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25 de julho de 2010

"El Secreto de Sus Ojos" por Nuno Reis

Perguntando a qualquer um qual foi a grande surpresa dos Oscares na edição deste ano a resposta não fugiria muito da categoria de melhor filme em língua não-inglesa. Com o passar do tempo e o estrear do filme um pouco por todo o mundo (mérito desse troféu) as opiniões mudaram. Já não era tão grande surpresa, já não era chocante que nem "Das Weisse Band" nem "Un Prophéte" tivessem ganho porque talvez não fossem melhores. A Argentina (em co-produção com Espanha) tinha apresentado um candidato que apesar de comercialmente discreto conquistou o galardão com todo o mérito.

Benjamín Esposito está reformado e começa a escrever um livro. O que começa por parecer um romance revela-se rapidamente como um crime brutal. Esposito está a escrever inspirado num caso real. Um caso que ele próprio tentou resolver e que, vinte e cinco anos depois, ainda o atormenta. Mais do que uma etapa da sua vida, foi aquele crime que definiu toda a sua existência até aquele momento. Este livro poderá dar-lhe uma oportunidade nunca conseguida de esquecer e seguir em frente, mas para isso terá de recordar tudo o que aconteceu.

A narrativa do filme divide-se claramente em dois períodos. Um começado em 1974 quando Irene Menéndez Hastings entrou ao serviço como chefe de Esposito. Nessa época Esposito tinha de tomar conta do seu subordinado Sandoval, a braços com um problema de alcoolismo, mas faziam uma boa dupla. Este caso ajudou a criar uma forte ligação entre Irene e Esposito que devido às diferenças de classe e idade nunca admitiram amarem-se. O segundo período é o de escrita do livro em 2009. Esposito volta ao seu antigo escritório para se reencontrar com Irene e pedir a sua ajuda e apoio neste projecto. Ambos sabem que as recordações podem ser perigosas, mas também sabem que precisam disso para esquecer.

"El Secreto de Sus Ojos" é um magnífico exercício de cinema nas suas variadas componentes. Um argumento trabalhado e com atenção aos detalhes traz-nos um dos maiores thrillers deste século. Transmite a alma e o ser argentino, com detalhes políticos, culturais e mesmo futebolísticos que farão as delícias de quem conheça o país. A realização sem a mais pequena falha e com imensas provas de mestria prova que o realizador de "El Hijo de la Novia" não teve apenas sorte, é simplesmente um dos maiores realizadores da actualidade. Mesmo áreas normalmente negligenciadas no visionamento de um filme como montagem, som e fotografia aqui dão nas vistas.
Qanto aos actores são fenomenais. Ricardo Darín lidera um elenco pequeno, mas talentoso. Carla Quevedo teve o papel mais ingrato por apenas aparecer em flashes do passado como símbolo da mulher bela e simples a quem a vida foi injustamente tirada. No entanto é ela o móbil de toda a trama. É o amor por ela e consequente ódio por quem a matou que vai mover o desgostoso marido e as forças da lei nesta longa missão. Darín e Soledad Villamil ficaram com a difícil missão de dar jus ao título e actuar com os olhos. Tudo o que não é dito é transmitido pelo olhar deles. Apenas a máquina de escrever sem uma letra consegue façanha semelhante. Um aplauso merecido para a equipa de caracterização que conseguiu, entre anos retirados e anos dados, transformar os actores em convincentes vítimas do tempo.

A vantagem de ter ganho o Oscar foi a publicidade imediata que teve por todo o mundo e consequente distribuição. Estreou cá nove meses depois, mas em países como Itália apenas chegou no mês passado e noutros como Reino Unido, Alemanha e Países Baixos ainda vão esperar mais umas semanas. É um filme que tem de ser visto - de preferência em grande ecrã - e rever também não vai saber mal. Não é perfeito, mas melhor de 2010? Sim, sem dúvida.

