21 de julho de 2014

"Monty Python Live (mostly)" por Nuno Reis



Numa época em que o culto da celebridade venera pessoas famosas por não serem nada, é bom ver que ainda há quem recorde os grandes nomes da nossa cultura. Claro que falar de Eric, Graham, John, Michael ou Terry não terá significado para grande parte da população. Talvez arrisquem dizendo que é uma qualquer boys band, mas a verdade é que este sexteto (pois na verdade há dois Terrys) ganhou tal fama como colectivo, que os indivíduos passaram metade da vida a tentarem criar uma carreira a solo. E desistiram. Pois Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Terry Gilliam e Terry Jones, serão sempre, aquilo que foram desde finais dos anos 60: os Monty Python. E tanto na televisão como no cinema, nunca ninguém conseguirá criar semelhante revolução. Todos os que se aproximaram estavam, na verdade, a copiar o humor radical e absurdo do grupo britânico.

Quarenta e cinco anos depois e já com um falecido entre os seus, os Monty Python decidiram oficializar a coisa e dar um espectáculo de despedida. O palco escolhido era o maior disponível em Inglaterra, a arena O2, mas o facto de terem esgotado todos os bilhetes em menos de um minuto provava que o maior do país não era suficiente. Durante décadas o mundo foi o seu grande palco e seria óbvio encerrar nesse mesmo placo. Por isso, e isto são números aproximados, 60000 pessoas na Europa Continental, outras tantas na América do Norte, e ainda América do Sul, África, Ásia e Oceânia. pagaram bilhete para uma versão digital do mesmo. Se houvesse um cinema na Antárctica, seguramente estaria também a transmitir o ironicamente entitulado “Monty Python Live (Mostly)”. E ao contrário de fenómenos semelhantes feitos de forma recorrente para concertos, quem estava a encher as salas (e muitas estavam esgotadas) não só estava de livre vontade, como certamente fez uma preparação. No meu caso a preparação foi uma viagem de 380 kilómetros de propósito para os ver (a que depressa somei mais dez por no primeiro cinema estar esgotado). No entanto dentro da sala notava-se que o público não precisava de grande trabalho de casa para perceber o que se passava. Era um best of com todos os sketches que foram fazendo. Quem os viu uma vez, não esquece nunca.

Sim, estamos a falar de uma selecção do melhor que os melhores alguma vez fizeram. Uma versão resumida pois podiam ter repetido literalemente tudo o que alguma vez fizeram que ninguém se importaria. As duas horas de espectáculo passaram muito bem, os actores por vezes improvisavam (normalmente mandando piadas uns aos outros, com uma homenagem não prevista ao falecido Chapman e mesmo alguns esquecimentos) o que se percebia pelas dissonâncias na legendagem. A propósito, legendar inglês britânico para inglês britânico só se torna útil quando falam em anagramas, para o resto, escusam de se esforçar.
Por entre os mais memoráveis sketches da televisão (Papagaio Morto, Canção do Lenhador, Clínica de Discussões, Spam...) ainda houve tempo para uns números coreografados, alguns convidados surpresa, muita cantoria, ataques de riso, e, quando tudo parecia terminar fosse pelo cansaço visível no número dos queijos, por já irmos com duas horas de espectáculo, ou porque ninguém se lembrava de muito mais que faltasse mostrar, chegou uma bela música final. Tinhamos assistido a uma produção que, se não fosse última e final, seria facilmente repetida em salas cheias por todo o mundo até estarem todos mortos.

O espectáculo visto via cinema é uma pequena desilusão. Estar numa plateia de vários milhares que reage é completamente diferente de estar numa sala com centenas que apenas ri. Funcionou, mas não é como estar lá.

O encore totalmente inesperado (tirando a contagem decrescente para ele) e que não foi nada ensaiado (apesar de ter aparecido nas cenas making of exibidas antes) era óbvio. A maior dádiva do grupo à Humanidade. Aquela música capaz de animar os piores momentos de alguém. Quando pediram que todos, fossem espectadores do pavilhão ou numa das salas pelo mundo fora, se unissem a eles para esse número, gosto de pensar que as inúmeras guerras da nossa época se interromperam, todas as pessoas deram as mãos e se juntaram ao quase meio milhão de espectadores que, num teórico uníssono, entoaram sem hesitações aquela musiquinha que nos diz para olharmos para o lado bom da vida.

E se virem algum colega com um sorriso invulgar para segunda-feira, é porque ele também lá esteve. Não há motivos para sentirem inveja. Vá, parem o que estão a fazer. Abstraiam-se do lugar onde estão, e juntem-se em coro. Ainda vão muito a tempo e é isso que os Monty Python desejariam.

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