6 de abril de 2019

"The Mule" por Nuno Reis

Clint Eastwood tem uma carreira que marcou gerações. Primeiro como actor sucedendo a John Wayne como o epíteto do cowboy, depressa tornando-se também realizador. E que senhor realizador. Muitos filmes e cerca de duas décadas depois venceu os Oscares de Melhor Filme e Melhor Realizador de uma assentada com "Unforgiven". Dois anos depois a Academia juntou-lhes o Irving G. Thalberg pelo seu trabalho como produtor. Talvez achassem que tinha chegado ao final da sua carreira, mas em 2003 presenteou-nos com um fenomenal "Mystic River". Se esse não fosse o ano de Peter Jackson limpar todos os prémios, teria tido um novo ano incrível. Assim teve de esperar mais um ano e voltar a vencer ambas as categorias com "Million Dollar Baby" e mais dois anos para o díptico sobre Iwo Jima (I, II) voltar a ser nomeado. O actor e o realizador eram o que de melhor Hollywood tinha para oferecer.
Quando nos deu "Gran Torino", estava a reformar Dirty Harry e todos os durões que interpretou. Foi um filme súmula que marcou um ponto de viragem e assinalou a despedida. A partir daí começou a fazer filmes tão distintos que nem parecia o mesmo Eastwood. O comum parecia ser o ideal do herói americano. “J. Edgar” sobre o director do FBI, um musical dos “Jersey Boys”, um filme de guerra sobre o "American Sniper" Chris Kyle, o famoso milagre de “Sully” no Hudson, o golpe de sorte dos militares que apanharam o comboio “The 15:17 to Paris” e por último, este sobre o floricultor Earl Stone. O que têm em comum um florista com heróis e lendas? Em parte é porque vive a outra face do sonho americano. Mas principalmente é um aviso de uma pessoa com 90 anos para os mais jovens sobre as prioridades da vida.
Earl cultiva e vende flores premiadas. Está sempre na estrada e à custa disso é divorciado. No dia em que recebe mais um prémio, falta ao segundo casamento da filha. Dez anos depois o seu sonho morreu. As pessoas compram tudo online, inclusive as flores. Quando parte em busca da família que descurou toda a vida, vai dar à festa de noivado da neta que ainda o adora. O seu estado emocional está tão mal como o financeiro pelo que, quando um dos jovens lhe fala de uma oportunidade de continuar na estrada e fazer dinheiro, Earl está interessado. Já não tem raízes que o prendam a um lugar. Vai ter um choque cultural e geracional com os mexicanos do cartel, mas a verdade é que o velhote consegue cumprir a missão. Com o tempo vai atingir um estatuto lendário e à medida que aprende o que tem de fazer para ser uma boa “mula”, vai ensinar aos jovens algumas lições de vida e vai fazendo o Bem para compensar o Mal.
Ao longo da narrativa vamos sendo surpreendidos com um elenco de topo - Dianne Wiest, Taissa Farmiga, Laurence Fishburne, Bradley Cooper, Michael Peña, Andy Garcia – e aos poucos o filme convence-nos que não é só uma partida. Não estamos apenas a ver um floricultor a conduzir horas a fio. Estamos de volta ao Clint cínico de "Gran Torino". Um velho e o seu carro a dizerem ao mundo quais as prioridades que devem tomar para não se arrependerem quando tiverem 90 anos. É um filme simples que se não fosse verídico seria inacreditável e tem a dose certa de comédia para contrabalançar os momentos sérios. Vai em crescendo até ao final e dá vontade de aplaudir.
Não é dos melhores de Eastwood, mas são tantos e tão bons que isso seria pedir muito. A realização não tem nenhum momento de encher o olho, mas no seu todo é incrível como faz parecer simples cenas que, parando para reflectir, são tudo menos isso. Brinca com a tensão como se não fosse nada e nunca compromete a qualidade ou liberta a atenção do espectador. É um filme que funciona por si só e muitos jovens deviam ficar envergonhados por com aquela idade ter tal dedicação ao trabalho, não se poupando a nada. Sem dúvidas um dos melhores filmes a estrear este ano e daqueles que reveremos com prazer muito depois de o realizador nos deixar.



