25 de março de 2010

"The Imaginarium of Doctor Parnassus" por Nuno Reis

Tony: If Doctor Parnassus can really control people's mind, why isn't he ruling the world,then? Eh? Why bother with this little... side show?
Anton: 'Side show'? He don't... he don't want to rule the world. He wants the world to rule itself!


Tinha uma coisa contra o filme desde o início. Apesar do desejo de Samuel Hadida em ter o filme em competição no Fantas, a distribuidora insistia que estrearia em Fevereiro, antes do festival. Como se veio a constatar, o Fantas passou, por lá passou Hadida, e o filme ainda por estrear. O problema não deve ter sido medo de o mostrar ao público atendendo ao facto de terem feito duas antestreias simultâneas só na zona do Porto. O filme tinha lugar no Fantas e prémios não faltariam, mas agora é tarde.

"Um filme de Heath Leadger e amigos." A frase que melhor descreve o filme é a que o encerra. Esta obra saída da imaginação prodigiosa de Terry Gilliam, algo que não víamos há muitos anos, tem como tema recorrente ter sido o filme que Ledger morreu a fazer. Alguns meses depois da produção ter sido interrompida pela fatídica tragédia, Gilliam voltou à carga para completar o trabalho. Agora não era o seu filme, mas uma homenagem ao actor que dirigia apenas pela segunda vez. Para o substituir convocou um trio de actores que, cada um por si chegaria para encabeçar qualquer blockbuster: Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. Convém relembrar que o filme já contava com Christopher Plummer como protagonista. Para completar a lista, entre os secundários estão os (ainda) quase desconhecidos Andrew Garfield e Lily Cole, o inimitável Verne Troyer e o grande Tom Waits. Por dez segundos também há um quase irreconhecível Peter Stormare em cadeira de rodas.

O espectáculo itinerante do Dr. Parnassus percorre as ruas da Londres moderna. A sua filha Valentina como ninfa, o mais pequeno-do-que-um-anão Percy e o seu assistente Anton vestido de Mercúrio são os supostos chamarizes para um público que não o quer ver. É que Parnassus é imortal e depois de mil anos não sabe ser contemporâneo. Apesar dos problemas profissionais aquilo que realmente o preocupa é o aniversário da filha. É que a imortalidade não é uma característica biológica da espécie, para a conseguir teve de fazer apostas com o Diabo (Mr. Nick). Numa aposta perdida prometeu dar o(a) primogénito(a) quando fizesse 16 anos, e é essa data que se aproxima. Tem três dias para derrotar o diabo no seu próprio jogo e para isso está disposto a usar todas as armas, incluindo um vigarista que encontraram enforcado pelo caminho.

Todo o universo imaginário está magnífico. Tantos mundos criados a partir do nada, tantas surpresas surreais, tantas tentações para o Inferno e obstáculos para a felicidade. A imaginação é deveras prodigiosa e o Imaginarium, quando bem usado uma arma poderosa. Poucos realizadores teriam o à vontade, a coragem e o talento para fazer algo assim. Para Gilliam é perfeitamente natural.
É impossível dissociar o filme da morte. Ledger aparece enforcado, tentam matá-lo por várias vezes, é quase um presságio. Se Gilliam estava preparado para continuar o filme caso Plummer falecesse não sabemos, mas de certeza que não esperava perder o jovem. No entanto a adaptação do argumento está tão bem feita que parecia destinado a ser assim. Quase como se Ledger tivesse morrido para permitir um filme melhor. Como é muito bem dito por Depp, alguns dos que morrem jovens tornam-se imortais, e o jovem Heath pertence a esse restrito grupo.

Título Original: "The Imaginarium of Doctor Parnassus" (Canadá, França, Reino Unido, 2009)
Realização: Terry Gilliam
Argumento: Terry Gilliam e Charles McKeown
Intérpretes: Christopher Plummer, Heath Ledger, Andrew Garfield, Lily Cole, Verne Troyer, Johnny Depp, Jude Law, Colin Farrell
Fotografia: Nicola Pecorini
Música: Jeff Danna, Mychael Danna
Género: Aventura,Fantástico
Duração: 123 min.
Sítio Oficial: http://www.doctorparnassus.com/

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