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4 de abril de 2019

"Bohemian Rhapsody" por Nuno Reis

Vamos começar o texto com sinceridade. Como muitos dos leitores, diria que os Queen provavelmente são a minha banda favorita. Pelo menos estão no top 4. Não o suficiente para alguma vez ter ido a um concerto, mas com um cardápio musical tão variado que terão uma música perfeita para cada situação.
Também como muitos dos leitores, aos anos que ouvia falar do suposto biopic de Freddy Mercury. Todavia, aprendi a ignorar os rumores. Enquanto o filme não estrear, vamos assumir que não existe. E ainda bem, pois “Bohemian Rhapsody” esteve no limbo anos a fio e até o protagonista foi trocado. Quando finalmente chegou, foi um misto de sentimentos.
A narrativa acompanha a vida e obra de um jovem zoroastriano em Londres. O seu nome é Farrokh, mas mudou-o para Freddy. Numa noite vai ouvir a banda Smile e oferece-se para escrever músicas para eles. Ao saber que acabaram de perder o vocalista, voluntaria-se também para esse cargo. Assim começa uma lenda que se confunde com a história da música do século XX.
Fazer um filme assim é fácil. A banda sonora obrigatória inclui algumas das melhores músicas de sempre. As personagens são conhecidas e adoradas por milhões. A história tem romance, drama, traição e morte. É um conto sobre um rapaz que enfrentou várias dificuldades – emigrante, proveniente de uma minoria quase desconhecida, com um aspecto invulgar, não heterossexual – e não só conseguiu atingir os seus objectivos, como viveu um sonho e se consagrou como um nome incontornável da História. Rami Malek conseguiu um Oscar pelo papel, o que não surpreende visto que é um biopic com tudo o que é preciso. Não foi o vencedor mais justo, mas admite-se que deu tudo para recriar uma figura ímpar.
A escolha de Bryan Singer para realizar o filme foi algo estranha devido à sua completa falta de experiência no meio musical quando tantos realizadores começaram nos videoclips, mas pelo lado pessoal talvez fosse dos que melhor compreendessem Mercury. O filme com que nos presenteia tanto explora a vida pessoal de um homem com muito amor para dar, como as interpretações de um artista sem limites. Mostra-nos quem são os Queen – como se não soubéssemos – e como foram bafejados pela sorte numa carreira com altos e baixos, mas onde o público nunca deixou de os apoiar. As poucas novidades que dá ao público são agradáveis surpresas e ainda que por vezes tome liberdades criativas que roçam o ridículo e o preguiçoso, não é um filme enganador. O essencial da história está lá e justifica a classificação de biografia.
É um bom trabalho de época, mas não traz nada de novo. Visualmente podia ser extraordinário e pelas partes musicais merece ser visto em grande ecrã, mas não se distingue de um concerto. Falando do som, é algo incrível. A música exigia e o filme cumpriu. Desde as experiências caseiras até ao estúdio e depois nos palcos, temos os Queen em tela. Era preciso dar música e é-nos dada. Infelizmente o filme não se aguenta para além disso e alguns dias depois fica esquecido. Tem sido falada uma sequela por o filme não ter tocado em alguns pontos chaves como o concerto em Wembley, mas não faria muito sentido continuar a explorar o tema.


Bohemian RhapsodyTítulo Original: "Bohemian Rhapsody" (EUA, Reino Unido, 2018)
Realização: Bryan Singer
Argumento: Anthony McCarten, Peter Morgan, Anthony McCarten
Intérpretes: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Roger Taylor, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Paul Prenter, Tom Hollander, Mike Myers
Música: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Género: Biografia, Drama, Musical
Duração: 134 min.
Sítio Oficial: https://www.facebook.com/BohemianRhapsodyMovie

15 de setembro de 2018

"A Simple Favor" por Nuno Reis

A Simple Favor
Um blogger escrever sobre um filme sobre uma vlogger não é algo que se leia todos os dias. Por isso instalem-se, ponham-se confortáveis e preparem-se para um texto invulgarmente longo. Este filme tem tantas camadas que tem de ser cortado em várias postas.

