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13 de abril de 2014

"La vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2" por Nuno Reis

Vencedor indiscutível da Palma de Ouro e aclamado um pouco por todo o mundo, bem antes da estreia já "La Vie d’Adèle - Chapitres 1 et 2" estava envolto em polémica. Se nos esquecermos disso e nos concentrarmos apenas no filme, estamos perante uma obra fundamental do cinema contemporâneo. Para começar por ser a primeira adaptação de novela gráfica a ganhar Cannes revelando novas possibilidades para o cinema de autor com base num género literário que se julgava mainstream. Também por ser um filme sobre homossexualidade que agradou a todo o público (há algo que duas meninas bonitas não consigam?). Mas especialmente, porque é um brutal reflexo da vida.
Comecemos pela dualidade do título. Enquanto uns lhe chamam "Blue is the Warmest Colour", directamente do livro "Le Bleu est une Couleur Chaude", os outros chamam "La Vie d’Adèle". Só que nada no livro refere Adèle, de onde terá vindo esse nome? É que Kechiche em muitas das cenas do dia a dia de Clémentine, utilizava imagens de bastidores da protagonista, Adèle Exarchopoulos. Para aproveitar os diálogos, nada mais simples do que mudar o nome da personagem. Ou, se quisermos ser honestos, apagar a personagem e dar todo o protagonismo à actriz. Colocar o filme completamente nos ombros de uma jovem de dezanove anos com meia dúzia de filmes no currículo. Torná-la na Clémentine do livro , dizendo que podia continuar a ser a Adèle de todos os dias. Funcionou. A história original de "La Vie d’Adèle" pode cair no esquecimento, mas o facto de ter uma história simples e humana sobre o crescimento e a sociedade tornou-o parte permanente das memórias cinematográficas de quem o viu.

Adèle é uma jovem adolescente em busca de um rumo e de orientação. O contacto com uma mulher mais velha num bar onde não devia estar, vai-lhe abrir os olhos para um mundo que desconhecia. Fascinada pela irreverência de Emma - aquele anjo com o cabelo tingido de azul - e pelo mundo adulto, numa altura em que a escola e a infantilidade dos colegas cada vez se distanciavam mais do que queria ser, deixa-se levar pela curiosidade e parte à descoberta. Guiada por Emma, lentamente vai-se tornando mulher, mantendo muita da sua encantadora inocência.

Este retrato da juventude francesa tem imensos pontos a seu favor. O primeiro é a naturalidade das situações. Não só pelo desempenho magistral de Exarchopoulos, mas também pelas pequenas coisas como a música angófona que a juventude francesa ouve constantemente e nem se dá conta; as manifestações, sinal dos nossos tempos e do descontentamento da nossa juventude; o cada vez maior distanciamento geracional e como isso afecta os indivíduos... Poderia continuar a enumerar, mas de forma sucinta é a honestidade de tudo o que nos conta. É uma história de vida, de como a chama do amor se acende e se apaga, e de todos os momentos pelo meio em que arde fulgurosa.

A Adèle personagem teve um início de vida inesquecível e no fim daquela dolorosa estrada conseguiu encontrar a sua identidade. A Adèle actriz atingiu o estrelato com naturalidade, e esperemos que por lá se mantenha. Será quase impossível dissociar da personagem, mas o carinho que lhe tem sido demonstrado prenuncia uma magífica carreira.
La vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2Título Original: "La vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2" (França, Bélgica, Espanha, 2013)
Realização: Abdellatif Kechiche
Argumento: Abdellatif Kechiche, Ghalia Lacroix (baseado no livro de Julie Maroh)
Intérpretes: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux
Fotografia: Sofian El Fani
Género: Drama, Romance
Duração: 179 min.
Sítio Oficial: http://www.ifcfilms.com/films/blue-is-the-warmest-color

25 de março de 2014

"Blue Jasmine" por Nuno Reis

Quando o filme chegou às salas já só se falava de Oscar para Cate Blanchett. Ver um filme com esses condicionalismos é altamente desaconselhado pois perturba a experiência ao máximo e sujeita a actriz a um escrutínio injustificado.
Por acaso até o ganhou. Isso só dificulta ter de dizer que não gostei.

Estar a fugir tão radicalmente ao que fez nos últimos anos é equivalente ao choque que nos causou quando, após vários filmes menos conseguidos, reconquista o mundo do cinema com “Match Point” e lança uma estrela. Aqui a primeira parte não se aplicava pois "Midnight in Paris", esse sim, é o seu melhor filme em anos, e a segunda seria de rir pois Cate Blanchett é daqueles nomes sem nada a provar a ninguém e que já nos conquistou em praticamente todos os géneros. É por isso completamente justo que tenha direito a um filme só seu e feito para que caminhe para o Oscar. Allen tem dessas coisas e quando se trata de conseguir Oscares para os seus actores podem contar com ele. Nos secundários estão vários dos seus habitués como Alec Baldwin e Sally Hawkins, todos a construir obstáculos para que Jasmine se possa transcender e brilhar muito intensamente no firmamento das personagens que Blanchett vestiu, e se junte à atulhada constelação das que Allen desenhou.
O grande trunfo de "Blue Jasmine" não é a perda ou a dor. Jasmine é perfeitamente incapaz de viver fora daquela redoma onde foi educada e essa inépcia tem tanto de divertido para nós como de humilhante para ela. O que poderia ser resolvido pela prática e talvez adaptação, é complicado pelo facto de Jasmine ser uma inútil, mimada, egocêntrica, caprichosa, manienta e incapaz de estar sozinha. Apesar de ser uma personagem feita para nos afastar, só quando chega ao final é que a conhecemos realmente. Aí, dá vontade rever tudo para ver se não a julgamos de forma precipitada. Nesse caso reconfirmaríamos tudo o que foi dito antes, mas com um pouco mais de respeito. Ela merece.
Não sendo o filme convencional de Allen – a deslocação para San Francisco terá as suas razões de ser, mas esta história é independente da geografia e nem considero relevante onde se passa além das metáforas sobre os altos e baixos da vida e as íngremes ruas dessa cidade – é no entanto um interessante mergulhar numa vida marcada pela culpa, como no meu adorado "Crimes and Misdemeanours" ou no potentíssimo ""Match Point". "Blue Jasmine" nem se aproxima devido à infeliz vulgarização da classe média que destoa da sobriedade que o filme devia ter. Um tão radical fosso entre ricos e pobres percebe-se como crítica social, mas fazer o mesmo para os dividir em termos de inteligência e alegria (o termo “pateta alegre” ocorreu-me) é demasiado forçado. Além disso, não se deve fazer comédia sobre pessoas que precisam de medicamentos para não acabarem com a própria vida.
O filme está bem conseguido, mas era escusado ter sido assim. Apesar de já ser bastante pesado, se não tivesse a comédia forçada – e sabemos que Allen não precisa disso – podia ser o filme do ano. Um dramalhão sobre uma mulher no ponto de ruptura, pode não ser fácil de vender, mas seria inesquecível.

Blue JasmineTítulo Original: "Blue Jasmine" (EUA, 2013)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin, Peter Sarsgaard
Música:
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Género: Comédia, Drama
Duração: 98 min.
Sítio Oficial: http://www.sonyclassics.com/bluejasmine/

13 de novembro de 2013

"About Time" por Nuno Reis

O tempo é a maior bênção de todas

Quem nunca sonhou ter super-poderes? A capacidade de fazer coisas extraordinárias e se distinguir dos demais. Enquanto na infância são coisas banais como ter força, velocidade ou voar, com o avançar do ano já se pede uma coisa bem mais simples: mais tempo. O novo filme do enorme Richard Curtis vai brincar com esse conceito, mas de uma forma mais próxima da comédia romântica do que do nosso familiar fantástico.

Curtis pode ter conseguido o seu lugar na história do entretenimento com personagens como Blackadder e Mr. Bean, com argumentos como "Four Weddings and a Funeral", "Notting Hill" e "Bridget Jones’ Diary", mas foi quando se tornou realizador que se superou. Ao excelente trabalho como argumentista, juntou clássicos modernos como "Love Actually" - o filme ideal para esta época natalícia – e o bastião flutuante da música "The Boat That Rocked". Claro que não se lhe exigia nada menos do que repetir o fenómeno. Pedia-se o impossível. Para expectativas tão altas, Curtis foi em busca dos melhores. Para protagonista, uma surpresa! Downhall Gleeson ("Shadow Dancer", "Anna Karenina") tem aqui o seu primeiro grande papel depois de uma carreira promissora no segundo plano. A compensar o desconhecimento do grande público sobre ele, como interesse amoroso está a sobejamente conhecida Rachel McAdams (do filme lamechas preferido de todos "The Notebook") que tem adorado fazer cinema europeu como se prova pelos exemplos recentes "Midnight in Paris" e "Passion" e já teve a sua dose de assistir a viagens no tempo (adicionemos o óbvio "The Time Traveler’s Wife" à lista).

