ideia divertida. Uma equipa secreta e altamente treinada de porquinhos-da-índia tem como primeira e última missão derrotar máquinas de café que ameaçam conquistar o mundo. O departamento deles corre risco de extinção e por isso terão de mostrar o seu valor e ir onde nenhum homem ousou. Se falharem o laboratório é fechado, eles são vendidos a crianças, e o mundo é conquistado pelos micro-ondas.

Com um soberbo conjunto de vozes era agora exigido muito da técnica cinematográfica para combinar as criaturas peludas com os poucos actores físicos (Zach Galifianakis e Kelli Garner como os bons da fita, Bill Nighy e Will Arnett como os maus). Está tão bom que até nos podemos esquecer que ratos não falam e não actuam, fazem parte da história."G-Force" assume um lugar honroso no cruzamento entre imagem real e CGI. Os porquinhos-da-índia são os heróis e têm mais tempo de antena, mas a espécie dominante consegue ser parte integrante da história sem ser relegada para simples figurantes. São personagens secundárias como habitual nos filmes de animais para crianças.

Um filme onde os actores não comprometem e as estrelas são controladas por computador como meros efeitos especiais, só precisa de argumento para ser perfeito. Alguém se esqueceu disso. A história é banal, simples e frágil. Só dá mesmo para crianças. Lugares-comuns não faltam - relações intra-equipa, família desencontrada, mauzão que quer conquistar o mundo, vilão de identidade desconhecida - e tem explosões como é habitual em outros filmes produzidos por Bruckheimer. A adrenalina está bem medida (dose infantil, claro) e a acção é variada e divertida. Para o público adulto é entretenimento garantido das primeiras vezes... a que muitas se seguirão. Seguramente será um filme a rever na TV em muitas tardes de domingo.

O filme foi feito em 3D, deve ser melhor em 3D, mas não tem cenas exclusivas para essa tecnologia. Tirando as esferas a dar gigantescos saltos sobre a cabeça pode ser visto a duas dimensões sem prejuízo do espectador.

Título Original: "G-Force" (EUA, 2009)
Realização: Hoyt Yeatman
Argumento: Cormac e Marianne Wibberley (história de Hoyt Yeatman)
Intérpretes: Sam Rockwell (voz), Penelope Cruz (voz), Tracy Morgan (voz), Nicolas Cage (voz), Jon Favreau (voz), Bill Nighy, Zach Galifianakis, Steve Buscemi (voz)
Fotografia: Bojan Bazelli
Música: Trevor Rabin
Género: Acção,Aventura,Família,Fantasia
Duração: 88 min.
Sítio Oficial: http://disney.go.com/disneypictures/gforce/

"Confessions of a Shopaholic" por Nuno Reis


Your mother and I think that if the American economy can be billions in debt and still survive, so can you.

Uma das surpresas mais estranhas entre as estreias de 2009 foi esta comédia romântica inspirada no fantástico mundo das compras. Inspirado numa série de livros começada há dez anos - e para público exclusivamente feminino - a passagem a cinema foi feita durante a recessão. O mundo da moda nos últimos tempos tem sido tema frequente em séries e filmes mais reputados pelo que havia um risco em fazer este filme agora. No entanto pelo filme que é era agora ou nunca. A sociedade estava receptiva como não se deseja que algum dia volte a estar.

Rebecca , uma eterna gastadora, vê-se subitamente a braços com o crédito suspenso e a precisar de ganhar muito e depressa. No mundo real não é tão fácil pagar as contas como nos sonhos de infância. Rebecca terá uma árdua missão pela frente, especialmente nesta época de crise. Como do que gosta é de comprar roupa, o ideal será um emprego que lhe pague para comprar roupa. A pensar nisso escreve para a gigantesca revista Alette, mas a carta acaba noutra revista do grupo. A linguagem financeira lá presente é tão acessível que acaba a dar conselhos numa coluna sobre finanças. Sob pseudónimo irá resolver problemas, com os cartões em nome dela irá causar mais.

É uma comédia romântica para o público feminino. Está recheada de clichés que até enervam e as piadas pecam por falta de originalidade e de graça. Devia falar de moda e finanças, mas tem muita roupa e pouca economia estando a segunda disfarçada da primeira. Quanto ao rigor legal nem vale a pena falar, foi tudo satirizado. Este one woman show coloca o sucesso do filme nos ombros de Isla Fisher. Surpreendentemente ela torna-se a única razão para ver o filme do início ao fim. A personagem não era difícil de interpretar, mas Fisher não falhou. Encarnou Rebecca levando-a a onde era preciso na comédia ou no romance, com expressões faciais hilariantes. É irresponsável, por vezes torna-se irritante, mas dou os meus parabéns ao casting porque aqui acertaram na mouche. Já o trio de J's - Joan Cusack, John Goodman e John Lithgow - está a enterrar a carreira.

Quem assistir a este filme não vai receber nem conselhos financeiros nem dicas de moda. Não vai ficar surpreendido com a história ou a técnica filmica. É um chick flick que entretém e alegra. Não se pedia mais.

Título Original: "Confessions of a Shopaholic" (EUA, 2009)
Realização: P.J. Hogan
Argumento: Tracey Jackson, Tim Firth e Kayla Alpert (livro de Sophie Kinsella)
Intérpretes: Isla Fisher, Hugh Dancy, Joan Cusack, Krysten Ritter, John Goodman, John Lithgow, Kristin Scott Thomas
Fotografia: Jo Willems
Música: James Newton Howard
Género: Comédia, Romance
Duração: 104 min.
Sítio Oficial: http://confessionsofashopaholic.movies.go.com/

25 de janeiro de 2010

"Coraline" por Nuno Reis

Coraline

Henry Selick é um dos realizadores mais talentosos do cinema moderno. Pode ter uma carreira pequena e com deslizes pelo meio, mas seja com "James and the Giant Peach" ou o incontornável "The Nightmare Before Christmas" marcou o seu lugar e o seu estilo. Em "Coraline" recupera a grandiosidade que há muito não lhe víamos. Adaptando um livro do também enorme Neil Gaiman, transporta para cinema a aventura de Coraline.

