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28 de agosto de 2013

"Premium Rush" por Nuno Reis

Tenho andado mais de bicicleta do que é habitual. E cada dia me lembrava deste filme. Não é que seja uma obra de elevada qualidade ou uma referência para qualquer ciclista - muito pelo contrário - é que tem pequenos detalhes que só se compreende quando montado numa bicicleta.
O argumento pega num tema cada vez mais comum. As empresas de estafetas que usam ciclistas para fintar o trânsito da cidade. Junta-lhe alguma intriga e acção com uma encomenda misteriosa que é perseguida por uns mauzões, usa um dos actores do momento para lhe dar credibilidade e voilá, filme de acção instantâneo.

Com uma interessante viagem pela caótica cidade nova-iorquina - conhecida pelos seus inúmeros ciclistas e pelas poucas condições que lhes propicia (basta espreitar a centena de bicicletas brancas espalhadas em memória dos ciclistas mortos no trânsito) - Joseph Gordon-Levitt, na sua bicicleta sem mudanças ou travões, por momentos consegue fugir ao conceito de herói. A situação é que o persegue. É credível? Não menos do que inúmeros filmes semelhantes com indivíduos apeados ou de carro.

O primeiro ponto negativo do filme é a duração. Este tema não dava muito mais de meia hora de película, mas para ser rentável tinha de ser comercializado e por isso teve de ser esticado para hora e meia. Durante os primeiros 40 a 50 minutos aguenta-se. A adrenalina faz com que se disfrute e se fique com vontade de sair para fazer o mesmo (sem correr tantos riscos). O que se sente ao ver um bom filme de carros. Com a devida edição será possível cortá-lo de volta a um tamanho razoável para disfrutar em visionamentos posteriores. E como dá vontade de cortar...
O primeiro ponto positivo é que não mostra o ciclista como um super-herói do século XXI. É apenas um homem como os outros, usa um transporte amigo do ambiente e mais ágil, mas mais sujeito a ser fatalmente esmagado por um outro condutor. Mesmo um choque entre veículos de duas rodas pode ser fatal. Isso bastará para desmotivar o ciclista de circunstância. Por outro lado ao apresentar as rotas alternativas e as suas consequências ajuda a pensar como um ciclista sem travões. E isso dá muito jeito quando não há mesmo travões ou tempo de reagir.

Não há mais pontos negativos ou positivos e quando não há muito a dizer sobre o filme costuma ser mau sinal. É um filme simpático que foi lançado com demasiadas expectativas e com o tempo vai descer para o patamar de tele-filme que devia ter tido de origem. Mas dá mesmo gosto ver.

Premium RUshTítulo Original: "Premium RUsh" (EUA, 2012)
Realização: David Koepp
Argumento: David Koepp, John Camps
Intérpretes: Joseph Gordon-Levitt, Dania Ramirez, Joseph Gordon-Levitt, Dania Ramirez, Michael Shannon
Música: David Sardy
Fotografia: Mitchell Amundsen
Género: Acção, Crime, Thriller
Duração: 91 min.
Sítio Oficial: http://www.premiumrush.com/

6 de fevereiro de 2013

"Rock of Ages" por Nuno Reis

Cada musical tem o seu espinho

O género musical tem disparado em termos de popularidade. É cada vez mais difícil ser original, mas esta última década foi muito fértil, em especial graças às fáceis adaptações de sucessos do palco. Se o fenómeno do momento, "Les Miserábles", tem um estilo convencional - história centenária, musical com trinta anos - não podemos esquecer que "Mamma Mia!" trouxe uma lufada de ar fresco aos palcos e mais recentemente à tela. Também "Rock of Ages" tinha essa intenção.
Um musical sobre os clássicos rock dos anos 80. Como podia correr mal? As bandas homenageadas podem não ser os pesos pesados do rock, mas são minimamente conhecidas. Journey, Pat Benatar, Europe, Poison, Bon Jovi... mesmo que não conheçam as bandas, certamente já ouviram algumas das músicas escolhidas num qualquer lugar da moda, na rádio, ou num karaoke. A história é a boy meets girl mais previsível possível, mas a música existe precisamente para isso: personalizar (imortalizar!) algo que parece banal. "Rock of Ages" não é sobre uma história diferente das outras. É sobre como a música certa pode fazer ou desfazer a história da nossa vida. E mesmo que estas canções não sejam daquelas que fizeram cair governos, são das que juntaram muitos corações.

Logo na abertura o filme prometia. Um toque inesperado de ousadia no primeiro número musical, no segundo grande complexidade... Mesmo sendo a menina do remake de "Footloose" podiamos estar perante um daqueles grandes filmes que por vezes aparecem. Mas a ilusão depressa se desfaz e logo pelo ponto mais inesperado: a edição de som. Percebe-se que nem todos os actores soubessem cantar (Mary J. Blige está fantástica, mas Alec Baldwin canta tão bem como Pierce Brosnan quando foi nomeado a Razzie por cantar mal), mas a edição de som torna tudo tão artificial que depressa se volta à realidade e música nenhuma é excepção.Sim, Zeta-Jones tem boa voz (e o papel muito reduzido a isso) assim como Tom Cruise não faz mais do que o pedido - ser uma vedeta do hard rock - mas há uma dúzia de músicas maltratadas na mesa de mistura. Com isso a banalidade da história evidencia-se e depressa se chega a um ponto em que a vontade de ver o resto desaparece.

Um grande elenco e um desenho de produção fantástico, desperdiçados na vertente sonora. Ainda me lembro quando o fundamental de um musical era o que nos entrava pelos ouvidos. Onde andarão esses bons velhos tempos?

Rock of AgesTítulo Original: "Rock of Ages" (EUA, 2012)
Realização: Adam Shankman
Argumento: Justin Theroux, Chris D'Arienzo, Allan Loeb
Intérpretes: Julianne Hough, Diego Boneta, Alec Baldwin, Russell Brand, Tom Cruise, Paul Giamatti, Malin Akerman, Catherine Zeta-Jones, Mary J. Blige, Bryan Cranston
Música: Adam Anders, Peer Astrom
Fotografia: Bojan Bazelli
Género: Comédia, Drama, Musical, Romance
Duração: 123 min.
Sítio Oficial: http://rockofagesmovie.warnerbros.com/

19 de janeiro de 2013

"También la Lluvia" por Nuno Reis

No ano de 2010 referi neste espaço a descontracção com que Luis Tosar encarou o facto de estar nos três filmes que Espanha considerava nomear a Oscar. Apesar de "También la Lluvia" ter sido o eleito, demorou a estrear aqui. E em 2012 tivemos oportunidades quase consecutivas de o ver, com a Cinefiesta em Novembro e a estreia comercial em Dezembro.
O tema aparente é Cristovão Colombo, mas na realidade é muito mais profundo. É sobre como nada mudou em quinhentos anos de civilização.

Uma equipa de filmagens está a trabalhar num filme sobre o famoso explorador que entregou as Américas a Espanha. Falará do desembarque, do contacto com os nativos, da religião e das vozes que se levantaram contra a escravatura nessas primeiras décadas. A grande ironia é que filmar nas Caraíbas (entre viagens, equipamento e mão-de-obra) ficava extremamente caro e por isso estão a filmar na Bolívia. Ter os Andes em vez de mal não é um problema. O momento é que não é o melhor. A população está revoltada porque o governo entregou as águas públicas a uma companhia estrangeira. Para recuperar o investimento os preços triplicaram e a conivência governamental chega a tal ponto que fecham por "razões sanitárias" qualquer poço que possa fazer concorrência à água canalizada. Uma guerra civil prestes a acontecer pode não ser motivo de preocupação para os espanhóis, mas quando o nativo principal do filme é o líder desse movimento e está constantemente preso ou a ser disfigurado à pancada, gera situações complicadas de resolver.

Este é um drama humano do século XX e com tendências a piorar no XXI. O equilíbrio frágil entre investimento e exploração não pode ser quebrado. Um povo que nunca teve problemas com a água, ser obrigado a pagar o que não pode por um serviço do qual não precisaria, é escandaloso. Noutros sítios a situação pode ser diferente, mas a metáfora é a mesma. Passados quinhentos anos, o tesouro dos estrangeiros mudou, mas continuam a ser explorados.
Apesar de toda a situação ser devidamente apresentada, muito falta para a história cativar. Um dos problemas é que os actores Bernal e Tosar são demasiado actores para ser vistos como director e produtor. Os restantes actores ficam muito bem, seja o estreante Juan Carlos Aduviri ou o veterano Karra Elejalde, mas as estrelas demoram a convencer como algo que não são.
O argumento está bem construído. Vai dando a devida importância a cada tema e dá o Antón (personagem de Elejalde) um papelão. Aliás, o filme dentro do filme é muito apelativo. E os momentos de convívio da equipa de filmagens captados pelo documentário são o mais reais que era possível inventar. Quando esse documentário salta para a Bolívia, é desperdiçado como possível fio condutor, como aconteceria na realidade. Onde faltam as grandes cenas é no filme principal. Muita indecisão e medo, mas sempre a vontade de fazer o correcto. É demasiado artificial e nem assim tem diálogos extraordinários.

