7 de fevereiro de 2012

Porque a TV parece melhor do que o cinema


Alex Fletcher: It doesn't have to be perfect. Just spit it out. They're just lyrics.
Sophie Fisher: "Just lyrics"?
Alex Fletcher: Lyrics are important. They're just not as important as melody.
Sophie Fisher: I really don't think you get it.
Alex Fletcher: Oh. You look angry. Click your pen.
Sophie Fisher: A melody is like seeing someone for the first time. The physical attraction. Sex.
Alex Fletcher: I so get that.
Sophie Fisher: But then, as you get to know the person, that's the lyrics. Their story. Who they are underneath. It's the combination of the two that makes it magical.


Devem reconhecer este diálogo de “Music and Lyrics”, escrito e realizado por Marc Lawrence. O filme é medíocre, o diálogo não faz jus ao conteúdo, mas a ideia que lá está obriga a parar para pensar. Quando ouvimos música, seja no carro ou no local de trabalho, é apenas ruído de fundo para fazer companhia. Algumas podem-nos fazer figura triste quando parados no trânsito a cantar em plenos pulmões e no local de trabalho podem ajudar a conseguir uns dias de férias para tratamento, mas quantas vezes paramos mesmo para escutar o que é dito? Para isso é que os melómanos querem um bom sistema de som num local sossegado da casa. Quanto à música ao vivo há salas de espectáculo onde é escutada, e recintos onde é ouvida. Não é enquanto se pula na primeira fila que se está a racionalizar e por isso é que há músicas para ouvir com a mente e músicas para libertar energia abanando o capacete. Raramente um tema combina ambas as vertentes. A vertente que está a ganhar é a de consumo imediato, a fast food/junk food musical.
Entre as músicas trauteadas hoje em dia existem algumas com quase um século, bastantes de meados de século, muitas do final do século e imensas de agora. Porque a nossa memória selectiva só guarda o que deve ser guardado e vamos descartando o lixo inconscientemente. E porque as rádios fazem o mesmo, mas ignoremos esse detalhe pois há rádios para todos os gostos e cada um ouve a que mais se adequa à sua forma de ser.

Há mais artes onde ligamos mais à forma que ao conteúdo. Pretendo alertá-los para a possibilidade de a atraente forma ser resultado de cirurgia estética.

Falemos agora de literatura. Os livros existem desde que há memória pois são a fonte das nossas memórias como espécie. Alguém me consegue dizer um mau livro com 50 anos? Não? E com dez? E do ano passado? Pois, também aqui os números aumentam exponencialmente devido à memória selectiva. Apenas os bons perduram, tanto na memória do indivíduo como da espécie. Aqui o papel da editora é mais importante do que na música, mas mesmo que não façam reedições, decerto tentam desfazer-se de stocks cumprindo os objectivos iniciais de difusão.
De forma a chegarmos mais depressa ao objectivo desta composição, façamos um pequeno desvio para visitar um parente da literatura, a banda desenhada. Mesmo quem não gosta de ler decerto já leu bandas desenhadas. A combinação de imagens e texto faz com que se diga muito escrevendo pouco e isso agrada aos leitores. Enquanto as aclamadas grandes obras sejam dirigidas a um público mais maduro, as mais divulgadas são infantis e retalhadas tira a tira para poderem caber num canto do jornal diário. Aqui devido a interesses secundários as mais fracas são servidas gratuitamente e em quantidade e as melhores têm de ser procuradas em lojas especializadas.

Vamos pensar em televisão. Como na bd também há boas e más produções. Tal como no jornal podemos ler uma tira de vez em quando sem sentir a falta do resto da história, aquela série que começa pelas 19h e vemos todos os dias ao chegar a casa, se um dia chegarmos mais tarde e perdermos o episódio não nos preocupa. É menos uma que nos impingem. Para ver uma boa série, das que se acompanha religiosamente, é preciso ter o canal certo e esperar pela hora certa, ou ter daquelas caixas inteligentes que gravam o que queremos ver, ou alugar episódios unidose, ou recorrer a outros sistemas (refiro-me a comprar em DVD).
Não estou com isto a dizer que não gosto de chegar a casa e apanhar o início de um episódio de “House”, “Criminal Minds” ou “Bones”. Tal como antigamente ler uma única tira de “Calvin & Hobbes” bastava para tornar o dia mais divertido, também há algumas séries que nos dão e nós gostamos. Só que infelizmente o formato novela começou a tomar conta dos bons horários e somos forçados a procurar o bom material para o ver.

Quanto ao teatro é impossível escolher o que se vai ter. Com ainda menos rotatividade do que um concerto ao vivo, fica-se completamente dependente do que os agentes culturais acharem que queremos ver. Enquanto peças clássicas como Shakespeare são repetidas constantemente e algumas modernas parecem condenadas à repetir até à exaustão como “Cats” e “Mamma Mia”, a grande maioria das peças cai no esquecimento. Mesmo as pequenas companhias e as peças de escola que poderiam ajudar a chegar a um público mais alargado ou são totalmente originais ou trazem mais do mesmo.