Darcey Bell estreou-se na escrita com um emocionante thriller cheio de twists e detalhes que foi descrito como “um Gone Girl com drogas”. Isso é um elogio. Tanto que um ano antes da publicação já os direitos tinham sido comprados. A adaptação foi escrita por Jessica Sharzer que nos deu uma boa parte de "American Horror Story", uma garantia de termos emoções fortes.
O realizador foi Paul Feig que, em termos simples, era uma escolha óbvia. Fei g trabalhou vários anos em televisão, passando por títulos como "Arrested Development", "Nurse Jackie" e "The Office". Em comum? São comédias. Essa característica manteve-se quando passou para o cinema e aí outra característica se evidenciou: trabalhar com mulheres. A estreia foi um excelente "Bridesmaids" com um conjunto de estrelas que também vieram da TV. A esse seguiram-se vários outros como "The Heat", "Spy" e o malogrado "Ghostbusters", todos centrados em personagens femininas. Ele precisa de algo em grande para voltar à mó de cima e este filme suplicava alguém capaz de nos dar um filme interessante sobre mulheres que não fosse só para mulheres. Spoiler: ele conseguiu.
A Simple Favor
Para os papéis protagonistas era preciso uma mulher que extravasasse classe em cada passo. Quem viu Blake Lively em "Gossip Girl" ou "Age of Adaline" sabe que ele encaixa na perfeição nesse papel. Aliás, isso é tudo o que faz em "Café Society". A sua presença ilumina a tela e a intensidade dramática permanece mesmo quando ausente.
A Simple Favor
Quem podia ser a blogger? Por ser uma história de jovens mães, não iriam recorrer a ninguém que já tivesse feito de mãe. Anna Kendrick para muitos ainda é a miúda trapalhona de "Twilight", "Up in the Air", "Scott Pilgrim"… e ainda é uma recém-licenciada que gosta de cantar como em "Pitch Perfect" (1,2). Mas para alguns é a rapariga desajeitada que se apaixona por um assassino em "Mr. Right" e dá a volta a todos. E apesar de nunca a termos visto com filhos, já a vimos entre grávidas. É perfeitamente capaz de levar aos ombros um filme e alternar entre os registos de super-mãe, trapalhona, ou mulher sensual. Ou por vezes ser apenas uma pessoa normal com defeitos e virtudes como todo nós. Kendrick é a derradeira girl next door.
A Simple Favor
Agora que está esclarecido e provado que se reuniu a equipa de sonho, vamos falar do filme.
Tudo começa com Stephanie Smothers. E smother é um verbo muito semelhante a sufocar que se costuma usar em referência às mães-galinha. Sendo desempregada, Steph tem tempo para estar sempre com o filho e fazer tudo pela associação de pais, ofuscando os demais. E ainda lhe sobra tempo para fazer um vlog que ajuda outras mães. Não tem muitos seguidores, mas lá chegará. Devido a essas diferenças, os outros pais não se dão muito com ela. Até que surge Emily Nelson. Esta mãe não tem papas na língua e não se relaciona com os demais pais. Como os filhos são amigos, acaba por conversar com Steph de volta de uns martinis. Com o passar do tempo e seguras por uma rede de segredos e mentiras, Steph considera Emily a sua melhor amiga. Até que um dia, como já era habitual, Emily lhe pedir um pequeno favor. Que traga o filho da escola, pois vai ficar retida por uma emergência no trabalho. Só que Emily não volta nessa noite nem no dia seguinte. Stephanie avisa o marido de Emily e o emprego e ninguém mais acha estranho. Ela tem dessas coisas. Stephanie acha que algo está errado e vai partilhando o que se passa com os seguidores no vlog. E assim começam duas horas de uma aventura que nenhuma mãe de uma pacata vila esperava viver.
A Simple Favor
Como referido acima, o filme tem várias camadas e surpresas. No início é o que se esperava de um drama sobre uma vlogger. Tem os momentos familiares, tem alguma conversa de circunstância… está a colocar as peças e a apresentar as personagens. Só que aos poucos estas duas mulheres vão revelando segredos um pouco mais delicados. Subitamente o filme mudou completamente de tom. Estamos num thriller com toques de romance escrito para o público feminino. Pode parecer receita para um telefilme, mas esta mistura inesperada resulta. Muito apoiado nas soberbas actrizes e com um elenco secundário sólido (as crianças nem por isso), "A Simple Favor" rapidamente se torna num dos melhores thrillers do ano. A poderosa banda sonora maioritariamente em francês já nos tinha alertado que ia ser um filme com estilo, mas excedeu as expectativas. Tem algumas partes inacreditáveis, mas soube parar antes de entrar em exageros. E como é comédia, qualquer espectador ligou a tolerância para exageros.
A Simple Favor
Está encontrada a receita para bom entretenimento. Uma história que combine escândalo, comédia, drama e, romance, tudo envolto num bom mistério. Com um elenco perfeito para ter honras de ser exibido em cinema, claro.
"A Simple Favor" é muito recomendado e pela minha parte, vai ser para rever assim que estreie.