Enquanto McAdams volta a ser a miúda perfeita capaz de dar a volta à cabeça de qualquer homem e se move com naturalidade no romance e comédia, Gleeson leva em ombros a parte mais difícil do filme. É ele que tem de fazer com que o público desse género de filmes se fascine e se deixe levar pela magia. Interpreta Tim, um jovem capaz de viajar no tempo e que usa esse poder para fazer do seu mundo e dos que o rodeiam um lugar melhor. Quando algo está mal, um momento de concentração e puf, tem a oportunidade de fazer o que não foi feito, corrigir o que disse mal, eliminar os momentos mais deprimentes da sua vida. O pai dá-lhe dicas sobre o que pode ou não fazer e sobre quais devem ser as suas prioridades, mas esse grande poder, como todos os que sonharam tê-lo imaginam, traz grandes responsabilidades e só Tim pode decidir o que vale a pena mudar.

Este romance entra em terreno perigoso com tal sinopse. Com uma produção americana seria um desastre seguramente. Mas a visão de Curtis é especial. Ele conseguia tornar qualquer porcaria num sucesso de bilheteira e ninguém deixaria de gostar dele por isso. Dá uma tal naturalidade às coisas que repete o fenómeno de Notting Hill e Love Actually: pode ser uma história de amor impossível, mas é credível simplesmente porque nos faz acreditar. O que Tim vai fazendo e sentindo, é o que o espectador pensa. O que faria por amor àquelas pessoas. E a moral final é exactamente aquela que tantas vezes ouvimos das pessoas mais velhas e não percebemos ou não tornamos realidade antes de ser demasiado tarde. Não é preciso reviver melhor, desde que se viva cada dia ao máximo.

About TimeTítulo Original: "About Time" (Reino Unido, 2013)
Realização: Richard Curtis
Argumento: Richard Curtis
Intérpretes: Downhall Gleesom, Rachel McAdams, Bill Nighy, Lydia Wilson, Lindsay Duncan, Tom Hollander
Música: Nick Laird-Clowes
Fotografia: John Guleserian
Género: Comédia, Fantasia, Romance
Duração: 123 min.
Sítio Oficial: http://www.abouttimeintl.com/

9 de novembro de 2013

"Now You See Me" por Nuno Reis

Magia é ilusão

Qualquer progresso científico suficientemente disruptivo é considerado magia. De outra forma não teria piada. O cinema documental dos Lumiére até que depressa se tornou um entretenimento banal, mas quando o ilusionista Georges Méliès lhe aplicou os seus truques, passou a ser chamado de magia. Essa grande ilusão ainda hoje perdura. As pessoas correm para as salas de espectáculo que lhes proporcionem experiências mais estranhas, mais fora do comum, mais mágicas. Nâo foi por acaso que acima usei a palavra espectáculo para identificar a sala.
Se em tempos o rei do espectáculo era o ilusionista, com os seus passes de prestidigitação, hoje não há dúvidas que são os cineastas. Homens e mulheres capazes de nos transportar para outros locais e outras épocas, ou mesmo para mundos de fantasia onde o impossível acontece diariamente. Mas o respeito entre estes artistas é imenso e não é normal cruzar os temas. Tivemos casos recentes como "L’Illusioniste" onde o importante não era a arte do engano, mas a parte humana da história, e "The Prestige" que fez com que todos se achassem capazes de desmascarar um ilusionista como fraude. Mas a verdade é que quando o artista assume o nome de ilusionista não está a mentir. Assume que o que vai fazer é uma ilusão, um truque óptico.

A história do filme acompanha quatro artistas que são unidos por umas cartas misteriosas. Se em separado eram bons, em conjunto são incomparáveis e os maiores mágicos de sempre. Apoiados por um magnata, vão dar uma série de espectáculos onde o impossível acontece. Mas nem toda a gente gosta de ser enganada. Há um polícia que os quer prender por roubo e um ex-ilusionista que ganha a vida revelando os truques dos outros. E quanto maior a fama do ilusionista, mais apetecível essa revelação. Como podem quatro indivíduos enfrentar a polícia, os homens do dinheiro e o maior especialista em desfazer ilusões? Com magia.

Now You See Me” é uma reconciliação entre os mundos do cinema e do ilusionismo. A arte da ilusão atinge todo o seu potencial de deslumbramento no grande ecrã e só os mais básicos dos truques são revelados de forma a manter o mistério. Aliás, contem com atenção o número de vezes que falam de ilusionismo. Os dedos de uma mão bastam. A palavra-chave usada ao desbarato é Magia pois o espectador do filme tem de estar no estado X-Files (I want to believe) para se deixar levar. E como funciona. Os efeitos especiais propiciam um alcance que o ilusionismo actual nunca conseguiria e assim os quatro cavaleiros surpreendem todos. Falta saber se eles são os bons, os maus, ou se estão simplesmente a ser manipulados por alguém com outros interesses. Interpretações surpreendentes de todos os actores que podem adicionar este projecto ao currículo com orgulho pois não será um exagero dizer que não fizeram nada tão bom em muitos anos.

Com uma narrativa envolvente, muita intriga, acção, e truques de ficar com o queixo caído, o filme heist de Louis Leterrier é bastante inteligente e convence como qualquer ilusionista gostaria. Há detalhes que não são tão credíveis (o truque grande do segundo espectáculo é o mais escandaloso), e o twist final não é uma surpresa completa, mas perdoa-se pois o filme no seu todo funciona e o seu visionamento será uma bela experiência para os sentidos e para a mente.

Now You See MeTítulo Original: "Now You See Me" (EUA, França, 2013)
Realização: Louis Leterrier
Argumento: Ed Solomon, Boaz Yakin, Edward Ricourt
Intérpretes: Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Isla Ficher, Dave Franco, Morgan Freeman, Mélanie Laurent, Michael Caine
Música: Brian Tyler
Fotografia: Mitchell Amundsen, Larry Fong
Género: Crime, Mistério, Thriller
Duração: 115 min.
Sítio Oficial: http://www.nowyouseememovie.com

3 de novembro de 2013

"The Internship" por Nuno Reis

Há muito tempo, mas nesta mesma galáxia, vi um filme chamado “AntiTrust”. Apesar do seu elenco de renome, foi um tema demasiado marginal para ser um sucesso e apenas funcionou com um pequeno nicho. Aquele nicho dos adolescentes visionários que adivinhavam o potencial da informática antes dos chavões e da liberalização fazerem com que qualquer um se achasse intendido no assunto. Era a época das dotcom e dos sonhos computadorizados, a época em que um jovem numa garagem podia fazer toda a diferença. Era eu em potência.
Os anos passaram, a informática superou as expectativas de qualquer um, intrometendo-se por completo na vida das pessoas e acabando com a individualidade. As startups e o empreendedorismo tornaram-se vocabulário corrente, provando que a tal ideia teria de vir cada vez mais cedo, enquanto eu caminhava para velho. O sonho de fazer aquela descoberta revolucionária que mudaria o mundo foi-se esbatendo, mas não morreu.

Doze anos depois, vivemos num novo paradigma. Parece que já foi tudo inventado, que não há mercado para novas ideias e novos talentos, e, quando há, alguém chega lá antes de nós. Mas é também a era da falta de privacidade, das empresas multinacionais malignas, dos computadores e da rede quase como um inimigo da Humanidade e da individualidade. A maldita obrigação de estar sempre online e de manter uma amizade virtual com pessoas que não víamos desde o infantário e cuja vida seguiu um rumo diferente, cujas fotos de família não nos poderiam interessar menos e no entanto nos aparecem na página de entrada.
Há muitas formas de evitar isso. Gerir bem as permissões. Simplesmente ignorar as pessoas. Não ter uma presença online. Não falta por onde escolher. Mas de uma forma ou outra, acabaremos sempre ligados e teremos de confiar em alguma das coorporações. A única que se vai safando, apesar do ocasional escândalo, das legislações nacionais em constante desafio, da concorrência feroz, é a Google. Conhecida e usada por todos, odiada por praticamente ninguém, é ainda hoje um bastião dos valores das primeiras empresas tecnológicas, dos jovens que numa garagem ousaram sonhar com um mundo melhor, das empresas que estão focadas no cliente e nos funcionários e não apenas no lucro. Doze anos depois e com a informática de consumo generalizada, “Antitrust” continua a ser um filme para uma minoria, mas um filme sobre entrar na Google, aplica-se a vários milhões mais. É um sonho que mesmo quem não tem, percebe perfeitamente.

