12 de junho de 2018

"Dear Dictator" por Nuno Reis

Por vezes dá vontade de ver um filminho ligeiro, só para fugir aos blockbusters de Verão que inundam as salas com explosões e são complementados com ruidosos devoradores de pipocas. O trailer de “Coup d‘Etat”/"Dear Dictator" prometia algo ligeiro, para adolescentes, mas ao mesmo tempo tinha Michael Caine - que não caminha para novo e não fará muitos mais filmes – e fazia recordar um pouco os tempos áureos de “Bananas”. Os créditos iniciais ainda subiram mais a expectativa com o regresso de duas figuras proeminentes da minha adolescência, Seth Green e Jason Biggs, que têm feito maioritariamente televisão. Como estava enganado…
A sinopse e o trailer são honestos numa coisa. É sobre uma adolescente revoltada que escreve uma carta a um ditador comunista de um país algures nas Caraíbas por "admirar o seu trabalho". Quando esse ditador tem de fugir após um golpe de estado, refugia-se junto da única pessoa que o admira. O último sítio onde o iriam procurar era no país do capitalismo.
A trama que antecede essa reunião é muito ligeira. O primeiro ato apresenta as personagens e as figuras ridículas de Katie Holmes e Seth Green, em contraste com a seriedade de Jason Biggs, são o que dá algum esperança no que se seguirá. A troca de correspondência entre os inesperados penpals é tão estranha e insípida como se podia imaginar. Alguns eventos adensam a narrativa e começam os conflitos de mentalidade e cultura. A crítica nada subliminar aos regimes comunistas da região torna-se demasiado óbvia (até o lema de Cuba roubaram) e as falhas no argumento sucedem-se. Ver Caine a fazer daquelas cenas de prova de roupa é tão degradante que pensamos como se pode ter sujeitado a tal. E a partir daí só piora. Que tal problemas na edição de som? Sim, o filme tem disso. Gastam dinheiro com um elenco de mais qualidade do que o argumento merecia, contudo, algures na gravação ou pós-produção, esqueceram-se de captar/usar o som. Foi nesse momento que o interesse se foi. Ainda há um par de surpresas menos más na narrativa, mas era demasiado tarde. Nada podia salvar o filme. Até que, vindo de paraquedas, nos chega um final demasiado bom para o que aconteceu nos sessenta minutos anteriores. A segunda situação cómica irresistível nesta tortuosa hora e meia bem esticada.
A dupla de realizadores/argumentistas não é muito conhecida, mas tem uns anos nisto. Já tiveram um argumento a chegar relativamente longe ("Parental Guidance"). Deviam consegui ter mão na equipa. Um filme sem uma grande história, que nem sequer cumpre os mínimos técnicos, está condenado ao esquecimento ainda antes de chegar a vídeo. Por muitas estrelas que reúna, há problemas sem solução. As três únicas partes que funcionaram no filme foi a relação entre mãe e filha (que já vinha de outro filme, apenas mudou de registo para amor-ódio e respostas sempre na ponta da língua), a personagem mínima de Biggs e a tal intervenção final. Alguns pontos-extra podem ser dados pela referência a "Mean Girls", filme que tenta imitar sem sucesso. Mas esses pontos são logo descontados porque uma adolescente falar de um filme com 14 anos como se o conhecesse e a dinâmica escolar ainda fosse a mesma, é muito estranho. "21 Jump Street” soube que a escola mudou na última década. Estes argumentistas puxaram o apogeu da carreira de Mark Waters, sem parar para pensar que não é um filme sobre a sua própria adolescência, mas sobre uma rapariga que ainda não escrevia quando o filme saiu. "Mean Girls" pode ser o mais próximo que tivemos de um filme sobre adolescentes de John Hughes neste século, mas ainda não é um clássico. Pode ser homenageado com cópias, não pode ser referido pelo nome.
Já "Dear Dictator" nem é um bom filme adolescente, nem boa referência a outros filmes de adolescentes, nem propaganda. Quanto a Caine, vamos fingir que o seu último papel foi "Going in Style" e esperar que se redima nos próximos.

Dear DictatorTítulo Original: "Dear Dictator" (EUA, 2017)
Realização: Lisa Addario, Joe Syracuse
Argumento: Lisa Addario, Joe Syracuse
Intérpretes: Odeya Rush, Michael Caine, Katie Holmes, Seth Green, Jason Biggs
Música: Sebastián Kauderer
Fotografia: Wyatt Troll
Género: Comédia
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: N/A