A Simple FavorTítulo Original: "A Simple Favor" (EUA, 2018)
Realização: Paul Feig
Argumento: Jessica Sharzer (baseada no livro de Darcey Bell)
Intérpretes: Anna Kendrick, Blake Lively, Henry Golding
Música: Theodore Shapiro
Fotografia: John Schwartzman
Género: Comédia, Thriller
Duração: 117 min.
Sítio Oficial: https://asimplefavor.movie

13 de setembro de 2018

"Book Club" por Nuno Reis

As lendas estão de volta.

Book Club
O cinema tem muitas estrelas que vão caindo no esquecimento. Seja porque se reformam ou porque não arranjam papéis, é normal vermos cada vez menos aqueles actores com quem crescemos. Para actrizes ainda é pior pois como ouvimos regularmente, há menos papéis femininos e os que há são para as jovens e bonitas. Ouvir dizer que um filme vai ter como estrelas de igual estatuto as veteranas Diane Keaton (não tem feito nada de jeito), Jane Fonda (está reformada), Candice Bergen e Mary Steenburgen (por vezes aparecem em televisão), é motivo para ficar curioso. Nos papéis masculinos Andy Garcia, Craig T. Nelson, Don Johnson, Richard Dreyfuss e o sempre risonho Wallace Shawn também não são para ignorar. Só que o filme é delas. Também entra Alicia Silverstone, mas é tão pouco tempo de ecrã que, para ser sincero, a confundi com Maggie Lawson até ver o nome no genérico.
Book Club
Uma dica rápida para quem faz cinema: três oscarizadas, uma delas é também dos nomes mais repetidos nos Golden Globes, e a rainha dos Emmys, são capazes de actuar em qualquer idade e ainda conseguem atrair as multidões. Em especial se o público-alvo forem as mulheres dessa idade.
Book Club
A história é sobre quatro amigas que cresceram juntas e fazem um clube de leitura com reuniões mensais há várias décadas. Quando uma delas traz “As 50 Sombras de Grey” para discussão, os ânimos vão aquecer. Vai despertar uma sexualidade latente que vai ter reflexos na vida de todas elas. A viúva Diane vai-se envolver com um homem enquanto as filhas a acham acabada e querem que ela mude de estado para ficar mais perto delas. Vivian que adora sexo, mas sempre se negou ao amor, vai reencontrar a sua única paixão. Carol vai continuar a tentar apimentar o seu casamento contrariando o marido que se vai acomodando e distanciando. Sharon está simplesmente irritada por o seu ex-marido estar com uma mulher mais nova e vai recorrer à internet para procurar homens. O sexo e o amor não têm limite de idade.
Book Club
Então afinal sobre que é o filme? Não é sobre livros. É sobre viver até morrer. É sobre não aceitar o que a sociedade espera de nós. É sobre ter amizades que duram para sempre. É sobre relações que começam, se mantêm ou acabam com o passar dos anos. Em suma, pega nos temas dum filme para adolescentes, só que se foca em pessoas que deixaram a adolescência há meio século. E ao mesmo tempo é sobre mulheres. O que é mais surpreendente é que este primeiro projecto de Bill Holderman (tão simples que não compromete) não é a sua primeira exploração da terceira idade. Foi o produtor de “Old Man and the Gun”, o derradeiro filme de Robert Redford. Enquanto uns estúdios apostam na juventude com épicos de acção e romances, ou na exportação para territórios inexplorados, há quem trabalhe com a prata da casa. Uma decisão ajuizada e sem riscos que deu um filme fora do comum.
Book Club
O mais difícil seria equilibrar estes egos, mas diria que a oportunidade de fazer algo deste género tornou toda a gente muito receptiva a partilhar ecrã. Em vez de haver uma história central e personagens secundárias que vão dando uma mãozinha, cada personagem vive uma história diferente e ajudam-se mutuamente. As mini-histórias vão-se complementando, dando origem a um produto completo e diferenciador ainda que previsível. “Book Club” não é a comédia do ano, mas é o filme repetido mais original do ano.