Título Original: "El Secreto de sus Ojos" (Argentina, Espanha, 2009)
Realização: Juan José Campanella
Argumento: Juan José Campanella e Eduardo Sacheri (também autor do livro)
Intérpretes: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella, Pablo Rago
Fotografia: Félix Monti
Música: Federico Jusid e Emilio Kauderer
Género: Drama, Romance, Thriller
Duração: 129 min.
Sítio Oficial: http://www.elsecretodesusojos.com/

23 de março de 2010

Segunda vida


Após os Oscares os filmes ganham nova vida, especialmente os vencedores. Em Portugal os principais nomeados estão em exibição em meia dúzia de salas.

O mercado australiano pode ser a última oportunidade de "The Hurt Locker" fazer alguns milhões e deixar de ser o Melhor Filme menos rentável. É que lá ainda não estreou e a campanha aparentemente resume-se a dizer "ganhei o Oscar, venham ver".

14 de março de 2010

Oscars: o inesquecível e o esquecido


Dois detalhes marcaram a cerimónia dos Oscares da semana passada. Por um lado há uma imagem sobre mau perder que ninguém esquecerá. O realizador dos dois filmes mais lucrativos de sempre estrangula a ex-mulher, realizadora do oscarizado como melhor filme menos lucrativo de sempre (custou 10 milhões e rendeu 11).



Tal como cortaram o magnífico discurso a Markéta Inglova na cerimónia de 2008, este ano foi o realizador de "The Cove" a perder o pio. Sò que a ele não deram segunda oportunidade e por isso teve de o gravar em casa.


"We made this film to give the oceans a voice.

We told the story of The Cove because we witnessed a crime. Not just a crime against nature, but a crime against humanity.

We made this movie because through plundering, pollution and acidification from burning fossil fuels, ALL ocean life is in peril from the great whales to plankton which incidentally is responsible for half the oxygen in this theater.

Thank you, Black OPS Team for risking your lives in Japan -- and thank You Academy for shining the brightest lights in the world on THE COVE......

8 de março de 2010

Vencedores dos Oscares 2010


Sem grandes surpresas "The Hurt Locker" foi o grande vencedor da noite dos Oscares conquistando melhor argumento, realizadora e filme, completando com edição e mistura de som e montagem os seus prémios.

"Avatar" venceu nas categorias visuais com três prémios, sendo o segundo maior vencedor.

Com o terceiro lugar e duas estatuetas ficaram "Up", "Precious" e "Crazy Heart".

A maior surpresa foi a vitória de "El Secreto de sus Ojos" para melhor filme em língua não-inglesa, derrotando "Un Prophéte" e "Das Weisse Band". Ironicamente Sandra Bullock foi a melhor e a pior actriz do ano, juntando o Oscar ao Razzie.

Melhor Filme

Avatar
The Blind Side
District 9
An Education
  • The Hurt Locker
  • "Inglorious Basterds"
    Precious
    A Serious Man
    Up
    Up in the Air


    Melhor Actor Principal

  • Jeff Bridges por "Crazy Heart"
  • George Clooney por "Up in the Air"
    Colin Firth por "A Single Man"
    Morgan Freeman "Invictus"
    Jeremy Renner por ""The Hurt Locker"


    Melhor Actor Secundário

    Matt Damon por "Invictus"
    Woody Harrelson por "The Messenger"
    Christopher Plummer por "The Last Station"
    Stanley Tucci por "The Lovely Bones"
  • Christopher Waltz por "Inglorious Basterds"


  • Melhor Actriz Principal

  • Sandra Bullock por "The Blind Side"
  • Helen Mirren por "The Last Station"
    Carey Mulligan por "An Education"
    Gabourey Sibide por "Precious"
    Meryl Streep por "Julie & Julia"


    Melhor Actriz Secundária

    Penélope Cruz por "Nine"
    Vera Farmiga por "Up in the Air"
    Maggie Gyllenhaal por "Crazy Heart"
    Anna Kendrick por "Up in the Air"
  • Mo'nique "Precious"


  • Melhor Filme de Animação

    "Coraline"
    "Fantastic Mr. Fox"
    "The Princess and the Frog"
    "The Secret of Kells"
  • "Up"