A pequena Coraline mudou-se com os pais para um apartamento no meio do nada. Deixou os amigos de sempre, vai começar o ano numa nova escola e nem os pais têm tempo para ela. A pequena de cabelos azuis aproveita a sua independência para explorar a área, por vezes na companhia de Wiborne e o seu gato, outras vezes só. O prédio também é ocupado por duas velhas actrizes muito doidas e um russo circense que está a amestrar ratos. Dentro da própria casa descobre uma porta mágica que a leva para um mundo semelhante ao seu. Só que lá tudo é melhor excepto um detalhe: as pessoas usam botões nos olhos. Com o passar dos dias dividida entre os dois mundos cada vez se convence mais que o novo mundo é melhor, mas nada é o que parece e ela está em grande perigo.


O argumento deslumbrante na fase inicial transporta-nos de volta para a infância. Todo o mundo fantástico escondido atrás da porta encaixa no imaginário das crianças. Com o desenrolar da narrativa as sombras ocupam levemente o mundo dos sorrisos até que deixa de ser uma linda história de embalar. Aí torna-se num mundo com teias de aranha, monstros feitos de areia, ratazanas e fantasmas. Nunca fica demasiado negro, mas quem levar os filhos acreditando na classificação maiores de seis anos vai ter de lidar com alguns pesadelos nas noites seguintes.
Tem elementos recorrentes do trabalho do realizador. Todo o universo criado recorda o estranho mundo de Jack. Pode não ser tão sombrio, mas a arte está lá.
Ao longo do filme uma das coisas que mais se evidencia são as vozes. Tons familiares de vários anos e muitos filmes dão uma sonoridade real ao que vemos. Falo, claro, de Dakota Fanning e Teri Hatcher, protagonistas desta aventura, mas também de Ian McShane num soberbo trabalho vocal.
A componente musical é a mais fraca do filme, o que é curioso pois normalmente é um dos fortes nas animações. Aqui não há nenhuma letra que fique na cabeça, há música adequada às situações.

É uma das grande animações do ano findado como o provam as dez nomeações em 8 categorias para os Annie Awards, máximo conseguido apenas por "Coraline" este ano. Dentro de duas semanas saberemos se é mesmo o melhor.

Título Original: "Coraline" (EUA, 2009)
Realização: Henry Selick
Argumento: Henry Selick (livro de Neil Gaiman)
Intérpretes: Dakota Fanning, Teri Hatcher, Robert Bailey Jr., John Hodgman, Keith David
Fotografia: Pete Kozachik
Música: Bruno Coulais
Género: Animação, Aventura, Família, Fantasia
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: http://coraline.com/

24 de janeiro de 2010

"Julie & Julia" por Nuno Reis


Julie: You know what I love about cooking?
Eric: What's that?
Julie: I love that after a day when nothing is sure - and when I say nothing, I mean nothing - you can come home and absolutely know that if you add egg yolks to chocolate and sugar and milk it will get thick. It's such a confort.


Houve uma era em que apenas os homens trabalhavam e as mulheres ficavam em casa entretidas com jogos, costura ou culinária e para a maioria delas isso chegava. Até que apareceu Julia Child, e ela sabia que o mundo era mais do que isso. Era mais alta do que a maioria dos homens: isso nunca a impediu de ser feliz. Estava num país estranho: aprendeu a língua. Estava desocupada e gostava de cozinhar: estudou culinária. Achou o curso básico: inscreveu-se num outro para chefs. Entrou num mundo de homens e suplantou-os. Escreveu um livro, teve um programa de televisão e ensinou um país a cozinhar à la française.
Houve uma era, no início desta década, em que os blogs eram ainda um diário público. As pessoas escreviam os seus sonhos e objectivos sem medo de os mostrar ao mundo. Julie Powell, uma escritora falhada, desiludida com a sua vida, casa e com o deprimente emprego de dar apoio às vítimas do 9/11 decide blogar. O tema: culinária. A missão: receitas da Julia. O prazo: um ano. A rede 2.0 estava a arrancar (o Antestreia ia aparecer durante esse ano) e uma quase escritora acreditou na potencialidade de uma ferramenta que a expunha ao mundo.
Além do nome e da paixão pela comida, o que une estas duas mulheres? Nascidas em épocas diferentes, com educações diferentes, a única coisa em comum foi acreditarem em si mesmas e levarem o sonho avante, mesmo que fosse apenas para satisfação pessoal.

Nora Ephron adaptou para cinema estas duas vidas. No fundo são dois filmes num. "Julie" é um drama moderno e acelerado. "Julia" é uma comédia leve, um romance. E apesar de ter metade das duas horas, se a outra história saísse para dar lugar ao resto da vida de Julia o filme só teria a ganhar.
Fazer um paralelo não era possível. A aventura de Julia durou vários anos, a de Julie apenas um. Por isso para o filme "Julia" a vida louca começaria com a chegava a França em 1949 e terminaria quase quinze anos depois com o livro publicado. Bons velhos tempos em que os anos passavam devagar e ninguém tinha pressa.

