9 de agosto de 2018

"Overboard" por Nuno Reis

Overboard
Kate Sullivan (Anna Faris) é empregada doméstica, entregadora de pizzas e estudante de enfermagem. Não é fácil gerir o estudo com dois empregos e três filhas, pelo que um cliente extremamente rico parece uma excelente forma de fazer dinheiro. O problema é que o cliente (Eugenio Derbez) é um homem mimado, atraente, egocêntrico e sem qualquer respeito pelas pessoas. Dá mais despesas a Kate do que lucro. Quando o destino proporciona uma vingança atirando o milionário borda fora, a amiga (Eva Longoria) sugere uma forma de ficar com mais tempo livre. Kate não hesita, só que acaba por gostar mais da situação do que quer admitir.
Overboard
Para toda uma geração Anna Faris será sempre a rapariga dos "Scary Movie""'s, mas a sua carreira é bem mais do que isso. Neste momento tem meia centena de títulos no currículo e se é conhecida por comédias como "The Hot Chick", "The House Bunny" e "The Dictator", também entrou em pérolas inesperadas como "Brokeback Mountain" e "Lost in Translation". Mais recentemente encontrou uma casa na CBS protagonizando a série "Mom onde Allison Janney a ofusca. Nessa série interpreta uma mãe solteira que, tal como a mãe e amigas, é alcoólica em recuperação. Neste filme vamos reencontrar algumas das temáticas como a maternidade e o alcoolismo. Faris continua exactamente nesse registo tão familiar a que nos acostumou em seis temporadas.
Overboard
A comédia está co-protagonizada por Faris e Derbez. Dividir os créditos na comédia não é habitual para a actriz, mas este filme não é a convencional comédia americana. Tem uma forte influência mexicana como os dois actores referidos e o facto de ter diálogos bilingues alternados de forma natural. E por vezes parece uma novela mexicana. Porque o realizador Rob Greenberg tem um passado exclusivo na televisão (nos EUA) e não quis fugir muito ao formato onde se sente confortável. Porque Faris está a repetir a sua grande personagem televisiva (a personalidade é demasiado semelhante para as distinguir). Porque ver Longoria nos leva sempre de volta para os tempos em que "Desperate Housewives" era a série mais popular. Porque Derbez ainda não se afirmou como rosto de cinema. Porque o argumento não arrisca. É estranho ver Overboard" como cinema. Sim, em 1987 esta mesma receita funcionou quando Kurt Russell enganou Goldie Hawn, mas os argumentos podiam ter evoluído. Foi feita a convencional troca de género aos protagonistas, mas não mudou em nada de especial. Um tele-filme teria a mesma ousadia.
Overboard
É um filme para ver num dia quente de Verão, enquanto se desfruta do ar condicionado da sala, e esquecer no dia seguinte.
OverboardTítulo Original: "Overboard" (EUA, 2018)
Realização: Rob Greenberg
Argumento: Bob Fisher, Rob Greenberg, Leslie Dixon
Intérpretes: Eugenio Derbez, Anna Faris, Eva Longoria, John Hannah, Swoosie Kurtz, Mel Rodriguez
Música: Lyle Workman
Fotografia: Michael Barrett
Género: Comédia, Romance
Duração: 112 min.
Sítio Oficial: https://www.overboard.movie

