8 de setembro de 2013

As petições dos sonhos desfeitos

Atingimos o cúmulo da interactividade no cinema. Primeiro eram protestos contra o fim de séries televisivas (a mais recente foi "True Blood"). No mês passado as petições contra o Batffleck. Agora há inclusivamente petições para definir os actores do "50 Shades of Grey". O livro que ninguém admitiu gostar de ler e que foi um sucesso de vendas em todo o mundo, provou que tem bastante gente interessada no filme. O pior é que são muito opinativos. Dizem quem deve ser Grey e a sua vítima submissa (a última proposta foi Matt Bomer e Alexis Bledel), a seguir dirão de que ângulo querem ver a actividade sado-masoquista. Provavelmente a seguir vão pedir uns chicotes e algemas para melhorar a experiência em sala, para a tornar mais autêntica. O ideal seria que falassem todos e se organizassem em pares para fazerem uma recriação das cenas preferidas enquanto o filme passa. Ou então, porque não esquecem o filme e se dedicam apenas ao sexo?
A liberdade de expressão e a internet permitem a muita gente dar a sua opinião. Inclusivamente em temas onde a opinião não interessa, pois vão ver com quem quer que seja escolhido. Podem ameaçar com boicote, mas é filme para ir ver sem grande alarido, discretamente, talvez mesmo sozinho. Quem o boicotasse num dia ia a correr ver noutro. É irresistível.


O maior problema é que todos acham que podem pedir o que quiserem e isso não é bem assim. As relações sexuais são um tema muito sensível. Não podem simplesmente extravasar as vossas loucas fantasias para o filme. Basta ver o problema que Abdellatif Kechiche teve ao obrigar as suas actrizes a fazerem uma cena de sexo para ganhar a Palme d’Or. Podem dizer que elas estavam a ser esquisitas - eu tomaria o lugar de qualquer uma delas com muito gosto - mas filmes com nudez e sexo não se podem encarar levianamente. São situações embaraçosas, são frames que vão ficar eternamente na internet. Um actor tem o direito de recusar o papel e, inclusivamente, de se arrepender depois de o fazer.

Lá porque querem fazer coisas esquisitas com a Alexis ou o Matt ou outro qualquer, não vão pedir isso em filme para todo o mundo ver. Se não conseguem controlar esse desejo, escrevam aos agentes deles e tentem explicar a situação. Talvez não acabem os dois num quarto vermelho, acorrentados, a fazer amor louco como sonharam, mas pode ser que recebam uma fotografia de rosto assinada para se consolarem ou, no máximo, um convite para uma qualquer aparição pública a milhares de quilómetros de distância onde poderão acenar ao longe e exibir cartazes ou mesmo as partes íntimas.

Ganhem juízo e não se metam nas decisões dos estúdios que sabem o que é melhor para todos nós. O filme vai ser com quem eles disseram e nenhuma petição vai mudar isso. Deixem os actores prepararem-se sossegados para os difíceis papéis e acreditem que foram as melhores escolhas possíveis. Aquilo já é complicado sem toda esta pressão.

Para quem não percebeu, fui sarcástico ao longo de grande parte do texto. Mas esta situação começa a ficar incontrolável e receio mais um mundo em que os estúdios obedecem aos caprichos dos espectadores do que um em que vão contra os nossos interesses. Se os estúdios estivessem dispostos a ouvir, perguntavam.

Quanto à ideia dos chicotes que dei no início, se alguma sala quiser aproveitar, estejam à vontade. Até existem uns conjuntos oficiais que podem vender à saída.

3 comentários:

O carteira vazia disse...
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Manuel Reis disse...

Li algures na internet que os salões eróticos têm uma secção de bondage e S&M. Senhoras, se lá quiserem ir, estejam à vontade.

O Narrador Subjectivo disse...

No anime chamam-lhe fan service. Pode ser o futuro do cinema comercial, dado o nível de interactividade possibilitado pelas novas tecnologias e exemplos como esta petição. É ridículo. Como, aliás, tudo o que rodeia esta trilogia.