Para interpretar Julia pela primeira vez na história do cinema tinha de ser uma actriz tão adorada como a retratada, versátil, acima de qualquer crítica. Aquela que a cada ano nos surpreende com um papel diferente, inesperado, brilhante. Meryl Streep é Julia Child para todos os efeitos e para sempre. Julie por outro lado teve tudo de mão beijada. Escreveu para o mundo e esperou por um telefonema. Para tirar as veneradas Julia e Meryl do ecrã e trocar por uma qualquer blogger também é preciso cuidado. A escolhida foi Amy Adams que ainda há um ano tinha também feito a proeza de ofuscar Streep em "Doubt". Não está excepcional ou memorável, mas cumpre o papel.
Os maridos delas correspondem ao talento. Stanley Tucci tem um desempenho maravilhoso e forma com Streep um casal adorável. Já Chris Messina faz o que pode numa personagem descartável, o marido de Julie é ofuscado por uma mulher que procura mais o sucesso (via blog) do que a felicidade conjugal.

Este filme será seguramente mais apreciado por pessoas com dotes culinários ou que tenham acompanhado o fenómeno Julia pela televisão. Quem acompanhou Julie pela blogosfera como um romance terá uma adaptação fiel. Para quem o vai ver apenas como cinema proporciona uns momentos bem passados, que obrigam a reflectir sobre a acelerada sociedade contemporânea. A comida e a doçaria não causam o efeito de "Chocolate", mas andam perto. Não ir ver de barriga vazia!

Título Original: "Julie & Julia" (EUA, 2009)
Realização: Nora Ephron
Argumento: Nora Ephron (baseada no livro de Julie Powell e no livro de Julia Child/Alex Prud'homme)
Intérpretes: Meryl Streep, Stanley Tucci, Amy Adams, Chris Messina
Fotografia: Stephen Goldblatt
Música: Alexandre Desplat
Género: Biografia, Comédia, Drama, Romance
Duração: 123 min.
Sítio Oficial: http://www.julieandjulia.com/

17 de janeiro de 2010

"Avatar" por Nuno Reis


Avatar - O fenómeno do ano

Tenho de começar por dizer que não me considero grande fã de Cameron. Gostei dos "Terminator" e de "Aliens", o "True Lies" não posso dizer que seja mau e apesar de não acompanhar regularmente via "Dark Angel". Pensando bem, de forma simples, dos trabalhos de James Cameron eu só implico com "Titanic". Nunca o vi em cinema e quando deu na televisão vi em modo zapping, devo ter escapado a mais de metade do filme. Não me prendeu e com o frenesim causado "em cada 2 portugueses 3 viram o filme" fiquei de pé atrás em tudo o que se relaciona com o realizador. Isso coincidiu com a semi-pausa que ele fez da realização o que ajudou a melhorar a nossa relação. Foi nesse período que comprei o DVD "The Abyss".
Claro que mesmo assim quando "Avatar" foi anunciado tinha as minhas suspeitas. Meses de especulação passaram, semanalmente saía alguma informação mais detalhada e na fase final os trailers eram praticamente diários . Adiei a ida ao cinema enquanto me foi possível, esta semana não deu para escapar novamente. Depois de um mês a ouvir dizer bem e mal pus os óculos 3D e mergulhei no mundo de Pandora.

A presença humana tem três pólos fundamentais.
O lado militar quer assegurar a segurança dos humanos num ambiente hostil. O seu líder, o Coronel Quaritch, interpretação de Stephen Lang, deseja o confronto como Golias que tem o tamanho e a força para espezinhar tudo o que o rodeia. Não se preocupa com os seres que habitam Pandora desde sempre, pretende expropriar e dizimar para ficar com os recursos minerais à boa moda da Terra. Não culpemos os americanos, ao longo de séculos muitos fizeram o mesmo.
O lado empresarial quer extrair o mineral com lucro máximo. Giovanni Ribisi é o rosto do incapaz Parker Selfridge que não tem a coragem de se opor à opressão. Tenta ser humano, mas falta-lhe a convicção para fazer o que é correcto. Devia liderar a presença terrestre, mas é um fantoche do braço militar que por enquanto tolera a componente científica da expedição.
A fazer a investigação científica reencontramos Dian Fossey e um novo género de gorilas na bruma. Ao contrário de "Wall-E" onde quer destruir os humanos e da imortal Ripley que quer destruir os extraterrestres, Sigourney Weaver aqui é a moderada Grace Augustine. Botânica, linguista, o elo de ligação entre os dois mundos. O ódio de Quaritch por ela é recíproco.
Entre os peões deste jogo estão Trudy (Michelle Rodriguez), uma excelente piloto que dá apoio ao transporte de militares e cientistas. Norm Spellman (Joel Moore), um recém-chegado cientista com Avatar. Max Patel (Dileep Rao) um cientista que tem muito de espião. E finalmente o maior peão de todos: Jake Sully (Sam Worthington). Marine herda o Avatar do irmão cientista e parte para Pandora. Não sabe o que quer, a guerra e o ferimento incapacitante deixaram-no deprimido e insensível. Vai ficar perdido entre o desejo de ajudar Augustine cumprindo o sonho do irmão, o de ajudar Quaritch como foi treinado para fazer, e o de ajudar os nativos que o adoptaram.

A parte humana é essencialmente imagem real, ou próxima disso. Quando se está na exterior o mundo é tão diferente que é como se entrássemos nuns desenhos animados. Os nativos de Pandora são humanóides muito altos, de pele azul e com uma curiosa trança. Vivem da Natureza e em harmonia com ela. Sabem que são parte do ecossistema e respeitam-no para serem respeitados. Entre os Na'Vi há muitos clãs, os Omaticaya são os que já tiveram uma escola de Augustine e também são os que acolhem Jake. Entre eles destacam-se Neytiri (Zoe Saldana), filha dos chefes e professora de Jake. Tsu'Tey (Laz Alonso) líder dos guerreiros e sucessor ao trono. Eytukan (Wes Study) e Moat (CCH Pounder) são um casal e líderes do clã, ele como chefe e ela como xamã que se liga à Árvore das Almas, centro nevrálgico do planeta e divindade única. O resto do planeta é indescritível, fazendo lembrar as criações mirabolantes da BD "Valérian".