8 de agosto de 2018

"Columbus" por Nuno Reis

Columbus
Aqui está a linha entre o cinema de autor e o cinema para as massas. O formato longa e as estreias comerciais não são abonatórias para este cinema que se costuma esconder nos festivais e em ciclos direccionados a nichos específicos. Um filme com John Cho, estrela de blockbusters na comédia e ficção-científica, e Haley Lu Richardson, que esteve em "Split" e "Edge of Seventeen", pode parecer de grande público, mas os actores, como quaisquer artistas, por vezes surpreendem.nos com algo fora do convencional. Um projecto artístico que não visa o lucro.
Columbus
Kogonada lançou-se no cinema estudando os mestres. Ao fim de alguns documentários/ensaios fez uma longa-metragem. O tema foi a arquitectura e para isso dirigiu-se a Columbus, Indiana. Para nós, europeus, uma localidade americana no meio do nada com menos de 50000 habitantes não terá interesse, mas para os amantes dessa arte é um destino ímpar. Essa terra aparentemente desinteressante é onde se podem encontrar vários dos marcos históricos nacionais (EUA) da arquitectura moderna, incluindo criações de ambos os Saarinen e a Miller House. A arquitectura é o principal motivo de excursão a esta cidade e o cerne da existência dos protagonistas.
Columbus
A jovem Casey sempre viveu na cidade e apaixonou-se pelos seus edifícios. No entanto devido ao estado mental da mãe, não considera seguir as pisadas dos colegas e sair para estudar a fundo. Jin é já um homem feito e não gosta de arquitectura, mas o pai é uma autoridade no tema e ao ser internado quando se preparava para uma palestra em Columbus, obriga-o a ir para lá. Cruzam-se por acaso e Casey vai aproveitar o tempo livre para mostrar a Jin os seus monumentos favoritos. Ela como quem se despede, ele como um turista que ignora o deslumbramento colectivo por aquilo. Enquanto ela lhe abre os olhos para a beleza dos edifícios que os rodeiam, ele fá-la repensar na vida e no futuro.
Columbus
"Columbus" foi escrito, realizado e editado por Kogonada. É uma obra simples e com orçamento reduzido que se foca na componente visual. Mais próximo do ensaio fotográfico do que filme a que estamos acostumados, será um longo momento de tédio para quem está acostumado ao cinema espectáculo. O propósito deste filme é mostrar edifícios e fazer reflectir sobre o que é a beleza, qual a utilidade de um edifício belo, e o significado da vida. Casey tem a vida pela frente, mas não a quer aproveitar. Jin desperdiçou a vida ignorando a beleza. Estas duas personalidades tão contrárias são o fundamental do filme e tudo o mais é um mero acessório para lhes dar um passado e alguma profundidade como seres humanos. O que podia ter sido contado num filme de vinte a trinta minutos que ilustrasse um passeio pela cidade, foi artificialmente transformado num drama de vida espaçado por vários dias. Sim, a mensagem passa, mas é preciso ir a contar com o que se vai ver.
Columbus
A semelhança com o formato documental faz com que Kogonada esteja muito confortável nesta estreia na ficção. O realismo do drama social e familiar é intenso. Graças às performances excelentes de Richardson, Cho, Rory Culkin e Parker Posey. Visualmente cumpre o que se esperaria: mostra edifícios de culto pelos olhos das pessoas normais, que pensam na sua utilidade e reparam nas rachas em vez de visualizarem se é belo e enquadrado no meio envolvente. É um desafio visual interessante que terá como destinatários os amantes da arquitectura e da fotografia. Algumas das suas imagens ficarão gravadas na memória, mas não conseguirá convencer os restantes a novo visionamento.


ColumbusTítulo Original: "Columbus" (EUA, 2017)
Realização: Kogonada
Argumento: Kogonada
Intérpretes: Haley Lu Richardson, John Cho, Parker Posey, Rory Culkin, Michelle Forbes
Música: Hammock
Fotografia: Elisha Christian
Género: Drama
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: https://www.columbusthemovie.com/

