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29 de julho de 2019

"Eternal Winter" por Nuno Reis

Eternal Winter
Na guerra as coisas nunca são preto no branco. Há demasiados cinzentos. Se antigamente a rectidão dos vencedores estava assegurada por serem eles a escrever a versão final dos factos, o tempo veio corrigir essa grave falha. Aprendemos a procurar o outro lado da questão e a ouvir os testemunhos daqueles cuja voz era ignorada. Recuando à Segunda Guerra Mundial as coisas parecem simples. Hitler mau. Mussolini mau. Hirohito mau. Mas isso não torna o outro lado bom. Do lado aliado estavam Churchill e Roosevelt, considerados dos maiores líderes do século XX, mas também estava Stalin que inicialmente era aliado da Alemanha na divisão da Polónia. E como temos vindo a aprender, todos eles fizeram coisas pouco correctas. Diria até desumanas.
Eternal Winter
Em História não se costuma falar muito dos pequenos aliados do Eixo. Enquanto a Bulgária teve um papel quase decorativo, outros como a Roménia e a Hungria foram preciosas armas contra a União Soviética. E a vingança foi terrível. Dando algum contexto, a sensação que tive ao visitar a Polónia foi de um país orgulhoso nos seus feitos que não se voltará a vergar. A Hungria estava num estado semelhante ao da Alemanha, muito focada nos seus próprios crimes de guerra (por exemplo, ser o país que mais judeus enviou para campos de concentração) e ignorando o seu lado de vítima que também foi bem real. Este “Inverno Eterno” é o primeiro filme húngaro que se foca no outro lado da história. Quando os russos ocuparam a Hungria e, para se vingarem, escravizaram as etnias indesejáveis da população nos temíveis gulags para os fazerem reconstruir o que tinham destruído na guerra. Setenta anos depois, quando a Rússia está novamente a estender os seus tentáculos na Europa de Leste e os EUA banalizaram os campos de concentração (coisa que não faziam desde que detiveram os cidadãos de origem japonesa após o ataque a Pearl Harbor), a Hungria vem recordar-nos que as vítimas são sempre os inocentes apanhados no fogo cruzado.
Eternal Winter
Esta é a história de uma jovem mãe que perdeu o marido na guerra. Vive com os pais e a filha numa calma de curta duração. Quando o exército bate à porta, comunicam que terá de partir para ajudar na reconstrução. É uma viagem a pé e de comboio por milhares de quilómetros. O seu destino são umas minas de carvão no meio da neve onde estão vários outros indesejados. As regras são simples: cada dia cada pessoa terá de encher um carro de carvão para ter direito a jantar. Só que a higiene dos dormitórios não é a melhor, as caminhadas são longas e penosas em condições muito inóspitas, o ar das minas não é saudável, a comida prometida não chega para todos… e como se tudo isso não fosse suficiente, ainda há jogos de bastidores onde alguns se safam melhor que os outros.
Eternal Winter
Galardoada com o prémo de melhor actriz em Avanca, como em outros festivais antes e certamente muitos depois, Gera Marina é a protagonista do filme e a sua força motora. Contam-se pelos dedos das mãos as cenas em que não aparece. O instinto maternal, o sentido de justiça e a invulgar resiliência, fazem dela uma prisioneira obediente, mas de espírito indomável. Tudo fará para sobreviver e para defender os que lhe são queridos, não deixando que as injustiças a verguem. Só que a guerra é longa e mesmo depois do armistício, o que garante que alguém cumpra as promessas feitas a um grupo de escravos que fornecem a mão-de-obra mais barata? Irén terá de mudar a sua postura se quiser viver e voltar para a família.
Eternal Winter
Com uma visão quase alegre de uma situação negra, “Eternal Winter” começa com semelhanças à parte mais tenebrosa de filmes como “La Vita è Bella”, mas depressa segue o seu próprio rumo. É daquele nicho de filmes que não têm como propósito o entretenimento ou o fazer sentir bem, mas a informação e consciencialização. É uma forma da Hungria encarar os seus fantasmas e dizer ao mundo que nenhum segredo negro ficará escondido para sempre.
Eternal Winter
Um filme imperdível que chegou mesmo a tempo a este século tão complicado. É a terceira longa do crítico Szász Attila que após uns valentes anos no mundo da publicidade se dedicou ao cinema e até ao momento só fez longas de época (quatro). Veremos o que se segue, mas parece ser uma voz a ter em consideração na região.

Örök TélTítulo Original: "Örök Tél" (Hungria, 2018)
Realização: Attila Szász
Argumento: Norbert Köbli, Attila Szász (livro de János Havasi)
Intérpretes: Marina Gera, Sándor Csányi, Laura Döbrösi, Diána Magdolna Kiss, Franciska Farkas, Niké Kurta, Ákos Orosz
Música: Gergely Parádi
Fotografia: András Nagy
Género: Drama, História
Duração: 110 min.
Sítio Oficial: https://oroktel.hu

"My Uncle Archimedes" por Nuno Reis

My Uncle Archimedes
Arquimedes será sempre recordado como um matemático que mudou a nossa forma de pensar e talvez o que melhor adaptou a mais pura das ciências à arte bélica. No entanto, é um nome muito comum em terras gregas e vários indivíduos com esse nome peculiar tiveram histórias dignas de serem contadas. Um desses casos é o do tio de Aris. Mas porque faria a República Checa um filme sobre um grego que ninguém conhece? Essa é a única parte boa desta história.
My Uncle Archimedes
Na década de 1940, a Europa estava a ferro e fogo. Os extremos políticos guerreavam em vários países e a Grécia não foi excepção. Quando a Alemanha Nazi desocupou a península, surgiu um vácuo de poder onde monarquia, comunismo e fascismo se enfrentaram numa terrível guerra civil. Archimedes combateu pelos comunistas, mas perderam e foram deportados para um paraíso comunista, Checoslováquia. Em 1945 esse país entrou na sua terceira república, com uma forte influência soviética que se tornou efectiva em 1948. Archimedes (interpretado por Ondrej Vetchý) achava que estava a partir para o mundo utópico em que queria transformar a sua pátria. Isso só melhora quando lhe dão tutela do seu sobrinho órfão e quando conhece a mulher dos seus sonhos. Com uma família grega, terá menos saudades de casa e a integração será muito mais fácil. Uma coisa que como todos sabemos é que, se para visitar um sítio convém falar a língua, para lá viver, ainda mais. Ora tanto o checo como o grego são línguas complicadas pelo que a família grega terá algumas dificuldades.
My Uncle Archimedes
O filme adopta desde cedo a comédia como arma para transpor a barreira da guerra, da solidão e da morte com que começa. Com o desenvolver da narrativa e a entrada em cena de Karel (Miroslav Donutil), um velho rezingão anti-comunismo, isso torna-se muito divertido. É que apesar da sua resistência e teimosia, Karel tem um coração mole e tal como os vizinhos acaba por ajudar o grego a conseguir um emprego e até a engendrar um mirabolante plano de fuga. É também o refúgio emocional quando a miragem comunista termina e Archimedes percebe que o regime é tão mau e violento como o oposto e Stalin não é um herói. Mas o ponto central do filme é mesmo Vetchý que, quase sem palavras, mas expressões que falam por si, nos faz apoiar esse pobre de espírito com um enorme coração e um sonho por realizar. Ainda que o cinema checo não seja muito popular fora de portas, Vetchý foi uma das estrelas maiores do oscarizado “Kolja” de 1996. Esta sua performance como grego é igualmente preciosa e só por isso temos de começar a prestar mais atenção a essa cinematografia.
My Uncle Archimedes
Com hora e meia exacta, esta longa consegue manter o espectador preso num misto de drama, romance, comédia e intriga. Tem alguns momentos menos conseguidos – admito que talvez sejam interpretações minhas por diferenças culturais – mas que não perturbam o visionamento. É um excelente exemplo de como a União Europeia pode trabalhar em conjunto na cultura para apresentar os países vizinhos e explorar os erros do passado para aprender com eles. E é mais um estalo na cara dos países que recusam acolher refugiados quando há setenta anos os papéis estavam invertidos.
Muj strýcek ArchimedesTítulo Original: "Muj strýcek Archimedes" (República Checa, Alemanha, França, 2018)
Realização: Georgis Agathonikiadis
Argumento: Georgis Agathonikiadis, Petr Hudský
Intérpretes: Ondrej Vetchý, Miroslav Donutil, Dana Cerná, Veronika Freimanová, Tadeás Stourac
Fotografia: Petr Hojda
Género: Comédia, Drama
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: https://www.ceskatelevize.cz/porady/10460904893/31529131006