Quanto à mensagem que pretende transmitir, estava conseguida quase desde o princípio. Era bom que todos os governantes vissem este filme antes de darem o seu país aos estrangeiros e venderem os cidadãos como mão-de-obra escrava. E que também o povo, veja para acreditar que nenhum governo pode agir contra os interesses da população. Senão qualquer dia, também nos querem tirar a chuva.

Porque opressão e revolução, não é só na Bolívia.
También la LluviaTítulo Original: "También la Lluvia" (Espanha, México, França, 2012)
Realização: Icíar Bollaín
Argumento: Paul Laverty
Intérpretes: Luis Tosar, Gael García Bernal, Juan Carlos Aduviri, Karra Elejalde, Raúl Arévalo, Carlos Santos, Milena Soliz
Música: Alberto Iglesias
Fotografia: Alex Catalán
Género: Drama, História
Duração: 103 min.
Sítio Oficial: http://www.tambienlalluvia.com/en/

12 de janeiro de 2013

"Pitch Perfect" por Nuno Reis

Há duas formas de fazer um grande filme. A tradicional é fazer com que nos cole à cadeira, nos aperte o coração e nos leve numa viagem emocional inesquecível. Para isso é preciso tratar bem um tema que nos diga muito e torná-lo numa obra de arte. A outra forma é envolver o espectador e levá-lo numa experiência interactiva. Esta pode parecer mais fácil, mas, novamente, é preciso apelar ao lado emocional. Tanta emoção e tão pouca razão... Talvez por isso se diga que o cinema é uma arte, porque secundariza o raciocínio para nos conquistar por onde somos mais fracos. E uma excelente forma de o fazer é por via de outra arte. Um musical tem sempre boas hipóteses de se sair bem porque a música envolve. E se não for com originais não só nos recordará momentos passados, como nos acompanhará muito depois da projecção terminada. Claro que há sempre o lado negativo desta situação. Quando se fala de cinema mainstream é que sabendo do sucesso de uma receita, a vai repetir. Sendo uma das séries do momento a musical Glee - logo imitada por Smash - não surpreendeu que aparecessem filmes com a mesma fórmula.

"Pitch Perfect" segue de forma perfeitamente irritante tudo o que se esperaria de um filme destes. Rapariga pouco sociável conhece rapaz pelo qual não admite sentir algo. É forçada pelo pai a integrar-se em algo e por isso junta-se ao grupo feminino de canto à capela onde vai derrubar as tradições e levá-las ao campeonato nacional para logo descobrir o amor. Ups, mais um spoiler que saiu sem aviso prévio. Escusam de agradecer, mas se o que querem ver não for exactamente isto, então não comprem o bilhete. E se querem mesmo ver, não é isto que os vai impedir. Acreditem que ao verem os primeiros segundos do filme percebiam depressa que ia ser assim pois não há qualquer esforço em ser diferente disso. Na verdade até há um esforço e pode bem ser o que conquistará aquele importante segmento dos 12 anos de idade. Vem mesmo antes do générico inicial e dá muitas esperanças em que seja um filme ousado, já que pedir originalidade é demasiado.

Passando aos pontos fortes e fracos do filme as listas têm tal desproporção que tenho de exagerar nos primeiros. Positivo é ter músicas, é ter Anna Kendrick, e é quase a vermos nua. Negativo é ela não estar propriamente esforçada no papel. O resto do elenco foi bem escolhido, tem alguns nomes interessantes (como Brittany Snow, Rebel Wilson, Ester Dean) e dão a obrigatória diversidade étnica e cultural.
Na componente técnica haveria muito a apontar. O mais grave foi na realização/edição pois, sem meios termos, em comparação com os rivais mais directos, "Pitch Perfect" não sabe mostrar interpretações musicais. Jason Moore confia demasiado no som e esquece que a imagem tem de ser igualmente espectacular. Pelo menos a selecção musical foi bem conseguida, assim como as situações não-oficiais em que cantam. Essas sim, os pontos altos do filme.
Uma nota final para os comentadores da competição. Esse par de caricaturas de muitos dos seus semelhantes é tão despropositado que dá um toque alucinogénico ao concurso. Nem bom, nem mau, mas seguramente polémico.

Quanto termina cumpriu o seu dever de entreter e animar. Não tanto como podia e devia, e não dá para cantar a acompanhar, mas é o suficiente para não ser tempo perdido. Veremos se a sequela enche melhor as medidas.
Pitch PerfectTítulo Original: "Pitch Perfect" (EUA, 2012)
Realização: Jason Moore
Argumento: Kay Cannon (baseado no livro de Mickey Rapkin)
Intérpretes: Anna Kendrick, Skylar Astin, Ben Platt, Brittany Snow, Anna Camp, Rebel ,Wilson, Alexis Knapp, Ester Dean, Hana Mae Lee,
Música: Christophe Beck, Mark Kilian
Fotografia: Julio Macat
Género: Comédia, Musical,Romance
Duração: 112 min.
Sítio Oficial: http://www.pitchperfectmovie.com/

4 de janeiro de 2013

"Safe House" por Nuno Reis

O descontentamento com o emprego é um mal mais frequente do que se pode imaginar. Milhões de pessoas anseiam por uma oportunidade de mudar, que por vezes se limita à coragem de deixar aquilo que se tem, nem sempre tão mau como se diz que é. Quando se procuram postos onde a idade não ajuda, como desporto ou as que dependem da beleza, a urgência é ainda maior. Um ramo do qual não se fala e é igualmente mau é o dos serviços secretos. Costumamos ver que as mulheres são jovens (Nikita, Sydney Bristow, Annie Walker) e os homens um bocado entradotes (Ethan Hunt, James Bond), mas isso tem mais a ver com os gostos do público do que com a realidade. Qualquer um que tenha como profissão passear pelo mundo e conhecer gente interessante, quer começar o mais depressa possível. Nem que seja simplesmente para ganhar currículo e mudar de escalão para coisas ainda melhores.

Matt Weston (Ryan Reynolds) está na CIA. O que parecia um emprego de sonho depressa começou a esfumar-se pois tem como única missão guardar uma casa na Cidade do Cabo. Quando recebe visitas a transportar um perigoso prisioneiro (Denzel Washington) para interrogatório, vibra com a novidade e emoção, mas quando atrás deles surge um exército armado, vai ter de fugir para viver, e arrastar com ele um prisioneiro que não quer ser salvo. Oficialmente não pode pedir ajuda. Terá astúcia e sorte para escapar aos inimigos e para controlar o mais perigoso agente que alguma vez traiu a CIA?

Ryan Reynolds tem sido promovido como o menino bonito de Hollywood. No entanto, e mesmo louvando a variedade de género e produtoras com que trabalha, ainda não teve nenhum trabalho realmente convincente. Aquele em que mais lhe aplaudiram o desempenho foi o discreto "Buried", e onde mais visibilidade teve foi "Green Lantern". Em "Safe House" tinha a concorrência directa de Denzel Washington que costuma ofuscar os demais actores. A verdade é que há um equilíbrio. Reynolds tem mais tempo em ecrã para cativar os espectadores. Washington aparece de vez em quando para desestabilizar. Por entre tanta e tão variada acção (temos perseguições a pé, de carro, tiroteios, explosões, romances, execuções, traições, momentos de comédia...) o que menos importa é a interpretação de cada um.

Chegamos ao fim sabendo que Weston é um agente capaz de se desenrascar e que se cumprisse melhor a regra de não se envolver sentimentalmente tinha melhor futuro.
Cumpre plenamente filme pipoca. Tenta ser mais do que isso nos vinte minutos finais - até para justificar os nomes sonantes que estava a subaproveitar - mas torna-se demasiado confuso. Tirando uma ou outra cena, é esquecido muito depressa.
Safe HouseTítulo Original: "Safe House" (EUA, África do Sul, 2012)
Realização: Daniel Espinosa
Argumento: David Guggenheim
Intérpretes: Ryan Reynolds, Denzel Washington, Vera Farmiga, Brendan Gleeson, Sam Shepard, Nora Arnezeder
Música: Ramin Djawadi
Fotografia: Oliver Wood
Género: Acção, Crime, Mistério, Thriller
Duração: 115 min.
Sítio Oficial: http://www.nooneissafe.com/

3 de janeiro de 2013

"Man on a Ledge" por Nuno Reis

O que é preciso para dar o golpe perfeito? Até onde estão dispostos a ir?

O cinema tem sido pródigo em assaltos brilhantes. O último grande exemplo foi “Inside Man”, mas o heist é um estilo que ninguém se importa de tentar. A proposta de Asger Leth foi uma das melhor sucedidas no ano passado. Combina o sofrimento de um homem acusado de um crime que não cometeu, a angústia de quem quer roubar esse mesmo item, e o medo da suposta vítima em ser realmente roubada. Pelo meio há a polícia, que concentra a investigação numa pessoa, quando devia estar alerta para o verdadeiro criminoso.

