7 de maio de 2010

"Fish Tank" por Nuno Reis


É triste constatar que o cinema britânico tem passado os últimos anos preso ao realismo social. Muitos dos filmes de destaque que essa cinematografia nos traz são de uma ficção mínima. Por exemplo, foi essa a razão do sucesso de "Eden Lake", tão possível que se torna assustador. A propósito deste "Fish Tank" foi frequente no Fantasporto ouvir alunos ou professores a dizer "na minha escola há disto todos os dias" ou pior. Esta realidade está presente na sociedade e isso é preocupante, mas se não fossem realizadores ousados como Andrea Arnold a trazê-las para o ecrã não adiantaria de nada ver o filme.

Mia é uma jovem de mal com o mundo. Tem quinze anos, na fase da estupidez que se chama adolescência, os estudos não são com ela, e tem como passatempo a dança, infernizar a vida da mãe e arreliar Tyler, a irmã mais nova. Tudo isso muda quando a mãe começa a levar o namorado para casa. Connor é imune aos ataques de Mia e até lhe acha alguma piada. Em vez de se impor no lar, tenta conquistar o seu lugar. Seja por as levar a passear, ou emprestar uma câmara de filmar, quer provar que pode ser um amigo se aprenderem a confiar nele. Mia vai acabar por ceder parcialmente e aceitar conselhos para mudar a sua vida, mas sempre à sua maneira (delicadeza não incluída). Vai ganhar auto-confiança o que, aliado ao seu descaramento, pode ser bem mau para os que a rodeiam, um grupo cada vez mais restrito onde além de Connor só aceita Billy ao longo do filme,

História semelhante a tantas outras, tem especial encanto na forma como foi filmada. Arnold foi cuidadosa ao ponto de optar pelo formato 4:3 em vez do convencional panorâmico de cinema, propositadamente para marcar a diferença. Escolheu a sua protagonista pela forma de gritar, ao ouvi-la discutir na via pública com o namorado. Por outro lado contratou o talentoso Michael Fassbender para o papel de Connor, no que se veio a revelar como mais um dos grandes papéis do promissor actor.
Mia e toda a família parecem sofrer o destino dos peixes, presos num aquário, sem saberem o que o mundo lá fora lhes reserva. É um retrato cru de uma sociedade imoral. Mesmo quem aguentar insensível ao desenrolar dos acontecimentos - previsíveis, devo acrescentar - acabará a pensar se Tyler conseguirá evitar a sina familiar. Quando um filme de duas horas com um argumento básico nos prende até ao fim e mexe connosco, é porque a arte ainda funciona.

Título Original: "Fish Tank" (Reino Unido, 2009)
Realização: Andrea Arnold
Argumento: Andrea Arnold
Intérpretes: Katie Jarvis, Michael Fassbender, Harry Treadaway, Rebecca Griffiths
Fotografia: Robbie Ryan
Género: Drama
Duração: 123 min.
Sítio Oficial: http://www.fishtankmovie.com/

2 comentários:

Saga disse...

Não percebo porque achas triste que o cinema britânico se venha debruçando mais sobre o tema do realismo social. Eu acho isso muito bom, é cinema de intervenção, pouco preocupado com o espectáculo ou os sucessos de bilheteira...

Nuno disse...

Ficar preso a um género ou estilo não é bom. Em tempos eram os dramas de época. Este ano é "An Education", "Fish Tank", os bons filmes britânicos chegam em bloco, todos parecidos.
Quando saiu o "Purely Belter" gostei, hoje em dia começa a ser repetitivo.

Se a mensagem for demasiado repetida perde significado. Se todos os filmes forem de intervenção, como podem sobressair?