26 de janeiro de 2016

"The Big Short" por Nuno Reis



The Big Short 2015
Primeiro tínhamos as comunidades que partilhavam tudo. Quando acharam necessário introduzir as trocas por uma questão de justiça, descobriram a ganância. Quem tinha algo único, tinha o poder de definir o seu preço. Os metais passaram de adorno a sinal de riqueza. Aí inventaram outro conceito, o da moeda. O seu valor tornou-se figurativo e um pedaço de metal com uma forma específica valia mais do que o metal nele contido. Depois entrou em cena um pedaço de papel que valia mais do que o metal e foi o descalabro. Hoje em dia o dinheiro que usamos em quase tudo é ainda mais leve do que o papel. Não existe, é algo etéreo e virtual. A economia sempre seguiu o rumo inverso e assim que o dinheiro se tornou nada, ganhou demasiado peso. De repente, as vidas de todos dependiam de uma informação escrita em bits em computadores controlados por X, que seguiam as regras definidas por Y, as leis definidas pelos políticos XX aconselhados pelos especialistas XY, e era investido segundo os instintos de XZ em Não Se Sabe Quem. E sempre que a economia funcionava e fazia dinheiro para as pessoas, a ignorância era uma bênção. Até que um dia alguém quis conhecer melhor essas incógnitas e, além de lhes pôr um nome, saber o seu valor. Assim que começaram a puxar o cordão, viram uma corrente onde todos os elos eram fracos, estúpidos e corroídos e que não aguentaria um puxão. A melhor forma de lhes fazer frente, era esperar que caíssem.
The Big Short 2015
"The Big Short" é um quatro em um. Começa como um mockumentary sobre o grande crash financeito no final da década passada cuja factura ainda estamos a pagar. Com um estilo muito próximo do documentário, reconstrói de forma levemente ficcionada os factos que levaram à queda do sistema e à ruína de milhões de pessoas em todo o mundo, explicando que foram os culpados e o que fizeram. Depressa descobrimos a vertente da comédia, pois este lote de actores de primeira - onde se incluem Christian Bale, Ryan Gosling, Steve Carell, Brad Pitt, e em papéis menores Melissa Leo, Karen Gillan e Marisa Tomei, além de algumas outras estrelas como elas próprias – explora a tragédia da única forma possível: com humor. Depois há o revés e o que nos fazia rir, depressa nos faz sentir vontade de chorar. É tão grande o número de gente mesquinha, incompetente e idiota que tem poderes sobre o dinheiro, que aquilo só podia dar torto. E vai ser mesmo muito mau. Tão mau que se fosse ficção ninguém acreditava. Só que é a mais pura realidade, ainda que um pouco retocada. E aí chega o quarto sub-género do filme: o terror. Pois estes monstros continuam em liberdade. A trabalhar. A fazer as mesmas asneiras. A brincar com o dinheiro dos outros e a vender um saco de gatos mortos como se fosse um tigre raro.
The Big Short 2015
Adam McKay conseguiu pegar num tema que não tem nada de divertido e torná-lo apelativo para um leque alargado de público. Brincou com um assunto sério, explicou a economia como se fizesse sentido, e desmascarou os especialistas como uns incompetentes que, por estarem no lugar certo à hora certa, acabaram a carregar nuns botões que controlam as vidas dos outros. Mas eles não são todo-poderosos. Os poucos com escrúpulos já se afastaram e os que restam são uns aproveitadores sem respeito por ninguém e obcecados pelo dinheiro que nunca parece suficiente. Claro que isto é redutor, mas quando o vilão é assim apresentado e provavelmente todos os espectadores foram vítimas de alguma forma (seja pela sobretaxa, pelo aumento do IVA, ou outro imposto qualquer) como se pode não desejar que eles sejam depenados como uma galinha? Ver "The Big Short" é saborear a vingança contra aquela gente que continua impune e esse bilhete de cinema é o melhor investimento financeiro que se pode fazer. Seja pela aula de economia avançada, ou seja pela sensação de relativo prazer que o sofrimento dos carrascos traz às vítimas. Porque os nossos heróis foram ladrões que roubaram a ladrões e tiveram dois olhos numa terra de cegos.
The Big Short 2015
Sou contra os shorts como instrumento financeiro. Acho ridículo apostar a desvalorização das coisas. Tornam a economia num mero jogo. Mas aqui foram muito bem usados.
Para fixar como lição sobre investimentos bancários: Umas vezes ganha-se, das outras vezes perde-se e no fim, a casa ganha sempre. Ou, como diria o nosso AI preferido, “A strange game. The only winning move is not to play.

Para mais frases inspiradoras, a citação no início do texto tem oito versões. É só refrescar a página.
The Big ShortTítulo Original: "The Big Short" (EUA, 2015)
Realização: Adam McKay
Argumento: Adam McKay, Charles Randolph (baseados no livro de Michael Lewis)
Intérpretes: Steve Carell, Christian Bale, Ryan Gosling, Tracy Letts, Marisa Tomei, Brad Pitt, John Magaro, Finn Wittrock, Rafe Spall, Jeremy Strong, Margot Robbie, Anthony Bourdain, Selena Gomez, Melissa Leo, Karen Gillan,
Música: Nicholas Britell
Fotografia: Barry Ackroyd
Género: Biografia, Drama
Duração: 130 min.
Sítio Oficial: http://www.thebigshortmovie.com

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