6 de novembro de 2016

"Hello My Name is Doris" por Nuno Reis

Doris, a heroína que ninguém vê

"Hello, My Name is Doris" foi escrito e realizado por Michael Showalter, argumentista de "Wet Hot American Summer" em colaboração com Laura Terruso que criou a curta "Doris & the Intern" (2011). Tem algumas semelhanças com o “The Intern” que esteve nos cinemas há uns meses, na parte de ser uma crítica às empresas e ao ritmo do século XXI na perspectiva de quem trabalhou toda uma vida de forma diferente, mas foca-se principalmente no campo pessoal e no fosso entre gerações cada vez menor. É sobre uma mulher nos seus sessenta anos que após a morte da mãe se tenta adaptar ao mundo em que vive e se sente atraída pelo novo colega que tem menos de metade da sua idade. Com os conselhos da filha adolescente da sua única amiga, Doris vai entrar no mundo das redes sociais, do calão, da música electrónica, todas as modas da juventude.
A componente inter-geracional está bem explorada pois mostra uma geração com uma mentalidade mais aberta (a temática LGBT vem à baila três vezes) e que logicamente se integra bem com pessoas de outras culturas, nacionalidades e - porque não? - idades. Não é difícil conhecer alguém como Doris. Uma mulher que vive em função da mãe e quando fica sem ela, fica ainda mais desorientada do que já parecia. Alguém que só recomeça a viver muito tarde na vida e já não sabe interagir com a sociedade, muito menos com uma sociedade que tem metade da idade dela. Doris é também um pouco louca. E finalmente, Doris é adorável. Todos em volta dela a adoram e querem a companhia dela. O problema é que Doris é muito inconveniente e tudo o que faz tem consequências.
Este é um daqueles projectos com muito risco. O tipo de filme independente americano que passaria despercebido na maior parte do mundo. Claro que isso se torna diferente quando quem faz de Doris se chama Sally Field. Um papel tão pateta entregue a alguém menos talentoso arruinaria o filme, mas a enorme Field consegue explorar as diferentes camadas da personagem e a cada passo dar-nos um pouco mais para descobrir. À primeira vista Doris é tudo o que esperaríamos dela, mas a forma como se tenta integrar com pessoas com as quais não tem nada em comum está no ponto ideal. A relação com amigos e família que se vai degradando, os problemas pessoais, o facto de nunca ter tido amigos homens e confundir simpatia com interesse amoroso, ou o facto de ter como referências para a vida adulta um charlatão e uma adolescente... Doris é um mundo e o filme tem tanto de inesperado como de realista. Mesmo sabendo que só poderá acabar mal, somos levados pela excitação desta mulher que ficou com a vida em suspenso.
Estamos perante um daqueles casos em que uma ida ao cinema consegue providenciar uma verdadeira surpresa. Tem drama, tem romance, tem humor e tem muita coragem. É um filme criativo numa era em que todos parecem seguir a mesma fórmula, que se centra numa mulher de idade em vez de se focar em debutantes, e não é por falta de mulheres jovens e lindas na história, mas acontece que todas ficam por pouco tempo, só esta velhota aguenta o filme todo. E o actor principal simplesmente tem de sorrir, ser simpático, passear em tronco nu, basicamente o que as mulheres fazem em noventa por cento dos filmes. Max Greenfield (o Schmidt de "New Girl") está muito bem no papel.
Resta esperar para ver se estreará por cá.
Hello, My Name Is DorisTítulo Original: "Hello, My Name Is Doris" (EUA, 2015)
Realização: Michael Showalter
Argumento: Laura Terruso, Michael Showalter
Intérpretes: Sally Field, Max Greenfield, Tyne Daly, Elizabeth Reaser, Beth Behrs
Música: Brian H. Kim
Fotografia: Brian Burgoyne
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 95 min.
Sítio Oficial: https://www.hellomynameisdorismovie.com

21 de setembro de 2014

"Delicious" por Nuno Reis

Vamos falar de comida. Se estão em jejum, por algum motivo, é melhor não continuarem. Vâo comer algo antes de regressarem a este texto. Mas não é petiscar! Comam algo incrível pois em "Delicious" é precisamente disso que vamos falar: comida deliciosa e como é (im)possível ficar indiferente a ela.
Certamente viram alguns filmes sobre comida. Só este ano tivemos dose dupla com "Chef" e o, ainda em cartaz, "The Hundred-Foot Journey". Mas quando viram o último filme sobre distúrbios alimentares? É essa a diferença na proposta de Tammy Riley-Smith, uma realizadora que ousou vender, disfarçado de romance, algo que à partida ninguém quereria ver.

Esta podia ser a história de um cozinheiro. Ou melhor, um ajudante de cozinha com aspirações de se vir a tornar cozinheiro. Acabado de chegar a Londres, Jacques ambiciona trabalhar para o chef Victor Elwood. Aliás, é a sua única opção pois não tem nada nem ninguém na cidade. A comida, e aquele restaurante em particular, são a sua meta. O destino vai torná-lo vizinho da intrigante Stella, uma mulher que se revela um obstáculo em vários sentidos, pois não é particularmente sociável, não se interessa nele como homem, não gosta de comida, e gosta de ter a música bem alta pela noite dentro. Claro que o francês encara essas afrontas como um desafio e tudo fará para dar a volta à mulher que lhe dá a volta à cabeça.

Alguns poderão ficar curiosos pelo filme devido à participação de Louise Brealey, a Molly de "Sherlock", mas preparem-se para ficar desconsolados. A beldade inglesa não é a estrela maior do filme. O protagonismo é de Nico Rogner, um actor que provavelmente ainda não conhecem por se dedicar maioritariamente a teatro e por andar a saltitar por toda a Europa a actuar em diferentes idiomas. O seu Jacques é um mistério multi-facetado, com um lado bom e um lado mau que só lentamente vai revelando, não nos permitindo decidir à primeira se gostamos dele ou não. E à medida que a vida da personagem o vai tornando mais indesejável aos que o rodeiam, nós, como espectadores, cada vez o apoiamos mais. Em confronto com ele temos a Stella de Brealey, uma mulher que nos atrai imediatamente, pela actriz que é - e por um momento de voyeurismo - e que lentamente se vai revelando uma dor de cabeça. Uma mulher problemática que consegue afastar quase todos os que a rodeiam. Esta dupla fora do comum e os sentimentos inesperados causados por ela, permite criar uma empatia pouco comum nos filmes de maior orçamento. Ficaram a faltar alguns momentos mais - Sheila Hancock podia ter tido mais uns minutos - mas a verdade é que tudo aquilo que não foi mostrado, sabemos como acontece. Só vemos aquilo que não imaginavamos. O resto, podemos supor pois não fará diferença na narrativa.