Falta falar do terceiro elemento da relação Homem-Na'Vi, os Avatar. Os Avatar são criações híbridas dos genes das duas espécies. Apesar de parecerem Na'Vi o cérebro que os ocupa é controlado remotamente por um humano, como em "Surrogates" só que seres biológicos. Grace, Jake, Norm e muitos outros entram diariamente na Matrix, perdão no ecossistema de Pandora, através desse alter-ego.
A nível de analogias só me ocorre mais uma. Nas cenas ao nível da floresta de Pandora só pensava no planeta Endor (o dos Ewoks) apesar de o novo ter mais riqueza visual. E quando Jake nos céus tenta abater a gigantesca nave, lembrei-me de Luke Skywalker no seu pequeno caça a enfrentar uma Estrela da Morte. Isso é bom sinal. Pode não ser original, mas tem um efeito que só grandes filmes causam.

Presos (financeiramente dependentes) a um mundo que não gosta deles, os humanos tentam familiarizar-se com o que os rodeia. Especialmente nos céus há muitas criaturas estranhas, mas o solo é ocupado por pró-lémures e muitos outros seres com equivalentes terrestres. Parecidos com rinocerontes, panteras, hienas e cavalos. Isso fez-me recordar um dos grandes livros de FC da minha infância, "Tunnel In the Sky" de Robert Heinlein, uma epopeia sobre estudantes perdidos num mundo hostil que identificavam os animais como coelhos carnívoros, ou outros nomes assim para se sentirem mais à vontade com eles. E claro, os stobors, inimigo desconhecido que lhes aterrorizava os dias e assombrava as noites. Até aí adorei o filme que não me parecia transcendente. Subitamente falaram de Ver. Não é o ver normal que fazemos com os olhos, é Ver. Algo que se faz com olhos, coração e mente. Em "Stranger in a Strange Land" - também um livro de Heinlein - falavam disso. A palavra era grocar (verbo to grok no original). Significa compreender, fazer parte de, ser um com. É admitir que fazemos parte de algo maior e todos estamos ligados. Aceitar a morte faz parte disso, ao morrer estamos a devolver elementos da vida ao conjunto.
Os Na'vi fazem essa ligação com a trança que referi à momentos. Com ela ligam-se aos cavalos, aos Banshee que os levam pelos céus ou à Árvore da Vida para recordar memórias dos que morreram. Por essa ligação em fibra óptica ficam a ser um só, sem segredos, por isso é que quando o fazem entre eles é o equivalente às relações sexuais humanas.

Os primeiros minutos foram curiosos. 2009 foi o ano em que o espaço voltou a ser atravessado pela Enterprise e em que as base espaciais se fixaram na Lua. O espaço já não é a última fronteira e a lua que se explora não é do terceiro calhau a contar do Sol. São precisos seis anos para chegar da Terra à lua Pandora, o único local conhecido onde se pode obter o Inobtanium. Quem se lembrou deste nome não pensou muito, não era neste campo que se exigia criatividade. O mundo de Pandora sim, exigiu alguma imaginação. Flora, fauna, seres inteligentes e um sistema neurológico partilhado por todos eles.
Após três horas de filme a história nunca deixou de ser previsível. Os únicos riscos corridos foram visuais, na narrativa e acção foi mantido um ritmo lento para não cansar antes das três horas. O resultado é que terminando o filme houve muitos momentos intensos, mas não há um único memorável. Não que me queixe da realização que me surpreendeu pela positiva. Com ou sem efeitos há detalhes que revelam a mestria de quem os fez. Mesmo assim tirando os efeitos especiais seria para pensar em sair passada a primeira hora. Além da novidade é a expectativa o que vale ao filme para manter as pessoas no lugar. Para filmes com efeitos especiais e sem história já há demasiados. Pelo menos não tiveram medo de matar personagens, se também aí fossem comedidos então seria a desgraça total.

A linguagem Na'Vi que tinha cerca de 100 palavras feitas vai ser estendida nos próximos filmes. Provavelmente com a trilogia completa o Na'Vi atingirá um estatuto semelhante ao Klingon, com a diferença de ter fãs mais jovens e portanto mais anos de vida pela frente. Mas será isso suficiente frente aos trekkies? Se a cada vinte anos sair uma nova linguagem o lugar que marcaram em breve perderá o significado, sobrando dentro de décadas para o Klingon a vantagem de ter sido a primeira. Todas as outras desaparecerão como lágrimas na chuva.

O cinema com este título ganha como arte visual. Perde como arte de contar histórias. Quem vence é, como sempre, o marketing que conquistou todos os recordes faltando apenas destronar "Titanic". Quanto aos próximos episódios não contem comigo. Se esta era a melhor história e me desiludiu assim tanto tenho medo de imaginar o que possa vir depois.