Vertigens. Nem toda a gente as sofre na forma mais conhecida, mas absolutamente ninguém se sente confortável com a permanência num parapeito estreito num vigésimo primeiro andar. Pelo menos não alguém que queira viver. Jack Cassidy está ali porque quer provar algo. Quer provar à polícia que não roubou aquele diamante. Quer roubá-lo. E quer usar a população de Nova Iorque como testemunha de que não o fez. A questão é como o conseguirá fazer ali no alto, à vista de todos. Especialmente se nunca o fez. Se a segurança aumentou desde o roubo original. Se o diamante realmente foi roubado e não está lá...

Filme com uma ideia base bastante comum, tem um elenco acima da média. Sam Worthington é o protagonista, Jamie Bell (sim, o de Billy Elliot e Tintin) é o irmão dele, Genesis Rodriguez é a namorada do segundo, Ed Harris o alvo, Elizabeth Banks a negociadora, Antonhy Mackie o ex-parceiro, e ainda há cameos de Kyra Sedgwick, Edward Burns e alguns outros.
Não é um grande filme de acção. É algo como um faça-você-mesmo de “Missão impossível”, com a mesma dose de sorte (excessiva), bastante menos equipamento (ainda mais do que aquilo que um comum mortal encontra em lojas de conveniência) e muita vontade de o fazer, ou talvez morrer tentando. Com o tempo aprendemos a gostar destes exageros que fazem com que os bons consigam levar a sua avante e pelo menos não é uma simples sucesão de eventos improváveis/impossíveis. Nota-se que houve um esforço em dar profundidade às personagens, dar-lhes um passado e histórias secundárias para animar a narrativa. Será do agrado de quem procura um heist moderno, mas não tem o suficiente para cativar novos públicos. Pode-se dizer que não compromete. Hoje em dia isso quase é bom que chegue.
Man on a LedgeTítulo Original: "Man on a Ledge" (EUA, 2012)
Realização: Asger Leth
Argumento: Pablo F. Fenjves
Intérpretes: Sam Worthinton, Elizabeth Banks, Jamie Bell, Genesis Rodriguez, Ed Harris
Música: Henry Jackman
Fotografia: Paul Cameron
Género: Acção, Crime, Thriller
Duração: 102 min.
Sítio Oficial: http://www.manonaledge.com/

2 de janeiro de 2013

"The Double" por Nuno Reis

Todas as semanas surge um trailer demasiado revelador. Seja uma comédia onde antecipam todas as piadas, um filme de acção onde mostram todos os efeitos especiais, ou um thriller onde acabam com qualquer mistério. Um dos mais divertidos passatempos que se pode ter numa sala antes da projecção, é medir que percentagem do filme conhecido está a ser exposta. Ou a que ponto é esse teaser fiel à longa que representa. Pois mesmo quem não pratica essa actividade (só recomendável a quem vê tudo o que chega às salas) deve ter ficado chocado quando o trailer de "The Double" revelou que o protagonista Richard Gere, além de investigador, é o assassino que a CIA quer capturar. Zangados com o trailer por dizer isso? Zangados comigo por o revelar sem pré-aviso de spoiler? Foi de propósito, pois o filme é muito mais do que um banal twist.

No tempo da Guerra Fria, agentes como Paul Sheperdson travavam confrontos no dia-a-dia, eliminando de forma discreta alvos seleccionados e os agentes do inimigo. Sheperdson reformou-se com uma carreira exemplar, tendo como única mancha o fracasso na captura de alguém conhecido como Cassius. Se se reformou, foi por acreditar na morte do seu némesis, mas a CIA associa a morte de um senador ao Modus Operandi dessa figura. Chamado para analisar as provas, vai conhecer um jovem agente também obcecado por Cassius e juntos, um dizendo que Cassius morreu e outro dizendo que está vivo, vão tirar a limpo o que se passou.

É verdade que no trailer se vê Gere a matar impunemente. É um assassino. Mas será ele Cassius? Ao longo do filme vão surgindo várias provas que podem ser interpretadas como tal. No entanto sabemos que não podemos confiar ou acreditar em espiões. Nada é o que parece. Cassius ou não Cassius, a interpretação de Gere está muito boa e Grace (Ben Geary, o tal jovem da CIA) tem momentos bons.
É um filme com muita intriga, onde realização, música e edição jogam a favor da acção. Os momentos mortos da investigação, como a vida familiar de Geary, supostamente contribuiriam para mostrar uma faceta humana, mas depressa se revelam um remendo para compensar a falta de mais adrenalina. Essa é a maior falha.
É um filme interessante ao qual se deve dar uma oportunidade. Depois daquele tremendo spoiler as expectativas já devem estar baixas, por isso só pode impressionar positivamente.
The DoubleTítulo Original: "The Double" (EUA, 2011)
Realização: Michael Brandt
Argumento: Derek Haas, Michael Brandt
Intérpretes: Ricahrd Gere, Topher Grace, Martin Sheen, Odette Yustman
Música: John Debney
Fotografia: Jeffrey L. Kimball
Género: Acção, Crime, Drama, Mistério, Thriller
Duração: 98 min.
Sítio Oficial: http://www.thedoublemovie.com/

"Cave of Forgotten Dreams" por Nuno Reis

O mundo perdido de Chauvet

Werner Herzog é um documentarista. Pode ser um director galardoado por obras de ficção em cinema e por grandes óperas em palco, mas é no contacto com a pura das realidades que se mexe mais confortavelmente. Claro que além de realizador é uma pessoa singular, quase uma lenda de tantas histórias estranhas que o rodeiam. Por tudo isso não é de estranhar que tenha sido esta figura a escolhida para documentar as inacessíveis grutas francesas de Chauvet, detentoras das mais antigas gravuras rupestres da humanidade.

Logo ao início somos prevenidos que a captação de imagem foi feita com o mínimo de material possível. Ou melhor, com o máximo de material permitido. Portanto, esqueçam os planos muito trabalhados, a fotografia excelente e a selecção entre centenas de horas de filmagem para fazer 90 minutos de filme. Vai ter um aspecto amador, quase como um vídeo de férias que se faz com a família ao visitar uma qualquer caverna com gravuras. Isso é desculpável, pois de outra forma não veríamos nada.
No entanto a mini-equipa de cinema que parte nesta exploração inclui Herzog. Os seus comentários não são para ignorar. Enquanto nos revela pinturas mais do que antigas e a história da caverna, ou melhor, a História na caverna, vai deixando opiniões sobre as pinturas de proto-cinema, sobre as pequenas pegadas, sobre cada um dos vestígios de Humanidade que encontra pelo caminho.
Nem é um discurso inocente de um turista perdido num local desconhecido, nem é um arqueólogo ou historiador a falar da sua paixão com ignorantes. É um pensador a exprimir as suas ideias, a fantasiar sobre o que eramos e aquilo em que nos tornamos. Os pontos em que divergimos e aqueles em que continuamos iguais a cem mil anos antes.

Não é um filme para qualquer um. Nâo é para quem gosta de documentários nem para quem gosta dos videos das férias. É para quem gosta de explorar a nossa geologia e história ouvindo - sem interromper - um guia que partilhe dessa paixão. E esta viagem única que temos o privilégio de acompanhar, pode ser repetida vezes sem fim.
Cave of Forgotten DreamsTítulo Original: "Cave of Forgotten Dreams" (Alemanha, Canadá, EUA, França, Reino Unido, 2010)
Realização: Werner Herzog
Argumento: Werner Herzog (com base num artigo de Judith Thurman)
Intérpretes: Werner Herzog, Jean Clottes, Julien Monney, Jean-Michel Geneste, Michel Philippe
Música: Ernst Reijseger
Fotografia: Peter Zeitlinger
Género: Documentário
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: http://www.caveofforgottendreams.co.uk/

1 de janeiro de 2013

"Lawless" por Nuno Reis

Forrest Bondurant: I'm a Bondurant. We don't lay down for nobody.

A proibição de vender álcool vai surgindo de vez em quando nos Estados Unidos. O período mais famoso foi a Lei Seca que reinou nos anos 1920. Começou no final da década anterior de forma a combater o poder da cerveja alemã, esó terminou na década de 1930 quando o governo percebeu que enquanto esse comércio estivesse nas mãos dos criminosos estaria a perder muitas receitas fiscais. Enquanto a maioria dos filmes se concentra nos grandes nomes como Al Capone e nas grandes cidades como Chicago, “Lawless” prefere seguir outro rumo e falar dos irmãos Bondurant. Quem? Os maiores fabricantes da sua terra.