Ao contrário de outros filmes onde a comida acaba por se tornar o centro das atenções, em "Delicious isso não é bem verdade. A comida está sempre presente (é parte do que nós somos, a precisar de alimento a cada 2, 3 horas), mas não se intromete e não desvia atenções. Excepto naquele ponto-chave quando um Jacques completamente arrebatado se dedica a mostrar à frígida Stella que todos os prazeres da vida estão associados à boa comida, preparando-lhe um autêntico festim. Certamente uma experiência que só quererão antes dum bom jantar.



O filme foi exibido no Porto numa sessão especial organizada pela Susana Grilo na Casa da Música. O resto do evento foi um concerto nocturno de compositor e co-produtor do filme, Michael Price, ao piano, acompanhado pelo violoncelista Peter Gregson.


DeliciousTítulo Original: "Delicious" (Reino Unido, 2013)
Realização: Tammy Riley-Smith
Argumento: Tammy Riley-Smith
Intérpretes: Nico Rogner, Louise Brealey, Sheila Hancock, Adrian Scarborough
Música: Michael Price
Fotografia: Pete Rowe
Género: Drama, Romance
Duração: 83 min.
Sítio Oficial: http://deliciousthefilm.com/wp/

16 de junho de 2012

"(500) Days of Summer" por Nuno Reis

Não fosse a mensagem bem clara logo ao início e seria a comédia romântica mais infeliz de sempre. A única coisa que iliba “(500) Days” é ser muito claro logo ao início, dizendo que não é desse tipo de filmes. Rapaz conhece rapariga, costuma evoluir para rapaz consegue rapariga, mas o desfecho não tem de ser o clássico final feliz. Independentemente de quantos dias passaram juntos, não se pode ter a certeza de terem criado algo eterno.
Comecemos pelo spoiler. Pode ter esse nome quando é dentro do filme? Talvez seja compreensível num drama como vimos em “Lemony Snicket’s Series of Unfortunate Events”, mas quando um filme romântico começa por dizer que não vai acabar bem não está a afugentar o público-alvo? Pelo contrário. Por um lado, sabendo que aqueles 500 dias serão tudo o que se terá, são melhor aproveitados. Por outro dá para procurar ingloriamente as falhas na relação. Sim, porque aqui não foram erros cometidos por alguém, simplesmente acabou.

Os 500 dias estão sensivelmente cortados a meio. Até aos duzentos e pouco corre tudo bem, depois começa a azedar e subitamente acaba. Chega a parte de lidar com isso. É nesse ponto que começa a narrativa: com o “porquê?” que assombra o homem abandonado (o filme é todo contado pela perspectiva dele). Os dias iniciais e finais vão sendo alternados mostrando como as mesmas coisas feitas por ele em diferentes dias têm uma reacção diferente por parte dela. Como a relação se vai desmoronando. Não são mostrados 500 dias, talvez 50, há momentos chave que se perderam, mas seria precisa toda uma série para conhecer a fundo esta relação. Deixar em aberto é simpático, permite que cada um imagine que foi como alguma relação falhada que teve no passado.

É difícil não sentir pena de Tom, mas sempre achando que está a exagerar. Essa é a opinião de Rachel (Chloe Grace Moretz) e aquilo que todos os que estão de fora pensam daqueles que estão arrebatados pelo amor. Quem estiver a passar pelo mesmo provavelmente terá imensa simpatia. Quanto a Summer não conhecemos a versão dela por inteiro. Só o que partilha com Tom para que ele não se sinta tão mal. A opinião que se forma de Summer confunde-se com a que se tem da actriz. Ou se ama ou se odeia, por vezes ambos. Tanto se pode achar uma das personagens mais fascinantes do cinema como alguém que não merece ser amado. Essa dualidade causada é a prova de como a personagem está bem construída, permitindo que seja avaliada como uma pessoa real.

O filme tem tanto de belo como de deprimente. Ao vê-lo da primeira vez é fácil ficar num estado misto de surpresa e desilusão. Com o passar do tempo a melancolia dá lugar a uma profunda admiração pela ousadia com que distorce as normas do romance e no fim da assimilação mesmo os momentos cheesy (que não faltam) são perdoados pelo todo.

(500) Days of SummerTítulo Original: "(500) Days of Summer" (EUA, 2009)
Realização: Marc Webb
Argumento: Scott Neustadter, Michael H. Weber
Intérpretes: oseph Gordon-Hewitt, Zooey Deschanel
Música: Mychael Danna. Rob Simonsen
Fotografia: Eric Steelberg
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 95 min.
Sítio Oficial: http://www.foxsearchlight.com/500daysofsummer/

1 de junho de 2012

"Red Lights" por Nuno Reis

Depois do enorme sucesso conseguido com “Buried”, exigia-se mais de Rodrigo Cortés. Exigia-se um filme igualmente cativante, surpreendente e de preferência com mais actores. A resposta não tardou e da mente de Cortés saiu uma história sobre espiritismo, um tema vulgar e que podia ser igual a tantos outros filmes, mas que vai mais além.

Margaret Matheson é uma conceituada psicóloga especializada em desmascarar especialistas do paranormal como fraudes. O seu assistente, o físico Tom Buckley, tem a mesma paixão pela verdade e pelo rigor. Ambos sabem que o paranormal pode existir, mas recusam-se a pensar nisso pois um momento de dúvida fará com que se tornem crédulos e caiam nas ilusões dos vigaristas. Depois de desmascararem falsos espíritos e mentalistas, reaparece o único artista que Matheson nunca conseguiu provar como falso: Simon Silver, invisual para o mundo comum, mas com poderes que superam o normal funcionamento das coisas. Matheson recusa voltar a esse tema, mas Buckley exige saber a verdade. Se descobrirem o truque de Silver poderão fazer face a todos.

É preciso admitir a coragem de Cortés. Além de pegar num tema muito gasto, ousa colocar em questão aquele fundo de fé que se esconde em cada ser humano. O misticismo vem de tempos pré-históricos e é aquele último elo que nos une ao selvagem. O medo do que não pode ser explicado, por oposição à curiosidade científica, é o que permite ao cinema fantástico (aos vigaristas) prosperar. A ténue possibilidade de aquilo ser real é aqui posta em causa muito ao de leve. Não revela todos os truques, mas alerta que como em qualquer número de ilusionismo temos de estar atentos aos três passos.

O que se passa neste filme vai surpreender muita gente. Primeiro porque o protagonismo não é o previsto. Um grande actor tem um grande monólogo, mas tirando isso é uma ocasião para as estrelas mais jovens brilharem. O outro ponto forte é que neste combate entre natural e sobrenatural acabamos por ficar um pouco inclinados a acreditar no inacreditável. Tudo o que se passa terá uma justificação, mas será isso possível? O final será talvez um pouco rápido. O espectador estará ainda em choque pelas revelações e ouvir o que se quer é a última coisa que se esperaria.
Um bom momento de cinema que deve ser disfrutado numa sala de cinema como deve ser pois o espectáculo pirotécnico e a potência vocal de De Niro merecem o melhor da tecnologia.