Título Original: "Avatar" (EUA, Reino Unido, 2009)
Realização: James Cameron
Argumento: James Cameron
Intérpretes: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Giovanni Ribisi, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Joel Moore
Fotografia: Mauro Fiore
Música: James Horner
Género: Acção, Aventura, Fantasia, Ficção-Científica
Duração: 162 min.
Sítio Oficial: http://www.avatarmovie.com/

8 de janeiro de 2010

"The Unborn" por Ricardo Clara

Texto originalmente publicado na Take 14 - http://www.take.com.pt

Se o leitor, atento a estas coisas do terror, tiver pensado qualquer coisa como: «olha mais um filme da treta, com jovens esculturais em trajes menores, a fugir alucinadamente de um fantasma», só lhe posso dar inteira razão. David S. Goyer, o seu realizador, até tem, à partida, alguns atributos interessantes – não estivesse ele na adaptação dos mais recentes Batman. Aliás, convem não esquecer que foi este norte-americano o criador de Blade, e que realizou (com pouco sucesso, diga-se) "Blade Trinity: Perseguição Final" (2004), o que não o torna num debutante no mundo do cinema fantástico.

Em "Espírito do Mal", Casey Beldon (Odette Yustman) é uma bela estudante a braços com um pesado fado. O suicídio da mãe, internada numa clínica psiquiátrica, ainda hoje lhe deixa marcas, às quais se somam estranhos comportamentos do infante vizinho, que inclusive lhe toldam os sonhos. Intrigada com aquilo que lhe parece ser a perseguição por uma assombração, Casey procura Sofi Kozma (Jane Alexander), uma sobrevivente do Holocausto, que fica aterrorizada com a sua presença. Aos poucos, e no lento desenrolar de uma entediante trama, a verdadeira razão emerge. Casey está a ser perseguida por um dybbuk, uma entidade paranormal que "vive" no limbo entre a vida e a morte, e que mais não é do que o irmão gémeo da protagonista, morto ainda antes de nascer. Com a ajuda do Rabi Sendak (um tonto Gary Oldman), procura refazer a sua vida através de um exorcismo, que pode ter trágicas consequências na sua vida.

Claro está que voltamos ao primeiro parágrafo deste texto: "Espírito do Mal" é uma treta de terror, e uma das fitas do género mais entediantes que tive a oportunidade de assistir nos últimos anos. Estranho, até pelo desenrolar do objecto, é o facto de estarmos perante uma obra de um argumentista de raiz e de formação, que nos brinda com diálogos muito pobres (que a direcção de actores vem piorar ainda mais) e com banais mudanças de orientação narrativa. O filme é quase todo um banal cliché de terror – os momentos de "salto na cadeira" introduzidos de forma cronometrada, os espelhos, a chuva, a noite, o armazém, enfim, tudo. De positivo (porque mesmo este tédio tem algumas coisas dignas de registo), louve-se a opção de Goyer de enveredar por um mundo até agora pouco explorado, que é o da mitologia judaica e do misticismo esotérico da Cabala. Noções como exorcismo judaico ou dybbuk são interessantes, se convenientemente aproveitadas (e poupem-nos aquela palermice nazi do campo de concentração, por favor). Mas com esta falta de criatividade, e pela nossa parte, dispensamos liminarmente.

Mais uma ignorante tentativa de terror a sair directamente do forno norte-americano, que ou nos presenteia com isto, ou procura sequelas e remakes orientais.

Título Original: "The Unborn" (EUA, 2009)
Realização: David S. Goyer
Argumento: David S. Goyer
Intérpretes: Odette Yustman, Gary Oldman, Cam Gigandet, Idris Elba, Carla Gugino
Fotografia: James Hawkinson
Música: Ramin Djawadi
Género: Terror, Thriller
Duração: 88 min.
Sítio Oficial: http://www.theunbornmovie.net/

"Religulous" por Ricardo Clara

Texto originalmente publicado na Take 14 - http://www.take.com.pt
Se o tema religião foi aproveitado por centenas de filmes ao longo dos anos, o ângulo de abordagem é habitualmente o de uma mistura entre o documentário e a ficção, desde adaptações de trechos dos livros sagrados até à apresentação de figuras importantes nessa matéria. Claro está que a comédia também tem a sua quota parte, mas em muito poucas situações como neste "Religulous – Que o Céu nos Ajude", fita realizada por Larry Charles, autor de "Borat" e argumentista de "Seinfeld" e "Entourage", duas reconhecidas peças televisivas.

Mas este documentário não assenta os seus principais trunfos no realizador, mas sim no argumentista e one man show que o apresenta desde o primeiro minuto. Bill Maher, conhecido comediante norte-americano, é um daqueles criadores que, pelas suas opiniões politicamente incorrectas, deixa grupos populacionais em fúria. Por Maher, passam todo o tipo de matérias: política interna, burocracia, imprensa, o casamento homossexual e, muito especialmente, a religião. Aqui chegado, decide colocar em prática as suas convicções, elaborando um filme, totalmente modelado pelos códigos documentais, onde parodia o cristianismo, o judaismo e o islamismo, não se esquecendo dos mórmones ou da cientologia. As baterias estão essencialmente apontadas para dois vectores: a simples ideia da existência de um ente superior, criador e castigador (Maher é agnóstico), e por outro lado, todos aqueles que aproveitam estas crenças para enriquecer: evangelismo pela televisão, falsos profetas, alegadas reencarnações de Jesus Cristo, tudo o que a sociedade moderna nos oferece.

Filho de uma mãe judia e de um pai cristão, este brilhante autor traça o ponto de partida nas suas próprias raízes, e discorre ao longo de pouco mais de hora e meia, num humor cáustico e extremamente divertido, sobre as principais bases das várias religiões. Para tal, visita um parque de diversões cristão em Orlando, voa até ao Vaticano ou à Terra Santa, entrevista crentes e menos crentes, muitos deles verdadeiros sacos de pancada nas suas interpelações ou nas divertidas montagens, com imagens de arquivo e legendas à mistura. Mas o que impressiona ainda mais, é a capacidade que demonstra de chegar à fala com pessoas tão distintas como um Senador norte-americano, ou um rabi que recentemente havia participado numa conferência negacionista do Holocausto, no Irão, ela própria apadrinhada pelo presidente Ahmadinejad.