  • Melhor Direcção Artística

  • "Avatar"
  • "The Imaginarium of Doctor Parnassus"
    "Nine"
    "Sherlock Holmes"
    "The Young Victoria"


    Melhor Fotografia

  • "Avatar"
  • "Harry Potter and the Half-Blood Prince"
    "The Hurt Locker"
    "Inglorious Basterds"
    "Das Weisse Band"


    Melhor Guarda-Roupa

    "Bright Star"
    "Coco Avant Chanel"
    "The Imaginarium of Doctor Parnassus"
    "Nine"
  • "The Young Victoria"


  • Melhor Realização

    James Cameron por "Avatar"
  • Kathryn Bigelow por "The Hurt Locker"
  • Quentin Tarantino por "Inglorious Basterds"
    Lee Daniels por "Precious"
    Jason Reitman por "Up in the Air"


    Melhor Longa Documental

    "Burma VJ"
  • "The Cove"
  • "Food, Inc."
    "The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers"
    "Wich Way Home"


    Melhor Curta Documental

    "China's Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province"
    "The Last Campaign of Governor Booth Gardner"
    "The Last Truck: Closing of a GM Plant"
  • "Music by Prudence"
  • "Rabbit à la Berlin"


    Melhor Montagem

    "Avatar"
    "District 9"
  • "The Hurt Locker"
  • "Inglorious Basterds"
    "Precious"


    Melhor Filme em Língua Não-Inglesa

    "Ajami"
  • "El Secreto de Sus Ojos"
  • "The Milk of Sorrow"
    "Un Prophète"
    "Das Weisse Band"


    Melhor Caracterização

    "Il Divo"
  • "Star Trek"
  • "The Young Victoria"


    Melhor Música Original

    "Avatar"
    "Fantastic Mr.Fox"
    "The Hurt Locker"
    "Sherlock Holmes"
  • "Up"


  • Melhor Canção Original

    Almost There "The Princess and the Frog"
    Down in New Orleans "The Princess and the Frog"
    Loin de Paname "Paris 36"
    Take It All "Nine"
  • The Heary Kind "Crazy Heart"


  • Melhor Curta de Animação

    "French Roast"
    "Granny O'Grimm Sleeping Beauty"
    "Le Dama y la Muerte"
  • "Logorama"
  • "A Matter of Load and Death"


    Melhor Curta de Imagem Real

    "The Door"
    "Instead of Abracadabra"
    "Kavi"
    "Miracle Fish"
  • "The New Tenants"


  • Melhor Edição de Som

    "Avatar"
  • "The Hurt Locker"
  • "Inglorious Basterds"
    "Star Trek"
    "Up"


    Melhor Mistura de Som

    "Avatar"
  • "The Hurt Locker"
  • "Inglorious Basterds"
    "Star Trek"
    "Transformers 2: Revenge of the Fallen"


    Melhor Efeitos Visuais

  • "Avatar"
  • "District 9"
    "Star Trek"


    Melhor Argumento Adaptado

    "District 9"
    "An Education"
    "In the Loop"
  • "Precious"
  • "Up in the Air"


    Melhor Argumento Original

  • "The Hurt Locker"
  • "Inglorious Basterds"
    "The Messenger"
    "A Serious Man"
    "Up"

    3 de fevereiro de 2010

    Nomeados para os Oscares 2010

    Melhor Filme

    Avatar
    The Blind Side
    District 9
    An Education
    The Hurt Locker
    "Inglorious Basterds"
    "Precious"
    A Serious Man
    Up
    Up in the Air

    Melhor Actor Principal

    Jeff Bridges por "Crazy Heart"
    George Clooney por "Up in the Air"
    Colin Firth por "A Single Man"
    Morgan Freeman "Invictus"
    Jeremy Renner por ""The Hurt Locker"

    Melhor Actor Secundário

    Matt Damon por "Invictus"
    Woody Harrelson por "The Messenger"
    Christopher Plummer por "The Last Station"
    Stanley Tucci por "The Lovely Bones"
    Christoph Waltz por "Inglorious Basterds"