Red LightsTítulo Original: "Red Lights" (Espanha, EUA, 2012)
Realização: Rodrigo Cortés
Argumento: Rodrigo Cortés
Intérpretes: Cillian Murphy, Elizabeth Olsen, Robert de Niro, Sigourney Weaver, Toby Jones
Música: Victor Reyes
Fotografia: Xavi Giménez
Género: Thriller
Duração: 113 min.
Sítio Oficial:

11 de dezembro de 2011

"Catch .44" por Nuno Reis

Mesmo sem nunca ter ouvido falar do título “Catch .44” interessou-me pois tinha três sedutoras actrizes interpretando criminosas, prometia ser ao estilo de “Pulp Fiction”e ainda participavam Forest Whitaker e Bruce Willis. Mas em Cannes isso não falta e na verdade só o fui ver porque foi um daqueles títulos sortudos que calhou num horário do Marché du Film em que eu não tinha alternativas mais apelativas.

Tes, Tara e Kara são três amigas partem numa pequena viagem. Quando param num café pode parecer que vão para uma noitada, ou uma road trip, mas ao sacarem as armas para assaltarem o estabelecimento sabemos que se vai passar algo diferente. Até que os acontecimentos se começam a suceder a grande velocidade e convém rebobinar para rever. A edição do filme faz-nos esse favor. Vamos ver esse momento várias vezes, de várias perspectivas, e outros que levaram até aquele assalto. Porque este trio afinal não é tão fácil de entender como se esperava e especialmente Tes tem um passado bem tumultuoso. O que era um simples assalto a um negócio de droga acaba por se tornar numa longa viagem pelas memórias de pessoas miseráveis.

A sinopse vendia-o como uma versão negra dos “Anjos de Charlie”, mas a comparação só serve para rir pois um dos critérios para isso seria pelo menos aparentar igualdade no tempo de ecrã. Tem três estrelas de alguma fama e consegue não fazer nada com duas delas. Não era difícil de imaginar que o filme andaria todo em torno da estrela loura, mas foi uma desilusão. Akerman tem demasiado tempo o filme ao colo sem que faça algo com ele. E para compensar o argumento fraco que causa a interpretação fraca, a edição é exacerbada para parecer artístico. E assim desperdiçam todo o elenco, violentamente arrastado por cenas pouco plausíveis num filme que também se arrasta e se enreda numa trama demasiado simples que tenta parecer complicada. São simplesmente pessoas a apontar armas por um tempo inacreditável que faria qualquer lento duelo do farwest parecer rápido. Para culminar, Bruce Willis a passear-se de roupão é algo que ninguém quer ver, acreditem.

Antes disto não fazia ideia de quem era o seu argumentista/realizador Aaron Harvey. Agora que sei, preferia continuar na ignorância. Estou curioso como conseguiu reunir estas estrelas (e as que entretanto escaparam). Será que o argumento parecia bom antes de ele o estragar ou terá sido na sala de edição que se perdeu tudo?

Catch .44Título Original: "Catch .44" (EUA, 2011)
Realização: Aaron Harvey
Argumento: Aaron Harvey
Intérpretes: Malin Akerman, Forest Whitaker, Bruce Willis, Nikki Reed, Deborah Ann Woll
Fotografia: Jeff Cutter
Género: Acção, Drama
Duração: 93 min.

31 de outubro de 2011

"Siberia, Monamour" por Nuno Reis

A radioactiva Hiroshima foi chamada Mon Amour há alguns anos e agora é a gélida Sibéria a receber esse nome carinhoso francês. Na verdade é apenas um título irónico pois parte da acção passa-se numa terra de nome Monamur, mas podia-se passar em qualquer local da enorme taiga siberiana.

Numa aldeia há muito abandonada pelos habitantes o velho Ivan permanece. Vive com o neto Leisha de sete anos e espera o regresso do filho. No meio do nada, rodeados por pouca vegetação e ainda menos animais a fome é um desafio constante. Por vezes Yuri visita-os com mantimentos, na esperança de os convencer a mudarem-se para a aldeia onde ele tem a família. Até que a mulher de Yuri o proíbe de continuar a tirar comida às próprias filhas para dar a quem opta por estar longe e Yuri vai visitá-los numa última viagem. O caminho é perigoso pois lá circulam bandidos e lobos. Um dos lobos é amigo de Leisha, os bandidos não são amigos de ninguém. Para proteger a população há o exército, sem sentido de orientação e mais preocupado em encontrar uma prostituta para o chefe do posto do que em melhorar a vida dos concidadãos. É assim a vida na Sibéria, o que há para não gostar?

Além da óbvia crítica social com um tom de fatalismo há também um apurado sentido estético. Os planos dos lobos a correr por entre as árvores ou na estrada, sejam filmados no chão ou pelo ar, provocam sempre uma sensação de autenticidade que muitos documentários gostariam de conseguir. A cena de um lobo baleado é talvez demasiado credível, mas assumindo que a Sociedade Protectora acompanhou o filme, é tudo devido aos efeitos de qualidade.
O drama humano é o principal ingrediente e as vidas daquelas pessoas isoladas do mundo têm um toque quase mágico. As personagens têm um mentalidade russa a fazer lembrar os clássicos da literatura. Por vezes o argumento entra no previsível, como quando se debruça sobre o ramo da história dos militares, mas só pela beleza das paisagens e pela arte em capturá-las "Siberia, Monamour" merece ser visto.

Sibir, MonamurTítulo Original: "Sibir, Monamur" (Rússia, 2011)
Realização: Slava Ross
Argumento: Slava Ross
Intérpretes: Pyotr Zaychenko, Nikolai Kozak, Sergey Novikov, Mikhail Protsko, Sonya Oleynik
Música: Aidar Gainullin
Fotografia: Yuri Rajsky
Género: Drama
Duração: 102 min.
Sítio Oficial: http://www.siberiemonamour.com/

30 de outubro de 2011

"The Off Hours" por Nuno Reis

Mas porque tem o cinema independente americano de ser sempre passado numa pequena aldeia vila perdida do interior onde nada se passa e o único sonho dos habitantes é fugir de lá? Esta afirmação é um pouco redundante, porque quando o filme é bom não se repara nisso, mas quando é mau começa-se a reparar nas irritantes semelhanças com tantos outros...

A premissa era boa. Uma empregada do único café num raio de 50 quilómetros fazia o horário da noite, tendo tempo livre para pensar na vida. Esperava algo estilo “Cash Back”. O que temos aqui é uma história que não só acompanha Francine, como aqueles que a rodeiam. A colega, em tempos uma noiva por encomenda, tem uma vida solitária e miserável. O chefe é divorciado, ignorado pela filha adolescente, e tem um problema com o álcool. O irmão de Francine é um inútil desempregado que não faz nada para mudar a situação e o namorado dela é simplesmente parvo. Até que aparece um camionista que só faz trajectos curtos e por isso pára muitas vezes no café. Educado, bem-parecido, apenas por fazer um pouco de companhia a Francine vai-lhe mudar a vida e fazê-la sonhar com outro tipo de vida, para o qual não se sente preparada.

Se a nível de temática é pouco original, o maior problema do filme reside em se centrar em todas as personagens. Amy Seimetz tem uma performance cativante, mas com as constantes trocas não consegue dar personagem suficiente ao filme. Os restantes não estão mal, mas também não fazem o filme melhor. Ao longo da hora e meia de filme há talvez três momentos que poderiam ter sido arrebatadores e levar o espectador a ficar preso na trama, mas falta sempre um bocado. É essa constante desilusão que estraga o filme. Se fosse inteiramente mau era uma coisa, mas ver tanto potencial a cair em saco roto é algo que simplesmente não se pode admitir.