23 de maio de 2018

"The Death of Stalin" por Nuno Reis


A Segunda Guerra Mundial foi uma confusão. Entre alianças e traições, jogos de bastidores e mentiras, a velha definição de bons e maus deixou de se aplicar. Quando a “guerra para acabar com todas as guerras” terminou, muitos dos mais malvados ditadores continuavam em cargos de liderança, outros tinham subido ao poder com essa ajuda, e a ameaça vermelha ocupou metade da Europa. O mundo entrou numa Guerra Fria entre países e blocos, mas isso não impediu os indivíduos de continuarem com os seus esquemas com vista ao lucro pessoal. O caso mais importante foi o processo para suceder a Estaline. Quem tomaria as rédeas do regime que exterminava qualquer oposição? Continuaria com as mortes e os exílios para os gulags na Sibéria? Quando o líder soviético sucumbiu, vários se perfilaram para ficar com o lugar de topo no maior império contínuo do mundo. Beria, Malenkov, Khrushchev, Molotov, Zhukov? Quem ficaria com o lugar? Quem pereceria tentando? Quem seria destruído no processo?
Um livro francês, um realizador escocês, um elenco maioritariamente britânico com americanos e ucranianos à mistura, podia ser uma forte crítica ao regime e uma oportunidade dourada para massacrar a Rússia actual que está numa guerra de palavras com os ingleses. Todavia o que nos é apresentado é uma comédia que dispensa as aulas de História. Basta saber que a Rússia era uma ditadura violenta disfarçada de utopia comunista e que tinham um sistema isolacionista que só um território tão extenso podia sonhar fazer. Depois os acontecimentos sucedem-se. O tráfico de influências dispara. Começam os jogos de cadeiras e quem ficar sem cadeira (ou com a cadeira errada) pagará com a vida. Saber os factos reais até prejudica o espectador pois esta história, de tão incrível que é, parece uma realidade alternativa. Já sabemos quem vai ganhar, mas nada do que vemos indica isso. É tudo uma surpresa completamente louca que parece satirizar o processo hilariamente unânime que Stalin desejava para o seu partido.
Um elenco extremamente competente liderado por Steve Buscemi, com o refúgio cómico em Jeffrey Tambor e uma série de ilustres como Michael Palin, Simon Russell Beale, Paddy Considine, Andrea Riseborough, Rupert Friend, Jason Isaacs e Olga Kurylenko transporta-nos para esta Rússia tão sólida por fora como trémula no seu âmago. É um filme fácil de ver que expõe como poucos a Rússia dos anos 50. Critica pessoas, mentalidades e o regime. Brinca com acontecimentos reais e lembra-nos do que acontece a quem procura o poder absoluto. Terá o seu público de eleição entre os apreciadores da época e os fãs daqueles poucos actores que se excederam para dar vida a figuras imponentes da história recente russa, mas é feito para todos. Podia ter sido mais ambicioso, mas, para a nossa época, já foi uma surpresa ter tido a ousadia típica da propaganda dos anos 60 de mostrar a Rússia como um monstro.
The Death of StalinTítulo Original: "The Death of Stalin" (França, Reino Unido, Bélgica, Canadá, 2017)
Realização: Armando Iannucci
Argumento: Armando Iannucci, David Schneider, Ian Martin, Peter Fellows, Fabien Nury (baseados na obra de Fabien Nury e Thierry Robin)
Intérpretes: Simon Russell Beale, Steve Buscemi, Paddy Considine, Adrian McLoughlin, Michael Palin, Simon Russell Beale, Jeffrey Tambor, Olga Kurylenko, Andrea Riseborough, Jason Isaacs, Rupert Friend
Música: Christopher Willis
Fotografia: Zac Nicholson
Género: Comédia, História
Duração: 107 min.
Sítio Oficial: http://www.deathofstalin-film.de

5 de março de 2018

Distribuição de Oscares por todos os favoritos

A cads ano que passa torna-se mais óbvio o equilíbro entre os vencedores, faltando aqueles títulos que limpam todas as categorias. 2018 não foi ecepção com "The Shape of Water" de Del Toro a ser o grande vencedor com 4 galardões e "Dunkirk" em segundo com 3. "Three Billboards Outside Ebbing, Missouri", "Coco", "BLade Runner 2049" e "Darkest Hour" com 2 completam o pódio.
Os outros principais candidatos, "Get Out", "I, Tonya" e "Call Me By Your Name", ficaram com um cada.

Oscar de Melhor Filme: “The Shape of Water”

Oscar de Melhor Realizador: Guillermo del Toro, “The Shape of Water”

Oscar de Melhor Actor: Gary Oldman, “Darkest Hour”

Oscar de Melhor Actriz: Frances McDormand, “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”

Oscar de Actor Secundário: Sam Rockwell, “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”

Oscar de Actriz Secundária: Allison Janney, “I, Tonya”

Oscar de Argumento Original: “Get Out”

Oscar de Argumento Adaptado: “Call Me by Your Name”

Filme em Língua Não-Inglesa: “Una Mujer Fantástica” (Chile)

Oscar de Melhor Filme de Animação: “Coco”

Oscar de Efeitos Visuais: “Blade Runner 2049”

Oscar de Edição: “Dunkirk”

Oscar de Curta Animada: “Dear Basketball”

Oscar de Curta em Imagem Real: “The Silent Child”

Oscar de Curta Documental: “Heaven Is a Traffic Jam on the 405”

Oscar de Banda Sonora: “The Shape of Water”

Oscar de Melhor Canção: “Remember Me” de “Coco”

Oscar de Design de Produção: “The Shape of Water”

Oscar de Fotografia: “Blade Runner 2049”

Oscar de Guarda-Roupa: “Phantom Thread”

Oscar de Caracterização: “Darkest Hour”

Oscar de Melhor Documentário: “Icarus”

Oscar de Edição de Som: “Dunkirk”

Oscar de Mistura de Som: “Dunkirk”

6 de fevereiro de 2018

Um ano de Cinema Trindade vale 50000 entradas

Em 1913 abriu o Salão Jardim na Baixa do Porto. Com o passar dos anos passou por váios nomes e projectos, tendo sido epecialmente conhecido como Cinema Trindade. Na era em que os cinemas de rua do Porto chegaram a estar limitados ao Teatro do Campo Alegre, depois do fracasso na reabertura do Nun'Álvares, correr novo risco na rebertura do Trindade valeu o investimento. Um dos três pilares do cartão Tripass, recebeu cerca de cinquenta mil pessoas no primeiro ano de actividade das suas duas salas e promete continuar.
Para esta data especial tem um programa de festa com muitas estreias, sessões temáticas e cinema lusófono.
Espreitem o site do Cinema para escolherem o filme e façam-lhe uma visitinha.