The MuleTítulo Original: "The Mule" (EUA, 2018)
Realização: Clint Eastwood
Argumento: Sam Dolnick, Nick Schenk
Intérpretes: Client Eastwood, Bradley Cooper, Dianne Wiest, Taissa Farmiga, Laurence Fishburne, Michael Peña, Andy Garcia
Música: Arturo Sandoval
Fotografia: Yves Bélanger
Género: Biografia, Drama
Duração: 116 min.
Sítio Oficial: https://www.themulefilm.com

4 de abril de 2019

"Bohemian Rhapsody" por Nuno Reis

Vamos começar o texto com sinceridade. Como muitos dos leitores, diria que os Queen provavelmente são a minha banda favorita. Pelo menos estão no top 4. Não o suficiente para alguma vez ter ido a um concerto, mas com um cardápio musical tão variado que terão uma música perfeita para cada situação.
Também como muitos dos leitores, aos anos que ouvia falar do suposto biopic de Freddy Mercury. Todavia, aprendi a ignorar os rumores. Enquanto o filme não estrear, vamos assumir que não existe. E ainda bem, pois “Bohemian Rhapsody” esteve no limbo anos a fio e até o protagonista foi trocado. Quando finalmente chegou, foi um misto de sentimentos.
A narrativa acompanha a vida e obra de um jovem zoroastriano em Londres. O seu nome é Farrokh, mas mudou-o para Freddy. Numa noite vai ouvir a banda Smile e oferece-se para escrever músicas para eles. Ao saber que acabaram de perder o vocalista, voluntaria-se também para esse cargo. Assim começa uma lenda que se confunde com a história da música do século XX.
Fazer um filme assim é fácil. A banda sonora obrigatória inclui algumas das melhores músicas de sempre. As personagens são conhecidas e adoradas por milhões. A história tem romance, drama, traição e morte. É um conto sobre um rapaz que enfrentou várias dificuldades – emigrante, proveniente de uma minoria quase desconhecida, com um aspecto invulgar, não heterossexual – e não só conseguiu atingir os seus objectivos, como viveu um sonho e se consagrou como um nome incontornável da História. Rami Malek conseguiu um Oscar pelo papel, o que não surpreende visto que é um biopic com tudo o que é preciso. Não foi o vencedor mais justo, mas admite-se que deu tudo para recriar uma figura ímpar.
A escolha de Bryan Singer para realizar o filme foi algo estranha devido à sua completa falta de experiência no meio musical quando tantos realizadores começaram nos videoclips, mas pelo lado pessoal talvez fosse dos que melhor compreendessem Mercury. O filme com que nos presenteia tanto explora a vida pessoal de um homem com muito amor para dar, como as interpretações de um artista sem limites. Mostra-nos quem são os Queen – como se não soubéssemos – e como foram bafejados pela sorte numa carreira com altos e baixos, mas onde o público nunca deixou de os apoiar. As poucas novidades que dá ao público são agradáveis surpresas e ainda que por vezes tome liberdades criativas que roçam o ridículo e o preguiçoso, não é um filme enganador. O essencial da história está lá e justifica a classificação de biografia.
É um bom trabalho de época, mas não traz nada de novo. Visualmente podia ser extraordinário e pelas partes musicais merece ser visto em grande ecrã, mas não se distingue de um concerto. Falando do som, é algo incrível. A música exigia e o filme cumpriu. Desde as experiências caseiras até ao estúdio e depois nos palcos, temos os Queen em tela. Era preciso dar música e é-nos dada. Infelizmente o filme não se aguenta para além disso e alguns dias depois fica esquecido. Tem sido falada uma sequela por o filme não ter tocado em alguns pontos chaves como o concerto em Wembley, mas não faria muito sentido continuar a explorar o tema.