“The Internship” não é um anúncio à Google. Pode ter o apoio oficial - não só usam a marca exaustivamente como o patrão Sergey Brin tem um cameo - mas não seria nunca a forma como o G mais famoso do mundo se apresentaria. Não é fiel ao que será o processo de selecção Google ou qualquer empresa. É uma comédia que tem lugar na Google, como algumas tiveram em busca dos hambúrgueres White Castle, e imensas passam por um Starbucks ou McDonalds. De tão conhecida que a Google é, não é publicidade encapotada, é um cenário familiar a todos. Como comédia, pode ser semelhante a trabalhos anteriores dos envolvidos actores e realizador envolvidos, o que conta é a mensagem de vida. Dois vendedores com quarenta anos vêem-se a ter de começar a vida do início depois de a sua empresa fechar. Se vão começar de baixo, o melhor é estarem perto do elevador e vão tentar entrar na Google, a melhor empresa do mundo, a empresa do futuro. A sua visão pode ser antiga, mas não são retrógrados. Estão lá para aprender tanto como para ensinar e vão deixar uma marca.
Por sorte consegui apreciar completamente o filme. Tanto compreendo uma geração que se sente defraudada pelas expectativas e teme o que a tecnologia trará, como a geração que vive num mundo electrónico e sonha com um futuro brilhante que se resume a ter um emprego. Tão depressa percebo a referência cinematográfica de quem viveu os 80, como a ausência de referências culturais da geração que nasceu nos 90. Percebo que o filme foi escrito por pessoas que têm uma visão um bocado limitada, só viram um dos lados da questão - o lado velho - mas ao menos esforçaram-se em construir um produto que também é bem recebido pelos jovens. Claro que as falhas são óbvias para quem sabe do que falam, mas como dentro do tema das tecnologias nenhum filme consegue ser correcto e envolvente, prefiro um que agarra o espectador desensinando pouco, a um que agarre baseado em mentiras ou um que seja cientificamente correcto e não interesse a ninguém.

Estando a chegar a época de férias, deixo uma forte recomendação para que seja o primeiro visionamento nesse período de ócio. Dá para por momentos nos sentirmos mais jovens e recordar o que é a Googleness, aquela capacidade de fazer o mundo avançar em harmonia. É a altura ideal para fazer algo de louco e disruptivo. Ou ser preguiçoso, ir ver outro filme e esperar que isto passe. Depende dos efeitos e da força de vontade em cada um.

The InternshipTítulo Original: "The Internship" (EUA, 2013)
Realização: Shawn Levy
Argumento: Vince Vaughn, Jared Stern
Intérpretes: Vince Vaughn, Owen Wilson, Rose Byrne, Aasif Mandvi, Max Minghella
Música: Christophe Beck
Fotografia: Jonathan Brown
Género: Comédia
Duração: 119 min.
Sítio Oficial: http://www.theinternshipmovie.com

8 de outubro de 2013

"Rush" por Nuno Reis

A Fórmula Um será, de todos os desportos, aquele que considero menos apelativo. Não acho piada ao consumo desnecessário de combustível. Mas se me perguntassem há uns anos qual o desporto mais estupido já inventado, responderia basebol sem hesitar. É que desportos motorizados para mim nem são desporto. Alguém passar o tempo sentado e dizer que está a fazer exercicio é um conceito ridículo.
O que essa actividade tem de mais repulsivo é a indiferença ao equipmento que usam e a constante troca de equipa e de piloto. Cada piloto procura um carro mais rápido. Cada equipa procura um piloto mais rápido. Assim resulta que os carros mais rápidos terão os condutores mais rápidos e não haverá uma saudável competição. Portanto, qual o interesse em ver os ratinhos fazer círculos numa gaiola durante horas, para ter um desfecho que está decidido à partida? E já agora, para quê definir tanta regra quanto aos carros?
Estava a precisar de um filme para sequer considerar outro ponto de vista. "Rush" veio mesmo a calhar. Como pode alguém que não gosta de F1 e se aborrece de tédio a ver sequer duas voltas, gostar de um filme sobre o tema? Só se o filme lidar mais com o lado humano do que com as máquinas. Dar primazia aos pilotos sobre os carros. Ron Howard - que tal como eu não aprecia as corridas - aceitou o desafio e apresenta-nos “Rush”, o filme de Fórmula Um onde as carros são o que menos importa.

A Fórmula Um como qualquer desporto não demorou muito a criar as suas lendas. Nos anos 50 foi o tetra-campeão Fangio a vencer por 15 e 16 pontos. Nos 60 o pódio normalmente ficava para Jack Brabham, Graham Hill e Jim Clark em que mais tarde se intrometeu Jackie Stewart. Depois viriam os períodos dourados de brasileiros, finlandeses e alemães, mas a haver um duelo, dentro e fora das pistas, foi no ano de 1976.
O austríaco Nikki Lauda pagou para chegar à F1 na equipa March. Mais tarde foi para a Marlboro. Então o inglês James Hunt tinha o apoio de Lorde Alexander Hesketh e ambos eram concorrentes insignificantes para as grandes escuderias. Mas as capacidades de Lauda como mecânico além de piloto levaram-no para a Ferrari em 74 e foi campeão em 75. E Hunt na falência de Hesketh aproveitou uma vaga aberta por Fittipaldi para entrar na McLaren em 76. As duas equipas mais rápidas e os dois melhores pilotos do momento. De um lado o rigor lógico e frio de quem roça a perfeição na simbiose com o carro. Do outro, um bon vivant e playboy que dá sempre o máximo pois está disposto a morrer quando entra para o carro. Será um confronto de estilos, de egos, de dois pilotos como a Fórmula 1 não voltará a ter.

Quando há uma grande rivalidade em ecrã, é tradicional apresentarem um como bom e outro como mau. Para facilitar a tomada de uma posição. Aqui não é assim tão óbvio. Lauda pode não ter jeito para fazer amigos, mas Hunt também não é de trato fácil. São quase opostos e, contudo, igualmente cativantes. O campeonato de 76 ficará na memória de ambos e dos espectadores por todos os motivos. O filme só ajudará a recordar esse porquê.
O equilíbrio entre as vidas pessoais e profissionais é a mais-valia do filme. Ajuda a conhecer o tal lado humano da rivalidade. Como se gabavam de serem o melhor do mundo sabendo que havia um só piloto capaz de os derrotar. O duelo em múltiplas frentes, das boxes às conferências de imprensa, é tão civilizado que nem parece verdade. Dois homens que todo o mundo vê como inimigos mortais, parecem simplesmente andar “picados”. Eram as corridas num tempo de cavalheiros, algo que não vemos hoje em dia.
Também há o lado competitivo, aqueles poucos detalhes técnicos que distinguem quem está a ver o filme pelas máquinas e percebe todos os termos, de quem fica perdido ao ouvir falar de algo que ultrapasse os conceitos de volante e rodas. Quem não percebe de carros escusa de mudar de sala (ou de canal daqui a uns meses) que esse tema é tocado apenas de raspão. Até as regras da corrida são fáceis de perceber. E resta usufruir da experiência de assistir ao campeonato mais emocionante e disputado que alguma vez se viu. É verdade que anos depois um desses pilotos ganhará um campeonato por mero meio ponto, mas este foi o ano de todos os perigos. O ano que mudou o desporto para sempre.
Com o duelo inesquecível de dois heróis e o maldito Nürburgring, a F1 até parecia ter piada naquela altura.

RushTítulo Original: "Rush" (Alemanha, EUA, Reino Unido, 2013)
Realização: Ron Howard
Argumento: Peter Morgan
Intérpretes: Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara, Natalie Dormer
Música: Hans Zimmer
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Género: Biografia, Desporto, Drama
Duração: 123 min.
Sítio Oficial: http://rushmovie.com/

21 de setembro de 2013

"The Butler" por Nuno Reis

A melhor forma de contar a História é através da história de um homem. Associar acontecimentos marcantes a situações comuns do dia-a-dia. Lembrar que cada grande salto da Humanidade foi também o pequeno passo de um homem. Isso foi feito com Forrest Gump que acompanhou três décadas da história americana. Repetir o feito de forma decente e sem ser acusado de plágio seria impossível, nenhum outro homem poderia ter estado envolvido em tantos acontecimentos-chave. Contudo, conseguiram. Metade do século XX pelos olhos de um homem que esteve no centro de grandes decisões. Não as tomou e não interferiu nelas, mas de certa forma influenciou e trabalhou para que acontecessem, como inúmeros outros ao longo de décadas. "The Butler" não é apenas um filme sobre um mordomo. É sobre uma família que, de uma forma ou outra, esteve presente em quase tudo o que a raça negra passou no século XX até conseguir a igualdade.