"Religulous – Que o Céu nos Ajude" é uma experiência deliciosa, mordazmente escrita, belissimamente montada, e que recomendo em toda a sua extensão. Um guilty pleasure para uns, para outros uma bela sequência de pura comédia, mais um trabalho de qualidade da criatividade de Bill Maher.

Título Original: "Religulous" (EUA, 2008)
Realização: Larry Charles
Argumento: Bill Maher
Intérpretes: Bill Maher
Fotografia: Anthony Hardwick
Género: Comédia, Documentário
Duração: 101 min.
Sítio Oficial: http://lionsgate.com/religulous/

7 de janeiro de 2010

"Passengers" por Ricardo Clara

Texto originalmente publicado na Take 19 - http://www.take.com.pt


Costuma dizer o povo que filho de peixe sabe nadar. Mas, como qualquer outra frase a aplicar certeiramente, tem excepções. Gabriel Garcia Márquez, o brilhante escritor colombiano, tem em Rodrigo Garcia o filho cineasta. Este, por sua vez, dirigiu Passageiros, que estreou no passado mês de Agosto. Ok, estou a exagerar: Garcia não é tão mau como o pinto. Mas "Passageiros" é.

Um acidente de avião oferece uma viagem final para terrenos de S. Pedro a um grupo de pessoas, com a excepção de cinco elementos, a quem é dada uma nova oportunidade de viver: Eric Clark (Patrick Wilson), Dean (Ryan Robbins), Shannon (Clea DuVall) e Norman (Don Thompson) são alguns dos sobreviventes. Para os ajudar a ultrapassar o trauma do acidente, é-lhes atribuído o precioso acompanhamento de uma psiquiatra, especialista em vítimas de acidentes, Claire Summers (Anne Hathaway). Summers, orientada por Perry (Andre Braugher), divide o seu tempo na avaliação e apoio aos acidentados, na relação com a estranha vizinha Toni (Dianne Wiest), e na luta contra o deslumbramento que começa a sentir por Eric. Este, por sua vez, embriagado por um quase renascer lança, a par dos restantes membros do grupo de ajuda, dados confusos quanto ao motivo que levou à queda do avião. Summers exorbita as suas funções, e decide investigar as verdadeiras razões. Para ela, existe uma conspiração da companhia aérea para culpar o piloto, quando, na verdade, a avaria de um motor seria a verdadeira razão. Seguida por Arkin (David Morse), um representante de tal empresa, Summers caminha a passos largos para verificar que, afinal, os acontecimentos poderão ser bem mais complicados do que ela pensaria.

"Passageiros" é um filme tremendamente falhado. Com um elenco bastante sólido, tem na realização e no argumento dois buracos inultrapassáveis. Se a primeira hora revela-se num bocejo incontornável, o restante, que se queria agitado face ao twist final, apresenta-se desconexado e sem sentido, numa lição de como não montar um filme. De facto, matéria como esta já existe, e muita (lembramo-nos, a título de exemplo, de "Os Outros" – Alejandro Aménabar, 2001). Mas, salvo um ou outro pormenor de relevo duvidoso, este final é atabalhoado e descaracterizado, com uma sequência final, que narra a importância de pessoas do passado na vida dos presentes, completamente falhada, chegando a roçar o ridículo. Dianne Wiest em má forma, numa fita que revela a incapacidade de David Morse ir mais longe nos seus papéis, e o regresso de Anne Hathaway a papéis de expressão duvidosa. Um filme a evitar.

Título Original: "Passengers" (Canadá, EUA, 2008)
Realização: Rodrigo García
Argumento: Ronnie Christensen
Intérpretes: Anne Hathaway, Patrick Wilson, Dianne Wiest, David Morse, Clea Duvall
Fotografia: Igor Jadue-Lillo
Música: Ed Shearmur
Género: Drama,Thriller
Duração: 93 min.
Sítio Oficial: http://thepassengersmovie.com/

6 de janeiro de 2010

"He's Just Not That Into You" por Nuno Reis

Uma das coisas mais difíceis é a definição de Amor, seja qual for a linguagem. Mais difícil do que isso, só as relações amorosas. Neste filme tentam fazer com que ambos os sexos se entendam. Explicam aos homens o que as mulheres querem e às mulheres o que os homens querem. Todos nós conhecemos anedotas que comparam as exigências recíprocas entre os sexos, em filme o tema costuma ser mais cuidadoso para não ferir susceptibilidades.

Afinal o que é uma relação? Se cada pessoa é um caso, cada par de pessoas é um caso ainda mais único. Para ser genérico o filme trabalha todos os estereótipos das relações monogâmicas heterossexuais. Temos uma relação duradoura sem casamento, os casados infelizes, os amigos coloridos, os namorados, os ciber-ligados, os apaixonados não-correspondidos, os infiéis, os casamenteiros e os destruidores de casamentos. As relações entre eles não são problemáticas, são apenas complicadas pelos seus ideais. Passo a explicar: As relações são genericamente iguais, mas como isso nem sempre é bom de ouvir, todos acreditam ou ambicionam ser a excepção. Grande parte da culpa é dos amigos que se esforçam para que os rejeitados e traídos se sintam melhor. Conhecem dezenas de casais com problemas parecidos numa relação parecida, mas ouvem falar de um caso que correu bem, é esse que contam e logo os futuros desiludidos acreditam poder ser também diferentes.