Numa época em que todos eram ou fabricantes/distribuidores, ou consumidores, o álcool era um dos segredos mais mal guardados de Franklin, Virginia. Quando chega um novo procurador com a missão de destruir o álcool, todos esses pequeno negócios são fechados um a um. Todos excepto o dos Bondurant, três irmãos que tinham a fama de imortais. Mas nem só do álcool se construiu a lenda dessa família. Este filme vai narrar todos os aspectos dessa história que tem jovens apaixonados, gananciosos e com uma terrível propensão para fazer o correcto.

O elenco reunido é de enorme qualidade. Tom Hardy, Shia LaBeouf, Jessica Chastain, Guy Pearce,, Mia Wasikowska, Jason Clarke e uma pequena participação de Gary Oldman. Se da maioria deles uma boa interpretação não é novidade (Clarke é o único que ainda não é famoso), a grande surpresa será que mesmo LaBeouf encaixa na personagem sem a tornar em algo cómico. O seu Jack é a personagem principal. São principalmente os seus erros de jovem que colocam a família em problemas, mas é também a sua inocência e imaginação que os ajuda muitas vezes. Sem revelar mais do filme, tem bastante drama, algum romance, mais violência do que seria expectável (pode ser um pouco perturbador) e o inevitável tiroteio. Ah, e um pouco de alcatrão com penas para quem andava esquecido de como isso era. Incrível que há menos de cem anos ainda houvesse esta mentalidade de farwest sem lei!

É um filme mais intenso do que o esperado. Tem boas interpretações e mostra uma visão diferente do que se costuma ver. Não só mais rural, como mais humana, revelando o lado bom dos criminosos, as suas fragilidades como pessoas. Demora demasiado nessa vertente menos interessante, o que torna o visionamento algo complicado a quem não estiver apaixonado pela época, mas as interpretações são tão cativantes que depressa se entra no ritmo. Merece ser visto com a disposição certa.

Atentem na música de Nick Cave que também foi argumentista.
LawlessTítulo Original: "Lawless" (EUA, 2012)
Realização: John Hillcoat
Argumento: Nick Cave (baseado no livro de Matt Bondurant)
Intérpretes: Shia LaBeouf, Tom Hardy, Jason Clarke, Guy Pearce, Jessica Chastain, Mia Wasikowska, Gary Oldman
Música: Nick Cave, Warren Ellis
Fotografia: Benoît Delhomme
Género: Crime, Drama
Duração: 116 min.
Sítio Oficial: http://lawless-film.com

"Conviction" por Nuno Reis

Hilary Swank construiu uma carreira sólida por escolher muito bem as personagens que fazia. Desde "Boys Don’t Cry" (1998) até hoje, apareceu em menos de vinte filmes. A maioria deles são conhecidos e muitos de reconhecida qualidade. Em 2009 deu um passo em falso. Aquele que era apontado como próxima nomeação a Oscar, "Amelia", foi um directo para video em muitos mercados. Seguiu-se um trio de filmes. "New Year's Eve", comédia romântica nomeada a 5 Razzies, "The Resident", thriller da Hammer directo para video, e este "Conviction", um drama baseado em factos reais que só foi feito por sorte. Sorte pode ser um termo exagerado, mas a corrida aos direitos de adaptação começou em 2002, em 2004 perdeu o apoio e em 2007 surgiu uma oportunidade de o fazer independente. Ora como só saiu em 2010....

O mote do filme é a fragilidade dos critérios usados pela justiça. Kenny é acusado de um crime e devido ao seu historial marginal, e por vezes violento, era um bom candidato. Ele nega totalmente os factos, repudia quem tenha cometido tal atrocidade, mas as testemunhas apontam para ele e não há nada que diga o contrário. A sua única esperança é a irmã, Betty Anne. O que pode uma só pessoa sem estudos fazer contra o sistema? Nada. Mas se estudar direito e seguir advocacia, pode ser que tenha um outro prisma do caso, começará a perceber o que dizem e talvez um dia consiga refutar as acusações. Só que isso vai demorar anos, aguentará o irmão tanto tempo na prisão sabendo que está inocente e tem todo o sistema contra ele? E entre família e trabalho terá Betty Anne hipóteses sequer de concluir o curso?


Vamos acompanhar duas lutas na primeira pessoa. A que vemos é a de Betty Anne, a sacrificar a vida pelo irmão em quem não pode deixar de acreditar. A que imaginamos é a de Kenny, que o sistema quer destruir. Ambas duram vários anos, sofrem revezes que derrubariam outros mais fortes.
Num filme isto seria uma história banal. Como é baseado em factos reais só podemos aplaudir quem teve esta dedicação. Mas qual a utilidade de filmar mais um caso entre tantos que existem? No fundo o que importa não é dar a conhecer um caso mal resolvido, ou limpar o nome de pessoas que já morreram. É mostrar ao máximo número de pessoas possível que não deixem de acreditar. Podem perder, mas pelo menos ficam de a consciência tranquila de terem feito tudo o que era possível.

Este tipo de história depende muito do elenco. As limitações orçamentais não se notaram pois a Hilary Swank e Sam Rockwell, os irmãos, juntaram-se Minnie Driver, Melissa Leo, Juliette Lewis e Peter Gallagher. Há um bom esforço de caracterização para os levar dos 20 aos 40. Faltaram diálogos mais marcantes para que deixassem uma impressão.
Nota-se a experiência de Tony Goldwin em televisão (especialmente em séries policiais) pois em vez de deixar as personagens crescerem ao longo do filme, como que as corta a meio para que recomecem no próximo acto. Se no seu trabalho anterior para cinema ("The Last Kiss") isso não se notava por a própria narrativa se prestar a isso, aqui já reduz valor ao filme que mais parece uma mini-série onde altos e baixos regulares fazem o espectador querer voltar no dia seguinte.
A espreitar para ver mais uma grande performance de Swank e lamentar não ver mais uma grande performance de Rockwell.
ConvictionTítulo Original: "Conviction" (EUA, 2010)
Realização: Tony Goldwyn
Argumento: Pamela Gray
Intérpretes: Hilary Swank, Sam Rockwell, Minnie Driver, Melissa Leo, Peter Gallagher
Música: Paul Cantelon
Fotografia: Adriano Goldman
Género: Biografia, Drama
Duração: 107 min.
Sítio Oficial: http://www.foxsearchlight.com/conviction/

26 de dezembro de 2012

"The Amazing Spider-Man" por Nuno Reis

Por mais eficaz que seja a campanha mediática dos blockbusters de Verão e nos convençamos que temos mesmo de ir ver este último filme de super-heróis, a verdade é que o género não tem muito de novo a oferecer. Quando surgem novos heróis vai-se com esperanças e quando são sequelas/prequelas já se sabe com o que contar, mas quando fazem um reboot exigem que se confie que desta vez vai ser diferente. Desta é que vai ser? Ok, até posso concordar que alguns não saíram bem à primeira, mas, e quando gostei do anterior? Vão mesmo fazer melhor, ou vão arruinar completamente? No ano de 2002 saiu "Spiderman" de Sam Raimi. Inesquecível, visto que estava na primeira sessão pública do filme. Foi um fenómeno, o beijo tornou-se lendário, e junto com as sequelas definiu recordes de bilheteira que pareciam imbatíveis. Com o passar dos filmes perdeu fulgor. Podiam ter parado, mas devido às condições contratuais parar é morrer (neste caso, perder os direitos, vai dar ao mesmo) e recomeçaram. Hesitei antes de o ver. Realizador e elenco eram promotedores, mas seriam alguma vez capazes de se comparar ao Spidey de Raimi?

Esta é uma nova visão sobre as origens do Homem-Aranha. Em vez de irmos directos para Mary Jane e Green Goblin, fala-se de Gwen Stacy e enfrenta-se o Lizard. Se a rapariga era obrigatória para os fanáticos, mas desconhecida para o grande público, neste reboot já o universo dos comics foi bem explorado pelos potenciais espectadores e era seguro enveredar por essa visão mais próxima do formato original. Quanto ao vilão, foi ajuizado deixar o arqui-inimigo para segundas núpcias, e fazer a preparação combatendo um semelhante que entrando mais tardiamente seria difícil de valorizar.
Falando dos actores, grande casting do casal principal - perfeitos para os papéis, incomparáveis aos anteriores - e nomes sonantes para tios e vilão. Garfield terá sido das melhores escolhas alguma vez feitas para um super-herói e a interpretação está brutal. As expectativas para os próximos filmes estão muito elevadas porque a Mary Jane escolhida (Shailene Woodley) também é uma actriz maravilhosa e certamente manterá o nível desta entrega.
Quanto à estrutura do filme, o princípio é a história já conhecida do herói a descobrir a sua identidade, os seus poderes, a definir os seus valores, a controlar instintos humanos e hormonas adolescentes enquanto se transforma numa aranha. Exactamente a meio há uma mudança e é uma ponte (quem leu Spider-Man sabe quão perigosos esses locais costumam ser para as mulheres da vida de Parker) que faz a ligação entre duas metades bem diferentes do filme. Na segunda metade a acção ganha predominância. É um Peter ainda revoltado, mas também apaixonado que se dedica a defender aquilo em que acredita e que a muito custo vai sobrevivendo aos desafios da sociedade e do Lizard.

