9 de julho de 2018

"Every Day" por Nuno Reis

Tudo começou no Youtube. No distante ano de 2012 saiu nos meios online uma mini-série inovadora onde meia centena de pessoas diferentes interpretaram a mesma personagem, Alex. Essa experiência mais tarde inspirou um filme sul-coreano e um livro de David Levithan. Agora é chegada a vez de Hollywood fazer um filme de raiz com a mesma temática.
Quando Justin acorda, sente-se diferente. Vai para a escola, mas depois faz gazeta para passar o dia com Rhiannon, a sua namorada. Têm um dia maravilhoso que Rhiannon diz ter sido o melhor em muito tempo. Contudo, no dia seguinte ele não se lembra de nada. Porque Justin não era ele mesmo. Estava “possuído” por A, uma entidade que diariamente saltita de corpo em corpo de forma involuntária. Sempre da mesma idade aproximada, nunca repetindo pessoas. Por vezes esse corpo tem limitações, outras está tudo perfeito. Desde que foi Justin está apaixonado por Rhiannon e se deseja ter alguma espécie de futuro com ela, vai ter de lhe revelar a sua extraordinária condição.
Pensando no filme de forma isolada, tem tudo o que os amantes do fantástico ligeiro podem desejar. Primeiro é o regresso da célebre Orion Pictures que tantos filmes nos deu no passado. Depois tem este ser que tanto pode ser um demónio, como um espírito ou uma experiência fracassada. Todos os géneros ficam incluídos. E quando percebemos que é apenas um romance adolescente, a desilusão não é muito grande. As possibilidades são imensas com esta temática. Funcionaria como comédia, como drama, como aventura, como romance, como espionagem… foi até demasiado prudente na aproximação escolhida. Aflora alguns temas, mas limita-se ao romance difícil e à questão ética que assola A neste limiar da idade adulta.
Quem cresceu a ver “Quantum Leap” deve ter achado que era uma oportunidade de voltar à ideia de saltitar de corpo em corpo de forma a corrigir as vidas de alguém. Em “Every Day” A faz o oposto. Não lhes estraga o dia, mas também não os torna melhores. Vive um dia de cada vez pensando em si a longo termo. O contacto com Rhiannon vai fazê-lo mudar e, à semelhança do que vimos em “About Time”, aprenderá que tem de viver cada dia como se fosse especial. Quem cai na banalidade de ter um corpo, uma casa, um emprego, uma família, um grupo de amigos, esquece-se como cada dia é precioso. Ele vive em tempo emprestado e a cada dia pode-lhe acontecer algo mágico ou tenebroso que outro veria como normal.
Quanto ao elenco, Angourie Rice é quem tem mais tempo de ecrã e faz um bom trabalho com a personagem frágil que lhe foi confiada. Consegue ter uma evolução e crescer com a personagem. Os seus pais, Maria Bello e Michael Cram, são personagens menores. Entre os vários A, Justin (Justice Smith) e Alex (Owen Teague) são os mais importantes, mas todos cumprem com distinção.
Michael Sucsy que já nos trouxe personagens desalinhadas do seu mundo em “The Vow”, volta a cumprir o que era exigido num filme que desperdiça potencial. Pedia-se mais ao argumento de Jesse Andrews (que nos deu o maravilhoso “Me, Earl and the Dying Girl”). Pedia-se que fosse mais do que tinham sido a série e o livro. Sendo a quarta versão, tinha a obrigação de ser melhor do que todos os outros. Contudo, a culpa não é só da classificação etária visada, mas do próprio formato. É material de tele-filme feito para cinema Seria muito louco acreditar que um regresso ao formato digital e uma exploração do conteúdo interactivo eram o destino perfeito para este tipo de material?


Every DayTítulo Original: "Every Day" (EUA, 2018)
Realização: Michael Sucsy
Argumento: Jesse Andrews (baseado no livro de David Levithan)
Intérpretes: Angourie Rice, Jeni Ross, Justice Smith, Owen Teague, Maria Bello, Michael Cram
Música: Elliott Wheeler
Fotografia: Rogier Stoffers
Género: Drama, Fantástico, Romance
Duração: 97 min.
Sítio Oficial: https://www.facebook.com/EveryDayTheMovie/

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