4 de dezembro de 2011

"50/50" por Nuno Reis

Adam: That doesn't make any sense though. I mean... I don't smoke, I don't drink... I recycle...

É com esta lógica invulgar que o protagonista recebe o chocante resultado dos exames. Foi-lhe diagnosticado um cancro Schwannoma (neuro-fibroma-sarcoma) e como viremos a perceber mais tarde, quanto mais longo for o nome, pior é o cancro. Ninuém gosta de cancro e procuram estranhas justificações para não o merecerem, mas é algo que acontece a todos e no geral Adam teve sorte pois as suas hipóteses são as do título: uns justos cinquenta-cinquenta em que tanto pode viver como morrer, tão simples como o lançar de uma moeda.

Adam (Joseph Gordon-Levitt) quer acreditar na salvação, mas por dentro sofre a incerteza. Kyle (Seth Roger) é mais do estilo carpe diem e quer que ele aproveite a oportunidade para viver depressa e sem pressões. No resto do casting encontramos uma Anjelica Huston melhor do que nunca como mãe galinha, o grande Philip Baker Hall como companheiro de tratamento, e como é uma produção Summit não podiam faltar duas das estrelas crepusculares, mas são as maravilhosas Anna Kendrick e Bryce Dallas Howard e estão ambas magníficas.

Ao contrário do que se possa pensar não é um drama sobre a doença, é antes uma invulgar comédia sobre aproveitar as situações, mesmo que seja a última oportunidade. Com que direito brincam com um tema tão sério? Com o de quem passou por essa experiência pois o argumento foi escrito por um sobrevivente e Seth Rogen repete na ficção o seu papel da realidade. Se o cancro de Will Reiser foi enfrentado com tanto humor não sei, mas aqui tem a dose certa de inevitabilidade e de tragédia, fazendo humor com as situações possíveis. O médico que apresenta diagnósticos de morte sem um pino de emoção, a terapeuta aparentemente inapta, os doentes que insistem em manter o bom humor... talvez sejam apenas sinais de que Adam (e qualquer outro paciente) não pode esperar que tenham pena dele, tem sim de se erguer e lutar. Se não for contra a morte eminente, que seja pela pouca vida que lhe resta.
Não posso revelar o desfecho do filme por isso pensem que é também cinquenta-cinquenta. Ele vive, ele morre? Isso importa? Sim, pois se Adam logo à partida não merecia morrer por reciclar, depois de 90 minutos na companhia dele não o queremos deixar partir. E o momento de angústia em que todos se reúnem à espera da operação une personagens e espectadores na sofrimento da ignorância.

Não é um filme para facturar fortunas ou para conquistar prémios. É o grito de esperança de um sobrevivente e por isso é mais nobre do que uma produção com mero objectivo comercial. Vem dar esperança quer sejam um dez por cento ou um noventa por cento. Terão momentos maus e despedidas custosas, mas nunca arrependimento do que não viveram.
"50/50" vem provar que um filme pode ser feito de forma a captar o espectador independentemente do tema. Não fosse a chegada recente de "Camino" a Portugal e seria o melhor filme do ano sobre doenças terminais. Pode não ser uma grande distinção, mas era o que "50/50" pretendia.

50/50Título Original: "50/50" (EUA, 2011)
Realização: Jonatan Levine
Argumento: Will Reiser
Intérpretes: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendricl, Anjelica Huston, Bryce Dallas Howard, Philip Baker Hall
Música: Michael Giacchino
Fotografia: Terry Stacey
Género: Comédia, Drama
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: http://www.50-50themovie.com/

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