O que "The Amazing Spider-Man" tem de bom é ainda aquela moral que nos incutem a cada filme. Para fazer o bem não temos de ser super, só temos de fazer as pequenas coisas. A força do Homem-Aranha não está nos poderes de aranha, na roupa justa, nas teias que dispara, ou no amor. Está no apoio popular que conseguiu, por isso ele é o friendly neighbour Spider-Man. A cena em que a cidade se realinha para o fazer passar é daquelas que está metida a ferros, mas continua a parecer encaixar. Porque é preciso dar para receber e muitos dos habitantes de Nova Iorque estão a dar o seu pequeno contributo para que o mais super entre eles os salve a todos.

Nâo será um filme para os fãs hardcore, mas é ao gosto dos jovens como se pretendia. Quando termina parece ter sido demasiado rápido e ter ficado muito por contar, mas a verdade é que passaram mais de duas horas. Temos um herói realisticamente humano, com muitos defeitos e virtudes, temos um vilão que parecia não ir dar em nada e se revela muito mais interessante do que os que já tinham sido usados em filme, e temos um filme que com menos comédia ficaria perigosamente credível. Se Webb aprender a controlar os seus poderes criativos, a saga tem potencial para se tornar viciante. E os produtores podem estar descansados. Se usarem os Sinister Six dá para fazer mais meia dúzia de filmes sem reboots.
The Amazing Spider-ManTítulo Original: "The Amazing Spider-Man" (EUA, 2012)
Realização: Marc Webb
Argumento: James Vanderbilt, Alvin Sargent, Steve Kloves (baseados no comics de Stan Lee e Steve Ditko)
Intérpretes: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field
Música: James Horner
Fotografia: John Schwartzman
Género: Acção, Aventura, Fantasia
Duração: 136 min.
Sítio Oficial: http://www.theamazingspiderman.com/

23 de novembro de 2012

"Argo" por Nuno Reis

O cinema como salvação
Os filmes sobre Cinema têm vindo a ganhar força nos últimos anos. Não costumam é ser dedicados a maus filmes. “Argo” era um terrível argumento do período pós-Star Wars e nunca foi filmado. No entanto, em 2012 fazem um filme com o mesmo título sobre a pré-produção e é justamente apontado como um dos grandes filmes do ano. Como pode um filme sobre um mau filme ser bom? É que “Argo” não é sobre um mau filme, é sobre um não-filme, e porque esse não-filme foi feito para salvar vidas.
Já sabíamos que um filme suficientemente mau se torna bom. Esta é a história de como uma ideia tão má que não podia ser verdade, se revelou a melhor possível.

Contexto histórico: O Irão passou os anos setenta sob domínio americano indirecto. O seu Xá era um ditador ao serviço dos capitais estrangeiros e o povo vivia na miséria. Uma revolução bastou para o depor e colocar o líder religioso Ayatollah Khomeini no poder só que os EUA, cumprindo as suas obrigações, acolheram o aliado moribundo. Os iranianos, profundamente descontentes com isso, exigiram a extradição do anterior líder para julgamento, que serviria para condená-lo à morte. Como os americanos se revelaram intransigentes, o povo ocupou a embaixada sequestrando todos os seus ocupantes. Seis conseguiram escapar. Após dois meses de exigências de parte a parte, começaram a ser pensados planos para os tirar de lá. O melhor era um pouco suicida: dar-lhes bicicletas e mapas para percorrerem 500 kilómetros até uma fronteira pouco guardada. Por isso o especialista da CIA em extracções decidiu pensar num plano menos mau. O melhor que lhe ocorreu foi fazer um falso filme.
Quem anda atento à indústria cinematográfica sabe que a imprensa especializada está constantemente a anunciar projectos que jamais verão a luz do dia. Para os americanos em casa "Argo" seria mais um desses. Para os refugiados na casa do embaixador canadiano seria o tudo ou nada.

O que distingue o "Argo" de Ben Affleck de 99% dos filmes americanos é dizer à partida que os EUA têm culpa no processo. Assume ter causado interferências no processo democrático dos povos com petróleo e admite responsabilidade dos seus aliados por atentados aos direitos humanos. Mostra o Irão como um povo selvagem, mas justifica-o pois era um período de transição e o fim de um regime terrível (não que o seguinte fosse melhor, mas na altura não o sabiam). Com um início assim, o filme conquista logo a simpatia. E no final reconhece que a América do Norte tem outro país. Com tantos canadianos infiltrados nos EUA e campeonatos desportivos comuns, a divisão entre os dois é pouco clara, especialmente porque o de sul tem um ego enorme. Ver esta sentida homenagem ao povo irmão do norte dá vontade de aplaudir.
E há mais! Na abertura é dada uma lição abreviada de história ao espectador. Recorre desde logo à linguagem cinematográfica causando algum espanto em quem esperava um filme mais convencional. Mas "Argo", estou a demonstrar, não é um filme como os outros. Este é um em vários exemplos de uma enorme atenção aos detalhes. Só contamos verdadeiramente uma história se contarmos tudo e "Argo" vai fazê-lo. A dolorosa verdade é uma característica dos filmes do produtor George Clooney.


Um dos favoritos a Oscares nesta recta final do ano, basta ver quem trata da fotografia e banda sonora, permitirá ver como Ben Affleck se está a metamorfosear. De galã sem jeito, para protagonista de filmes de acção e finalmente herói nacional, está salvo como actor. Fora das câmaras junta o Oscar de argumentista a um currículo que o nomeará mais cedo ou mais tarde na categoria de realizador. Tudo mais do que boas razões para ver em cinema o caso desclassificado que faz parte do manual de qualquer agente secreto. Aproveitem que, com as novas ferramentas de comunicação, esta desculpa não pode ser reutilizada.
ArgoTítulo Original: "Argo" (EUA, 2012)
Realização: Ben Affleck
Argumento: Joshuah Bearman (baseado no artigo de Chris Terrio)
Intérpretes: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Scoot McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Kyle Chandler, Chris Messina
Música: Alexandre Desplat
Fotografia: Rodrigo Prieto
Género: Drama, História, Thriller
Duração: 120 min.
Sítio Oficial: http://argothemovie.warnerbros.com/

18 de novembro de 2012

"Detachment" por Nuno Reis

Vivemos um período conturbado da nossa história. O presente está negro e as perspectivas de futuro não são melhores. No meio de tantos problemas, aquelas questões que nos deviam incomodar há muito, ficaram como que esquecidas. As mais perturbadoras são as que têm impacto na nossa velhice como a segurança social não querer acarretar com as despesas de saúde e não ter dinheiro para as reformas, mas mais importante do que a nossa velhice ou o nosso futuro como nação, é o nosso futuro como espécie. Há problemas que afectam toda a humanidade e esse devem ser combatidos em primeiro lugar. Não falo de combater a fome e as doenças ou proteger o ambiente, esses são temas que nunca saem das agendas. Falo de preparar uma geração capaz de substituir a antecessora perante desafios maiores. Falo da educação que quanto mais se nota como necessária, mais se sente maltratada.

Tony Kaye é daqueles realizadores sem medo de falar dos tabus. Da mesma forma que no brilhante "American History X" alerta para uma geração sem valores, agora previne-nos - demasiado tarde - para uma geração sem rumo. Reuniu um elenco surpreendente para esta produção independente. Marcia Gay Harden, Lucy Liu, Tim Blake Nelson, Christina Hendricks e Blythe Danner são alguns dos indivíduos que sobrevivem a muito custo a cada dia. James Caan é um farol de esperança que evita o afundar daquele corpo docente, e Adrien Brody é o professor substituto que vai estar lá por um mês e acaba por despoletar a mudança. Não adianta revelar mais sobre cada um deles. São professores a enfrentar alunos desinteressados, pais irresponsáveis, e pior, um ministério com orientações para conseguir resultados forjados em vez de exigir pessoas formadas. O resultado de tudo isso é gritado no filme: alunos com tudo preparado para passarem sem saber e sem esforço, serão adultos sem ambição. Oitenta por cento da população americana trabalhará pelo ordenado mínimo em empregos horríveis, terá uma vida infeliz e miserável, apenas porque nem pais nem governo se preocuparam com eles, nem deixaram que os professores se preocupassem. Pelo contrário, quiseram convertê-los em mais uma ferramenta do facilitismo.

A chegada de Barthes (Brody) vai mudar isso. Como professor temporário já conheceu muita gente. Aprendeu a lidar com todo o tipo de alunos. E mais importante, como não tem os objectivos estanques dos professores permanentes, ainda acredita que pode fazer a diferença. Há imensos filmes sobre o tema. A diferença em "Detachment" é que vemos Barthes também fora da escola a ser aquilo que é entre muros: uma pessoa que se preocupa com o próximo e incapaz de assistir de forma indiferente a vidas desperdiçadas. E além disso, como todos os professores, a ter os seus próprios problemas delicados e urgentes, que seriam uma justificação para um trabalho desleixado caso não fosse um herói dos tempos modernos, encarando os obstáculos que a vida lhe coloca como espera que os seus alunos o façam.

