17 de junho de 2017

A propósito do feminismo

Enquanto muitos aclamam o fenómeno "Wonder Woman" que está a trazer as mulheres para um patamar diferente, outros filmes e outras realizadoras combatem há muito tempo pelo mesmo sem que se fale delas.

Ao ler um artigo que em nada tinha a ver com cinema reparei na publicidade a "Heróis da Nação" e enquanto congeminava se deveria rever esse filme ou acabar primeiro com aqueles em atraso, um pequeno detalhe saltou-me à vista. 'Do aclamado realizador de "Uma Outra Educação"'. Então não era da Lone Scherfig? Aliás, não eram os dois da Lone Scherfig? Estive enganado todo este tempo? Não, é uma mulher. Teria ela feito uma operação de mudança de sexo que eu não soubesse? Ei, isso acontece mais do que se pensa! Também não. O que se terá passado? Ah, foi apenas a equipa da NOS que se limitou a traduzir o poster inglês e nem pensou que "director" pudesse ser um cargo feminino.
Uma empresa de cinema (não apenas de distribuição, mas de tudo) não considerar a possibilidade de mulheres fazerem filmes é triste. Não adianta fazer filmes se a nossa sociedade não estiver preparada para a mudança.

E como se isso não bastasse, a citação "Gemma Arterton is perfect" ficou apenas "Gemma está perfeita". Então agora é na base do nome próprio? Se eu não posso ter essas familiaridades com a senhora, não percebo porque poderiam eles. Ah, talvez porque não soubessem. É que se procurarem com atenção, encontram outros dois sites portugueses que perderam uma letra e escreveram Aterton. Mais profissionalismo, gente! Precisamos de muitos filmes assim e que sejam vistos. Não é só despachar como sendo mais um.
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23 de maio de 2017

"Their Finest" por Nuno Reis

Their Finest Banner

Dunkirk. O mundo anseia pelo épico de Nolan sobre um dos momentos mais marcantes da Segunda Guerra Mundial. Mas enquanto isso, uma pequena produção galesa mostra o outro lado do evento.
Their Finest
Gemma Arterton é a estrela maior do filme. A actriz que tem andado um pouco retirada dos filmes que chegam cá e cujas actuações ironicamente têm sido constantes fracassos de bilheteira, era por si só motivo suficiente para se ver o filme, mas aqui tem uma das interpretações que lhe podem valer muito mais do que isso. Sabem, é que é um filme sobre a arte de fazer filmes e isso costuma valer prémios. Mesmo eu que normalmente embirro com esse género de filme manipulador me rendi a esta história. Fica já aqui um alerta: não é uma comédia como tem sido promovido. Há momentos leves e até permite umas boas gargalhadas, mas é também um drama forte, tal como o filme dentro do filme. Pessoas com um coração poderão verter lágrimas e fungar por isso muito cuidado.
Their Finest
A dinamarquesa Lone Scherfig, que nos dá pérolas do cinema inglês como "An Education", volta a pegar num assunto britânico para nos narrar as aventuras de uma jovem galesa durante os bombardeamentos alemães. Estamos numa época fulcral para o desenvolvimento da sociedade actual. Com o recrutamento de todos os homens jovens e capazes, os novos, os velhos, os coxos e as mulheres de todas as idades, tiveram de arregaçar as mangas e pegar nos trabalhos que ficaram vagos para manter o país, a economia e o exército a funcionar. Arterton interpreta Catrin Cole, que foi assim promovida de secretária a escritora no jornal e depois saltou para a equipa do Ministério da Informação. Como era mulher foi enviada entrevistar duas gémeas que teriam contribuído para o resgate dos soldados. Como era criativa, tornou isso numa ideia de filme. Como estava lá, foi convidada a juntar-se à equipa de argumentistas do filme. E depois, trabalhou tanto como qualquer homem para provar que era tão boa ou melhor do que eles e conquistar um lugar que era seu por direito. Não sabe que está a lutar pelas mulheres de todo o mundo, sabe que está a lutar para salvar o que resta da moral britânica numa guerra que estão a perder em todas as frentes.
Their Finest
Para perceber completamente "Their Finest" é fundamental saber tudo sobre esta guerra, desde o mito das cenouras, até às datas de cada batalha. Contudo, o primeiro passo é saber o que foi Dunkirk, a mais negra das noites e a mais clara das alvoradas. Quando a França fez o seu plano de defesa contra a invasão nazi, tinha a certeza que não poderiam atravessar a floresta das Ardenas e portanto foi defender as planícies. Estava enganada, e tal como os aliados venceram devido às Ardenas (Bulge em 1944), em 1940 os aliados foram destruídos nas Ardenas. A infantaria ficou numa situação muito complicada e 400000 homens estavam cercados por um exército com o dobro do tamanho. O vice-almirante Ramsay tinha de salvar esses homens - britânicos, franceses e belgas – ou não teriam condições humanas ou anímicas de continuar. Perdeu 9 dos 10 contra-torpedeiros que enviou, mas salvou os seus homens porque centenas de civis atravessaram o canal da Mancha nos seus pequenos barcos para chegar onde os navios de guerra não chegavam. Podiam não ser os seus vizinhos, amigos, colegas, pais, filhos ou irmãos, podiam até não ser da sua nacionalidade, mas eram os seus soldados pois estavam a lutar pela sua liberdade, e era chegada a hora de retribuírem. A missão de Catrin Cole e dos seus colegas na indústria do cinema é fazerem um filme que diga ao país que cada um pode ser um herói. Que cada acção pode salvar uma vida. Que unidos vencerão.
Their Finest
Cole chega com uma atitude diferente. Acostumada a trabalhar sem ser incomodada por homens, não se deixa menosprezar e com o seu trabalho de qualidade e a sua subtileza, vai carregando o filme contra tudo e contra todos até chegar a bom porto. O seu trabalho estará completo quando o filme tiver cumprido a sua missão. E quão fabuloso é o seu trabalho. Num set de rodagem os problemas pessoais complicam o que já não era um trabalho simples. Os bombardeamentos não ajudam e a qualquer momento podem perder um colega e ter de improvisar sem ele. Ou perder a casa e a família durante a noite e de manhã dizer the show must go on e voltar ao estúdio.
Todos os meses saem novos filmes sobre os heróis de guerra que empunhavam armas. Finalmente alguém diz “basta!” e mostra que o orgulho de uma nação são todos os homens e mulheres que dão aquilo em que são melhores para que juntos possam vencer. Afinal, se gostam de citar erradamente Churchill dizendo "a Cultura é aquilo pelo que estamos a lutar", porque não se deram ao trabalho de mostrar como se lutava na cultura? Não vende bilhetes?
Um filme incrível que sem ser ambicioso surpreende de todas as formas. Tanto na comédia como no drama.


