20 de outubro de 2013

Entrevista ao produtor Samuel Hadida


No passado mês de Junho, o Antestreia teve a oportunidade de entrevistar o produtor Samuel Hadida no NOCTURNA.


Antestreia: Tendo nascido em Casablanca, o que pensa do filme? É um título incontornável do cinema e decerto ouve falar dele constantemente. Mas definiu de alguma forma a sua paixão pelo cinema?
Samuel Hadida: É um filme que estimo muito. Um filme que adoro muito. É um filme que, ao longo da minha juventude em Casablanca, o meu pai costumava mostrar-nos. Também me fez amar o cinema.

A: Olhando para a sua carreira como produtor, vemos grandes filmes desde o início. Foi sorte, foi ter os contactos certos...
SH: Qual deles?
A: Podemos começar por “True Romance”, Killing Zoe”, “Crying Freeman”... começou da melhor forma possível.
SH: Nessa época íamos a Los Angeles em busca de pessoas, de novos talentos. Como me queria tornar produtor, estava à procura de uma nova colheita, um novo tipo de pessoas que tivesse uma voz. [...] O realizador Sheldon Lettich, que estava a dirigir o filme que eu distribuiria, “Lionheart”, com Jean-Claude Van Damme, disse-me “sei que procuras alguém como eu, para escrever argumentos, mas sou demasiado caro para ti. Tens de arranjar gente nova.” Eu concordei que era melhor ideia e então ele apresentou-me, comecei a conhecer pessoas, descobri o Quentin Tarantino e falamos de um filme queria eu fazer. Achei que ele estava a pensar numa boa história e perguntei-lhe como seriam os diálogos, ao que ele diz “eu tenho um argumento, “True Romance”, que ninguém quer fazer. Mas é bom material”. Eu disse que não queria fazer um romance ao que me diz “lê isto”. Li-o e, uau, era fantástico. Portanto avisei-o logo “olha, volto cá daqui a um par de meses. Sei que o filme ainda está com direito de opção, mas se quando voltar ainda não tiverem usado os direitos, eu faço este filme”. Voltei em Fevereiro ou assim, tinham passado uns meses e ninguém tinha pegado no filme, ninguém tinha gostado da estrutura, ou de alguma cosia. E foi assim que começou. Foi um tipo a quem dei uma oportunidade, e com o dinheiro que lhe dei, ele escreveu “Reservoir Dogs”.
Muita gente não tem uma oportunidade de se expressar e em Los Angeles, qualquer lugar a que se vá o empregado é músico, o barman é escritor, e o outro é outra coisa qualquer. Têm de trabalhar, mas estão todos numa comunidade de trabalho e temos de encontrar o tipo certo. Eu tive a sorte de encontrar aquele que tinha uma voz e tinha algo. E Lawrence Bender [co-produtor com Hadida] também estava nesse “Lionheart”, era um figurante. E juntos fizeram “Reservoirs Dogs” que ele [Tarantino] escreveu e enviaram ao Harvey Keitel. Foi tudo acontecendo.
Christophe Gans, quando o conheci, foi muito especial. Foi como o Nocturna, era o meu primeiro festival e fui ver uma sessão dupla ou tripla, do meu filme. E com o meu filme passou essa curta, “Silver Slime”. O meu filme, que apresentava como distribuidor, era o “Evil Dead”, o Sam Raimi veio, fui ter com ele e perguntei quem tinha feito a curta. Fui ter com ele [Gans] e perguntei se ainda estava a estudar. Como estava, disse “quando acabares a escola, gostei do teu filme, vem ter comigo e talvez façamos um filme”. Ele agradeceu, mas queria ser jornalista. Porque em França, François Truffaut e muitos outros, fazem o curso, depois tornam-se jornalistas, depois críticos, e por vezes fazem filmes depois disso. Ele trabalhou na Starfix, uma revista muito importante nos anos 80. Disse-lhe que quando quisesse, para vir ter comigo. Quando ele veio, desenvolvemos uma história, acabamos por fazer “Necronomic” e “Crying Freeman”.
É no momento certo encontrar pessoas que tenham a voz, ou o aspecto, algo. É o talento de um produtor, encontrar as pessoas certas.

A: Tarantino foi rejeitado devido à estrutura singular, e agora serve de referência.
SH: Absolutamente. Mas durante anos, não conseguiu fazer o seu filme e eu não consegui fazer o filme. “True Romance” só se tornou algo concreto, quando o passamos para um estilo linear. Há uma estrutura “True Romance” que é à la Pulp Fiction”, as pessoas morrem, regressam, etc, mas quando Tony Scott o viu - ele aceitou fazer o filme, porque em Sundance Terry Gilliam, Monte Hellman e Tony Scott tinha feito um Sundance Lab onde deram conselhos a Tarantino e quando o viu, quis saber quem tinha os direitos - não percebia o estilo, o estilo pulp Fiction, a marca registrada de Quentin. Por isso passamos o argumento para um formato linear, Quentin também adorou e só precisou deste retoque para ser um filme de Hollywood.