Book ClubTítulo Original: "Book Club" (EUA, 2018)
Realização: Bill Holderman
Argumento: Bill Holderman, Erin Simms
Intérpretes: Diane Keaton, Jane Fonda, Candie Bergen, Mary Steenburgen, Andy Garcia, Craig T. Nelson, Don Johnson, Richard Dreyfuss
Música: Peter Nashel
Fotografia: Andrew Dunn
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 104 min.
Sítio Oficial: https://www.paramount.com/movies/book-club

20 de agosto de 2018

"Épouse-Moi Mon Pote" por Nuno Reis

Épouse-Moi Mon Pote
O cinema francês tem vindo a aumentar o número de filmes enviados para cá. No entanto, em termos de género, continua a apostar fortemente nas comédias. Este ano não foi excepção e começou logo com "Épouse-Moi Mon Pote".
Épouse-Moi Mon Pote
O filme tem dois temas da moda. O primeiro é a integração de imigrantes de países árabes. O marroquino Yassine chega a França para estudar arquitectura. Apaixona-se pela colega Claire e tudo parece correr bem. Uma distracção coloca tudo isso em risco e ele torna-se um ilegal a viver na clandestinidade. Segundo tema, casamentos homossexuais. Para se legalizar, Yassine tema ideia louca: casar com o melhor amigo Fred. Quem não acha piada a isso é Lisa que espera um pedido de noivado de Fred e não o quer ver casado com ninguém mais, nem a fingir. Tudo piora quando Yassine precisa de uma esposa e Lisa é a única mulher por perto. E claro que Claire tinha de voltar a aparecer na vida dele nesse preciso momento.
Épouse-Moi Mon Pote
Entre tantas comédias românticas, o realizador estreante Tarek Boudali sabia que se tinha de distinguir. "Épouse-Moi Mon Pote" é um filme descontraído desde o início. Não apostou em estrelas do cinema. Ele próprio é o protagonista. O seu co-protagonista é Philippe Lacheau também um actor tornado realizador a dar os primeiros passos, que utilizou Boudali, Charlotte Gabris e vários outros em alguns filmes. "Babysitting" será o mais conhecido e estreou entre nós em 2015. São um grupo de amigos a fazerem um filme por gosto. A eles juntou-se Andy Raconte, uma celebridade de reality shows e youtuber. Por incrível que pareça este quarteto (e outros que se juntam a eles) conseguem manter o filme profissional e divertido. A forma estouvada como lidam com os estereótipos e a quebra deles como se fossem um tema recorrente, é uma necessária lufada de ar fresco. As caricaturas podem ser exageradas, mas funcionam. A política dos paninhos quentes não funciona. Sim, os árabes estão na Europa. Sim, fazem parte da sociedade. Sim, há homossexuais que se casam. Sim, há casamentos falsos tanto entre pessoas do mesmo sexo como de sexos diferentes. E este é o século XXI. Banalizou-se tudo e há críticas mal fundamentadas a tudo, porque não brincar com o que deve ser falado?
Épouse-Moi Mon Pote
É um filme feito com poucos recursos, mas profissional. O argumento recorre a gags habituais, mas dá uma nova visão ao conjunto. Os actores cumprem o que se esperava de comediantes profissionais, ficando a externa Andy com o papel mais sério. Foi um risco, que funcionou e talvez tenha melhorado os números de bilheteira no território francês. Os cenários foram escolhidos para serem típicos sem serem amadores. As músicas revelam uma influência anglófona que os franceses não gostam de admitir. Essa originalidade fica bem e acaba por ser o elemento mais estranho do combinado. Não é um filme memorável no seu todo, mas passa a sua mensagem. Será daqueles títulos a rever várias vezes na televisão. Isso se algum canal se distrair e o aceitar na sua programação.