Bohemian RhapsodyTítulo Original: "Bohemian Rhapsody" (EUA, Reino Unido, 2018)
Realização: Bryan Singer
Argumento: Anthony McCarten, Peter Morgan, Anthony McCarten
Intérpretes: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Roger Taylor, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Paul Prenter, Tom Hollander, Mike Myers
Música: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Género: Biografia, Drama, Musical
Duração: 134 min.
Sítio Oficial: https://www.facebook.com/BohemianRhapsodyMovie

2 de abril de 2019

"Stan & Ollie" por Nuno Reis

Perguntando a fãs de cinema qual o mais importante comediante de sempre, a resposta provavelmente estará dividida ente Chaplin e Keaton. Perguntando o grupo, as gerações dividem-se entre Marx e Monty Python. Mas se a pergunta for sobre duplas, apenas uma resposta é válida: Laurel & Hardy ou, como nos acostumamos a dizer, Bucha e Estica. Mesmo quem ousar pensar em Abbott & Costello terá de admitir que simplesmente se colaram ao sucesso da dupla anterior, praticamente repetiram a fórmula, e a fama internacional não se compara.
Foi através dos filmes a preto e branco de Chaplin, Keaton e Laurel & Hardy que o meu pai me foi incutindo o gosto pelo cinema e "Block-Heads" será o VHS de imagem real que mais vezes coloquei a dar. Os bons velhos tempos…
Se não for por mais nada, 2018 será lembrado como o ano em que um biopic conseguiu pôr lágrimas em muita gente adulta. Enquanto "Bohemian Rhapsody" se focou na banda mais influente do século XX e lhes recriou uma carreira conhecida por muitos, "Stan & Ollie" foi mais longe e recriou o pós-carreira da dupla, uma fase quase desconhecida. Os anos dourados seriam o mais fácil de vender, mas a ideia de explicar o porquê do desaparecimento e o que aconteceu aos dois homens mais populares e adorados do mundo era o verdadeiro serviço público.
A culpa foi do dinheiro. Uma mera disputa salarial levou ao afastamento de Stan Laurel da produção. Depois de separados, as carreiras foram declinando. Quando os encontramos passaram 16 anos e vão começar uma digressão nas ilhas britânicas. Acreditam que vão fazer um novo filme sobre Robin Hood, mas, até chegarem a esse ponto, precisam de recordar ao mundo que estão vivos e que são os melhores no que fazem. A dupla que em tempos encheria qualquer sala, começa por ter algumas dificuldades em ter meia plateia nas salas medianas onde estão marcados. Melhor para nós que, assistindo à sua vida privada, temos um duplo espectáculo. Laurel & Hardy não são apenas aquelas figuras na ficção. São uma equipa com décadas de trabalho conjunto e amizade cujas frases se completam e que antecipam os movimentos um do outro num entrosamento sem igual. Mesmo alguns dos gags que usam nas peças têm um fundo de verdade e as grandes frases que decoraram e imortalizaram cinema usam regularmente na vida real. Sem falar dos trejeitos que os fãs deliram ao ver e que a dupla repete longe das câmaras por reflexo. Os actores Stan & Ollie são as personagens Laurel & Hardy.
No próximo parágrafo vem um ligeiro spoiler, mas como se refere a factos reais com meio século, não deve fazer mal.
Mesmo que o filme acabe por saber a pouco – podiam ter feito uma série biográfica em tempo real que eu veria – em pouco mais de hora e meia condensa duas vidas imortais. O passado glorioso e os anos de menos glamour que se seguiram. Recria vários momentos cómicos, revela segredos e faz-nos rir e chorar. É que enquanto Laurel esconde um segredo – o filme não vai avançar – a saúde de Hardy não lhe permite os esforços de quando era jovem. O seu coração atingiu o limite e não pode correr e dançar pelo palco. O médico ordena que pare pela sua vida. Mas ele sabe que as coisas não são assim. O espectáculo tem de continuar. E se outro qualquer se recusaria a participar numa missão suicida, por sorte a única pessoa que precisa para completar o seu desígnio é o seu amigo de sempre, o seu parceiro de aventuras e a outra metade da sua maior criação, Stan. Há apenas dois tipos de pessoas capazes de se sacrificar pelo ofício, os super-heróis e os artistas. Nas últimas semanas temos ouvido muito “Whatever it takes”, mas há muito mais que ouvimos The Show Must Go On. Uns lutam e morrem para salvar vidas. Outros dão tudo de si para dar felicidade. Como uma vida sem felicidade não deve ser vivida, na prática estão todos a salvar vidas. Os artistas são super-heróis. Faz sentido.
Dizem que os homens não choram. Ouvi a música e vi o filme, mas acho que esse direito não pode ser negado a ninguém. Há cenas onde somos autorizados a verter lágrimas e este é o momento mais adequado desde “Toy Story 3”. Laurel & Hardy deixaram-nos há muito, mas a sua obra e legado são imortais. As imitações de John C. Reilly e Steve Coogan são mais do que dignas. São uma viagem a outros tempos e a outras formas de fazer a arte. Um par de talento ímpar que deixou muitas saudades.