Cecil nasceu nas plantações de algodão do sul, onde a vida de um negro valia menos que a terra onde seria enterrado. Decidiu partir em busca de algo melhor assim que possível. O início da vida adulta foi difícil, muito difícil. O Medo e a Fome eram uma companhia constante. Até que uma tentação o mandou bater à janela da oportunidade de uma vida. A partir desse momento o destino sorriu-lhe. Nos anos 50 já estava a servir na Casa Branca onde se vai cruzar com todos os presidentes, de Eisenhower a Reagan. Homens cujas atitudes faziam avançar e recuar os direitos dos seus semelhantes. Enquanto Cecil assiste às decisões e discussões que mudariam o país, o filho mais velho parte nas Freedom Rides, é atacado pelo Ku Klux Klan, marcha com Martin Luther King, junta-se aos Panteras Negras, manifesta-se contra o apartheid... O filho mais novo segue um terceiro rumo, alistando-se para lutar pelo país numa guerra que não era a deles.

Dizer que é um marco cinematográfico sobre o tema seria pecar por excesso. Mas parecia. O argumento demorou um mandato presidencial a sair do papel, todavia fê-lo com o máximo de visibilidade. Basta ver que Oprah Winfrey tem um papel. A carreira dela como produtora tem dezenas de títulos sobre negros como "Precious" e "The Great Debaters, mas a carreira dela como actriz de cinema, estava suspensa há quinze anos, os títulos contam-se pelos dedos de uma mão e têm "The Color Purple" à cabeça. Para tal regresso, tinha de ser algo grande. Foi com esse nível de expectativa que o fui ver. Sabendo que o elenco tinha oscarizados como Forest Whitaker, Vanessa Regrave, Cuba Gooding Jr., e que tinha cameos presidenciais de Robin Williams, John Cusack, Liev Schreiber, Jane Fonda, Alan Rickman e James Marsden. Seria impossível enganar tanta gente profissional, o projecto tinha de ser mesmo bom.

O argumento acabou por não ser tão bom como esperava, mas é muito mais completo do que parece pela duração. "The Butler" é uma grande lição de história. Refere os principais momentos da emancipação, as dificuldades, a mentalidade vigente. Usa sempre o ponto de vista dos afro-americanos, ocasionalmente mostrando também o dos presidentes, figura de topo de uma sociedade branca e teoricamente distantes da realidade, mas que (maioritariamente) tomavam e defendiam as difíceis posições que protegiam tão grande percentagem da população. Dificuldades que podiam ir de um insulto ou um encontrão, até espancamento e morte. Estamos a falar de acontecimentos com mais de um século, mas alguns com apenas trinta anos. Atrocidades contemporâneas de muitos nós e cometidas na suposta terra da liberdade. Infelizmente, "The Butler" é apenas uma lição de história. Personagens que deixam as próprias vidas passar ao lado enquanto se focam no futuro comum. Uma luta na qual participaram, mas na qual não se destacaram. Na qual ninguém se destacou pois foi um trabalho de séculos e de milhões. Essa visão discriminada tem o seu público específico. Se mostrasse o outro lado (como "The Help" tentou ainda recentemente) ajudaria a perceber as causas da segregação e de o sonho de Lincoln ter demorado mais de um século a tornar-se realidade. Como foi feito, todos os que não apoiam a igualdade, usando ou não as máscaras, parecem membros do KKK, variando entre as máquinas de matar carregadas de ódio e os apáticos que apenas têm nojo.

Comparando com outros filmes que tinham a mesma mensagem, este é o mais inofensivo. No fundo, é o retrato fiel de várias gerações lutadoras que foram sendo desperdiçadas por não haver presidentes com coragem de seguir as pegadas de Lincoln. Um número gigantesco de não-heróis a precisar de liderança.
O filme mostra uma luta com um início há tempos idos e que teve um fim em 2008, quando um negro ocupou o lugar de “líder do mundo livre”. Mas por estar fechado no seu tema é como se morresse depois de terminar a sessão. Todos aqueles presidentes tiveram algo mais mais com que se preocupar. O único caso mostrado foi o de Nixon, não só porque o escândalo é incontornável, mas especialmente porque o filme é Democrata e o único presidente Republicano que não foi enxovalhado foi Eisenhower (apesar de o terem mostrado reticente quanto a começar uma Guerra Civil como Lincoln). "The Butler" podia ser muito mais se parasse de olhar para o umbigo e usasse essa experiência de resistência passiva para lutas que ainda se verificam nos Estados Unidos e no mundo: a diferença entre classes no acesso à educação e saúde; a discriminação e violência contra homossexuais. Mas isso já não é com Cecil. A causa dele está encaminhada, que se ergam outras vozes mudas para as outras causas.
É um projecto curioso que se vê bem e que serve de súmula para quem precisa de um incentivo antes de ir estudar o século XX estado-unidense. Nem mais nem menos do que isso.

The ButlerTítulo Original: "The Butler" (EUA, 2013)
Realização: Lee Daniels
Argumento: Danny Strong (baseado num artigo de Will Haygood)
Intérpretes: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Banner, David Oyelowo
Música: Rodrigo Leão
Fotografia: Andrew Dunn
Género: Biografia, Drama, Histórico
Duração: 132 min.
Sítio Oficial: http://www.weinsteinco.com/sites/leedanielsthebutler

31 de agosto de 2013

"La Cage Dorée" por Nuno Reis


Se não é inédito, parece. O ano passado "Morangos com Açúcar" e "Balas e Bolinhos 3" entraram em Setembro a arrasar com os números do cinema nacional. Acabaram respectivamente como quarto e terceiro filmes portugueses mais vistos desde que há registos oficiais.
Este ano podia ser diferente. Especialmente quando se anuncia quebras de 50% nas bilheteiras. Mas não foi muito. Com Agosto chegou um filme francês falado em português. Era sobre os emigrantes de primeira e segunda geração. Quem não se identifica com isso? Quantas famílias nos últimos cinquenta anos não perderam irmãos ou filhos para um país distante? E quantos de nós não choram cada ano quando eles regressam para logo partirem novamente? "A Gaiola Dourada" sabia ao que vinha. Em França teve um milhão de espectadores. Ou seja, basicamente todos os portugueses foram ver. Chegar a Portugal em Agosto era a pedir para que os emigrantes fossem rever. Que quem tivesse acolhido os emigrantes fosse ver com eles. Que quem não teve visita este ano fosse matar saudades e tentar perceber porque não voltam eles de vez.
Cada semana cerca de cem mil pessoas vão ver o filme e estamos nisso há quatro semanas. Com quatrocentas mil entradas, se fosse uma produção nacional tinha sido o filme português mais visto de sempre. Com o fim das férias, o fim do fluxo de emigrantes e o fim de pessoas que o queiram ver, não conseguirá manter esses números por mais tempo, mas será o filme mais visto do ano. Num ano de crise. E isso é obra.

Facto mais importante sobre “A Gaiola” - este é o estereótipo do emigrante português em Paris. Mas essa é também a realidade de noventa por cento dos “tugas” em terras gaulesas. O homem nas obras, a mulher como porteira num condomínio. Ambos imensamente apreciados por todos, mas raramente reconhecidos. Até que um boato se espalha. "O José e a Maria vão voltar para Portugal? Não os podemos perder! Como vamos viver sem eles?" E começa a ser erguida uma nova e deslumbrante realidade de onde não queiram sair. Uma gaiola dourada. E o José quer voltar para a terra da sua família. E a Maria não quer andar a cozinhar bacalhau toda a vida como a irmã sonha. Mas os filhos não querem ir. Eles não se sentem franceses, mas não são portugueses. Pertencem àquela geração abençoada que tem o mundo como pátria e, no entanto, sente que não tem um lugar seu.
Enquanto a comunidade à sua volta lhes dá a vida com que sempre sonharam e os filhos os fazem viver um pesadelo, os portuguesíssimos José e Maria sentem-se com total liberdade para brincar com aquela fantochada. E é assim que vão descobrir o que realmente importa.

É um filme para puxar à lágrima. Em especial quando se passou por aquilo e se sofre com o ternurento calor das memórias. Ser emigrante é sofrer, mas também é vencer. É deixar o país, mas levá-lo orgulhosamente no coração e ser um seu embaixador. É comemorar com os compatriotas exilados a cada semana numa mesa que tenha bacalhau e Super Bock e é voltar nos verões para aqueles que amamos no nosso Portugal à beira mar plantado. O mundo perfeito não teria fronteiras nem distâncias. Mas este tem. E como manda a tradição, o português - desculpem, o Português - é aquele que deixa tudo para ir, para descobrir novos mundos, para dar novos mundos ao mundo e para dar o melhor do mundo ao seu Portugal.
Pode nunca mais voltar a sentir-se em casa, mas um dia descobrirá que quem ficou para trás, só tem a felicidade de não saber o que perdeu.