Épouse-Moi Mon PoteTítulo Original: "Épouse-Moi Mon Pote" (França, 2017)
Realização: Tarek Boudali
Argumento: Tarek Boudali, Nadia Lakhdar, Pierre Dudan, Khaled Amara
Intérpretes: Tarek Boudali, Philippe Lacheau, Charlotte Gabris, Andy Raconte, David Marsais, Julien Arruti, Baya Belal, Philippe Duquesne
Música: Maxime Desprez, Michaël Tordjman
Fotografia: Antoine Marteau
Género: Comédia, Romance
Duração: 92 min.
Sítio Oficial: https://www.facebook.com/EpouseMoiMonPote/

18 de agosto de 2018

"Tag" por Nuno Reis

tag
Quase toda a gente recordará com carinho os anos de infância e as brincadeiras feitas com os amigos. Os anos dourados onde corridas, gritos e risos significavam felicidade. Algo tão simples como o jogo da apanhada. Quando se chega aos dois dígitos de súbito surge uma irracional vontade de crescer. Para uma década depois se voltar a desejar ser uma criança. Um grupo de amigos não se conformou e decidiu ser criança da única forma que fazia sentido: jogando à apanhada toda a vida adulta. O Wall Street Journal apanhou essa curiosidade e fez um artigo sobre um grupo que anualmente faz um mês da apanhada com algumas regras, mas sem limites geográficos. Não demorou muito até ser tornado numa obra de ficção baseada em factos reais.
A receita deste filme quase se fez sozinha, mas vamos ver por partes. Começa-se com nomes habituais da comédia. Ed Helms, Jake Johnson, Isla Ficher, Leslie Bibb, Rachida Jones. Juntam-se alguns nomes sonantes como Jon Hamm e Jeremy Renner. Para fechar, vamos acrescentar o amigo negro (Hannibal Buress) que todos os filmes precisam e uma jeitosa (Annabelle Wallis) externa ao grupo para que lhe possam explicar aquilo que o espectador tem de ouvir. Para o argumento nada como começar com a realidade. Um executivo de uma empresa estava a dar a sua entrevista ao WSJ quando o novo funcionário da empresa o ataca. Não um daqueles ataques com facas ou ácido que se vêem nas notícias. Um mero toque com a mão, mas do qual Callahan fugia como se disse dependesse a sua vida. Crosby, a jornalista, fica curiosa com o motivo desse momento louco e pergunta o que se passa. “É o jogo da apanhada. Jogamo-lo há 30 anos todos os meses de Maio.” Não era a resposta que esperava ouvir, mas o seu faro diz-lhe para seguir a história. Vai descobrir um inusitado grupo de homens que leva a sério o seu jogo. Ninguém quer ficar 11 meses com a vergonha. E por isso percorrem o mundo, planeiam e disfarçam-se como autênticos agentes secretos. Não podem falhar o alvo. E ainda que sejam todos muito dedicados, ninguém se compara a Jerry. Em trinta anos ninguém o apanhou. Além de ter imensa agilidade e uma rota de fuga sempre preparada, é como se antecipasse os seus movimentos. Este é o último ano de Jerry e todos se unem para o apanhar.
O filme começa como tantas daquelas comédias modernas. É louco sem ser estúpido e tem um bom desenrolar da história. As personagens vão entrando em cena aos poucos e o contexto propicia oportunidades para nos explicarem o passado de forma a fazer sentido. Quando chegamos a Jerry e os seus super-poderes (ironicamente interpretado por Jeremy Renner, o Avenger e Bourne com menos capacidades) parece desconcertante, mas já foi dado o mote de plausabilidade. As personagens acessórias, lideradas pela cada vez mais surpreendente Isla Fisher, são um bom complemento e a história vai tendo lugar de forma fluida. O prazo aproxima-se do fim e o seu objectivo que parece tão próximo vai ficando mais longe. A comédia funciona e os toques de romance também. O jornalismo tem só uns momentos mínimos para equilibrar, mas sem destoar. No fundo é um filme sobre sem adulto e sobre ser criança. Duas coisas que não são incompatíveis ao contrário do que nos levam a crer ao longo da adolescência. Sobre ter os amigos por perto para dar um pouco de loucura aos nossos dias cinzentos. É sobre quebrar as regras da sociedade (e uma janela ocasional). É sobre sentirmo-nos vivos. Mesmo que sejamos crescidos. Mesmo que a morte esteja eminente.