4/5 estrelas
Their FinestTítulo Original: "Their Finest" (Reino Unido, Suécia, 2016)
Realização: Lone Scherfig
Argumento: Gaby Chiappe, Lissa Evans
Intérpretes: Gemma Arterton, Sam Claflin, Bill Nighy, Jack Huston, Paul Ritter, Rachael Stirling
Música: Rachel Portman
Fotografia: Sebastian Blenkov
Género: Comédia, Drama
Duração: 117 min.
Sítio Oficial: https://www.bbc.co.uk/bbcfilms/film/their_finest

16 de novembro de 2016

Filmin chegou a Portugal











A Filmin existe há oito anos em Espanha e tinha uma versão mexicana. Agora a plataforma video-on-demand também tem versão portuguesa e é uma excelente fonte de cinema independente. Os filmes podem ser vistos por browser (computador, tablet, smartphone e brevemente nas Smart TV) e alugados à unidade ou através de uma mensalidade.

A vinda para Portugal teve o apoio do programa Media e o catálogo com 500 filmes – disponíveis na língua original e legendados em Português - inclui ciclos dedicados a Luchino Visconti, Jim Jarmusch e Isabelle Huppert, e foi alimentado por várias pequenas distribuidoras como Alambique Filmes, Midas Filmes, Outsider Filmes, Films4You, O Som e a Fúria, Ukbar Filmes, Terratreme, Rosa Filmes, Fado Filmes...

O lançamento em Portugal inclui a antestreia online no dia 19 de Novembro de um documentário por Werner Herzog, "Lo and Behold, Reveries of the Connected World". Como promoção de lançamento, até ao final do ano dois meses ficam pelo preço de um.

No modelo de mensalidade custa 6,95 euros/mês, sem fidelização obrigatória e ilimitado, e o aluguer à unidade é por 72 horas, com valores entre 1,95 e 3,95 euros.


12 de novembro de 2016

Distribuição cinematográfica decidida pelas pessoas

Se são daquelas pessoas que se queixam da oferta cinematográfica nacional, eis a vossa oportunidade de fazer algo quanto a isso.

O Scope 100 é uma iniciativa europeia de promoção e divulgação do cinema que pretende aprofundar a ligação entre os mais recentes e relevantes filmes independentes e os seus espectadores. A iniciativa envolve 10 países europeus através da colaboração de 10 distribuidoras locais, permitindo ao espectador ter uma última palavra na escolha de um filme que quer ver distribuído em Portugal.

O Scope 100 oferece aos seus membros uma experiência cinematográfica única: a oportunidade de participar na estreia de um filme, desde a sua escolha até ao acompanhamento de todo o processo.

As inscrições estão abertas a qualquer pessoa (maior de 18 anos), e o requisito mais importante é mesmo gostar muito de cinema.

100 Participantes. 7 Filmes. 1 Decisão.

Será constituído um grupo de 100 participantes que irão ter acesso exclusivo a 7 filmes recentes - obras já apresentadas nos principais festivais internacionais, e que representam algumas das mais ambiciosas e arrojadas propostas cinematográficas do ano.

Irão visioná-los, avaliá-los, discuti-los entre si e, no final, seleccionar aquele que julguem merecedor de chegar às salas de cinema nacionais. Os participantes estarão também envolvidos de forma activa na concepção da campanha de promoção, havendo prémios para os principais contributos.

O filme vencedor terá estreia em Março de 2017.

As inscrições são aqui.