Numa altura em que tanto se fala de não ser piegas, de sair da zona de conforto e de partir para o mundo, “A Gaiola Dourada” obriga-nos a pensar no que acontecerá dentro de uma geração. Perderemos muito, ganharemos mais. Cabe a cada um descobrir qual o seu lugar no mundo. Qual o seu cantinho.

Devem esperar que faça observações sobre o argumento, as opções estéticas e narrativas, sobre a iluminação ou edição. Nada disso. Este filme não é para ver com a mente que se estraga, é para ver com o coração. Querem que fale da transformação dos nossos actores mais internacionais, Rita Blanco e Joaquim de Almeida, e quão bem encaixam nas personagens que ninguém poderia fazer tão bem? Querem que diga como Maria Vieira, igual a ela mesma, é o exemplo perfeito da portuguesa sempre a trocar entre falar português e francês? Ou como o fado interpretado pela inesperada Catarina Wallenstein é suficiente para descongelar qualquer coração que ao fim de hora e meia ainda não se tenha rendido ao filme? Como aquelas mesas ao ar livre transmitem os sons, cheiros e sentimentos de Verão? Desculpem se queriam saber algo sobre o filme.
Para alguém de fora “A Gaiola Dourada” seria apenas um filme. Para nós é mais. É uma história como milhares de histórias que todos conheciamos, mas ainda não estava imortalizada em película. Cada país de imigrantes/emigrantes devia ter um e nós estávamos a falhar de forma incrível. Com uma perspectiva mais afastada, não bateria o meu predilecto "Almanya", mas este é o nosso filme e todos deviam ir vê-lo. Só é pena que "Aquele Querido Mês de Agosto" não tenha tido igual sucesso há cinco anos.
La Cage DoréeTítulo Original: "La Cage Dorée" (França, Portugal, 2013)
Realização: Ruben Alves
Argumento: Ruben Alves
Intérpretes: Rita Blanco, Joaquim de Almeida, Roland Giraud, Chantal Lauby, Bárbara Cabrita, Lannick Gautry, Jacqueline Corado, Maria Vieira
Música:
Fotografia: André Szankowski
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: http://agaioladourada.ofilme.pt

11 de julho de 2013

“V Tumane/In The Fog” por Nuno Reis

A rubrica “Da Curta à Longa” é das mais interessantes que podemos assistir no Curtas. O conceito é revisitar autores de curtas quando fazem longas. Isso leva a que se ganhe curiosidade por trabalhos anteriores e serve para cativar espectadores do cinema dito “normal” para o formato curto, mas serve especialmente para dar credibilidade às curtas. Que funcionou ninguém duvida, o Curtas é a maior prova disso e já vão mais de vinte anos assim. Este ano um dos títulos fortes da rubrica era “V Tumane”/”In the Fog”, vencedor do prémio FIPRESCI em Cannes.

Estamos na Biolorússia - na altura URSS - em 1942, durante a ocupação alemã. Três homens são enforcados por fazerem resistência, ou melhor, por “sabotarem a ajuda dos alemães”. Mas havia quatro suspeitos e quatro foram presos. Essa excepção é mal vista pela população. Um dos rebeldes encara como assunto pessoal garantir que o sobrevivente, seu velho amigo, pagará pela traição. Quis o destino que a missão não corresse tão bem como era suposto e se vissem obrigados a dialogar e a resolver as suas diferenças. Essa viagem ao passado vai obrigar as personagens e os espectadores a pensar sobre as decisões cruéis que o destino por vezes obriga a fazer e a que ponto pode alguém descer e ainda se achar um ser humano.

Não é um filme para todos. O documentarista Sergei Loznitsa capta uma faceta normalmente desprezada da guerra: as vidas destruídas pela suspeita. Por entre os heróis e os cobardes, há sempre alguém que tem de sofrer. Aquele que, independentemente do que diga, será sempre julgado com base em algo que é dito. Aqui há os três casos. O que quer fazer algo, o que quer fugir depressa, e o que está disposto a pagar pelo pecado que diz não ter cometido. Em tempo de guerra e fome, ninguém tem razão e muitos morrem sem motivo. A guerra é assim mesmo, estúpida. E como todo o filme se passa fora do campo de batalha, já com esse bocado da guerra terminado, ainda mais inútil se tornam as mortes.

Nâo sendo um filme curto ou rápido, dá tempo suficiente para muitas reflexões. Vai perder alguns espectadores menos acostumados a exercícios do género, mas, para os que se deixam ficar, vai revelando aos poucos uma história empolgante. Demora demasiado a chegar lá, mas finalmente saímos da floresta e vemos o que se esconde no nevoeiro.

 V TumaneTítulo Original: " V Tumane" (Alemanha, Bielorússia, Países Baixos, Rússia, Letónis, 2013)
Realização: Sergei Loznitsa
Argumento: Sergei Loznitsa (baseado no livro de Vasili Bykov)
Intérpretes: Vladimir Svirskiy, Vladislav Abashin, Sergei Kolesov
Música:
Fotografia: Oleg Mutu
Género: Drama, Guerra, História
Duração: 127 min.
Sítio Oficial: http://www.inthefog-movie.com/

10 de julho de 2013

"Passion" por Nuno Reis

Tem estado muito na moda fazer remakes americanos de filmes europeus com sucesso. Menos na moda seria fazer um remake de um filme europeu sem grande projecção internacional. Remake esse maioritariamente em inglês, mas de produção europeia. Foi precisamente isso o que aconteceu ao filme “Crime d’Amour” de Alain Corneau, sujeito a um remake dois anos depois da estreia. Claro que não foi um qualquer, mas Brian de Palma, que viu na relação mais do que profissional de duas mulheres, um bom tema para novo filme com forte carga sensual como nos acostumou.
Esquecendo a versão com Kristin Scott Thomas (de "Nowhere Boy" também exibido no Curtas, ou "The English Pacient") e Ludivine Sagnier (de "The Devil’s Double"), temos aqui Rachel McAdams, a queridinha do cinema americano, e Noomi Rapace, a nova rainha do cinema europeu. Uma loura, outra morena, para completar só falta referir a ruiva, Karoline Herfurth. Essa tem menos interesse para a narrativa, mas interessa referir que o filme só começa realmente com o rabo dela. Para saberem mais, terão mesmo de ver “Passion”.

Christine (McAdams) é uma executiva de sucesso numa empresa de publicidade. Deslocada para a filial alemã, anseia voltar para Nova Iorque, mas para isso tem de se destacar. O trabalho de Isabelle (Rapace) está a dar um importante contributo para isso e Christine agradece a ajuda da colaboradora, mas no dia em que é preciso colher os louros pela campanha, fica com eles só para si. Isabelle deixa passar, mas, insatisfeita com diversas atitudes da colega descontrolada, começa a preparar o seu próprio destino. Duas ambições que estão destinadas a colidir num mundo demasiado pequeno.

Num país estranho e sem relações pessoais, Christine deixa as suas fantasias tomarem controlo. Isabelle, subitamente envolvida num mundo desconhecido, também se deixa seduzir. Desengane-se quem espera que o forte do filme esteja na sensualidade. Não é um “Femme Fatale” ou semelhante. Aqui o tema é o competitivo mundo dos negócios. As inúmeras pressões por reconhecimento, promoções ou o que interessar no momento.

Infelizmente, nem sendo um remake conseguiu evitar algumas situações mal explicadas .No entanto a segunda metade é bastante intensa e tem reviravoltas suficientes para manter o espectador entretido. Se ao menos o arranque fosse mais apetitoso...




PassionTítulo Original: "Passion" (Alemanha, França, 2012)
Realização: Brian De Palma
Argumento: Brian De Palma (baseado no argumento de Alain Corneau e Natalie Carter "Crime d'Amour")
Intérpretes: Rachel McAdams, Noomi Rapace, Karoline Herfurth, Paul Anderson, Rainer Bock
Música: Pino Donaggio
Fotografia: José Luis Alcaine
Género: Crime, Drama, Mistério, Thriller
Duração: 105 min.
Sítio Oficial: http://www.passionthemovie.com/

"Hyde Park on Hudson" por Nuno Reis

“The King Speech” foi suficientemente falado para que a subida ao trono do rei George seja agora conhecida por todos. Um dos pontos em falta nessa história é uma visita feita pelos monarcas britânicos à antiga colónia americana. Os Estados Unidos podem ter desviado o irmão mais velho do caminho real, mas a este rei deram um forte empurrão para que se assumisse como governante dos ingleses e modelo dos europeus, num momento bastante dificil. Mas claro, isso é a visão americana da história.