Atenção que apesar de eu não encontrar o que o filme tem de bom, ele foi seleccionado para Sundance e saiu de Ourense com uma surpreendente dupla vitória no Prémio Especial do Júri e Melhor Realizadora pelo que lá no fundo deverá ter algum valor.

The Off HoursTítulo Original: "The Off Hours" (EUA, 2011)
Realização: Megan Griffiths
Argumento: Megan Griffiths
Intérpretes: Amy Seimetz, Ross Partridge, Tony Doupe, Scoot McNairy, Lynn Shelton, Bret Roberts, Madeline Elizabeth
Música: Jeramy Koepping, Joshua Morrison
Fotografia: Benjamin Kasulke
Género: Drama
Duração: 93 min.
Sítio Oficial: http://www.theoffhoursfilm.com/

"180° - Wenn Deine Welt Plötzlich Kopf Steht" por Nuno Reis

O tema das comunidades imigrantes é muito querido aos portugueses e aos galegos. Em 2007 a Semana dos Realizadores do Fantas foi ganha por "Um Franco 14 Pesetas", filme sobre os imigrantes galegos na Suíça. Nesse mesmo ano "True North", sobre imigrantes ilegais na Escócia venceu o Grande Prémio de Ourense. A comunidade turca na Alemanha também vai tendo alguns filmes dedicados como "Unschuld" que passou no Fantas em 2008, ou "Almanya" (que espero para ver pela terceira vez), ambos com Aylin Tezel. Cruzando dois destes cenários poderíamos também ver os turcos na Suíça e é essa a proposta de Cihan Inan, mas “180º” vai um pouco além. Este é um filme sobre a sociedade suíça. Os turcos têm destaque por serem uma parte fundamental da mesma.

Três casais jovens vêem a vida com os olhos de quem está apaixonado. Um homem telefona para o filho e a mãe zanga-se por ele não respeitar os horários acordados na separação. Ele pouco se importa com isso, acabou de matar a própria equipa a tiro. Esse acidente vai marcar todos os casais atrás referidos, pois as alterações que isso causa na cidade vão ter um profundo impacto nas suas vidas. Um instante basta para separar sociedade e indivíduo, inocência e culpa, vida e morte. Suíços, turcos e alemães misturam-se num breve intervalo temporal em que a importância de conceitos como tradição, nacionalidade e promoção deixam de existir. Porque basicamente somos todos humanos e a vida é um breve instante.

Segundo o realizador o seu primeiro projecto foi literalmente roubado (a película com as filmagens desapareceu) e escreveu este para se abstrair da situação. Após alguns anos sem conseguir financiamento para uma história tão invulgar, o sucesso de "Crash" deu-lhe a ajuda que precisava. O resultado foi uma história visualmente cativante, em parte sobre acontecimentos reais, com críticas à sociedade e um toque de esperança. Quem souber distinguir alemão de turco conseguirá saborear muito melhor este filme do que quem se deixar guiar pelas legendas, pois o toque especial reside nos desentendimentos.

180° - Wenn Deine Welt Plötzlich Kopf StehtTítulo Original: "180° - Wenn Deine Welt Plötzlich Kopf Steht" (Alemanha, Suíça, 2010)
Realização: Cihan Inan
Argumento: Cihan Inan
Intérpretes: Christopher Buchholz, Sophie Rois, Michael Neuenschwander, Benjamin Grüter, Carla Juri, Güven Kiraç, Siir Eloglu, Mehmet Atesci, Asli Bayram, Firat Kaplan, Umut Yildirim, Hirschfeld Nurit
Música: Diego Baldenweg
Fotografia: René Richter
Género: Drama
Duração: 93 min.
Sítio Oficial: http://www.180-film.com/

"If the Seed Doesn't Die" por Nuno Reis

O melhor de ir a um festival de cinema independente é que os títulos não só são desconhecidos do público, como por vezes também o são da crítica. Poucas sensações se parecerão com a de entrar numa sala sem fazer a mínima ideia do que se vai ver pelo que evito mesmo ler a sinopse no catálogo antes de ver a obra completa. E este “Daca Bobul Nu Moare” (Sérvia)/“Ako Zrno Ne Umre” (Roménia) foi sem dúvida o filme mais estranho que passou em Ourense.

No início parece um filme nornal passado numa província rural perdida nos Balcãs. Tudo começa a complicar num barco onde se cruzam estas personagens: um homem vai buscar o cadáver do filho, um militar desertor; outro leva uma mulher algemada para que ela não se desgrace mais; outro procura a filha, perdida para uma qualquer rede de prostituição. Estas histórias que se encontram acidentalmente num barco que cruza o Danúbio, seguirão caminhos separados ao longo do filme, intercaladas com o relato de uma igreja que há 200 anos também fez uma viagem.

Na primeira aventura temos uma comédia. Os Balcãs divertem-se muito com o tema da morte (relembro "Bal-Can-Can") e aqui também há algumas peripécias em busca do cadáver. A dupla das algemas é a primeira a desfazer-se pois Nora prefere divertir-se sem restrições físicas ou morais e fá-lo imediatamente com o jovem que acompanha o senhor da história anterior. Acabará por escapar com o homem da terceira história na sua cruzada nobre em busca da filha e por dar um toque de irreverência a uma aventura demasiado dramática. Finalmente há a história da igreja sobre rodas que mantém uma aura de mistério até ao final do filme. Explica também que a loucura não é contemporânea, provavelmente terá séculos.

No seu todo é um filme fácil de ver. Tem uma mensagem social e política muito forte, mas o toque de humor dado está muito bem feito (por exemplo Nora é interpretada por Simona Stoicescu do Teatro de Comédia de Bucareste). Será decerto uma experiência única para quem for ver. Mais um exemplo da criatividade das cinematografias sérvia e romena.

Após um ano pelo circuito dos festivais, estreará na Roménia dentro de dias.

Daca Bobul nu MoareTítulo Original: "Daca Bobul nu Moare" (Áustria, Roménia, Sérvia, 2010)
Realização: Sinisa Dragin
Argumento: Sinisa Dragin
Intérpretes: Bryan Jardine, Dan Condurache, Franz Buchrieser, Simona Stoicescu, Milos Tanaskovic, Ioana Barbu
Música:
Fotografia: Dusan Joksimovic
Género: Drama
Duração: 113 min.
Sítio Oficial: http://www.facebook.com/dacabobulnumoare.ro

19 de outubro de 2011

"Detention" por Nuno Reis

Quando os festivais fazem maratonas há sempre um lado positivo e outro negativo. O negativo é que por vezes somos obrigados a um visionamento total de 500 minutos apenas por causa um filme, estrategicamente colocado no final. O aspecto positivo é que por vezes no meio desse longo compasso de espera descobrimos pérolas que por si só não nos levariam a uma sala de cinema. Em Sitges este ano fiz apenas duas maratonas. Algumas eram compostas maioritariamente por filmes que já tinha visto pelo que me desculpei. A primeira, como foi referido noutra crítica, era com temática erótica e desisti às 4 da manhã. A segunda prometia thrillers poderosos e obriguei-me a ver até ao fim, mesmo que logo no primeiro tivesse Dane Cook e fosse realizador por um autor de videoclips…

Primeira parte da melhor maratona feita na edição 44 de Sitges, “Detention” vem provar que um castigo pode ser divertido. A melhor forma de apresentar a ideia base é dizendo que é uma homenagem/sátira à saga Scream. A principal diferença reside no facto de a comédia e as viagens no tempo também terem o seu lugar.
Logo ao arranque temos uma jovem gira e facilmente odiável a ser morta à facada por um vilão ridículo. Após essa introdução invulgar vamos conhecer as personagens que interessam. Como é habitual a história não se preocupa com os alunos populares, mas com os socialmente excluídos. Riley é a heroína e considera-se a segunda pessoa mais infeliz na história daquela escola. Até que percebe que é perseguida por um serial killer e tudo fará para o impedir. Só que as suas actividades extra-curriculares resultam numa suspensão. Fechada numa sala com todos são suspeitos de homicídio, terá de resolver o mistério para sobreviver.