30 de julho de 2018

"King of the Belgians" por Nuno Reis

Ao longo das suas mais de vinte edições, Avanca tem sido um festival fora do comum. As pessoas que lá se reúnem podem não ser as mais famosas, mas são, sem excepção, boas pessoas e amam a arte. Aliás, como é um festival para todos os formatos (tem cinema, televisão, vídeo, curtas, longas, animação, documentário, ficção, experimental, conferência académica) tem pessoas que não se encontram noutros festivais. Todas vão a festivais, mas não se cruzam todas em mais nenhum lugar do mundo. Por isso a selecção é sempre diversa e pouco convencional – muitos dos títulos não voltam a ser exibidos em festivais nacionais – mas há sempre grandes pérolas pelo meio. Este ano sem grande surpresa o vencedor foi "King of the Belgians", dos repetentes Peter Brosens e Jessica Woodworth que competiram pela terceira vez no certame Desta vez com uma história tão mirabolante que é credível e tão simples que é fascinante.
O argumento acompanha Duncan Lloyd, um documentarista contratado para fazer um filme sobre o rei Nicholas da Bélgica. Tem permissão para gravar tudo de forma a editar uma peça que evidencie o maravilhoso rei que os Belgas têm a governá-los. No decorrer desse projecto, vai com o monarca para Istanbul onde participará numa cerimónia que demonstre o apoio da Bélgica à adesão turca à a´União Europeia. Só que acontece uma situação delicada no seu país e, como quase simultaneamente houve um problema nas radiações cósmicas, não tem forma de comunicar. O Rei tem de voltar urgentemente a Bruxelas o que a Turquia vê como uma ameaça à integração europeia. Protocolo, patriotismo e desejo de gravar algo extraordinário colidem e não há tempo a perder.
O filme vinha classificado como comédia o que é sempre um pouco suspeito. Esta dupla tem feito documentários e vários filmes sérios. Por isso a mudança brusca de género foi ainda mais surpreendente. Os vários anos de Brosens como documentarista permitem-lhe brincar com o género à vontade. Esta dupla só teve de adicionar algum do peculiar humor belga e retratar as estranhas peripécias que alguém muito azarado teria de enfrentar ao atravessar países menos desenvolvidos do que a capital da Europa. Vai conhecer o melhor da humanidade. Vai perceber o que realmente importa na vida. Vai ser uma pessoa melhor e libertar o governante melhor que todos sabiam que ele podia ser.
A equipa artística é simplesmente perfeita. Estão todos adequados ao papel nos momentos formais e depois são humanos interessantes de conhecer como Lloyd vai provar nas perguntas pertinentes que vai fazendo casualmente. Não era pedido que fossem perfeitos, era pedido que fossem humanos e conseguiram. De uma perspectiva técnica não havia muito a mudar. A câmara nem sempre está num ângulo plausível, mas faz parte das artimanhas do realizador para gravar quem não sabe que está a ser filmado. O argumento é delicioso e tem uma construção meticulosa que os vai despojando de bens materiais enquanto os enriquece de experiências de valor imenso.
Com uma dose de humor inesperada e uma sagacidade extrema sobre os problemas que assolam a Europa do século XXI, “The King of Belgians” foi o claro vencedor em todas as competições de Avanca onde participava. Saber que vem aí uma nova aventura – uma sequela – dá uma enorme vontade de aplaudir. Depois do Rei dos belgas, pode ser Imperador dos europeus, Líder da Humanidade, ou Governante do Universo só para sugerir algumas possibilidades de prosseguir com a história. É um feel good movie feito com mestria, humor e arte. Que mais se podia pedir?



King of the BelgiansTítulo Original: "King of the Belgians" (Bélgica, Bulgária, Países Baixos, 2016)
Realização: Peter Brosens, Jessica Woodworth
Argumento: Peter Brosens, Jessica Woodworth
Intérpretes: Peter Van den Begin, Lucie Debay, Titus De Voogdt, Bruno Georis, Goran Radakovic, Pieter van der Houwen
Fotografia: Ton Peters
Género: Comédia, Drama
Duração: 94 min.
Sítio Oficial: http://kingof.be/

19 de julho de 2018

"Offline" por Nuno Reis

Devo confessar que este filme não me convenceu quando surgiu. Estava a estudar marketing digital e esta obra televisiva sobre o mundo digital pareceu uma péssima ideia. Mais recentemente, enquanto percorria a carreira de Daniela Love, calhou ter uma tarde livre que decidi aproveitar para ver os filmes dela que ainda não conhecia. Seria um longo caminho, pois à data apenas tinha visto três. “Offline” está disponível no site da RTP por isso foi a escolha imediata. A minha única garantia é que também lá veria a Sara Barros Leitão que tem primado nas suas escolhas profissionais. Vê-la como Navegante da Lua no trailer deixou-me muito receoso – todos tomamos decisões das quais nos arrependemos – mas tinha de ser. Estes filmes tendem a desaparecer e quando saísse do site da RTP, talvez não tivesse nova oportunidade de o ver.