Mary está interessada em muitos homens, cada um pelo seu canal de comunicação, e vende anúncios a Conor. Conor é amigo de Alex que aconselha Gigi que saiu com Conor que lhe foi apresentado por Janine. Conor está interessado em Anna que está interessada em Ben que é casado com Janine. Ben é amigo de Neil que não quer casar com a mulher que ama, Beth, e esta trabalha com Gigi e Janine. Demasiada gente? Então é melhor não falar de todas as paixonetas de Gigi e das amigas de Alex, e da família de Beth... Há muitas personagens mas encaixam na perfeição e tudo faz sentido. Num mundo repleto de gente, cada um tem a sua própria história controlada pelo destino. As relações estocásticas no seu melhor.

Interrompi a escrita deste texto para férias e curiosamente este foi um dos filmes que vi nesses dias de ócio (o único repetido). Apesar de ter visto com um pouco menos de atenção teve o mesmo impacto que meio ano atrás. É uma elaborada teia de relações e emoções que os casais de todas as idades deviam ver. O elenco de luxo convence, em especial Ginnifer Goodwin e Justin Long, grandes revelações entre nomes maiores do cinema. Há outras estrelas em destaque como o triângulo Jennifer Connelly / Bradley Cooper / Scarlett Johansson, há estrelas em papeis demasiado pequenos como Ben Affleck, Drew Barrymore e Kris Kristopherson, há uma Jennifer Aniston a fazer o mesmo em todos os filmes, e há um Kevin Connolly convincente num papel de topo. Tirando esta constelação e algumas músicas bem escolhidas não há mais nada digno de destaque. É uma fusão entre comédia romântica e drama romântico, entre o monumento ao namoro moderno e a crítica social e de costumes da nossa era.

Filme ideal para casais sem problemas apreciarem a sua vida, para casais com problemas sonharem com um final feliz e para quem saiu de uma relação tumultuosa respirar de alívio. Quem aceitar ser a regra pode ser feliz como regra ou como excepção. Quem insistir em ser a excepção... boa sorte!


Título Original: "He's Just Not That Into You" (Alemanha, EUA, Países Baixos, 2009)
Realização: Ken Kwapis
Argumento: Abby Kohn, Marc Silverstein (livro original de Greg Behrendt e Liz Tuccillo)
Intérpretes: Ginnifer Goodwin, Bradley Cooper, Kevin Connolly, Justin Long, Scarlett Johansson, Jennifer Connelly, Jennifer Aniston, Ben Affleck, Drew Barrymore
Fotografia: John Bailey
Música: Cliff Eidelman
Género: Drama, Romance
Duração: 129 min.
Sítio Oficial: http://www.hesjustnotthatintoyoumovie.com/

28 de dezembro de 2009

"Butterfly on a Wheel" por Nuno Reis



Em muitos países estabilidade significa paz. Nos afastados da realidade da guerra são mais exigentes e juntam-lhe a necessidade de ter emprego, família e uma conta bancária recheada. Pequenas e grandes coisas que podemos controlar e nos fazem sentir bem ao longo da vida.

Neil e Abby têm uma vida quase perfeita. A ele tudo no trabalho corre bem: lida com os melhores clientes, é adorado pelo patrão e está na eminência de se tornar sócio. Ela tem andado por casa com a adorável filha, mas tenciona voltar brevemente à fotografia. Quando se preparavam para sair e celebrar a dois o aniversário de Abby são raptados por um estranho. A filha refém é razão suficiente para se sujeitarem a tudo o que ele lhes pede. Este sociopata pode ser louco, mas tem tudo planeado para lhes destruir não apenas a vida no presente, mas os alicerces de qualquer futuro. Só que o homem também tem segredos que não quer ver revelados. Conseguirão Neil e Abby cumprir todos os seus desejos? Conseguirão inverter a situação? Conseguirão sobreviver?

A ideia-base do filme é simples e baseia na premissa que será visto com o coração nas mãos. Há duas formas de ver o filme. Com razão ou com emoção. Vendo com emoção o choque e a adrenalina toldam o raciocínio, os eventos sucedem-se e não sobra tempo para pensar. Fica-se na situação das personagens e decerto muitos pais verão identificando-se automaticamente com elas. Quando se trata da segurança das crianças nada mais importa. Vendo com razão e mantendo a serenidade pode-se reflectir em tempo real, enquanto as cenas aceleradas se desenrolam. Pode-se até descobrir o cérebro que arquitectou todo o plano.

"Butterfly on a Wheel", ou "Shattered" como é conhecido em alguns circuitos, tem o mérito de fazer muito com pouco. Desenvolve uma grande trama, um plano muito elaborado, que no final revela ser menos do que parecia. Também é uma oportunidade para rever Pierce Brosnan e Maria Bello que têm andado afastados do cinema por cá estreado. É pena que para isso tenha sido desenterrado um filme com dois anos. Não é memorável, mas proporciona uns bons momentos.

Título Original: "Butterfly on a Wheel" (Canadá, Reino Unido, 2007)
Realização: Mike Barker
Argumento: William Morrissey
Intérpretes: Gerard Butler, Maria Bello, Pierce Brosnan
Fotografia: Ashley Rowe
Música: Robert Duncan
Género: Crime, Drama, Thriller
Duração: 95 min.
Sítio Oficial: http://www.iconmovies.net/butterfly/

26 de dezembro de 2009

"Watchmen" por Nuno Reis

Foi um dos filmes mais publicitados no ano que agora termina. Inspirada numa BD de culto, com um elenco de semi-estrelas e realizada por Zack Snyder logo após o tremendo êxito de "300", quase podia dispensar a campanha de marketing. É que uma legião de fãs aguardava há vinte anos a adaptação da novela gráfica para cinema. Quando finalmente isso aconteceu houve alguma confusão pelos direitos, muitos milhões a mudar de mãos, mas o filme conseguiu sair para as salas. A maior prova disso foi metade da facturação das bilheteiras ter sido feita na primeira semana, depois acabaram-se os espectadores.