    Melhor Actriz Principal

    Sandra Bullock por "The Blind Side"
    Helen Mirren por "The Last Station"
    Carey Mulligan por "An Education"
    Gabourey Sibide por "Precious"
    Meryl Streep por "Julie & Julia"

    Melhor Actriz Secundária

    Penélope Cruz por "Nine"
    Vera Farmiga por "Up in the Air"
    Maggie Gyllenhaal por "Crazy Heart"
    Anna Kendrick por "Up in the Air"
    Mo'nique "Precious"

    Melhor Filme de Animação

    "Coraline"
    "Fantastic Mr. Fox"
    "The Princess and the Frog"
    "The Secret of Kells"
    "Up"

    Melhor Direcção Artística

    "Avatar"
    "The Imaginarium of Doctor Parnassus"
    "Nine"
    "Sherlock Holmes"
    "The Young Victoria"

    Melhor Fotografia

    "Avatar"
    "Harry Potter and the Half-Blood Prince"
    "The Hurt Locker"
    "Inglorious Basterds"
    "Das Weisse Band"

    Melhor Guarda-Roupa

    "Bright Star"
    "Coco Avant Chanel"
    "The Imaginarium of Doctor Parnassus"
    "Nine"
    "The Young Victoria"

    Melhor Realização

    James Cameron por "Avatar"
    Kathryn Bigelow por "The Hurt Locker"
    Quentin Tarantino por "Inglorious Basterds"
    Lee Daniels por "Precious"
    Jason Reitman por "Up in the Air"

    Melhor Longa Documental

    "Burma VJ"
    "The Cove"
    "Food, Inc."
    "The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers"
    "Wich Way Home"

    Melhor Curta Documental

    "China's Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province"
    "The Last Campaign of Governor Booth Gardner"
    "The Last Truck: Closing of a GM Plant"
    "Music by Prudence"
    "Rabbit à la Berlin"

    Melhor Montagem

    "Avatar"
    "District 9"
    "The Hurt Locker"
    "Inglorious Basterds"
    "Precious"

    Melhor Filme em Língua Não-Inglesa

    "Ajami"
    "El Secreto de Sus Ojos"
    "The Milk of Sorrow"
    "Un Prophète"
    "Das Weisse Band"

    Melhor Caracterização

    "Il Divo"
    "Star Trek"
    "The Young Victoria"

    Melhor Música Original

    "Avatar"
    "Fantastic Mr.Fox"
    "The Hurt Locker"
    "Sherlock Holmes"
    "Up"

    Melhor Canção Original

    Almost There "The Princess and the Frog"
    DOwn in New Orleans "The Princess and the Frog"
    Loin de Paname "Paris 36"
    Take It All "Nine"
    The Heary Kind "Crazy Heart"

    Melhor Curta de Animação

    "French Roast"
    "Granny O'Grimm Sleeping Beauty"
    "Le Dama y la Muerte"
    "Lagorama"
    "A Matter of Load and Death"

    Melhor Curta de Imagem Real

    "The Door"
    "Instead of Abracadabra"
    "Kavi"
    "Miracle Fish"
    "The New Tenants"

    Melhor Edição de Som

    "Avatar"
    "The Hurt Locker"
    "Inglorious Basterds"
    "Star Trek"
    "Up"

    Melhor Mistura de Som

    "Avatar"
    "The Hurt Locker"
    "Inglorious Basterds"
    "Star Trek"
    "Transformers 2: Revenge of the Fallen"

    Melhor Efeitos Visuais

    "Avatar"
    "District 9"
    "Star Trek"

    Melhor Argumento Adaptado

    "District 9"
    "An Education"
    "In the Loop"
    "Precious"
    "Up in the Air"

    Melhor Argumento Original

    "The Hurt Locker"
    "Inglorious Basterds"
    "The Messenger"
    "A Serious Man"
    "Up"