Este é o diário de Daisy, a prima afastada de Franklin D. Roosevelt que fazia o presidente voltar a ser o homem que sempre foi. Num país em crise, Roosevelt sempre permaneceu impávido. Trocou os confortos e as preocupações presidenciais de Washington por um quarto na casa de campo da mãe que o vigia como se fosse uma criança pequena. Os raros momentos de absoluta liberdade que tem, são a folhear a famosa colecção de selos, ou quando leva Daisy a passear. Tudo muda quando recebe a visita do recentemente coroado Rei George da Grã-Bretanha. Aquilo que parecia uma visita de cortesia, seria uma reunião informal entre dois governantes com o objectivo claro de impedir a eminente ameaça alemã. Uma guerra que os ingleses sabiam que iriam perder sem aliados. Uma guerra que interessava à moribunda economia americana.

Por entre cocktails, serviços de louça partidos e cachorros quentes, encontram-se Roosevelt, o presidente que sabe continuar a ser apenas um homem, e George, o homem que não sabe ser rei. A experiência de um velho presidente pouco convencional vai ajudar o jovem governante a definir um rumo, numa Europa à procura de alguém com visão. Esta visão exageradamente patriótica de como os EUA salvaram o mundo por antecipação, é salva pelo tom humorístico de tudo o que se sucede. Sanitas com aroma a madeira, caricaturas dos soldados ingleses no aposento do rei, um protocolo secular que perde todo o sentido perante uma democracia que mais de um século antes cortou os laços com essa mesma monarquia. Pior, um presidente com uma atitude paternalista perante o antigo colonizador!
Pelo meio há momentos de bom cinema, como os movimentos de câmara na recepção, a floresta com aspecto de pintura, ou os pensativos cigarros de um presidente com mobilidade reduzida e de um rei gago. Há aquele encanto de contar os detalhes mais cor-de-rosa de uma história sobejamente conhecida. Mas o que sobra depois de se retirar o sabor da novidade? O que há para além de um simples fim-de-semana? O filme não tem nada de novo para quem conhecer a história. Foca-se em demasia nos pontos-chave das personalidades envolvidas que são convenientes para esse momento, mas não serve para conhecer quem eles foram ou a época em que viveram. Em especial Daisy que, sendo a menos importante das personagens e mantida fora dos holofotes, parece ainda mais oca, cumprindo muito mal a função de narradora para a qual tinha de cativar.

Nos últimos quinze ou vinte minutos quase todas as personagens dão um pequeno espectáculo. Daisy ganha autoridade, o casal real tem um diálogo maravilhoso, os governantes convivem isentos de formalismos - quase como crianças - e o filme começa a ganhar rumo. Mas subitamente está o fim-de-semana terminado e separam-se, ficando o filme novamente frágil e sem tempo para mais correcções.

Roosevelt foi um presidente extraordinário e Bill Murray interpreta-o de forma soberba, mas este ainda não é o filme definitivo sobre ele.
Hyde Park on HudsonTítulo Original: "Hyde Park on Hudson" (Reino Unido, 2012)
Realização: Roger Michell
Argumento: Richard Nelson
Intérpretes: Bill Murray, Laura Linney, Samuel West, Olivia Colman, Olivia WIlliams, Elizabeth Wilson
Música: Jeremy Sams
Fotografia: Lol Crawley
Género: Biografia, Comédia, Drama, História
Duração: 94 min.
Sítio Oficial: http://www.hydeparkonhudsonmovie.com/

6 de abril de 2013

"G.I.Joe: Retaliation" por Nuno Reis

Nova ida ao cinema depois do interregno. Preparava-me para escolher o filme quando descobri que sofria de um grave caso de brucewillite. Porque de entre as duas dezenas de títulos disponíveis, estava indeciso entre "Die Hard 5" e "G.I.Joe Retaliation". A hora das sessões pode ter ajudado, mas em qualquer dos casos Bruce Willis é um boa guia para o regresso ao cinema de acção. Para a dose não ser muito forte (e também porque ia ficar chateado pelo micro-papel que deram à menina McClane) comecei pelos Joe. Haveria tempo para o outro e muitos mais filmes noutro dia.

Confesso que com o tempo melhorei a minha opinião em relação a G.I.Joe Rise of Cobra. Não é uma obra-prima, mas entretém, tem um elenco de qualidade, a história tem o nexo expectável e os efeitos especiais eram bons. Só aquela gralha no cartaz incomodava. Mas se na altura referi que o melhor do filme era o caminho aberto para a sequela, devido ao fracasso financeiro do primeiro capítulo eles optaram por poupar dinheiro e eliminar praticamente todos os actores que pudessem ser reaproveitados. Ou eram demasiado caros (nem por isso), ou tinham carreiras demasiado boas para voltarem a isto (metade deles não). Tendo de recriar os Joe, começaram com uma versão muito low cost onde apenas repetem quatro actores do primeiro filme (cinco se contarmos os três segundos de Vosloo). O corte com o passado foi radical, especialmente porque eliminaram de forma iremediável muitas personagens.
Nesta sequela aparecem heróis e vilões dos desenhos animados, dos comics e dos filmes “G.I.Joe” que eram populares nos anos 80 e 90. Já ninguém se lembra deles e esse detalhe pode ter sido desnecessário (ou mesmo falta de imaginação), mas é simpático para os fãs que não tomem demasiadas liberdades.

Para quem viu o trailer não há muito mais a dizer. Os Joe estão numa situação complicada e apenas um homem os pode ajudar. O mundo ainda não sabe, mas depende deles.
Desenrolam-se duas histórias em paralelo. Uma no mundo ocidental e médio oriente, com tecnologia de ponta e exércitos onde os Joe se movem com naturalidade. Roadblock, Lady Jaye e Flint enfrentam Zartan, Cobra Commander e Firefly. Outra no oriente secreto, onde os Arashikage mantêm as suas tradições e as artes marciais são a única forma de resolver conflitos. Aqui Snake Eyes e Jynx enfrentam Storm Shadow e muitos ninjas. Haverá talvez demasiados ninjas em G.I.Joe, resquícios dos anos 80 onde era fixe. Neste filme não se deixam perder tanto como seria de supor nessa distracção, apesar de se alongarem mais do que o necessário. E o que é certo é que respeita quase integralmente o legado dos comics.

Muitas acrobacias, mortes e acções heróicas depois, "Retaliation" deixa uma sensação de insatisfação. O primeiro era muito mais completo e mesmo divertido. Esta tenta ser sério e fiel às origens, mas nem entretém nem cativa novos públicos. Fica demasiado fechado no seu mundo de brincar. Se tinha intenção de ruptura com o anterior para dar novo rumo à saga, compreende-se, mas olhando para o filme isolado parece que lhe destruiram as bases.

FIca ainda uma nota para o abuso que tem sido divertirem-se à custa da Coreia do Norte em filmes recentes. Por incrível que pareça "The Dictator" até terá sido o mais respeitoso, comparando com o gozo que "Iron Sky", "Red Dawn" (onde também entra Adrianne Palicki) e agora "Retaliation" têm à custa deles. Estando uma guerra eminente, ainda se poderão arrepender de espalhar essa (falsa?) sensação de superioridade.

G.I.Joe: RetaliationTítulo Original: "G.I.Joe: Retaliation" (EUA, 2013)
Realização: Jon M. Chu
Argumento: Rhett Reese, Paul Wernick
Intérpretes: Dwayne Johnson, Adrianne Palicki, D.J. Cotrona, Jonathan Pryce, Byung-hun Lee, Ray Park, Elodie Yung, Ray Stevenson, Bruce Willis, Channing Tatum
Música: Henry Jackman
Fotografia: Stephen F. Windon
Género: Acção, Aventura, Ficção-Científica, Thriller
Duração: 110 min.
Sítio Oficial: http://www.gijoemovie.com/

"Comboio Noturno para Lisboa" por Nuno Reis

Passaram-se várias semanas desde a última vez que fui a uma sala de cinema comercial. Para o regresso escolhi, num misto de curiosidade e obrigação, o filme português. É divertido chegar às bilheteiras e pedir um bilhete de comboio como se fossemos partir em viagem. Em especial para um comboio nocturno. A sala escura do cinema ganha logo uma aura mística, como um túnel onde entrassemos de comboio para sair num mundo mágico. Para quem há três semanas não entrava numa sala de cinema, ver os créditos desfilarem por entre as paisagens suíças é mágico. Foi assim, como alguém que acabava de redescobrir a magia do cinema, que parti nesta viagem no Comboio Noturno Para Lisboa.