Para muitos este filme pode ou passar ao lado, ou parecer um exagero ou pode ser um murro no estômago. Não deixará de ser bom. Mais do que um grande filme, é o agradecimento tardio da sociedade pelo que alguns grandes profissionais estão a fazer no dia-a-dia. Continuem assim. Se cada um salvar um aluno por ano ainda podemos ter esperanças na próxima geração.
DetachmentTítulo Original: "Detachment" (EUA, 2011)
Realização: Tony Kaye
Argumento: Carl Lund
Intérpretes: Adrien Brody, Sami Gayle, James Caan, Betty Kaye, Christina Hendricks, Lucy Liu, Marcia Gay Harden, Tim Blake Nelson, William Petersen, Blythe Danner, Bryan Cranston
Música: The Newton Brothers
Fotografia: Tony Kaye
Género: Drama
Duração: 97 min.
Sítio Oficial: http://detachment-film.com/

29 de outubro de 2012

"Bernie" por Nuno Reis

O monstro adorável

O Cinema gosta de emoções fortes. Por isso os filmes com crime, terror, acção ou aventura são os que mais vendem. Então se for um filme sobre um assassino é sucesso garantido. Ver mortes da primeira fila? Os bilhetes esgotam! Dar o protagonismo a alguém que odiamos é a melhor forma de garantir que será memorável. Pois "Bernie" vem contrariar esse paradigma e traz-nos o assassino mais simpático de que há memória. “Pura ficção”, dirão vocês. Não, é baseado num caso real de 1996.
Esta é a história de Bernie Tiede. Chegou a Carthage, Texas para trabalhar na funerária e acabou por se tornar um pilar da comunidade. Extremamente delicado com os vivos, minuciosamente dedicado aos mortos, não faltava quem quisesse ser retocado por ele. Fora da funerária era ainda mais apreciado, pelos seus dotes musicais e espírito artístico. Tudo seria perfeito se não fosse aquele pequeno detalhe de ter morto a viúva rica da terra.

Quando o filme começa já se sabe que Bernie é o mau da fita. O que Jack Black faz é provar-nos o contrário. Com uma das interpretações mais convincentes com que já nos presenteou (eu sei que não é difícil, mas Black está mesmo bem) transfigura-se em Bernie. Claro que o facto de estar sempre a cantar não nos permite esquecer o homem por trás do bigode, mas todos os tiques e maneirismos são completamente distintos. E vamos acreditar que houve algum engano pois este santo não faria mal a uma mosca. O seu alvo é interpretado Shirley MacLaine que nos últimos anos parece renascida depois de uma década menos feliz. Ultimamente tem conseguido muitos papéis como velha insuportável, mas aqui superou-se. Convincente que baste durante os parcos minutos que passa no ecrã.

O estilo adoptado por Linklater, um realizador consagrado em diversos estilos, é o documental. Com uma série de entrevistas a população esclarece-nos sobre quem era Bernie e o que pensam dele. Quinze anos depois ainda não o esqueceram. E se não o perdoaram é porque nunca o recriminaram. Por entre essas entrevistas, Black vai sendo Bernie. Leva a sua vida recatada em prol da sociedade, sendo um negociante exímio, mas amigo de todos. Um homem assim pode lá ser um monstro! A provar o contrário está o procurador (Matthew McConaughey) que não desiste até deter o seu homem.

Mesmo sem causar gargalhadas é uma comédia com potencial para se passar uns bons momentos. Não é excepcional, mas está bem feita, foge às regras e consegue mesmo inverter os preconceitos. Deviam pôr os olhos neste realizador e começar a fazer material em condições baseados na realidade. Nada é mais divertido.
BernieTítulo Original: "Bernie" (EUA, 2011)
Realização: Richard Linklater
Argumento: Richard Linklater, Skip Hollandsworth
Intérpretes: Jack Black, Shirley MacLaine, Matthew McConaughey
Música: Graham Reynolds
Fotografia: Dick Pope
Género: Comédia, Crime, Drama
Duração: 104 min.
Sítio Oficial: http://bernie-the-movie.com/

23 de outubro de 2012

"LOL" por Nuno Reis

O que Miley Cyrus quer, Miley Cyrus tem. Com fama e dinheiro consegue-se muita coisa e a antiga Hannah Montana tem construído a sua carreira como quer. Primeiro Nicholas Sparks escreveu "The Last Song" de propósito para ela e para chegar a um público mais jovem. Agora Lisa Azuelos refez com ela “LOL”, o filme que escreveu em 2008 para compensar a falta de filmes para adolescentes em França.
O tema é a geração Z, aqueles que nasceram e cresceram sob influência da Internet não conhecendo outra realidade. Um dia chegará uma geração que vive apenas no online, mas por enquanto falo apenas dos que têm internet sempre ligada, falam por emoticons e abreviaturas via IM e SMS nos seus smartphones e tablets... Lola é um exemplo desa geração. Como qualquer adolescente tem problemas de comunicação com os pais, sente-se incompreendida e injustiçada e tem um coração irrequieto. Mas ao contrário dos filmes anteriores sobre adolescência, aqui a rede tem uma grande importância para a comunicação. Se disser que é vital não será um exagero.

Concordo com a realizadora que dizia fazerem falta filmes pensados para os jovens. A perspectiva aqui apresentada apesar de estar centrada em Lola e nos seus colegas mostra também (em menor grau) a versão de pais e avós. Uma família modelo em que todos se dão bastante bem é o cenário perfeito para começar a falar de amadurecer e o incontornável conflito geracional vai surgir mais tarde, quando a confiança entre facções é quebrada.
Não nasci com Internet, mas mergulhei destemido nesse mundo assim que possível e também criei uma simbiose com A Rede. Percebo tudo o que Lola faz e os termos que usa. Percebo a raiva e a angústia da adolescência. Percebo as atitudes tomadas e as oportunidades aproveitadas. Percebo tudo, mas ainda assim não dou razão. A “velhice” chega a todos e aqui noto que já não estou na geração dos filhos, mas na dos pais.
Os tempos mudam e os riscos são maiores, a exposição social é maior. É uma geração que está acostumada a ter tudo no imediato e o travão colocado pelos pais perturba aquilo que se acha serem os sonhos de vida.

Apesar das más avaliações pela Internet fora (chegou a estar no Bottom 100 do IMDb) é obviamente mais por culpa dos anti-Cyrus do que por defeitos de “LOL”. É um estilo de filme que faz sempre falta. Ser americano e com Miley Cyrus supostamente faria com que chegasse a mais gente, mas acabou por passar despercebido por todos os poucos mercados onde estreou. Culpa generalizada da distribuição ou desconhecimento de como promover este tipo de produto?
Com um formato convencional em que o humor espaça os momentos dramáticos, é mais um daqueles títulos para ver numa tarde de domingo. Especialmente recomendado aos adolescentes e aos jovens pais para que se entendam, nesta era em que a comunicação é tudo e mesmo assim as pessoas parecem não conseguir comunicar.
O grande ponto fraco é a direcção de actores pois a estrela óbvia e Demi Moore (como mãe) não estando mal, ofuscam um elenco que precisava de apoio para tornar “LOL” mais consistente. Nos pontos positivos a banda sonora como seria de esperar é muito do agrado do escalão etário alvo.




LOLTítulo Original: "LOL" (EUA, 2012)
Realização: Lisa Azuelos
Argumento: Lisa Azuelos, Kamir Ainouz
Intérpretes: Miley Cyrus, Demi Moore, Douglas Booth, Lina Esco, Ashley Greene, George Finn
Música: Rob Simonsen
Fotografia: Kieran McGuigan
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 97 min.
Sítio Oficial: http://www.lol-themovie.com/

22 de outubro de 2012

"Hit and Run" por Nuno Reis

O cinema pode ser arte e cultura, mas para muita gente é mero entretenimento. E se sabe bem ir ver um filme para apreciar detalhes técnicos e influências de determinada corrente, noutras semanas compra-se o bilhete mesmo só para espairecer. Foi esse o caso com "Hit and Run": um filme que não tinha a oferecer além de um elenco sonante e a promessa de velocidade e crime.