Stan & OllieTítulo Original: "Stan & Ollie" (Canadá, EUA, Reino Unido, 2018)
Realização: Jon S. Baird
Argumento: Jeff Pope, 'A.J.' Marriot
Intérpretes: Steve Coogan, John C. Reilly, Shirley Henderson, Nina Arianda, Rufus Jones
Música: Rolfe Kent
Fotografia: Laurie Rose
Género: Biografia, Comédia, Drama
Duração: 98 min.
Sítio Oficial: https://www.stanandollie.co.uk/

5 de janeiro de 2019

Os melhores de 2018 para a OFCS

A Online Film Critics Society anunciou os vencedores dos seus prémios anuais.

"Roma" foi o grande vencedor com quatro prémios, mas juntam-se a ele "First Reformed", "If Beale Street Could Talk", "Hereditary", "Mission Impossible - Fallout" e "Black Panther" com dois prémios cada.

Roma



Melhor Filme
Roma

Melhor Filme de Animação
Spider-Man: Into the Spider-Verse

Melhor Realização
Alfonso Cuarón – Roma

Melhor Actor
Ethan Hawke – First Reformed

Melhor Actriz
Toni Collette – Hereditary

Melhor Actor Secundário
Michael B. Jordan – Black Panther

Melhor Actriz Secundária
Regina King – If Beale Street Could Talk

Melhor Argumento Original
First Reformed – Paul Schrader

Melhor Argumento Adaptado
If Beale Street Could Talk – Barry Jenkins

Melhor Edição
Mission: Impossible – Fallout – Eddie Hamilton

Melhor Fotografia
Roma – Alfonso Cuarón

Melhor Banda Sonora
If Beale Street Could Talk – Nicholas Britell

Melhor Primeira Obra
Ari Aster – Hereditary

Melhor Filme em Língua Não-Inglesa
Roma

Melhor Documentário
Won’t You Be My Neighbor?

Prémios Técnicos
Annihilation – Melhores Efeitos Visuais
Black Panther – Melhor Guarda-Roupa
Mission: Impossible – Fallout Melhores Coordenação de Duplos
A Quiet Place – Melhor Edição de Som
A Star Is Born – Melhores Canções Originais

Prémio de Carreira
Roger Deakins
Spike Lee
Rita Moreno
Robert Redford
Agnès Varda

Prémios Especiais
Ryan Coogler, pelo sucesso de Black Panther com o público e a crítica.
Para a cidade de Oakland, Califórnia por receber os filmes mais social e artisticamente apelativos sobre racismo, “Sorry to Bother You” e “Blindspotting.”