Os créditos iniciais e os efeitos escolhidos são logo razão para desligar sem pensar duas vezes. Só que isso seria um erro. O filme rapidamente entre nos eixos e leva-nos numa odisseia de duas horas onde brinca com temas actuais de forma inteligente e expõe o ridículo da sociedade e das micro-tribos que surgem sem ridicularizar ninguém. Claro que entra em estereótipos e exageros, mas é de forma engraçada e não ofensiva.


A narrativa está dividida em várias estórias e tem diferentes focos. Por um lado tem o professor de História que não se rende às tecnologias do dia-a-dia. A vizinha é o oposto. Como tem problemas a socializar, conseguir refugiar-se e agora é tão dependente das tecnologias que não sabe viver doutra forma. Os restantes são os jovens que vemos. Os youtubers a fazerem vídeos ridículos para ganharem visualizações e seguidores. Os jovens que fazem um deslizar no Tinder em vez de saírem para conhecerem pessoas com gostos semelhantes. Pessoas que falam no Facebook em vez de construírem relações sólidas. E depois há o verso da moeda. Essas pessoas no mundo offline. Quem são os verdadeiros amigos? Quem está lá para eles? Quem é realmente o seu grupo?


Foi uma aposta arriscada. Por um lado nasce como a ideia de uma jovem sem currículo. Foi entregue a um realizador sem currículo que não teve medo de fazer um filme com umas invulgares duas horas de duração. Critica a plataforma televisiva sabendo que está condenado a só ser exibido lá. Faz pensar como os outros e sobre nós mesmos. Mostra que no fundo somos todos meros indivíduos perdidos na famosa e enorme aldeia global e que as hiperligações na verdade não nos unem, só nos afastam. Contudo, também diz que com a Internet do nosso lado podemos estar sempre em contacto com quem nos quer bem. Podemos encontrar pessoas com os mesmos gostos. Podemos continuar ligados aos nossos amigos mesmo que do outro lado do mundo. Mas as amizades e os amores, não se fazem online. É preciso trabalhar para isso de corpo e alma, não com ratos e teclados.


O elenco diversificado retrata as várias personagens que o mundo virtual tem. As estrelas oficiais são Iris Cayatte e Duarte Gomes. Ela tem momentos arrepiantes e ele deve ter tido dificuldades em fazer de tão info-excluído, mas a personagem mais incrível é a Sailorspoon. Sara Barros Leitão transfigura-se e dá-nos uma interpretação fiel das aberrações do YouTube, ao mesmo tempo que tira a peruca e é Carla, das pessoas mais sensatas e bondosas que este mundo tem. Seria um exagero dizer que seguiria o canal da Sailor Spoon, mas espreitaria de vez em quando.

É uma obra inteligente e plenamente conseguida. Uma comédia com pés e cabeça, que sabe ser absurda q.b.. Dos melhores filmes que já vi sobre o mundo digital e digno de vários visionamentos. É uma pena que não passe mais vezes na televisão e que o estigma de ser nacional mate a curiosidade dos que mais teriam a aprender.

OfflineTítulo Original: "Offline" (Portugal, 2016)
Realização: Guilherme Trindade
Argumento: Ivone Rodrigues, João Harrington Sena , Guilherme Trindade
Intérpretes: Duarte Gomes, Iris Cayatte, Sara Barros Leitão, Daniela Love, João Nunes Monteiro, João Harrington Sena, Miguel Lemos, Emilia Silvestre, Ana Bustorff
Fotografia: Mário Santos
Género: Comédia
Duração: 127 min.
Sítio Oficial: https://www.facebook.com/OfflineFilme