O actor Dax Shepard anda a brincar aos realizadores. Como o primeiro filme não bastou para cativar investidores, para fazer este filme teve de ser poupado e contratou a namorada real Kristen Bell para interpretar a sua namorada. Outras das estrelas convidadas foram Tom Arnold e Bradley Cooper que tinha dirigido na primeira experiência. No total gastou dois milhões e já deve ter lucrado bastante mais.
A personagem de Shepard é Charles Bronson. Confusos? Na verdade chama-se Yul Perkins, mas como está ao abrigo do programa de protecção de testemunhas teve de mudar de nome e esse era simplesmente demasiado fixe (além de o tornar indetectável pelas pesquisas online). De volta à história, Bronson/Perkins está farto da vida simples e quando a namorada Annie (Bell) recebe uma proposta de emprego em Los Angeles, ele decide voltar com ela para a cidade de onde fugiu cinco anos antes. Vão ser perseguidos pelo agente encarregado dele, pelo ex-namorado dela, pelos criminosos que denunciou.... A única forma de escapar é andando muito depressa.

Desde a abertura que "Hit and Run" marca a diferença. O plano escolhido para o primeiro diálogo é deveras invulgar. Segue-se um desajeitado Tom Arnold a trazer humor físico, uma Kristin Chenoweth absolutamente brilhante a louvar drogas. É uma tão boa primeira impressão, que o que se segue fica muito tempo com calcanhares ao nível dos olhos.
Este é um filme sobre carros e criminosos. É uma comédia e um romance. É entretenimento puro, com imensas situações espalhafatosas e impensáveis. Pouca coisa faz sentido, nenhum tiro acerta no alvo... Contudo dá para rir bem alto em bastante situações e mesmo quando exagera no ridículo (por exemplo, sempre que Tom Arnold aparece) é constante na fidelidade ao espírito inicial.

Os amantes da velocidade arranjarão defeitos na escolha nada convencional de veículos e na brevidade dos troços percorridos. Os amantes de acção vão achar a pancadaria demasiado contida, demasiado real. Os apreciadores de humor vão achar que sabe a pouco. Neste seu filme de autor, Dax Shepard correu vários riscos. Pegou no que quis de diversos géneros e foi esticando como podia para fazer algo que cobrisse uma variedade surpreendente de gags. Sem se prender aos padrões gastos, dá-nos uma história igual a tantas outras disfarçada de novidade. Pode não ser uma preciosidade, mas pelo menos podemos dizer que é uma raridade pois tão cedo não voltamos a ver algo assim.
Hit and RunTítulo Original: "Hit and Run" (EUA, 2012)
Realização: Dax Shepard
Argumento: Dax Shepard
Intérpretes: Dax Shepard, Kirsten Bell, Bradley Cooper, Tom Arnold, Michael Rosenbaum, Beau Bridges, Kristin Chenoweth
Música: Robert Mervak, Julian Wass
Fotografia: Bradley Stonesifer
Género: Acção, Comédia, Romance
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: http://www.hitandrunmovie.com/

21 de outubro de 2012

"2 Days in New York" por Nuno Reis

Os americanos gostam de se queixar dos franceses. Em parte será porque são o maior dos poucos povos que não estão bem representados no melting pot, mas essencialmente porque simbolizam o oposto dos americanos em quase tudo. França tem artes, cultura, história. É para lá que os americanos vão quando querem espairecer e ficar melhores pessoas. Viu-se um excelente exemplo em "Midnight in Paris". Não foi pelas mãos de Allen, mas tivémos um novo exemplo recente da rivalidade - chamemos-lhe antes dicotomia - Paris/Nova Iorque. Os estado-unidenses têm dficuldade em admitir que admiram alguém estrangeiro pelo que costumam desdenhar. Em 2007 Julie Delpy, a mais famosa multi-talentosa mulher do cinema europeu, retribuiu levando um deles a passar um fim-de-semana traumatizante em Paris. E em 2012 faz o percurso inverso levando os franceses a Nova Iorque para que choquem toda a Grande Maçã. Receita garantida de sucesso.
A referência acima ao “Midnight” não foi inconsciente. Delpy é o Woody Allen europeu por se mover constantemente entre drama e comédia sempre com inteligência e usando a simplicidade para passar mensagens profundas. Além disso é actriz/argumentista/realizadora e o que mais for necessário pelo que influencia praticamente tudo.

Voltemos a Paris e a 2007. Marion (Delpy) levou o namorado Jack (Adam Goldberg) a conhecer a sua família. Esse ambiente hostil ajudou-os a repensar a sua relação e após superarem as dificuldades continuaram juntos para todo o sempre... Errado! Estamos em 2012 e vemos Marion em Nova Iorque com o seu marido Mingus (Chris Rock). Ambos têm filhos de relações anteriores e a visita da família de Marion em vésperas da importante exposição fotográfica dela junto com as pequenas crises da vizinhança são demasiadas fontes simultâneas de stress. Especialmente porque ninguém está preparado para lidar com aquela família.

É uma proposta mais ligeira que a primeira entrega. A isso ajuda imenso a naturalidade de Chris Rock na comédia por oposição com Goldberg e Delpy sabe-o bem pois cedeu o protagonismo. Mas é também porque só agora são colocadas questões realmente pertinentes sobre a humanidade, a alma e o propósito da existência. A americanização da saga “Two Days” torna este segundo filme mais fácil de ver, acessível a um público mais vasto, e no entanto a destreza de Delpy fez com que não se perdesse o encanto europeu. Sente-se a necessidade que Delpy tem de contribuir para a formação do espectador enquanto entretem e aqui essa missão é facilitada pela preciosa ajuda de outro actor/realizador que surpreende. Para ver assim que possível.
2 Days In New YorkTítulo Original: "2 Days In New York" (Alemanha, Bélgica, França, 2012)
Realização: Julie Delpy
Argumento: Julie Delpy, Alexia Landeau, Alexandre Nahon
Intérpretes: Chris Rock, Julie Delpy, Albert Delpy, Alexia Landeau, Alexandre Nahon
Fotografia: Lubomir Bakchev
Género: Comédia
Duração: 96 min.
Sítio Oficial: http://www.2daysinnewyorkmovie.com/

11 de outubro de 2012

"Frankenweenie" por António Reis

António Reis em Sitges fala-nos de alguns dos filmes exibidos.


Burton recria Frankestein

Burton está para o cinema de animação como Spielberg está para a ficção. Ambos são adultos com coração de criança e criam, cada um a seu modo, obra-primas que marcam o fantástico. Sobretudo têm uma cultura e memória do cinema que integram nos seus filmes e fazem a delícia dos cinéfilos mais atentos. Tim Burton refaz quase trinta anos depois a sua média-metragem homónima, optando desta vez pela animação em vez da imagem real. Foi como se concluísse um sonho interrompido e confirmasse, se necessário fosse, que a animação também é o seu terreno de eleição.
Recriar o mito de Frankenstein numa óptica supostamente infantil é apenas o início de uma aventura mágica pelos ícones do fantástico. Como diz a publicidade, está tudo lá: a criação prometaica do mostrinho canino, a feira popular, o incêndio do “castelo”, Godzilla, Gremlins, Eduardo Mãos-de-Tesoura, Batman e tantos outros momentos que são um tributo ao fantástico em que todo o cinema de Burton mergulha. A música sinfónica de Danny Elfman dá a “Frankenweenie” uma dimensão épica para a história deste Victor, um pequeno Frankenstein que aspira a fazer reviver a sua mascote. Mas Victor talvez nem seja o personagm principal já que a figura do excêntrico professor de ciências despedido por fazer muitas perguntas e despertar a curiosidade dos seus alunos, acaba por roubar parte do protagonismo.
Num cuidado preto e branco que remete para os originais de época, “Frankenweenie” agarra tanto o público infantil que se pode rever no universo escolar do argumento, como para adultos de coração mole, nostálgicos de uma infância que nunca tiveram, ou de um cinema fantástico que já não volta.
Visionado em 3D, de novo se nos coloca a questao se era mesmo necessário este gadget tecnológico. A resposta no nosso ponto de vista é negativa. E esta concessão a uma moda que esperemos passageira é talvez o único handicap de um filme fabuloso, manufacturado com ternura pela fábrica de sonhos que é a mente de TIm Burton.
FrankenweenieTítulo Original: "Frankenweenie" (EUA, 2012)
Realização: Tim Burton
Argumento: John August (baseado no argumento de Leonard Ripps que foi baseado numa ideia de Tim Burton,)
Intérpretes: Catherine O'Hara, Martin Short, Martin Landau, Winona Ryder, Charlie Tahan
Música: Danny Elfman
Fotografia: Peter Sorg
Género: Animação, Comédia
Duração: 87 min.
Sítio Oficial: http://disney.go.com/frankenweenie/

4 de outubro de 2012

"Mr. Nobody" por Nuno Reis

A propósito da estreia do filme - finalmente! - recordo e desenvolvo uma crítica originalmente publicada no número 12 da revista Bang!.