TagTítulo Original: "Tag" (EUA, 2018)
Realização: Jeff Tomsic
Argumento: Rob McKittrick e Mark Steilen (baseados no artigo de Russell Adams)
Intérpretes: Ed Helms, Jon Hamm, Annabelle Wallis, Jake Johnson, Isla Fisher, Hannibal Buress, Steve Berg, Jeremy Renner, Leslie Bibb, Rashida Jones
Música: Germaine Franco
Fotografia: Larry Blanford
Género: Comédia
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: https://www.facebook.com/tagthemovie

9 de agosto de 2018

"Overboard" por Nuno Reis

Overboard
Kate Sullivan (Anna Faris) é empregada doméstica, entregadora de pizzas e estudante de enfermagem. Não é fácil gerir o estudo com dois empregos e três filhas, pelo que um cliente extremamente rico parece uma excelente forma de fazer dinheiro. O problema é que o cliente (Eugenio Derbez) é um homem mimado, atraente, egocêntrico e sem qualquer respeito pelas pessoas. Dá mais despesas a Kate do que lucro. Quando o destino proporciona uma vingança atirando o milionário borda fora, a amiga (Eva Longoria) sugere uma forma de ficar com mais tempo livre. Kate não hesita, só que acaba por gostar mais da situação do que quer admitir.
Overboard
Para toda uma geração Anna Faris será sempre a rapariga dos "Scary Movie""'s, mas a sua carreira é bem mais do que isso. Neste momento tem meia centena de títulos no currículo e se é conhecida por comédias como "The Hot Chick", "The House Bunny" e "The Dictator", também entrou em pérolas inesperadas como "Brokeback Mountain" e "Lost in Translation". Mais recentemente encontrou uma casa na CBS protagonizando a série "Mom onde Allison Janney a ofusca. Nessa série interpreta uma mãe solteira que, tal como a mãe e amigas, é alcoólica em recuperação. Neste filme vamos reencontrar algumas das temáticas como a maternidade e o alcoolismo. Faris continua exactamente nesse registo tão familiar a que nos acostumou em seis temporadas.
Overboard
A comédia está co-protagonizada por Faris e Derbez. Dividir os créditos na comédia não é habitual para a actriz, mas este filme não é a convencional comédia americana. Tem uma forte influência mexicana como os dois actores referidos e o facto de ter diálogos bilingues alternados de forma natural. E por vezes parece uma novela mexicana. Porque o realizador Rob Greenberg tem um passado exclusivo na televisão (nos EUA) e não quis fugir muito ao formato onde se sente confortável. Porque Faris está a repetir a sua grande personagem televisiva (a personalidade é demasiado semelhante para as distinguir). Porque ver Longoria nos leva sempre de volta para os tempos em que "Desperate Housewives" era a série mais popular. Porque Derbez ainda não se afirmou como rosto de cinema. Porque o argumento não arrisca. É estranho ver Overboard" como cinema. Sim, em 1987 esta mesma receita funcionou quando Kurt Russell enganou Goldie Hawn, mas os argumentos podiam ter evoluído. Foi feita a convencional troca de género aos protagonistas, mas não mudou em nada de especial. Um tele-filme teria a mesma ousadia.
Overboard
É um filme para ver num dia quente de Verão, enquanto se desfruta do ar condicionado da sala, e esquecer no dia seguinte.
OverboardTítulo Original: "Overboard" (EUA, 2018)
Realização: Rob Greenberg
Argumento: Bob Fisher, Rob Greenberg, Leslie Dixon
Intérpretes: Eugenio Derbez, Anna Faris, Eva Longoria, John Hannah, Swoosie Kurtz, Mel Rodriguez
Música: Lyle Workman
Fotografia: Michael Barrett
Género: Comédia, Romance
Duração: 112 min.
Sítio Oficial: https://www.overboard.movie