A: Os seus filmes têm uma mistura do cinema europeu com o americano. Tanto faz ser Christophe Gans ou Roger Avary, há sempre algo universal. Isso foi da época ou é algo que procura nos argumentos?
SH: Isso deriva totalmente do meu amor pelo cinema americano. Como disse nasci em Casablanca onde via exclusivamente filmes americanos por isso cresci a ver filmes americanos.Também vi filmes de Bollywood (risos), muitos filmes de Bollywood. Mas o que conhecia melhor eram os filmes americanos, os padrões americanos. Depois quando estava em França, e mesmo querendo fazer cinema francês, achei melhor ganhar experiência nos Estados Unidos e só depois fazer filmes franceses. Mas assim que tocamos aquilo que adoramos, ficamos completamente envolvidos. Eu estava a reunir-me com pessoas que também tinham uma forte ligação. Quando conheci Tarantino, ele conhecia Jean-Luc Godard, a companhia A Band Apart foi chamada assim por causa de um filme francês... e o Roger [Avary] também, eles têm uma ligação à Europa. Quando falam de amor, de cultura, de tudo, falam sobre a Europa. Eu tinha chegado da Europa a procura de uma visão americana e encontrei pessoas que tinham um sentimento e ligação europeus. A ligação foi imediata. Tal como o Christophe Ganz, percebiamos o cinema da mesma forma, tinhamos a mesma natureza, viviamos no mesmo mundo, queriamos trazer o mesmo tipo de história para o ecrã. E também uma cultura europeia quer queriamos usar no cinema americano. Foi um choque de duas culturas que criou uma voz distinta.
Se virmos hoje em dia, este tipo de pessoas são ainda grandes talentos na América. Imensos ingleses, Guillermo Del Toro, vozes de Espanha, vozes da Escandinávia... Temos de gerar o tipo de sentimento que influencie o cinema americano, porque o cinema americano sem foi influenciado por europeus, sempre houve uma mistura. Dizemos que a América é uma mistura de culturas e este é um desses casos. Os europeus chegam trazendo novas ideias, conhecem outras pessoas - americanos que adoram cinema europeu e dizem que o cinema americano é demasiado pipoca - encontramos outra dimensão para o que sentimos e para o que fazemos, para os filmes.

A: Costuma começar o filme pelo argumento.
SH: Sim.
A: Compra um argumento e procura a pessoa certa para realizar. Alguma vez sentiu que havia algo que o dinheiro não pudesse comprar?
SH: Que o dinheiro não possa comprar?
A: Não ter conseguido o realizador certo, ou não ter o actor ideal para o papel...
SH: Não nos podemos colocar numa posição de fazer o filme mais incrível possível. Encontramos uma história que queiramos contar, e depois procuramos os ingredientes. É como cozinhar. Se não tivermos fome, não vamos fazer um porco de 150 quilos. É demasiado. Basta fazer uma tortilla. Depende. Sinto que cada vez mais o extravagante é fazível. Porque antes tinhamos ideias e não as conseguíamos concretizar. Era preciso muito dinheiro. Não se tem todo o dinheiro do mundo, mas é preciso algum dinheiro. Por exemplo, o projecto “Zero X”. Trabalhei no orçamento dele por muito tempo, era uma obra importante. Queriamos fazê-lo como algo extravagante, sci-fi, ciberpunk. Hoje pode ser fácil, mas há quinze anos quando quis adaptar este universo com um toque tão especial entre os comics, é preciso saber como lidar com isso. Organizei uma história que poderia ser feita, pensei no Marco Brambilla porque tinha feito o “Demolition Man” que era fixe, talvez tivesse uma voz. Mas era impossível. Demasiado sexo, demasiada violência, demasiados efeitos especiais, um ciborg que para estar bem tinha de ser como os de hoje, em computador, com efeitos CGI.. Hoje em dia é perfeito para ser feito. Na altura, nem que tivesse todo o dinheiro do mundo poderia fazê-lo. Depende de muitas coisas.
A: É preciso esperar pela altura certa.
SH: Pela altura certa e pelo momento certo para fazer o filme.

