12 de dezembro de 2005

”Broken Flowers” por António Reis




O pesadelo cor-de-rosa de Jarmush


Jim Jarmush tem-se afirmado sem dúvida como o mais interessante dos cineastas independentes norte-americanos, conseguindo o milagre de agradar a um vasto público, de atrair produtoras de top e sobretudo manter o toque de génio que só o cinema independente permite.
Broken Flowers é a combinação do talento de Jarmush com a capacidade histeriónica única de Bill Murray, aqui num registo que não deixa de recordar a sua interpretação em “Lost in Translation”. Se Bill Murray consegue manter o low profile de um actor que não precisa de nada mais para encher o ecrã, o quarteto de figuras femininas com que contracena, consegue o milagre de transformar “Broken Flowers” numa comédia romântica on the road onde a narrativa interpela permanentemente o espectador, o induz em falsas evoluções, o diverte com um diálogo de uma ironia subtil e inteligente, em suma, constroí uma obra-prima onde o pink tem uma função simbólica e metafórica surpreendente. Bill Murray, Don Juan inveterado a quem a namorada mais recente abandonou, recebe uma carta anónima, perfumada e cor-de-rosa de uma paixão antiga a anunciar que tem um filho com vinte anos. A partir daqui com a ajuda de um detective de cordel etíope – Winston – vai partir em demanda dessa namorada perdida vinte anos atrás numa viagem programada ao milímetro pelo metódico Winston. São quatro as candidatas potenciais a ser a mãe do seu pretenso filho e a chave para o mistério está no cor-de-rosa. Think pink.
Um reencontro do personagem de Murray com o seu passado amoroso onde a nostalgia do amor perdido, as recordações nem sempre agradáveis das separações e o inesperado dos rumos que as vidas levaram, fazem desta viagem um filme “de estrada” tão caro ao grande cinema americano Se a narrativa encaixa as peças este puzzle com uma brilhante montagem de história, o diálogo é de uam inteligência e finura na sua estrutura que obrigam o espectador a uma segunda visão para se deliciar com toda a riqueza de pormenores de que ele é capaz. Bill Murray no seu melhor, Sharon Stone sensual como sempre, Jessica Lange a quem o peso da idade o Botox disfarça mal e Tilda Swinton na rudeza selvagem de mulher marcada pelo destino são apenas mais quatro motivos por que é obrigatório ver “Broken Flowers”.





Título Original: “Broken Flowers" (EUA, França, 2005)
Realização: Jim Jarmusch
Intérpretes: Bill Murray, Jeffrey Wright, Julie Delpy, Sharon Stone, Chloe Sevigny, Jessica Lange, Tilda Swinton
Argumento: Jim Jarmusch
Fotografia: Frederick Elmes
Música: Mulatu Astatke
Género: Aventura, Comédia, Drama, Road-movie
Duração: 106 min.
Sítio Oficial: http://brokenflowersmovie.com/

1 comentários:

João disse...

Bela crítica, para um grande filme. A prova de que os bons blogs tem grandes críticos. E o antestreia tem.