    17 de janeiro de 2010

    "Avatar" por Nuno Reis


    Avatar - O fenómeno do ano

    Tenho de começar por dizer que não me considero grande fã de Cameron. Gostei dos "Terminator" e de "Aliens", o "True Lies" não posso dizer que seja mau e apesar de não acompanhar regularmente via "Dark Angel". Pensando bem, de forma simples, dos trabalhos de James Cameron eu só implico com "Titanic". Nunca o vi em cinema e quando deu na televisão vi em modo zapping, devo ter escapado a mais de metade do filme. Não me prendeu e com o frenesim causado "em cada 2 portugueses 3 viram o filme" fiquei de pé atrás em tudo o que se relaciona com o realizador. Isso coincidiu com a semi-pausa que ele fez da realização o que ajudou a melhorar a nossa relação. Foi nesse período que comprei o DVD "The Abyss".
    Claro que mesmo assim quando "Avatar" foi anunciado tinha as minhas suspeitas. Meses de especulação passaram, semanalmente saía alguma informação mais detalhada e na fase final os trailers eram praticamente diários . Adiei a ida ao cinema enquanto me foi possível, esta semana não deu para escapar novamente. Depois de um mês a ouvir dizer bem e mal pus os óculos 3D e mergulhei no mundo de Pandora.

    A presença humana tem três pólos fundamentais.
    O lado militar quer assegurar a segurança dos humanos num ambiente hostil. O seu líder, o Coronel Quaritch, interpretação de Stephen Lang, deseja o confronto como Golias que tem o tamanho e a força para espezinhar tudo o que o rodeia. Não se preocupa com os seres que habitam Pandora desde sempre, pretende expropriar e dizimar para ficar com os recursos minerais à boa moda da Terra. Não culpemos os americanos, ao longo de séculos muitos fizeram o mesmo.
    O lado empresarial quer extrair o mineral com lucro máximo. Giovanni Ribisi é o rosto do incapaz Parker Selfridge que não tem a coragem de se opor à opressão. Tenta ser humano, mas falta-lhe a convicção para fazer o que é correcto. Devia liderar a presença terrestre, mas é um fantoche do braço militar que por enquanto tolera a componente científica da expedição.
    A fazer a investigação científica reencontramos Dian Fossey e um novo género de gorilas na bruma. Ao contrário de "Wall-E" onde quer destruir os humanos e da imortal Ripley que quer destruir os extraterrestres, Sigourney Weaver aqui é a moderada Grace Augustine. Botânica, linguista, o elo de ligação entre os dois mundos. O ódio de Quaritch por ela é recíproco.
    Entre os peões deste jogo estão Trudy (Michelle Rodriguez), uma excelente piloto que dá apoio ao transporte de militares e cientistas. Norm Spellman (Joel Moore), um recém-chegado cientista com Avatar. Max Patel (Dileep Rao) um cientista que tem muito de espião. E finalmente o maior peão de todos: Jake Sully (Sam Worthington). Marine herda o Avatar do irmão cientista e parte para Pandora. Não sabe o que quer, a guerra e o ferimento incapacitante deixaram-no deprimido e insensível. Vai ficar perdido entre o desejo de ajudar Augustine cumprindo o sonho do irmão, o de ajudar Quaritch como foi treinado para fazer, e o de ajudar os nativos que o adoptaram.

    A parte humana é essencialmente imagem real, ou próxima disso. Quando se está na exterior o mundo é tão diferente que é como se entrássemos nuns desenhos animados. Os nativos de Pandora são humanóides muito altos, de pele azul e com uma curiosa trança. Vivem da Natureza e em harmonia com ela. Sabem que são parte do ecossistema e respeitam-no para serem respeitados. Entre os Na'Vi há muitos clãs, os Omaticaya são os que já tiveram uma escola de Augustine e também são os que acolhem Jake. Entre eles destacam-se Neytiri (Zoe Saldana), filha dos chefes e professora de Jake. Tsu'Tey (Laz Alonso) líder dos guerreiros e sucessor ao trono. Eytukan (Wes Study) e Moat (CCH Pounder) são um casal e líderes do clã, ele como chefe e ela como xamã que se liga à Árvore das Almas, centro nevrálgico do planeta e divindade única. O resto do planeta é indescritível, fazendo lembrar as criações mirabolantes da BD "Valérian".