O que é ser um humano? Ou melhor, quem é o arquétipo do ser humano? Se tivessem de escrever a história da humanidade, contando a vida de uma só pessoa quem escolheriam? Nemo está a contar a história da sua vida a um jornalista. Divide-a em três etapas cruciais: aos 9 anos, quando os pais se separaram; aos 16, quando o seu coração tomou um rumo e aos 34, quando percebeu os erros de toda a vida. Só que em cada uma dessas etapas ele vai viver não uma, mas dezenas de vidas, fazendo com que se cruzem numa infinidade que nenhuma pessoa sozinha conseguiria viver. Porque ele não é apenas um, ele é a memória de todos nós. É o humano mais velho e o último da espécie.
Porque devemos viver apenas uma vida? Se somos o último de uma espécie, não deveríamos ter o privilégio de saborear todas as existências que quisermos da Humanidade? Cabe-lhe ter essa derradeira vida. Plena.

Com anos de atraso e apenas uma sala onde ser visto, a estreia de "Mr. Nobody" vai passar despercebida a muita gente e isso é um erro. Estamos perante um dos melhores filmes do século. Jaco Van Dormael, um nome conhecido do cinema de fantasia, escreveu seiscentos cartões com diversas histórias e dispô-los em filme de forma a conseguir a aleatoriedade que Nobody narra.

É incrível como esta pérola foi escrita, como foi produzida (é uma gigantesca produção há escala europeia) e como foi realizada. É um inegável retrato da humanidade, pela complexidade, pelo arrependimento, pela saudade, pela alegria de viver. Desfilam por aqui ideias para deixar um espectador desprevenido a pensar durante meses. Mesmo que se seja um filósofo com respostas às questões colocadas, Van Dormael consegue dar-nos a volta ao mostrar que tudo o que vimos e tomamos por certo pode ser uma ilusão. Pode ser visto vinte vezes com vinte conclusões diferentes.

Além do argumento é ao mesmo tempo um trabalho perfeito do ponto de vista técnico. Os actores estão todos soberbos mesmo que só apareçam por uns minutos, e tem cenas inesquecíveis tanto no mundo que conhecemos como no futuro que só imaginamos. Foi como se as estrelas se alinhassem para que este filme visse a luz do dia e se tornasse intemporal para fazer parte da nossa história colectiva. Este não é só para ver. É para comprar e guardar como um tesouro.

Título Original: "Mr. Nobody" (Alemanha, Bélgica, Canadá, França, 2009)
Realização: Jaco van Dormael
Argumento: Jaco van Dormael
Intérpretes: Jared Leto, Diane Kruger, Sarah Polley, Rhys Ifans, Toby Regbo, Juno Temple, Clare Stone, Natasha Little
Fotografia: Christophe Beaucarne
Música: Pierre van Dormael
Género: Drama, Fantasia, Ficção-Científica, Romance
Duração: 138 min.
Sítio Oficial: http://www.mrnobody-lefilm.com/

27 de setembro de 2012

"The Dark Knight Rises" por Nuno Reis

Para começar um conselho: não se deve ver "The Dark Knight Rises" sem antes rever os antecessores. Podem-nos obrigar a recordar Harvey Dent praticamente na abertura, mas além disso é preciso recordar Ra's Al Ghul e a Liga das Sombras, é preciso saber perfeitamente quem é Bruce Wayne e quem é o Batman. Quem são os aliados e os inimigos de cada um deles, qual o arsenal que as empresas Wayne cederam ao vingador mascarado... Em suma, se não quiserem rever é melhor que sejam fanáticos pois em sete anos muito fica esquecido.

Quando o segundo filme termina, o Batman fica com as culpas da morte de Dent para que a proposta de lei possa seguir e tornar Gotham mais segura. Gordon simplifica esse feito com o monólogo mais simples e mais bonito da trilogia:
Because he's the hero Gotham deserves, but not the one it needs right now. So we'll hunt him. Because he can take it. Because he's not our hero. He's a silent guardian, a watchful protector. A dark knight.

Chegados ao terceiro filme as coisas estão um pouco diferentes. Wayne é um eremita que não voltou a ser visto. Batman está desaparecido e a polícia desistiu de o procurar. Quando alguém fala do “mascarado” não se refere ao homem-morcego, mas a Bane, uma lenda que ninguém viu. Gotham não voltou a ser assombrada pelos super-criminosos de outrora e Gordon que está preparado para um ataque eminente é acusado de excesso de zelo. Tudo estava bem até que uma sedutora ladra se apodera das impressões digitais de Wayne. Esse roubo peculiar confunde o próprio que não encontra uma justificação. Algo de grande se vai passar e ninguém está preparado para isso.

Como admirador dos filmes de Burton desde tenra idade e vítima indefesa dos filmes que o seguiram, esperava muito deste capítulo. Não só porque sabia quão sedutora pode ser a Cat Woman com a actriz certa numa roupa justa, como me lembrava de um Bane tão mau que só poderia melhorar.
Se acabaram de sair de um buraco onde o sol não entrava e não se recebiam notícias do exterior, 1) voltem para lá que deve ser melhor do que a superfície; 2) fiquem a saber que a coisa aqui está preta. A desigualdade na distribuição da riqueza tem vindo a ser um problema e com a crise ainda é mais sentida. Este filme vai-se aproveitar desse estado de espírito para propor uma nova ordem social, onde a polícia não é necessária ou desejada, onde o cidadão anónimo é respeitado, onde todos os crimes são punidos ou com a morte do indivíduo ou com a de toda a cidade. E deixar a cidade está na lista de infracções. Este é o modelo proposto por Bane, libertador de Gotham que delega o governo no povo, com as ressalvas referidas. Este é o cenário que o herói caído vai ter de reverter antes de perder a sua cidade para sempre.
Apesar de a economia e o governo serem pontos nevrálgicos da narrativa, serão dos menos importantes. O que realmente está a acontecer é o culminar de uma trilogia e tudo mais é secundário. O primeiro acto, se assim podemos chamar, vai revisitando personagens que já conhecemos e trazendo outras que não cativam por aí além. É mais do que satisfatório descobrir o que vai na alma de Alfred (já merecia uma nomeação a Oscar), podia ser mais eficaz a mostrar as trevas onde Wayne mergulhou. Ver Gordon a enfrentar tudo e todos é tão surreal que sabemos logo, isto vai azedar. Depois ainda há as duas femmes fatales (isso porque Nolan continua a desperdiçar actrizes, podiam ser três) e finalmente há Bane. Esclareço já que Bane não é o Joker. A voz dele não é intimidante como a do anterior arqui-inimigo nem é tão malvada como a máscara à Darth Vader sugeria. Bane é como se não tivesse identidade própria. É uma mera extensão de Ra's Al Ghul e aproveita-se do medo que vem do primeiro filme. Apenas isso.

Com tantas personagens, e ainda faltou referir algumas, "The Dark Knight Rises" demora a arrancar. Por muito épico que seja o filme é demasiada gente para acompanhar! Passando ao segundo acto, as coisas começam a desenrolar-se melhor. Mas muito melhor mesmo. A única coisa que falta ao filme é a capacidade de surpreender. Já tanto se falou e especulou, que todos os cenários possíveis tinham sido colocados sobre a mesa e a obra final não tinha por onde escapar. Por isso mesmo é ainda mais meritória. Com um Batman que envergonha, sem ter um vilão convincente, foge à imagem criada por comics e por Burton e por aquele que não merece ser pronunciado e mesmo à figura de herói que o próprio Nolan ergueu, e no entanto é um filme eficaz que funcionaria mesmo sem ser parte do universo Batman.
A grande surpresa será a reforma do homem-morcego. O próprio a retirar-se, o médico a recomendar descanso, a incapacidade de superar as barreiras que não detiveram uma criança! Este herói pode ter envelhecido, e pode ser indiferente à morte, mas ficou mais real do que alguma vez foi. Com a queda de do Caveleiro das Trevas surge um novo herói: o povo de Gotham. Se no segundo filme mostra o seu lado pior (a recordar a cena dos barcos), aqui mostra um novo lado. Com alguma apatia, mas uma postura decente e onde a coragem de poucos compensa a cobardia de muitos, é a população anónima, com pequenos gestos, e não a mascarada, com exibições heróicas, que faz a diferença. Gordon tinha razão e Gotham finalmente encontrou o herói que precisava. Mais uma vez a contenção foi a chave para criar uma história credível onde era muito fácil exagerar e ser falso.

O ajuste das pontas soltas é feito a despachar, com a angústia da despedida, mas fechando bem a porta para que não seja preciso voltar. Satisfaz o espectador? Não, ainda ficaram muitos vilões por explorar e conflitos por resolver. Conclui uma das mais importantes trilogias do século? Certamente, e dá vontade de voltar ao primeiro DVD e ver novamente a saga do início.
The Dark Knight RisesTítulo Original: "The Dark Knight Rises" (EUA, Reino Unido, 2012)
Realização: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, David S. Goyer
Intérpretes: Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Anne Hathaway, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Michael Caine, Juno Temple, Liam Neeson, Cillian Murphy
Música: Hans Zimmer
Fotografia: Wally Pfister
Género: Acção, Crime, Thriller
Duração: 165 min.
Sítio Oficial: http://www.thedarkknightrises.com/