16 de fevereiro de 2008

"Juno" por António Reis

Este ano os Óscares nas categorias principais estão verdadeiramente influenciados pelo espírito do amor. Seja o amor pela vingança no filme dos Coen, o amor excessivo e romântico em "Expiação", o amor adolescente em "Juno", o amor ao dinheiro em "Haverá Sangue" ou o amor pela verdade em "Michael Clayton". Mas se valem as apostas antes da cerimónia, vão 2 Oscares para Juno pela melhor actriz e melhor argumento - apesar de na concorrência se encontrarem excelentes interpretações femininas e um outro notável argumento que é o de "Lars and the Real Girl", ainda que demasiado marginal para ser aceite pela Academia - porque "Juno" é um dos mais inteligentes, divertidos, ternos e cáusticos filmes dos últimos tempos.
Juno recebe o seu nome da personagem central assim chamada em homenagem à irascível e ciumenta esposa de Zeus, o deus dos deuses do panteão da mitologia grega, ainda que aqui seja o nome romano da dita deusa. Mas é a história possível de uma adolescente que subitamente descobre que está grávida por um amor de verão.

Pensa em interromper a gravidez e só esta primeira ideia que percorre o filme permite de imediato uma descontraída mas séria reflexão sobre as sexualidades modernas e a gravidez indesejada das adolescentes. Só que a opção definitiva de Juno, após leitura atenta dos classificados de jornal, é o de ceder o futuro rebento para adopção a um casal escolhido com critério. Lembremos que a mulher desta família aparentemente perfeita é Jennifer Garner, no papel de uma trintona desesperada por ser mãe. E que o marido (Jason Bateman) é um compositor de publicidade, nostálgico da música dos anos 60 e que recusa aceitar o peso da idade e das responsabilidades.

O argumento e os diálogos são espantosos de ritmo e de alternância dramática, de acutilância nos temas sociais que aborda, de cómico de situação e de diálogo. Em resumo um comédia dramática de costumes onde a sátira prevalece. A responsável pela história e diálogos será Diablo Cody, uma ex-stripper occasional, que se tiver o talento de tirar a roupa como tem de escrever frases arrasadoras é uma artista. E as falas são de uma naturalidade, cadência e qualidade exuberantes. Aliás até demasiado boas para terem sido escritas por uma mulher, que me desculpem as feministas. Apesar de no seu currículo já ter escrito um muito esperado "Jennifer’s Body".

Sobretudo "Juno" precisa de tempo em exibição para que o boca a boca funcione. Porque o seu lançamento feito de forma tão discreta e em tão poucas salas revela falta de ambição da LNK no seu próprio filme. Pode ser que o Óscar lhe dê um empurrão definitivo que acabe por fazer de Juno um sucesso de bilheteira que a sua qualidade merece.




Título Original: "Juno" (Canadá, EUA, Hungria, 2007)
Realização: Jason Reitman
Argumento: Diablo Cody
Intérpretes: Ellen Page, Jennifer Garner, Jason Bateman, Michael Cera
Fotografia: Eric Steelberg
Música: Matt Messina
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 96 min.
Sítio Oficial: http://www.foxsearchlight.com/juno

6 comentários:

Anónimo disse...

"Demasiado boas para terem sido escritas por uma mulher"?!?!?!?!?

Nuno disse...

Também achei este comentário um pouco radical, mas concordo com a ideia.

É com alguma estranheza que vemos uma mulher isolada nos créditos de escrita desta obra-prima. As mulheres não costumam dar cartas na escrita de guiões e o mundo da comédia tem sido dominado por homens.
É provável que seja uma escritora de talento, mas também é possível que haja um escritor fantasma a apoiar Cody.

Anónimo disse...

Pode não ser usual encontrar mulheres em determinados sectores mas dizer que projecto x ou y é demasiado bom para ter sido feito por uma mulher revela umas perspectiva machista e repugnante da sociedade. E nunca, nunca me lembraria de pensar que há um escritor fantasma a apoiá-la só porque é mulher. Enfim, repugnante até porque estava a gostar bastante da crítica até este ponto e adorei Juno.

Ricardo Clara disse...

Eu compreendo que a frase do António Reis seja um pouco forte, mas quem já viu o filme (e sei que já o viu) compreende o que ele quer dizer. Em muitos dos diálogos existem tiradas tão certeiras e intrinsecamente válidas, do ponto de perspectiva masculino, que não parecem escritas por uma mulher.

Isso, da mesma maneira que há determinados argumentos que, por extrairem correctamente pensamentos que só às mulheres toca, que seriam bons demais para serem escritos por homens.

A ideia está fundamentada, e não podemos cair em extremos, de achar que algo que é dito sem ser em tom de louvor a esta ou aquela mulher é machismo e um ataque à sociedade moderna.

Ricardo Clara

Anónimo disse...

Ricardo não sei se foi exactamente isso que ele quiz dizer. A ser assim percebo a ideia.

Agora num tom mais de brincadeira e fora do campo de discussão cinematográfica, e recorrendo a um cliché e generalização, acho que as mulheres conseguem perceber os homens, estes é que são capazes de entrar no nosso mundo e só mesmo com manual de instruções.

Ricardo Clara disse...

Foi exactamnte isto que o António quis dizer. Discutimos o filme no final e foi com esta exacta perspectiva que ele se pronunciou.

De qualquer modo, e continuando o tom de brincadeira, é verdade: os homens conseguem entrar no mundo das mulheres com o livro de instrucções. A maior parte das vezes, deitam incontáveis olhares de soslaio para a capa, convencidos de que o manual que têm não pertence ao modelo que lhes calhou!

Obrigado pelas visitas e comentários!

RC