    Falta falar do terceiro elemento da relação Homem-Na'Vi, os Avatar. Os Avatar são criações híbridas dos genes das duas espécies. Apesar de parecerem Na'Vi o cérebro que os ocupa é controlado remotamente por um humano, como em "Surrogates" só que seres biológicos. Grace, Jake, Norm e muitos outros entram diariamente na Matrix, perdão no ecossistema de Pandora, através desse alter-ego.
    A nível de analogias só me ocorre mais uma. Nas cenas ao nível da floresta de Pandora só pensava no planeta Endor (o dos Ewoks) apesar de o novo ter mais riqueza visual. E quando Jake nos céus tenta abater a gigantesca nave, lembrei-me de Luke Skywalker no seu pequeno caça a enfrentar uma Estrela da Morte. Isso é bom sinal. Pode não ser original, mas tem um efeito que só grandes filmes causam.

    Presos (financeiramente dependentes) a um mundo que não gosta deles, os humanos tentam familiarizar-se com o que os rodeia. Especialmente nos céus há muitas criaturas estranhas, mas o solo é ocupado por pró-lémures e muitos outros seres com equivalentes terrestres. Parecidos com rinocerontes, panteras, hienas e cavalos. Isso fez-me recordar um dos grandes livros de FC da minha infância, "Tunnel In the Sky" de Robert Heinlein, uma epopeia sobre estudantes perdidos num mundo hostil que identificavam os animais como coelhos carnívoros, ou outros nomes assim para se sentirem mais à vontade com eles. E claro, os stobors, inimigo desconhecido que lhes aterrorizava os dias e assombrava as noites. Até aí adorei o filme que não me parecia transcendente. Subitamente falaram de Ver. Não é o ver normal que fazemos com os olhos, é Ver. Algo que se faz com olhos, coração e mente. Em "Stranger in a Strange Land" - também um livro de Heinlein - falavam disso. A palavra era grocar (verbo to grok no original). Significa compreender, fazer parte de, ser um com. É admitir que fazemos parte de algo maior e todos estamos ligados. Aceitar a morte faz parte disso, ao morrer estamos a devolver elementos da vida ao conjunto.
    Os Na'vi fazem essa ligação com a trança que referi à momentos. Com ela ligam-se aos cavalos, aos Banshee que os levam pelos céus ou à Árvore da Vida para recordar memórias dos que morreram. Por essa ligação em fibra óptica ficam a ser um só, sem segredos, por isso é que quando o fazem entre eles é o equivalente às relações sexuais humanas.

    Os primeiros minutos foram curiosos. 2009 foi o ano em que o espaço voltou a ser atravessado pela Enterprise e em que as base espaciais se fixaram na Lua. O espaço já não é a última fronteira e a lua que se explora não é do terceiro calhau a contar do Sol. São precisos seis anos para chegar da Terra à lua Pandora, o único local conhecido onde se pode obter o Inobtanium. Quem se lembrou deste nome não pensou muito, não era neste campo que se exigia criatividade. O mundo de Pandora sim, exigiu alguma imaginação. Flora, fauna, seres inteligentes e um sistema neurológico partilhado por todos eles.
    Após três horas de filme a história nunca deixou de ser previsível. Os únicos riscos corridos foram visuais, na narrativa e acção foi mantido um ritmo lento para não cansar antes das três horas. O resultado é que terminando o filme houve muitos momentos intensos, mas não há um único memorável. Não que me queixe da realização que me surpreendeu pela positiva. Com ou sem efeitos há detalhes que revelam a mestria de quem os fez. Mesmo assim tirando os efeitos especiais seria para pensar em sair passada a primeira hora. Além da novidade é a expectativa o que vale ao filme para manter as pessoas no lugar. Para filmes com efeitos especiais e sem história já há demasiados. Pelo menos não tiveram medo de matar personagens, se também aí fossem comedidos então seria a desgraça total.