8 de agosto de 2018

"Columbus" por Nuno Reis

Columbus
Aqui está a linha entre o cinema de autor e o cinema para as massas. O formato longa e as estreias comerciais não são abonatórias para este cinema que se costuma esconder nos festivais e em ciclos direccionados a nichos específicos. Um filme com John Cho, estrela de blockbusters na comédia e ficção-científica, e Haley Lu Richardson, que esteve em "Split" e "Edge of Seventeen", pode parecer de grande público, mas os actores, como quaisquer artistas, por vezes surpreendem.nos com algo fora do convencional. Um projecto artístico que não visa o lucro.
Columbus
Kogonada lançou-se no cinema estudando os mestres. Ao fim de alguns documentários/ensaios fez uma longa-metragem. O tema foi a arquitectura e para isso dirigiu-se a Columbus, Indiana. Para nós, europeus, uma localidade americana no meio do nada com menos de 50000 habitantes não terá interesse, mas para os amantes dessa arte é um destino ímpar. Essa terra aparentemente desinteressante é onde se podem encontrar vários dos marcos históricos nacionais (EUA) da arquitectura moderna, incluindo criações de ambos os Saarinen e a Miller House. A arquitectura é o principal motivo de excursão a esta cidade e o cerne da existência dos protagonistas.
Columbus
A jovem Casey sempre viveu na cidade e apaixonou-se pelos seus edifícios. No entanto devido ao estado mental da mãe, não considera seguir as pisadas dos colegas e sair para estudar a fundo. Jin é já um homem feito e não gosta de arquitectura, mas o pai é uma autoridade no tema e ao ser internado quando se preparava para uma palestra em Columbus, obriga-o a ir para lá. Cruzam-se por acaso e Casey vai aproveitar o tempo livre para mostrar a Jin os seus monumentos favoritos. Ela como quem se despede, ele como um turista que ignora o deslumbramento colectivo por aquilo. Enquanto ela lhe abre os olhos para a beleza dos edifícios que os rodeiam, ele fá-la repensar na vida e no futuro.
Columbus
"Columbus" foi escrito, realizado e editado por Kogonada. É uma obra simples e com orçamento reduzido que se foca na componente visual. Mais próximo do ensaio fotográfico do que filme a que estamos acostumados, será um longo momento de tédio para quem está acostumado ao cinema espectáculo. O propósito deste filme é mostrar edifícios e fazer reflectir sobre o que é a beleza, qual a utilidade de um edifício belo, e o significado da vida. Casey tem a vida pela frente, mas não a quer aproveitar. Jin desperdiçou a vida ignorando a beleza. Estas duas personalidades tão contrárias são o fundamental do filme e tudo o mais é um mero acessório para lhes dar um passado e alguma profundidade como seres humanos. O que podia ter sido contado num filme de vinte a trinta minutos que ilustrasse um passeio pela cidade, foi artificialmente transformado num drama de vida espaçado por vários dias. Sim, a mensagem passa, mas é preciso ir a contar com o que se vai ver.
Columbus
A semelhança com o formato documental faz com que Kogonada esteja muito confortável nesta estreia na ficção. O realismo do drama social e familiar é intenso. Graças às performances excelentes de Richardson, Cho, Rory Culkin e Parker Posey. Visualmente cumpre o que se esperaria: mostra edifícios de culto pelos olhos das pessoas normais, que pensam na sua utilidade e reparam nas rachas em vez de visualizarem se é belo e enquadrado no meio envolvente. É um desafio visual interessante que terá como destinatários os amantes da arquitectura e da fotografia. Algumas das suas imagens ficarão gravadas na memória, mas não conseguirá convencer os restantes a novo visionamento.