Por norma o cinema americano define as regras pelas quais os outros se regem. Dizemos que um filme é normal quando as segue. Pois este não segue o padrão internacional e é claramente um filme apenas para o público americano, como se tivesse sido feito para TV local e não para o grupo Sony distribuir mundialmente. É uma experiência diferente, algures entre o cinema mainstream e o independente, mas falado numa língua estranha.
Tem como vantagem gozar com os filmes dentro dos filmes ao mesmo tempo que alerta os distribuidores para o facto de a pirataria ser mais rápida do que eles. Depois brinca com os paradoxos temporais e com os anacronismos resultantes. E finalmente, é muito divertido de assistir, especialmente pela falta de nexo.

Acabou por ser um dos felizes vencedores (talvez o mais surpreendente) em Sitges e talvez o seu futuro resida precisamente nos festivais e nas sessões da meia-noite. É que um filme aparentemente para adolescentes por vezes precisa de um público mais velho para ser devidamente apreciado.

DetentionTítulo Original: "Detention" (EUA, 2011)
Realização: Joseph Kahn
Argumento: Joseph Kahn, Mark Palermo
Intérpretes: Shanley Caswell, Josh Hutcherson, Spencer Locke, Walter Perez, Dane Cook
Música: Brain Mantia, Melissa Reese
Fotografia: Christopher Probst
Género: Comédia, Horror
Duração: 88 min.

14 de outubro de 2011

"Red State" por António Reis

A América profunda é o paraíso do fundamentalismo mais reaccionário, tão perigoso como todos os outros fanatismos. Felizmente temos o cinema e realizadores com a coragem de Kevin Smith para espalharem pelo mundo a mensagem de que é preciso desconfiar de todos os que prometem o Céu, mas criam o Inferno na Terra. “Red State” faz-nos mergulhar de chofre e sem contemplações no interior de uma seita supostamente cristã. Isto é que é o verdadeiro terror, confirmando que a realidade é pior do que muitos dos mais engenhosos argumentos.

Uma seita é uma seita ou seja, a criação de um louco com carisma que mantém os seus fiéis seguidores como reféns da sua demência. Se acrescentarmos um sentido de culpa de mentes perturbadas, uma colecção de armas de calibre de guerra e uma crença de que a morte por martírio nos conduz à salvação, temos os condimentos para uma ficção religiosa que decalca o real.

Um trio de jovens sai à noite. São personagens descartáveis e não vale a pena criar afeição. Servem apenas para fazer a ligação com a seita e a polícia local e federal. Daí passaremos a um confronto intenso entre esse dois mundos, em que cada um encara o outro como o mal absoluto. O espectador terá oportunidade de ver que alguns indivíduos destoam em ambos os blocos, mas uma pessoa nada pode contra as massas.

Kevin Smith não quer fazer um filme bonito. Quer desmontar a mistificação dos que querem fazer crer que a religião é a sua cruzada. Não estamos no reino de Deus, estamos no reino dos loucos. “Red State” é esse estado dentro do estado, fora da lei e acima da lei, em que os Estados Unidos são pródigos. Uma tensão crescente faz despertar nos espectadores um incontrolável desejo de um desenlace, não importa como. Mesmo assim Smith consegue manter através de todo o filme uma fina dose de humor. Uma genial interpretação de Michael Parks à altura de outras grandes interpretações sobre o mesmo tema - de que Robert Dubvall em o Apóstolo foi um dos mais aclamados exemplos – fizeram de “Red State” um dos mais concorridos filmes em Cannes e, após uma semana de filmes, o primeiro grande momento de Sitges. Isto é cinema para espectadores esclarecidos e inteligentes.

Red StateTítulo Original: "Red State" (EUA, 2011)
Realização: Kevin Smith
Argumento: Kevin Smith
Intérpretes: John Goodman, Melissa Leo, Michael Parks
Fotografia: David Klein
Género: Acção, Horror, Thriller
Duração: 88 min.
Sítio Oficial: http://coopersdell.com/

13 de outubro de 2011

"Twixt" por António Reis

Coppola - Twixt satisfaz duas vezes

Quando me disseram de véspera que “Twixt” estava completamente esgotado e não havia forma de entrar parecia um exagero. Verificou-se que era verdade e estavam 1200 pessoas mais ansiosas por ver o filme do que eu. Isso não incluía as centenas de jornalistas que madrugaram para o ver às 8 da manhã.
Ficando o bilhete para a terceira sessão reservado desde o primeiro minuto em que me foi permitido, “Twixt” não tinha como escapar. Nem passar dois dias a ouvir apenas comentários negativos foi suficiente para desfazer a ansiedade de ver o que o criador de “Bram Stoker’s Dracula” faria no seu regresso à temática vampírica.
Nuno Reis


Um filme de Coppola tem de ter sempre um atractivo suplementar porque nunca é uma vulgar de cinema. Desta vez é o 3D que Coppola manipula com uma ironia subtil, intercalando-o apenas em duas sequências do filme. Numa época em que o cinema parece rendido à tecnologia do 3D, Coppola domina a besta demonstrando que cinema é cinema e tecnologia é apenas mais um gadget para ser usado com moderação. Em filmes convencionais de 3D o espectador sabe que esse adereço o acompanha ao longo de todo o filme. Em “TRON Legacy” sabe-se que os óculos são para entrar no mundo virtual. Em “Twixt” o ecrã convida a colocar ou retirar os óculos para momentos especiais.

“Twixt” não é Coppola no seu melhor e a desilusão de muitos é insistirem num Coppola parado no tempo e em “O Padrinho”. Mas quem ama Coppola sabe que a cada filme ele incorpora momentos únicos de magia que o tornam num autor de cinema: o peixinho vermelho de “Rumblefish” ou os neons de “One From the Heart”. Mesmo quando se possa pensar que a realização é preguiçosa, a preguiça de um génio acaba sempre por ser genial.

Colocando-se sobre a égide de um Edgar Allan Poe inspirador nos momentos de sonho do protagonista, o cineasta cria uma ficção onde os clichés da história de vampiros – a trilogia sexo, sangue e morte – se misturam com a temática do autor em busca de inspiração ou da juventude inquieta e o universo dos gangs que tinham feito a glória de “Rumblefish/Juventude Inquieta”. Criando sucessivas ficções dentro da ficção, enredando o argumento com linhas que se cruzam, “Twixt” é a menos convencional história de vampiros que se podia esperar. Um fascínio pela beleza enquanto jovem, uma pulsão constante pela morte e uma reflexão sobre o acto de escrever com uma ironia subtil de uma realidade demasiado trivial. Compreende-se que a reacção a este filme seja negativa. As referências e a análise literárias são inteligentes, a ironia é demasiado fina e o terror é coreografado como espectáculo. Mas uma segunda visão do filme, mais cuidada e mais liberta da expectativa de um “Drácula 2” fará justiça a “Twixt”. O tempo fará dele uma obra-prima menor, mas mesmo assim prima.