Os nomes nos créditos não disfarçavam a dimensão internacional da obra. Alguns nomes ou apelidos portugueses destoavam, mas quase nem se dava por eles. Foi quando temi que me tivessem enfiado um barrete. Ser co-produção lusa e rodado cá, não significava que fosse um filme nacional. Não era Jeremy Irons e muitos actores nacionais. Era Jeremy Irons, Christopher Lee, Melanie Laurent, Bruno Ganz, Lena Olin, Charlotte Rampling...
Felizmente também isso era apenas uma questão de marketing. Os nomes nos créditos eram os mais sonantes, mas havia muitos portugueses no elenco. Papéis menores, é certo, mas não foram ignorados no casting. E assim encontramos Nicolau Breyner, Beatriz Batarda, Marco d’Almeida, Adriano Luz e cameos de João Lagarto e José Wallenstein. Se preferia ter mais dos nossos artistas nesta produção? Claro, pelo menos porque saberiam falar português ao contrário dos visitantes, mas pelo menos aproximamo-nos do tão bem-sucedido modelo espanhol de fazer grandes produções internacionais em inglês, com realizadores e estrelas consagradas nos papéis de relevo e a prata da casa em segundo plano (actores e equipa técnica), a acumular créditos para saltos maiores.

Escrito por um suíço, tem uma história com muito de português. Não é um ponto de vista de quem sempre morou em Lisboa, é de quem a visitou e se foi apaixonando. Raimund estava afectado quando decidiu entrar no comboio para Lisboa. Tinha acabado de salvar uma vida. No entanto em Lisboa começa a deixar-se envolver nas pessoas, nos jeitos, e em especial na vida de Amadeu de Prado, um médico revolucionário que escreveu os seus pensamentos ousados em período de ditadura. Até que Raimund está totalmente incapaz de partir sem saber o que aconteceu a cada um dos intervenientes anónimos dessa falada revolução. Haverá algo mais português do que a vontade de ajudar o próximo, de partir rumo ao desconhecido, de conhecer os outros e de fazer a diferença por onde passa, mesmo que isso pareça impossível? Gostaria de pensar que não.
Esta epopeia filosófica pautada pela citações do tal Amadeu tem uma aura de mistério que a aproxima de um descontraído thriller. Os flashbacks para os tempos negros da ditadura ajudam muito a criar essa atmosfera. No fundo temos um estranho numa terra estranha, à procura de respostas que estiveram escondidas durante décadas. Conseguirá um elemento imparcial reunir pessoas que durante quarenta anos não se quiseram ver?

É um filme envolvente, que conta muito mais do que se esperaria pela duração. As duas narrativas paralelas, e por diferentes pontos de vista, são completamente diferentes. A do presente serve apenas para organizar e dosear os retalhos que vamos tendo da história principal, aquela que se passa nos anos sessenta e setenta. E assim, enquanto vamos sorvendo a trama que parece ter moldado o nosso presente, vamos criando afeição por aquele suíço que nos veio visitar num impulso e, graças a um livro, se torna também parte da nossa história.
Esse livro será talvez o ponto mais exigente do filme. Não só obriga a escutar em vez de apenas ver, como obriga a reflectir no que estamos a ouvir. Leva-nos numa viagem para a vida de outra pessoa, noutra época, e ao mesmo tempo deixa a nossa mente a pensar na vida e no pouco que fazemos com ela. E enquanto isso, o filme avança para outros territórios.

Gostaria muito mais de ter visto um filme totalmente português e em português. Faz-me impressão que personagens portuguesas não consigam dizer o próprio nome bem! Tal como me faz impressão que nas memórias uma pessoa tanto fale português como inglês, por vezes na mesma cena. E especialmente, detesto traduções mal feitas na legendagem. Sim, aqui há disso. Mas se tirar esse desapontamento, se o encarar como um estrangeiro que nada sabe de Lisboa e da Revolução dos Cravos, tem algo mágico, quase a fazer lembrar “Lost in Translation”.
Não há muito mais a apontar. Apesar de tudo, é um filme que se vê com gosto e uma história que era preciso contar. O nosso cinema podia aprender alguma coisa com este exemplo.
Comboio Noturno para LisboaTítulo Original: "Comboio Noturno para Lisboa" (Alemanha, Portugal, Suíça, 2013)
Realização: Bille August
Argumento: Greg Latter, Ulrich Herrmann (baseados no livro de Pascal Mercier)
Intérpretes: Jeremy Irons, Mélanie Laurent, Jack Houston, Martina Gedeck, Tom Courtenay, August Diehl, Charlotte Rampling, Beatriz Batarda, Marco D'Almeida, Bruno Ganz, Lena Olin, Christopher Lee
Música: Annette Focks
Fotografia: Filip Zumbrunn
Género: Mistério, Romance, Thriller
Duração: 111 min.
Sítio Oficial: comboionoturnoparalisboa.ofilme.pt

19 de fevereiro de 2013

"Flight" por Nuno Reis

Não tenho como negar que Zemeckis é dos meus realizadores favoritos. Mesmo com uma última década de menor nível, o seu cirrículo está recheado dos meus filmes favoritos. O seu mais recente “Flight” é melhor que os antecessores mais recentes, mas ainda não chega aos calcanhares dos irmãos dos anos 80 e 90. Nem com velhos cúmplices como Alan Silvestri e Don Burgess.

Whip Whitaker (Denzel Washinton) é piloto numa companhia aérea. E seguramente não desperdiça o estatuto da profissão. Aproveita os benefícios, tem as mulheres atrás dele, e anda sempre bem descontraído. Até que um voo não corre tão bem como os anteriores. A tempestade no momento da partida prenunciava que ia ser uma viagem agitada. Acabou por ser o voo mais complicado das suas vidas. A calma e destreza de Whitaker salvaram dezenas de vidas, só que a companhia quer conhecer as causas do acidente e a única coisa que encontra são mais razões para aquilo ter acontecido. Num meio em que muitos milhões estão em jogo, é preciso um bode expiatório.

Washington é um dos actores mais aclamados desta geração e Whitaker é uma personagem da qual se gosta à primeira. Em pouco tempo captura-nos com este estilo de bon vivant e mesmo cometendo uma asneira atrás doutra, é difícil ralhar-lhe. Pelos seus olhos vemos como pode ser a vida de um piloto que se esquive às responsabilidades e é boa! Até que, ainda bem no início, chega o ponto alto do filme: a aterragem contra todas as probabilidades. É uma das cenas visualmente mais imponentes dos últimos anos e combina o horror do desastre eminente com a beleza do voo em total liberdade. A alternância entre diversas perspectivas - o exterior do avião, o trabalho de equipa na cabine, os corpos à deriva - consegue conquistar os espectadores e levá-los para o resto do filme. É aí que está o problema. Saltamos imediatamente do filme de um anti-herói, com acção e charme, para o de um homem atormentado pela culpa. Whitaker não é mais um destemido galã, mas um cobarde que se refugia e tenta apagar as provas do crime do qual não se envergonha. Não procura expiação ou perdão, só deseja esquecimento. “Flight” aqui continua a ser um filme interessante, mas nunca recupera a adrenalina inicial. A componente física é trocada por uma mais psicológica que se vai esvanecendo à medida que conhecemos o piloto e nos envergonhamos da sua atitude. Para lá da fachada de durão descontraído, é apenas um homem frágil e medroso. Subitamente o seu destino já não é algo que importe. E é pena porque a dicotomia entre homem privado e herói público é um tema digno de um filme. Só não assim. O homem nunca teria uma hipótese de fazer algo tão grandioso como o herói fez, mas no final o que se vê não é o homem a ganhar coragem, é o herói a fartar-se do corpo onde estava e a impôr-se perante um homem que não queria saber.
É um filme que se vê com gosto, só precisava de trabalhar melhor o lado humano. Não só a relação de Whip com Nicole (surge do nada por serem carentes, ganha força e desaparece num ápice) como com todos os outros. Percebe-se a ideia, mas faltam algumas cenas para se acreditar no que é dito.

Uma nota ainda sobre John Goodman. Depois de "Red State", "Extremely Loud & Incredible Close" e "The Artist" em 2011, em 2012 foi visto em "Argo", "Trouble With the Curve" e "Flight". Não sendo um actor com uma fisionomia comum, tem conseguido imensos papéis e normalmente em filmes de relevo. E ainda trabalho vocal em "ParaNorman" e brevemente de volta a "Monsters University". Está em grande!