    A linguagem Na'Vi que tinha cerca de 100 palavras feitas vai ser estendida nos próximos filmes. Provavelmente com a trilogia completa o Na'Vi atingirá um estatuto semelhante ao Klingon, com a diferença de ter fãs mais jovens e portanto mais anos de vida pela frente. Mas será isso suficiente frente aos trekkies? Se a cada vinte anos sair uma nova linguagem o lugar que marcaram em breve perderá o significado, sobrando dentro de décadas para o Klingon a vantagem de ter sido a primeira. Todas as outras desaparecerão como lágrimas na chuva.

    O cinema com este título ganha como arte visual. Perde como arte de contar histórias. Quem vence é, como sempre, o marketing que conquistou todos os recordes faltando apenas destronar "Titanic". Quanto aos próximos episódios não contem comigo. Se esta era a melhor história e me desiludiu assim tanto tenho medo de imaginar o que possa vir depois.


    Título Original: "Avatar" (EUA, Reino Unido, 2009)
    Realização: James Cameron
    Argumento: James Cameron
    Intérpretes: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Giovanni Ribisi, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Joel Moore
    Fotografia: Mauro Fiore
    Música: James Horner
    Género: Acção, Aventura, Fantasia, Ficção-Científica
    Duração: 162 min.
    Sítio Oficial: http://www.avatarmovie.com/

    17 de outubro de 2009

    "The Hurt Locker" por Nuno Reis


    Em cenário de guerra um soldado tem de confiar a vida aos colegas. Cada um fará exactamente o que lhe mandam de forma a minimizar os riscos para si e para os que o rodeiam. Na guerra moderna as ameaças não são diferentes, são apenas mais. Se antes os snipers eram o maior receio da infantaria, agora esse estatuto pertence aos bombistas. Tudo e todos podem ser uma bomba. A qualquer momento um soldado pode ser mandado pelos ares em pedaços. Por isso é que existem as brigadas especializadas na desactivação e detonação de explosivos. Sem que seja uma crítica directa à guerra, "The Hurt Locker" é uma sentida homenagem a esses homens.

    A equipa Bravo está a dois meses de sair do Iraque quando perdem um membro para uma bomba. Além do choque pela perda que o tempo os ensinou a superar, sofrem um novo choque quando chega o novo líder. Este aventureiro vai contra todos os manuais e arrisca-se inutilmente a cada bomba que passa. Como a sorte protege os audazes vai escapando às bombas miraculosamente. Até que chegam as bombas humanas e isso é algo que ninguém estava preparado para ver. Ter de desactivar algo dentro de uma pessoa, ou preso a ela, mexe com os sentimentos de qualquer um.

    Os cenários jordanos de deserto e os efeitos visuais de explosões dão todo o realismo necessário. Aliás, chega a causar nojo aos estômagos mais preparados. A realização está ao grande nível que Bigalow nos acostumou desde sempre. O lado humano tem sempre enorme destaque, mesmo que seja preciso chegar ao último minuto para que essa faceta nos deixe boquiabertos.

    A distinta divisão entre interior e exterior permite uma simpatia pelos homens transferidos para o deserto, mesmo que se desgoste dos soldados ou do seu país. É que os filmes de guerra começam a ser um exagero. Já devem existir filmes que foquem todos os lados de todos os confrontos internacionais. Mesmo assim quem assistir ao filme sairá muito agradado com a filmagem e talvez surpreendido pela mensagem. Este louvor à guerra é a forma mais inteligente de a criticar.
    É um filme a não perder pelo apreciadores de cinema. Não se compreende que tenha desaparecido tão depressa das salas estando agora limitado a meia dúzia de multiplexes.


    Título Original: "The Hurt Locker" (EUA, 2008)
    Realização: Kathryn Bigelow
    Argumento: Mark Boal
    Intérpretes: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse
    Fotografia: Barry Ackroyd
    Música: Marco Beltrami, Buck Sanders
    Género: Acção, Drama, Guerra, Thriller
    Duração: 131 min.
    Sítio Oficial: http://www.thehurtlocker-movie.com/

    8 de julho de 2009

    "The Young Victoria" por Nuno Reis

    Hoje li em algum sítio chamarem à recente moda de filmes sobre rainhas Queensploitation. Será meia dúzia de filmes suficiente para esse termo? Depois das Elizabeth haveria muitas mais de quem falar? Há uma incontornável de nome Victoria que dentro de uma semana terá o seu filme em exibição. Esse mais recente elemento do género será provavelmente o último digno de destaque, visto que já começaram a surgir variações como "a duquesa que é irmã do tetravô daquela que podia ter sido rainha consorte".