A: Uma vez produziu “Rhinoceros Hunting in Budapest” e depois adaptou “Salmon Fishing in Yemen”. O primeiro filme não foi bem recebido, o segundo saiu-se melhor, até teve alguns prémios, mas foi algum processo de redenção ou não há relação?
SH: (apontando para a câmara) O que vou dizer pode ser ouvido pelo Michael Haussman. Como produtor estava à procura de um realizador. E quem eu queria, Michael Haussman, conheci por acaso. Estava à procura de um realizador para fazer o remake de um filme que ia ter lugar em Espanha. por acaso agora estamos em Espanha, mas eu estava à procura de alguém que tivesse a sensibilidade espanhola. Podia ter ido pelo realizador que fez “Jamón, Jamón” [Bigas Luna] que era muito quente, muito sexy para a altura, mas vi um videoclip de Madonna. Michael Haussman tinha acabado de fazer um videoclip para a Madonna com um toureiro numa grande arena. O estilo, a ligação com a música, a edição, os sentimentos, fizeram-me querer trabalhar com aquele realizador.

Conheci o realizador, falamos e ele estava totalmente interessado. Mas achou que seria complicado e quis ver o original. É de Sternberg, “The Devil is a Woman”. Mostrei-lhe o filme, ele gostou e quis escrever o guião. Fomos escrevendo, gostamos e queríamos fazê-lo, mas ele virou-se para mim “Sabes Samuel, tenho um projecto em mim, chama-se ‘Rhinoceros Hunting in Budapest’, tenho de retirar este filme do meu corpo antes de fazer o teu. Podes fazer-me isso?”. Não era o meu filme, era o filme dele, mas concordei. Fiz o filme dele, porque por vezes temos de dar, para receber. Fiz o filme dele, ajudei-o a produzir e financiar esse filme, e fomos fazer “Rhinoceros Hunting in Budapest”. Não foi com a minha influência de produtor, foi com a minha influência de receptor. Para fazer um filme é preciso dar e receber, é preciso falar com pessoas, por vezes não basta esperar por algo. Temos de saber o que pensam disso, temos de estar abertos a sugestões, e ele estava com a ideia de fazer “Rhinoceros Hunting in Budapest”. Eu concordei e talvez tenha sido uma benção porque acabei por não fazer o filme que queria com ele. Ele perdeu o filme que eu ia fazer com ele, mas eu ganhei o filme dele. Por vezes as pessoas têm outros planos. Como produtor temos de encontrar o nosso sítio, para onde vamos, onde ficamos.
A: E “Salmon Fishing” foi uma coincidência?
SH: Foi uma história de que gostamos muito. O livro era romântico, tinha uma história implícita de paz, um mundo em comunidade, tal como eu que vim de Marrocos e conheci pessoas com a benção de se encontrarem e descobrirem uma nova forma de vida... Foi algo que me interessou como produtor. Gostei do filme. Não foi muito bem sucedido com o público americano, mas funcionou na Europa. Ganhou prémios e foi nomeado para Melhor Filme Europeu [para Prémio do Público]. Isso chega-me. Não temos de fazer sempre gore e sangue, e zombies e monstros. Não tem piada fazer sempre isso.

A: Para terminar, sou obrigado a perguntar isto. Sean Bean é chamado de spoiler humano porque tudo onde entra, acaba morto. Mas no entanto no seu filme ele vive.
SH: Isso é porque gosto dele e quero continuar com ele (risos).
A: Mas está a estragar a tradição. Sean Bean tem de morrer. Não o pode manter vivo.
SH: Nunca se sabe se ele morreu ou se continua, para mim ele continua no outro mundo. Não está morto, vagueia pelo submundo. Podemos matá-lo com uma criatura num pesadelo, mas para mim, é um indivíduo que estimamos muito, com uma reacção diferente. Gosto que ele saiba que continua por aqui, algures no submundo, no nevoeiro, mas que pode ser chamado para continuar a trabalhar connosco.
A: Quando lhe dão um argumento deve perguntar “quantas páginas tenho? 10? 20?
SH: Ele preocupa-se com o contar da história. Com a personagem. Se o realizador disser que tem de ser ele [Bean], se der um argumento onde ele morre, talvez ele não aceite. Não sei, talvez até ache divertido. No “Senhor dos Anéis” era real, tinha de morrer, é assim a história. No meu filme, podia matá-lo de forma óbvia. Ou podia dar a ideia de que continua à procura da mulher. Mesmo que “Silent Hill 3” não seja a história dele. Pode ser que seja ele à procura da Radha Mitchell [faz de esposa], mas podemos ir noutra direcção. Dizer que não morreu, que estava a morrer. Ele é o milagre do cinema. Sean Bean tem de morrer, mas não para todos.

Podem ler uma entrevista minha a Hadida sobre a saga Resident Evil na Take.

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