ColumbusTítulo Original: "Columbus" (EUA, 2017)
Realização: Kogonada
Argumento: Kogonada
Intérpretes: Haley Lu Richardson, John Cho, Parker Posey, Rory Culkin, Michelle Forbes
Música: Hammock
Fotografia: Elisha Christian
Género: Drama
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: https://www.columbusthemovie.com/

9 de julho de 2018

"Every Day" por Nuno Reis

Tudo começou no Youtube. No distante ano de 2012 saiu nos meios online uma mini-série inovadora onde meia centena de pessoas diferentes interpretaram a mesma personagem, Alex. Essa experiência mais tarde inspirou um filme sul-coreano e um livro de David Levithan. Agora é chegada a vez de Hollywood fazer um filme de raiz com a mesma temática.
Quando Justin acorda, sente-se diferente. Vai para a escola, mas depois faz gazeta para passar o dia com Rhiannon, a sua namorada. Têm um dia maravilhoso que Rhiannon diz ter sido o melhor em muito tempo. Contudo, no dia seguinte ele não se lembra de nada. Porque Justin não era ele mesmo. Estava “possuído” por A, uma entidade que diariamente saltita de corpo em corpo de forma involuntária. Sempre da mesma idade aproximada, nunca repetindo pessoas. Por vezes esse corpo tem limitações, outras está tudo perfeito. Desde que foi Justin está apaixonado por Rhiannon e se deseja ter alguma espécie de futuro com ela, vai ter de lhe revelar a sua extraordinária condição.
Pensando no filme de forma isolada, tem tudo o que os amantes do fantástico ligeiro podem desejar. Primeiro é o regresso da célebre Orion Pictures que tantos filmes nos deu no passado. Depois tem este ser que tanto pode ser um demónio, como um espírito ou uma experiência fracassada. Todos os géneros ficam incluídos. E quando percebemos que é apenas um romance adolescente, a desilusão não é muito grande. As possibilidades são imensas com esta temática. Funcionaria como comédia, como drama, como aventura, como romance, como espionagem… foi até demasiado prudente na aproximação escolhida. Aflora alguns temas, mas limita-se ao romance difícil e à questão ética que assola A neste limiar da idade adulta.
Quem cresceu a ver "Quantum Leap" deve ter achado que era uma oportunidade de voltar à ideia de saltitar de corpo em corpo de forma a corrigir as vidas de alguém. Em "Every Day" A faz o oposto. Não lhes estraga o dia, mas também não os torna melhores. Vive um dia de cada vez pensando em si a longo termo. O contacto com Rhiannon vai fazê-lo mudar e, à semelhança do que vimos em "About Time", aprenderá que tem de viver cada dia como se fosse especial. Quem cai na banalidade de ter um corpo, uma casa, um emprego, uma família, um grupo de amigos, esquece-se como cada dia é precioso. Ele vive em tempo emprestado e a cada dia pode-lhe acontecer algo mágico ou tenebroso que outro veria como normal.
Quanto ao elenco, Angourie Rice é quem tem mais tempo de ecrã e faz um bom trabalho com a personagem frágil que lhe foi confiada. Consegue ter uma evolução e crescer com a personagem. Os seus pais, Maria Bello e Michael Cram, são personagens menores. Entre os vários A, Justin (Justice Smith) e Alex (Owen Teague) são os mais importantes, mas todos cumprem com distinção.
Michael Sucsy que já nos trouxe personagens desalinhadas do seu mundo em "The Vow", volta a cumprir o que era exigido num filme que desperdiça potencial. Pedia-se mais ao argumento de Jesse Andrews (que nos deu o maravilhoso "Me, Earl and the Dying Girl"). Pedia-se que fosse mais do que tinham sido a série e o livro. Sendo a quarta versão, tinha a obrigação de ser melhor do que todos os outros. Contudo, a culpa não é só da classificação etária visada, mas do próprio formato. É material de tele-filme feito para cinema. Seria muito louco acreditar que um regresso ao formato digital e uma exploração do conteúdo interactivo eram o destino perfeito para este tipo de material?


Every DayTítulo Original: "Every Day" (EUA, 2018)
Realização: Michael Sucsy
Argumento: Jesse Andrews (baseado no livro de David Levithan)
Intérpretes: Angourie Rice, Jeni Ross, Justice Smith, Owen Teague, Maria Bello, Michael Cram
Música: Elliott Wheeler
Fotografia: Rogier Stoffers
Género: Drama, Fantástico, Romance
Duração: 97 min.
Sítio Oficial: https://www.facebook.com/EveryDayTheMovie/