    Por ter casado filhos e netos com casas reais de todo o continente esta rainha ficou conhecida como a avó da Europa. O título com referência à jovem que se tornaria rainha especifica que vai falar da outra parte da vida dela, quando uma adolescente herdou do avô uma nação e todas as responsabilidades associadas. Quem a baptizou Victoria não imaginava como estaria correcto. Se existe uma palavra que sintetize o seu reinado é vitória. Esta mulher tornou a Inglaterra na maior potência do mundo sem prejudicar a vida pessoal.

    Victoria tornou-se rainha um mês depois dos dezoito anos. A impetuosidade própria da idade numa época em que o público não permitia falhas marcou o início de reinado. As suas relações com o governo, as conversas com o primo, a teimosia que causou a queda de um governo, as tentativas de assassinato, toda a juventude está em tela. Drama, romance e uma enorme dedicação aos seus ideais tornaram esta rainha numa personagem tão digna da ficção como foi da História. Seria bom que os políticos do presente tivessem algum do discernimento, da coragem e do amor pelo país que esta governante demonstra.
    O retrato social é curioso, mais pelo que não mostra do que pelo que mostra. Nesta época a nobreza já não era o que foi em tempos. Os nobres não vivem num mundo só seu. Pela acção da imprensa e pela discussão política começam a ser vistos como pessoas, mais do que alguma vez antes, especialmente quem governa. Foram tempos conturbados - com jogos de interesses, intrigas, várias tentativas de regicídio - e exigiram um pulso firme, especialmente a quem não se sujeita a eleições para o cargo máximo.

    A reconstituição histórica a nível de conteúdos, cenários e guarda-roupa está fenomenal. Quando o tema é a vida de um ícone o argumento escreve-se sozinho. Juntando a isto uma actriz encantadora como Emily Blunt, apoiada por talentosos actores como Rupert Friend, Jim Broadbent, Paul Bettany e Miranda Richardson, o resultado tinha de ser um bom filme. "The Young Victoria" supera as expectativas. Seja pela sua beleza ou pela sua determinação fica-se cativo desta rainha que consegue combinar como poucas as vidas pessoal e profissional. Em ambas vemos que teve a inteligência de ouvir quem a aconselhava e acreditar apenas naqueles de quem gostava. Para o país foi um choque, mas foi também o empurrão que precisava há muito.

    Dois jovens que supostamente seriam apenas peças num secular jogo político fintam o destino e moldam as suas obrigações aos seus desejos. Literatura de cordel? Como dizia Joseph Mankiewicz, "a diferença entre a vida real e um argumento, é que o argumento tem de fazer sentido". De tão parecido com a vida o filme quase perde o sentido. É lamechas, tem muitas frases feitas, e se fosse uma obra de ficção passada no presente era facilmente esquecido. Mas há algo naquele ambiente do século XIX que nos hipnotiza e torna tudo mais plausível. Distribuido pela Ecofilmes este discreto épico não deverá ter muita publicidade comparado com os pesos-pesados do Verão. Mas pelo que tenho visto até agora, está acima de todos eles.


    Título Original: "The Young Victoria" (EUA, Reino Unido, 2009)
    Realização: Jean-Marc Vallée
    Argumento: Julian Fellowes
    Intérpretes: Emily Blunt, Rupert Friend, Paul Bettany, Miranda Richardson, Jim Broadbent
    Fotografia: Hagen Bogdanski
    Música: Ilan Eshkeri
    Género: Drama, Histórico, Romance
    Duração: 100 min.
    Sítio Oficial: http://www.theyoungvictoria.co.uk/