FlightTítulo Original: "Flight" (EUA, 2012)
Realização: Robert Zemeckis
Argumento: John Gatins
Intérpretes: Denzel Washington, Kelly Reilly, John Goodman, Bruce Greenwood, Don Cheadle
Música: Alan Silvestri
Fotografia: Don Burgess
Género: Drama
Duração: 138 min.
Sítio Oficial: http://www.paramount.com/flight/

14 de fevereiro de 2013

"Django Unchained" por Nuno Reis

Quando em “Inglorious Basterds” Tarantino nos apresentou Christopher Waltz, foi amor à primeira vista. Era um vilão tão perverso e complexo, que era impossível não ficar imediatamente preso. Em “Green Hornet”, “Water for Elephants”,“The Three Musketeers” e Carnage” não teve o mesmo sucesso, mas bastou surgir novo argumento de Tarantino e o actor voltou aos eixos. Sem exagero, ao fim de dez minutos já a nomeação a Oscar está mais que justificada. O seu Doutor Schultz é tão louco, inteligente e corajoso como Hans Landa, mas tem ainda a vantagem de ser uma boa pessoa.
Ao longo do filme o que mais depressa nos convence é a enorme qualidade dos actores secundários. Além da Waltz temos ainda Leonardo diCaprio a estrear-se como vilão, Samuel Jackson pela primeira vez a sentir a idade na pele... Se formos para os cameos não é difícil reunir doze magníficos. Franco Nero, Bruce Dern, Don Johnson, Jonah Hill, Russ e Amber Tamblyn, Robert Carradine, Tom Savini, Zoe Bell e o próprio Quentin Tarantino.

Django era um escravo. Até que um dentista lhe dá uma oportunidade de se vingar dos homens que o chicotearam. Criam uma parceria que culmina com a missão para salvar a mulher de Django. Mas esta odisseia em busca de Brumhilda vai ser um bocado mais complicada do que a ópera de Wagner. Numa sociedade racista como a americana dos 1850s, e em especial no Mississippi, um negro a cavalo causa confusão e repulsa. Mas o dinheiro tudo resolve e por isso Schultz e Django conseguem superar todas as barreiras da sociedade branca, tendo apenas de enfrentar a indignação dos negros.

O que é este “Django Unchained”? Para uns é uma mera homenagem a “Django”. Para outros foi para combater o bichinho que ficou de “Sukiyaki Western Django” onde fez um cameo. O próprio afirma que é o segundo capítulo da trilogia iniciada com “Inglorious Basterds” sobre História alternativa. Para alguns é uma ousada comédia a repetir o que Mel Brooks inventou em “Blazing Saddles” onde também um negro tinha arma. E além de ser tudo isso, é muito mais do que isso e algo totalmente diferente. É Tarantino a fazer um western spaghetti que homenageia o género. É um drama que por vezes se assemelha a uma comédia gore. É uma festa com amigos. É acima de tudo uma prova da criatividade que se consegue ainda extrair de ideias que pareciam esgotadas e fora de época. No fundo, o mesmo que Tarantino nos tem trazido nos últimos anos.
É um filme muito agradável de ver (para quem suportar cabeças a explodir e violência gratuita), entretem, e ainda tem essa moral escondida sobre a dicotomia Bem vs. Mal. É um caçador de recompensas bom porque mata quem é mau? Ou são o dinheiro e o prazer de tirar vidas que o movem? E quem não conheceu outra realidade pode ser culpado de lutar para manter o mundo como sempre o viu?
Não é o melhor de Tarantino, mas mesmo quando é mau está bem acima de tantos outros.
Django UnchainedTítulo Original: "Django Unchained" (EUA, 2012)
Realização: Quentin Tarantino
Argumento: Quentin Tarantino
Intérpretes: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson
Música:
Fotografia: Robert Richardson
Género: Aventura, Drama, Western
Duração: 165 min.
Sítio Oficial: http://unchainedmovie.com/

12 de fevereiro de 2013

"Zero Dark Thirty" por Nuno Reis

Missão cumprida, mas sem glória

A breve história dos Estados Unidos está recheada de feitos merecedores do maior respeito, tanto a nível político, como científico e cultural. É um povo que soube criar-se da amálgama de muitos outros, mantendo o cunho de cada grupo que contém, e uma identidade comum com mais força e orgulho do que qualquer outra. Através da sua máquina de propaganda espalharam-se por todo o globo, mas com a democratização dos meios também as vozes discordantes se elevaram. E as mais acutilantes partem do seio dos EUA. Este filme não é apenas o reflexo de uma operação militar bem sucedida. Não é uma missão crítica da CIA que correu espantosamente bem. Nem é sobre uma mulher que se indignou e nunca baixou os braços, mesmo quando todo o país tinha esquecido o motivo original para a guerra no Afeganistão. Isto é um filme sobre um país que teve como momento alto dos últimos dez anos (para não dizer trinta) o homicídio de um homem.

No início foi um atentado. Um massacre inimaginável de pessoas inocentes que viviam a sua vida. Não é exagerado dizer que o dia 11 de Setembro mudou o mundo para sempre. O inimigo invisível, ou Quinta Coluna, tinha chegado, visto , vencido e voltado a esconder-se para novos ataques. Competia aos Estados Unidos atravessarem meio mundo em busca de um homem que tinham treinado e armado e estava escondido numa região que não gosta de estranhos. Se os americanos de há vinte anos estavam afectados pelas guerras perdidas no século passado, agora pareciam motivados com as vitórias recentes no Golfo e no Iraque. E era no deserto que iam continuar a exibir os galões de braço armado da democracia. É sabido que essa guerra foi novo erro, com mais perdas do que ganhos. E enquanto isso, um inimigo que superava os limites de um pais ou uma religião ia continuando os ataques contra americanos e aliados em todo o mundo.
A CIA colocou os seus melhores em campo e a muito custo foi conseguindo arrancar informações ao inimigo. Dez anos depois conseguiram bater à porta do homem que procuravam.

"Zero Dark Thirty" tem uma única perspectiva em conta. A de Maya, uma operacional da CIA que tinha como única missão destruir a Al-Qaeda. É pelos seus olhos que vamos entrar num mundo secreto de prisões inexistentes onde se realizam torturas proibidas sobre pessoas que podem ou não saber algo.É uma visão pró-guerra pelo que isso é relatado com uma postura quase documental, sem juízos de valor. É um mal necessário para evitar um mal maior. Maya que da primeira vez estava transtornada com o que via, depressa se acostumou à desumanidade e, apesar de não lhe agradar, aceitava que tinha de ser. Os seus olhos já não viam a dor de um homem acorrentado, os seus ouvidos não escutavam esses gritos. Em mente tinha apenas os milhares de inocentes que morreram nas torres e os que morriam dia após dia numa guerra que não lhes dizia respeito

Foi uma questão de sorte. Uma fotografia que lhe chegou às mãos, fez com que persistisse em busca de um homem que achavam morto O profissionalismo e competência que demonstrava fez com que lhe dessem ouvidos e dinheiro para prosseguir essa demanda. E quando o sangue era demasiado para aqueles que a rodeavam, passou para o campo burocrático onde mais uma vez foi suficientemente convincente. Se a sorte é construída, então Maya mereceu a sua.

O filme cobre todos os eventos que foram tornados públicos.Não os conseguiremos - nem devemos - esquecer tão cedo. Mas os atentados que soubemos pelas notícias, passaram-se diante dos olhos de Maya. Morreram os seus amigos. Tornou-o tão pessoal que cada dia passado, cada morte!, era culpa sua. E no fim, com a sensação de dever cumprido, chega o vazio de quem abdicou de ter uma vida por uma causa e sem essa causa fica sem nada. E também de quem falhou na sua missão pois a guerra não era contra um homem, mas contra uma ideia. A ideia que os EUA são o inimigo só cresceu com essa invasão e com as mortes de inocentes.
"Zero Dark Thirty" é enorme. Em duas horas e meia combina guerra, espionagem, drama humano. Falha com thriller, como filme de guerra e não é a melhor referência histórica. Mas vale pelas explosões de Chastain que se afirma cada vez mais como uma actriz a ter em conta para qualquer tipo de papel, e especialmente pela cena final, onde o vazio e a expressão facial deixam uma marca mais dolorosa e perene que todo o filme anterior.
Zero Dark ThirtyTítulo Original: "Zero Dark Thirty" (EUA, 2012)
Realização: Kathryn Bigelow
Argumento: Mark Boal
Intérpretes: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Joel Edgerton
Música: Alexandre Desplat
Fotografia: Greig Fraser
Género: Drama, Guerra, Thriller
Duração: 157 min.
Sítio Oficial: http://zerodarkthirty-movie.com/