Uma alternativa ao teatro e ao livro é ver a versão para cinema. O Cinema como o livro tem a vantagem de chegar a todos e de ser facilmente trocado permitindo que se vejam dois ou três seguidos sem sair da sala. A não ser que se confie no que seleccionam por nós. A maioria das salas passa o filme que todos querem ver. As televisões repetem esses filmes. Os DVDs são desses mesmos filmes... Só que no cinema, ao contrário das outras artes, o que se parece eternizar são os piores. Como indústria de milhares de milhões os filmes que são distribuídos são os com maior poder económico. São os que têm grandes estúdios e grandes nomes por detrás. Por vezes aparecem bons trabalhos lá no meio, mas desloquem-se a uma grande superfície e vejam a oferta disponível. Quão possível é encontrar só maus filmes no top dez de vendas? E quanto têm de remexer nas promoções até encontrarem algo verdadeiramente excepcional? É como ir ao cinema na sala da vila e ser obrigado a ver o pior filme dos estreados nacionalmente porque as previsões (feitas por quem, pelos próprios distribuidores?) dizem que é o que vai ter mais gente e aquela sala investiu nesse.

Um filme vale por si só. Quem não viu não conhece, compra bilhete/DVD e arrepende-se, mas engrossa os tops de vendas permitindo com esses números ludibriar ainda mais gente num ciclo viciado.
Aí a televisão ganha de longe. Quantas más séries costumam encontrar à venda? Como a maioria do lucro é feito na transmissão em TV e não nos DVD, investem na qualidade constante do produto. Se a série perder o encanto perde seguidores e o DVD não vende. Nem tentam. Se a série se mantiver boa até ao fim, a venda dos DVD está assegurada e será um bónus agradável. Por isso séries de antigamente como “Poirot” rivalizam em vendas com “Prison Break”, “Lost” e “House”, superando fenómenos como “True Blood”. Porque foram obrigados a fazer as coisas bem para vender. Para tentar reduzir isso agora vendem as séries por temporada, ou por semi-temporada, mas o público tem conseguido resistir a isso vendo repetições oferecidas pela panóplia de canais existentes.
É verdade que também desaparecem precocemente excelentes séries, vítimas inocentes na batalha das audiências, mas são falhas numa lei da evolução que nos garante trabalhos para a eternidade. Em TV dos fracos não rezará a história.



Votem em nós por favor.

2 comentários:

ArmPauloFer disse...

Gostei da reflexão. Muitas observações bem apontadas. Contudo, acho que branqueaste um pouco demais a ideia de que a TV tem mais acertado rumo acerca do fazer persistir o que é melhor.

Nisso acho que é muito relativo, pois a tv em regime aberto e que funciona para as audiências, nunca se dá bem com o que terá mais qualidade mas sim o que é popular e produz audiências (normalmente com fórmulas idênticas - e normalmente são essas formulas que desgraçam as próprias séries).
No sentido oposto, os canais fechados (cabo) funcionam mais no sentido oposto, apostando mais em séries com conceitos mais adultos, politicamente incorrectas e também qualitativamente melhores (muitas das vezes recorrendo a elencos com gente do cinema) para oferecer mais valias (lembremos que é em regime pago).

Digo isto porque as séries americanas dos canais abertos, tornam-se são muito parecidas, funcionam em estilo procedural e são orientadas para captar atenções.
As séries dos canais privados (cabo) são mais subversivas, têm menos restrições e arriscam imenso. Normalmente são as melhores apesar de terem menos audiências.
Por exemplo (Fox, NCW) : Glee, CSI's, NCIS, Fringe, House, Grey's Anatomy... repetem-se, os episódios são feitos para resultarem soltos (mantendo um arco narrativo em segundo plano), não abordam o sexo, etc.

Nos canais privados (ex: HBO, AMC), há uma propensão para narrativas continuadas e apresentam temáticas mais sérias e adultas: True Blood, Dexter, Californication, Big Love, Shameless, etc...
Normalmente estas, não recebem tantos seguidores em termos de audiências mas são as que têm os mais fieis (nas abertas o público é mais volátil, tanto vê como não vê e se deixar de ver encerram a série, nem que esteja a meio ou por terminar).

O problema do cinema actual é que a máquina de Hollywood subjugou as regras do que é cinema. Não importa se o produto é bom ou mau desde que o produto de entretenimento tenha capacidade de vender bilhetes/DVDs/alugueres, está tudo bem.
No cinema onde não se preocupa tanto com isso, surgem propostas melhores mas, com público desabituado a ver obras menos mainstream, só uma menor parte lhes presta atenção.
Não tem mal algum ver filmes de ambas as facções. O problema reside em apenas se ver uma só e se ficar em antagonismo cinéfilo. Há espaço para tudo.
Penso eu...

Nuno disse...

Refiro que sabe bem chegar a casa às 19 para um episódio solto de Bones, House ou Criminal Minds. Ora para referir 3 séries qundo tenho um pacote de 40 ou 50 canais significa que mais de 90% é lixo.
As séries estrangeiras para encher felizmente não costumam chegar cá. Para isso bastam as nossas.

Essas séries menores não têm seguidores, têm a audiência daquele canal naquele horário e trocando séries as audências do horário mantêm-se. Algumas séries persistem há 40 anos apenas porque estão lá.
Quanto às séries de canal fechado podem ter menos gente, mas quando os estúdios ameaçam terminar têm de estar preparados para manifestações como nozes, sementes de sésamo e outras técnicas que o público utilize para demonstrar desagrado. Como se costuma dizer, poucos mas fiéis.


No fundo o que queria dizer é para cada um estar consciente que aquilo que vê uma vez é usado para definir o que verá nos anos seguintes. Se não exigirmos qualidade de vez em quando nunca a teremos.