Estamos nos anos 80. Neste universo relativo os super-heróis existem. Alguns lutam apenas com o seu patriotismo , outros têm poderes divinos. Recorrendo a esses super-heróis os EUA venceram no Vietnam e Nixon foi eleito para um quinto mandato consecutivo. Quando deixaram de precisar deles ilegalizaram o uso de máscaras, apenas dois mantiveram o direito de serem super-heróis ao serviço do governo. Quando um deles aparece morto é lançado o alerta entre eles. Suicídio ou Assassinato? Caso isolado ou perseguição a todos? O perigo será para os heróis, para o país ou para o mundo? E como em qualquer filme que se preze, além do problema com os vilões também há problemas pessoais - namoros, impérios financeiros, sociopatas, etc - e assuntos pendentes entre todos.

Tinha tudo para ser perfeito. A história, os actores e todos os efeitos que o dinheiro podia comprar. Só que neste caso o todo não vale tanto como a soma das partes. Os efeitos especiais dos mais variados géneros trazem todo o esplendor para o ecrã. Cenários bélicos, urbanos, marcianos, construções do dia a dia ou palácios vindos de uma mente muito fantasiosa, tudo é criado sem problemas e parece parte integrante do cenário. Os actores foram muito bem escolhidos. Jackie Earle Haley está perfeito, Malin Akerman deixa-nos sem fala e Billy Crudup está irreconhecível no seu difícil papel. Pelo outro lado Patrick Wilson tem um desempenho irregular, os momentos bons são melhores do que os maus, mas já nos acostumou a melhor do que isto.
O filme cria uma sociedade imperfeita, doente, onde apenas um ex-homem impede a Terceira Guerra Mundial de acontecer. É um magnífico retrato dos anos 80, visualmente e pela banda sonora. Contudo nem tudo isso chega para formar o filme. Ao assistir ficamos mais presos pela história do que pelo filme em si cuja constante energia e impacto visual cansa. Se isso se passa na versão de duas horas e meia, então na de três horas e meia...

O tempo fará bem ao filme que teve desde logo o estatuto de clássico. Voltarei a ver quando tiver disposição, mas como não foi até agora seguramente só será daqui a uns anos.
Título Original: "Watchmen" (EUA, 2009)
Realização: Zack Snyder
Argumento: David Hayter e Alex Tse (inpsirados na novela gráfica de Dave Gibbons )
Intérpretes: Billy Crudup, Malin Akerman, Jackie Earle Haley, Jeffrey Dean Morgan, Patrick Wislon, Carla Gugino, Matthew Goode
Fotografia: Larry Fong
Música: Tyler Bates
Género: Acção,Ficção-Científica
Duração: 162 min.
Sítio Oficial: http://watchmenmovie.warnerbros.com/

22 de dezembro de 2009

"The Visitor" por Nuno Reis

Walter é um professor universitário duro de ouvido e acostumado a percorrer o país. Tanto que tem uma casa em Nova Iorque para as vezes que lá vai. Numa das idas a essa casa descobre um casal a morar lá. Tarek e Zainab foram enganados e estavam a pagar renda por aquela casa. Walter sente pena deles e deixa-os ficar mais alguns dias até que encontrem novo tecto. Com o passar dos dias a relação entre os três vai melhorando e acaba com Tarek a dar aulas de djambé ao quase jubilado professor. O piano pode não ser com ele, mas há algo de diferente nos ritmos africanos que o fazem sentir-se bem. Até que um dia Tarek é apanhado pelos Serviços de Imigração e arrisca ser deportado. Enquanto Zainab vai morar com família que tem na cidade, a mãe chega para o visitar. Walter vai descobrir uma afinidade enorme com a senhora que o motiva ainda mais a tomar o problema de Tarek como seu.

Apesar de ser uma obra alegre, de forte cariz social, tem o inconveniente de se apoiar quase em exclusivo no desempenho de Jenkins. Não é que ele não aguente - aguenta e bem - mas para quem oviu este é apenas um papel principal com a mesma personagem que tantas outras vezes fez como actor secundário. Existem contudo duas diferenças. A primeira é a música, a segunda a retrato de uma América discriminatória.
A música em "The Visitor" é o símbolo da cultura. Aquilo que no início os separa, que no meio os une, que no fim mantém as recordações vivas. Enquanto a música clássica europeia nunca chega a prender de tão mal tocada, qualquer espectador fica preso pelo contagiante ritmo africano. Seja no sossego do lar ou nas enormes demonstrações colectivas no jardim, África conquista-nos.
A América é o eterno problema. O suposto expoente máximo da cultura ocidental é aqui apresentado como um cancro que em vez de criar algo bom destrói do que o mundo tem de melhor. Claro que tem a luta quixotesca de um indivíduo contra o sistema, mas a raiva do filme podia estar melhor doseada.

"The Visitor" apesar de ter muita tristeza contida, não deixa de ser um filme alegre a que se assiste com gosto, sem notar o passar o tempo. A mensagem política contra o sistema é clara e passa bem. Como já tive oportunidade de referir noutros posts, dentro do género preferi "Wonderful World" que vi meses depois deste. E para um filme posterior não parecer pior...


Título Original: "The Visitor" (EUA, 2007)
Realização: Thomas McCarthy
Argumento: Thomas McCarthy
Intérpretes: Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Jekesai Gurira, Hiam Abbass
Fotografia: Oliver Bokelberg
Música: Jan A.P. Kaczmarek
Género: Crime,Drama,Romance
Duração: 104 min.
Sítio Oficial: http://www.thevisitorfilm.com/