19 de novembro de 2011

Um blog, ou como partilhar opiniões de forma gratuita




Há muito que deixei de escrever com regularidade neste blog. Provavelmente desde 2008, altura em que ainda sentia verdadeiro prazer em fazê-lo. Depois... Bom, depois passou a ser uma obrigação. E, deste modo, o Antestreia ficou órfão de quem o idealizou, mas extremamente bem servido por quem o mantém hoje em dia. Esta memória e reflexão vem a propósito das ideias díspares expostas pelo Miguel Lourenço Pereira no seu blog "Cinema" em relação aos prémios idealizados por Miguel Reis, autor do "Cinema Notebook". Ora, quase nunca perdi a oportunidade de intervir nestas querelas, pelo que o meu afastamento das lides virtuais não se compadece com o silêncio. E aproveito esta divergência para transportar alguns considerandos para a mesa.

Eu criei o Antestreia em Junho de 2003. Quase não havia blogs, muito menos de cinema. E decidi criar o dito, e convidar o Nuno para o projecto, não porque precisasse de um bloco de notas, mas porque gostava de escrever umas coisas, e pensar que outros que não os meus amigos as lessem, as comentassem, e as pusessem em causa. No fundo, o blog era (e ainda é, mas em muito menor escala), um jornal dos pobres. Aliás, estamos a falar de uma altura em que quem escrevesse num blog não se arriscava a ser convidado para opinion maker de jornal ou crítico de revista. E, nesse tempo, e desse modo, entrei na revolução industrial da época.

Mas engane-se quem pensa que o que fazíamos na altura era sequer semelhante ao que se pode fazer hoje. Para mim, que não percebo patavina de programação informática, inserir uma imagem num texto era uma tarefa hercúlea. Aliás, até vos conto mais: quando o Antestreia festejava um ano de existência, o Youtube demoraria mais um ano até ser fundado. E sim, é isso que estão a pensar: era possível ter um blog sem haver vídeos alocados directamente aqui. O que contava, na altura, eram as palavras, que todas juntas iriam formar textos.
Hoje não. Hoje, aqueles que procuram, procuram pirotecnia. O conteúdo não interessa, o que é importante é o lateral, o fogo de artifício. E eu enchi-me disso. Porque, naqueles tempos, éramos poucos, mas razoáveis. Por hoje, há muita tralha fraca, mas que teve também um condão importante na minha abstinência da blogosfera: perceber que, aquilo que escrevia (e escrevo), é provavelmente fraco demais para ser lido por outros. E, de um jornal dos pobres, cairíamos no problema de alguém tropeçar nos meus textos e ter o azar de os ler. E isso assusta-me.
Ora, não o digo como meio de me vitimizar ou aos meus textos. Digo-o porque, quanto mais fui lendo, quantos mais filmes fui vendo, e quanto mais conversas fui tendo, mais pequeno me sentia no que escrevia. E decidi parar.

Mas não deixei de ler, de procurar e de assistir à criação e morte (muitas vezes, nados-mortos) de blogs de cinema. Até porque, e isto escrevo-o sem qualquer tipo de modéstia, a linha editorial (se pomposamente a apelidarmos assim) de 90% dos blogs de cinema que hoje existem, fomos nós que a inventamos na altura. Nós, os que desenvolvemos a moda nos anos de 2002 e 2003. Portanto, as maiores asneiras já nós as tentamos, falhamos nelas, e aprendemos a conviver com a limitação deste formato, que posteriormente também passou a ser um site dos pobres.

E chegamos aos dias de hoje. E à vertigem de todos se mostrarem e de quererem ser conhecidos, e lidos, e de fazer chegar a sua opinião ao conhecimento do maior número de pessoas possíveis. E à questão dos prémios dos melhores blogs de cinema e quejandos. Os prémios são uma consequência natural da massificação de blogs, e de malta que escreve umas coisas nesses espaços. Até porque agora há de tudo: há imagens, e vídeos, e facebook, e twitter, e prémios, e de concursos para bilhetes, e de, parecerias, e entrevistas filmadas, e de uma globalização e urgência em ver tudo, ler tudo e saber tudo, que se torna quase impossível fazer uma triagem do que se aproveita. E não tenhamos ilusões: 90% do que se escreve nestes blogs (incluindo as minhas composições de terceira classe) não valem a ponta de um corno. São textos básicos, com uma limitação de vocabulário impressionante, cujos erros ortográficos foram impedidos pelo corrector ortográfico, e que demonstram um desconhecimento olímpico do que se escreve. E, infelizmente, a qualidade (ou falta dela) é aferida pelo número de visitas e de comentários. Não façamos confusões: eu também gostava de ver os meus textos comentados e o blog visitado. Mas quando se tornou uma obrigação, então terminou o verdadeiro fito da criação do espaço.

E, regressando aos prémios, é bom que existam, que sejam organizados, e aprimorados. Mas, lá está, não deixam de ser fruto da massificação e urgência de reconhecimento. E da necessidade imperiosa de ser lido. Se A ou B faz mais ou menos campanha para vencer, a culpa é desta vida isolada, inculta e de uma solidão preocupante que as redes sociais, os blogs e os chats nos trouxeram. Pessoalmente, a única coisa que me faz ficar satisfeito é ver novos blogs a fazerem coisas copiadas de blogs que, quando surgiram, já o nosso tinha inventado e largado a ideia pouco depois. Por causa dessa pressa de ser lido e da sua opinião ser compreendida pelo comum dos mortais.
Na altura em que nos deixemos de levar tanto a sério, tudo o mais será mais fácil de atingir. E na escrita para um público virtual a premissa também é válida.


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