O casting é excepcional, cada actor cria um personagem tão distinto que poderia tornar o filme inverosímil, quando afinal as suas diferenças criam um puzzle complexo e fascinante de personalidades secretas, obscuras e únicas. Todas demasiado reais, mas sempre no limiar do possível. Um realce muito especial para a música inconfundível de Tom Waits.
Tecnicamente como todos os de Coppola é soberbo nos enquadramentos e nos planos e uma nota final para o genérico que os espectadores apressados em abandonar a sala dificilmente perceberão que é um suave 3D. Até no fim Coppola ironiza com o espectador num genérico que prolonga o 3D para além do necessário, quando o espectador apressado está a abandonar a sala.

TwixtTítulo Original: "Twixt" (EUA, 2011)
Realização: Francis Ford Coppola
Argumento: Francis Ford Coppola
Intérpretes: Val Kilmer, Elle Fanning, Ben Chaplin, Bruce Dern
Música: Dan Deacon, Osvaldo Golijov
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Género: Thriller
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: http://www.twixtmovie.com/

10 de outubro de 2011

"The Sorcerer and the White Snake" por Nuno Reis


Sitges prestou homenagem a um dos mais criativos cineastas do fantástico e responsável pela afirmação do cinema de Hong Kong como uma das cinematografias mais inovadoras das últimas décadas.

E o que tinha de especial o cinema made in Hong Kong que nos anos 80 surpreendeu a Europa e conquistou as graças dos adeptos do fantástico? Uma mistura desconcertante de artes marciais, lendário e magia oriental, e um gosto por um cinema de evasão que envolvia o espectador num universo de fantasia. Depois de ter esgotado o cinema de artes marciais, e quando todos auguravam que o filão estava exausto, o fantástico mais que o terror fez o sucesso e a riqueza dos estúdios de Hong Kong. Com uma máquina bem oleada a nível técnico, experientes e meticulosos especialistas de efeitos especiais, e carismáticos realizadores, inundaram a Europa com obras-primas a trilogia “Chinese Ghost Story” a que nenhum fã do cinema de imaginário foi capaz de resistir. O Fantasporto foi o festival que em Portugal descobriu e premiou Ching Siu-Tung. Com uma filmografia vasta e significativa - “Hero” - que o torna o incontestado chefe de fila dos cineastas de Hong Kong, Ching Siu-Tung demonstrou que é possível a independência de um estilo cinematográfico no apertado sistema chinês. Também aqui o slogan “uma China dois sistemas” poderia ser parafraseado em “uma China, dois cinemas”.

Presente em Sitges para ser homenageado com a prestigiada Máquina do Tempo Ching Siu-Tung apresentou o seu mais recente filme, “The Sorcerer and the White Snake”, mais uma incursão nos temas da rica mitologia popular chinesa onde o deslumbramento das paisagens naturais se mescla com a espectacularidade dos FX. Mais ocidentalizado que o habitual, sobretudo a nível da banda sonora onde incorpora temas da música clássica europeia, “The Sorcerer and the White Snake” constituiu uma notável confirmação de que o cinema é a grande ilusão. Não admira que o público se tenha rendido a esta bizarra história de amor impossível e tenha saído da sala entusiasmado.

Ching Siu-Tung


Duas histórias desenrolam-se em simultâneo. De um lado o mestre do templo – feiticeiro - e um seu discípulo andam à caça de demónios. Do outro duas serpentes irmãs – uma verde e uma branca - afugentam um herbalista da montanha. Com as voltas que o mundo dá vão-se cruzar na cidade. Uma convivência pacífica com benefícios para todos vai acabar num confronto em larga escala.

É um filme de artes marciais com Jet Li no papel principal. As belas Charlene Choi e Shengyi Huang são as serpentes e Raymond Lam o herbalista. Li diz que o maior problema na rodagem foi que, por só lutar contra mulheres, tinha de controlar a sua força, enquanto as adversárias não tinham qualquer piedade dele. De referir que todas essas mulheres além de fortes são deslumbrantes.

Quanto à fotografia quem viu “Hero” pode ficar desiludido, mas supera a nível visual (e de efeitos visuais) praticamente tudo o que vindo a ser feito. Para terem uma ideia começa com um combate na neve onde Jet Li está vestido de branco e não há nada de errado com isso. A fotografia está estupenda. Alguns efeitos parecem baratos, mas é tudo imponente e de deixar qualquer um estupefacto. Vejam no maior ecrã possível porque é a única forma de ver.

Como desfecho é preciso dizer que é também uma história de amor com muitos clichés e lamechice. Demasiado suave para um filme de luta? Talvez, mas gera também um estranho equilíbrio entre força e delicadeza. Como um bombom oco com tão bom chocolate no exterior que nem nos importamos com o facto de ser oco.

The Sorcerer and the White SnakeTítulo Original: "The Sorcerer and the White Snake" (China, Hong Kong, 2011)
Realização: Siu-Tung Ching
Argumento: Siu-Tung Ching
Intérpretes: Jet Li, Charlene Choi, Raymond Lam, Shengyi Huang
Música: Mark Lui
Fotografia: Kwok-Man Keung
Género: Acção, Fantasia
Duração: 99 min.

25 de setembro de 2011

"Play" por Nuno Reis


O bullying é um problema de sempre que tem vindo a ganhar destaque, mas com os assaltos há bastantes mais desafios para a infância do que abusos de recreio. Em “Play” estamos perante um exemplo de um novo problema. As crianças sempre foram exemplo de inocência e confiança cega, mas isso com a idade muda. As migrações e os choques culturais reúnem jovens que por causa dos preconceitos estão formatados para não se darem bem.
Este filme baseado em factos reais conta a história de uns miúdos. Três suecos com cerca de doze anos tinham ido às compras. No shopping deparam-se com um grupo de cinco rapazes negros, um pouco mais velhos. Um deles afirma que o telemóvel que um dos pequenos exibe foi roubado ao seu irmão. O filme de quase duas horas é sobre esse conflito. De que lado está o espectador?

A sociedade ocidental está mentalizada para desconfiar dos que são diferentes. Especialmente quando andam em grupos. Entre três miúdos suecos e cinco adolescentes de cor há uma tendência para suspeitar dos últimos. E os imigrantes ao serem ostracizados pela sociedade, não estão a ser forçados a fecharem-se em grupos com os seus semelhantes? E no caso de serem mesmo vítimas alguém acreditaria neles? Pois aqui a primeira impressão que é dada é propositadamente ambígua. Depois uma analepse revela que há realmente uma intriga e o resto da história, contada a dois tempos, vai explicar muito sobre as personagens. A técnica adoptada de planos-sequência faz com que as cenas sejam mais intensas, mais angustiantes. Subitamente até os espectadores estão presos naquele longo jogo de manipulação. Os actores não podiam ser mais autênticos, sete dos oito utilizaram os nomes verdadeiros.

Como é previsível uma história assim não poderá ter um final feliz para ninguém. São crianças a atravessar problemas e conflitos que nem os grandes apreciam. O desconforto é o grande trunfo do filme e usa-o até à exaustão. os nórdicos perceberão melhor a mensagem por trás, mas não deixa de ser um filme muito peculiar e bem conseguido, especialmente pelos detalhes que em nada se relacionam com o grupo de jovens. Porque enquanto o diferendo decorre, as crianças estão a ser crianças, usam os seus conhecimentos, mas falta-lhes experiência, enquanto isso os adultos envolventes têm um papel não muito agradável na perpetração do crime: o de não se preocuparem.

Um filme que as crianças de hoje deviam ver quando forem maiores. Só aí o perceberão.

PlayTítulo Original: "Play" (Dinamarca, Finlândia, Suécia, 2011)
Realização: Ruben Östlund
Argumento: Ruben Östlund, Erik Hemmendorff
Intérpretes: Kevin Vaz, Yannick Diakité, John Ortiz, Abdiaziz Hilowle, Sebastian Hegmar, Anas Abdirahman, Nana Manu, Sebastian Blyckert
Fotografia: Marius Dybwad Brandrud
Género: Crime, Drama
Duração: 118 min.

14 de setembro de 2011

"Almanya - Willkommen in Deutschland" por Nuno Reis

No momento em que vivemos muita gente procura no estrangeiro a solução para o problema do desemprego. Isso não é de agora, há décadas que se sonha com a Europa como solução para os problemas. Em “Almanya” vemos a perspectiva de uma família turca e como três gerações vêem a sua Turquia e a sua Alemanha, desde 1960 até 2010. Os turcos são o melhor exemplo pois são a maior comunidade (são quatro milhões e, segundo algumas entidades, os que mais contribuiram para o que a Alemanha é hoje).

Quando o filme passou no Marché do Film eu não sabia que tinha sido considerado o segundo filme do ano na Alemanha, nem sabia dos recordes de espectadores, e não adivinhava os prémios que ganharia pelo mundo fora. Não foi a sinopse que me convenceu, mas o facto de ter no elenco Aylin Tezel que conheci no Fantas em 2008 a propósito do seu “Unschuld”. Ter falado com a actriz e visto em filme a dualidade turco-alemã e o choque de culturas que ela representava, fez-me acreditar que um filme totalmente dedicado ao tema teria de ser bom.

Cenk Yilmaz descobre que a terra dos seus antepassados não está no mapa da Europa. Com a curiosidade típica dos seis anos vai querer saber quem é e de onde vem e por isso a prima Canan (Aylin Tezel) vai-lhe contar a história do emigrante turco Hüseyin Yilmaz, o seu avô. A vida de Hüseyin é uma comédia recheada de peripécias tanto na Turquia rural como na Almanya. Quando leva o resto da família para a Europa vai haver um choque cultural. Hüseyin aproveita a história da neta e a curiosidade do neto para anunciar que a família vai toda voltar para a Turquia pois ele comprou uma casa lá. Se antes não queriam ir para a Alemanha, agora não querem sair....

A comunidade turca faz parte da identidade cultural alemã. Todos os povos de emigrantes ou imigrantes se identificarão com esta história que tão bem retrata conflitos culturais e geracionais. Seja pelo sonho de beber uma Coke, pelo medo da religião cristã, ou o acto de ir às compras sem saber falar a língua, é um filme que mantém o espectador sempre bem disposto. Especialmente quando Cenk interfere na narração com a ingenuidade e irreverência própria da idade. Tem também uma parte dramática em Canan que representa a juventude alemã, os seus problemas e as suas dúvidas. Pelo meio tem aquela geração perdida entre dois mundos, que nasceu na Turquia e cresceu na Alemanha nunca sabendo a qual pertence e sem tempo para pensar nisso.
Poucos argumentos conseguiram retratar bem tal quantidade de ambientes, épocas e personagens, mas “Almanya” cumpre no papel e em tela dando uma sensação de plenitude. Após o visionamento do filme sai-se mais alegre, mais informado, mais consciente da identidade europeia e do seu multiculturalismo. Por ser assim, Europa, é o meu favorito para os prémios do cinema europeu. É pena que ainda não tenha distribuição por cá...


(distribuidores interessados falem comigo)

Almanya - Willkommen in DeutschlandTítulo Original: "Almanya - Willkommen in Deutschland" (Alemanha, 2010)
Realização: Yasemin Samdereli
Argumento: Yasemin Samdereli, Nesrin Samdereli
Intérpretes: Aylin Tezel, Fahri Ögün Yardim, Demet Gül, Vedat Erincin, Lilay Huser, Denis Moschitto, Petra Schmidt-Schaller, Rafael Koussouris
Música: Gerd Baumann
Fotografia: Moritz Kaethner, The Chau Ngo
Género: Comédia, Drama
Duração: 97 min.
Sítio Oficial: http://www.almanya-film.de/

10 de setembro de 2011

"Little Deaths" por Nuno Reis

Cinema fantástico é transgressão. É passar os limites e fazer o que se diz ser proibido. Por vezes entra no domínio do terror, outras vezes no desconforto e por vezes no prazer. Em "Little Deaths" é feito um trocadilho curioso. Por um lado são pequenas histórias onde há mortes, nem sempre pequenas. Por outro lado petit mort é um eufemismo francês para orgasmo e isso é coisa que aqui não faltará pois nestas curtas só a temática sexual supera o terror.
Aqui não se encontram nomes sonantes. É um elenco de desconhecidos dirigidos por três realizadores que apesar de terem muitos fãs ainda não se afirmaram entre todos os amantes do género. Por exemplo, Simon Rumley, o mais conhecido, fez "Red, White and Blue" que passou no festival no ano passado. Talvez seja esse o segredo para se darem a conhecer. Juntam vários grupos de fãs e fazem promoção conjunta, distribuição conjunta, apresentam trabalhos tabu como uma colectânea temática. Desde que o filme seja bom só terão a ganhar.

A primeira curta chama-se "House and Home". É sobre um casal religioso que dá guarida a uma sem-abrigo. Para que sangue e sexo surjam nada é assim tão simples pelo que nem todos serão o que parecem ser. Uma história pouco original, mas bem conseguida e com interpretações femininas de qualidade.
A segunda é um regressar à temática das experiências nazis com o título "Mutant". O grotesco e a ninfomania fazem um estranho par numa história que envolve drogas e rins. Não é para todos os estômagos, mas quem aguentar tem aqui o filme mais equilibrado e com a duração adequada.
Finalmente em "Bitch" temos os fétiches sexuais levados a um extremo suave. Fala de relações desequilibradas onde a rapariga tem pavor a cães e portanto obriga o namorado a ser o cão dela. Ele decide tomar uma posição e ela despreza-o tanto que nem se apercebe. Nunca atinge todo o potencial do tema e tenta corrigir a brandura com um final choque, mas definitivamente não foi a melhor escolha para encerrar a colectânea.

Em "Little Deaths" o sexo e o gore combinam-se em proporções diferentes. Como disse na abertura do texto cada curta terá o seu público específico e distribuirem-se por entre os fãs de três realizadores diferentes é uma boa forma de os encontrarem. Pode até ser o início de uma colecção subordinada ao tema.

Little DeathsTítulo Original: "Little Deaths" (Reino Unido, 2011)
Realização: Sean Hogan, Andrew Parkinson, Simon Rumley
Argumento: Sean Hogan, Andrew Parkinson, Simon Rumley
Intérpretes: Siubhan Harrison, Holly Lucas, Daniel Brocklebank, Brendan Gregory, Jodie Jameson, Kate Braithwaite, Tom Sawyer
Música: Richard Chester
Fotografia: Milton Kam
Género: Horror, Thriller
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: