24 de janeiro de 2015

"Grace of Monaco" por Nuno Reis

Nenhum filme conseguiria conter uma mulher do tamanho do mundo


I would like to be remembered as someone who accomplished useful deeds, and who was a kind and loving person. I would like to leave the memory of a human being with a correct attitude and who did her best to help others.

Era uma vez uma menina chamada Grace. Por influência do tio descobriu os palcos e tornou-se actriz. Pela mão de Hitchcock tornou-se uma lenda. Pelo mão de Rainier tornou-se princesa. Sozinha, tornou-se divina. Não pensemos na realidade dos livros de História, ou nos mitos lançados pela imprensa cor-de-rosa, e olhemos para o conto de fadas que nos é trazido por Olivier Dahan. Estamos perante uma obra feita para marcar o legado da Princesa que a mostra como uma mulher com dúvidas e sujeta a imensa pressão, mas que, com a sua dedicação e os conselheiros certos, será capaz de enfrentar um exército desarmada. Uma farsa clara e assumida que merece o benefício da dúvida.

Como ela muito bem descreve a determinado momento do filme, “guerra é quando duas pessoas deixam de falar e começam a puxar o nariz uma à outra”. França estava em pé de guerra, com a Argélia como epicentro dos problemas. O espírito rebelde de Maio’58 continuava bem vivo e a fuga de impostos para o Mónaco parecia uma ofensa pelo que o governo do presidente e herói gaulês Charles De Gaulle exigiu ao Mónaco que cobrasse impostos pela França. O Príncipe Rainier recusou e a França com meio milhão de quilómetros quadrados ameaçou ocupar o principado de dois. Grace ainda não estava integrada com o seu novo posto e estava a considerar voltar a trabalhar com o realizador inglês quando teve uma chamada de atenção da realidade. O seu novo país estava cercado e se saísse por umas semanas para ser actriz, provavelmente não teria para onde voltar. Por isso, decide preparar-se para o papel mas importante da sua vida e garantir que a queda da independência monegasca não seja no seu tempo de vida. Também George VI esteve numa situação semelhante e teve direito a filme.
Quando Nicole Kidman estava em rodagem, falava-se das semelhanças com o papel que a amiga Naomi Watts tinha conseguido de Princesa Diana. Duas mulheres que saíram da sua zona de conforto para estarem sob escrutínio constante e desviaram o foco dos holofotes de si para os problemas reais das suas épocas. No caso de Grace (reparem que se não uso o apelido, não é por desrespeito, é porque as maiores estrelas não precisam de dois nomes para serem identificadas) o trabalho com os holofotes foi facilitado. Já estava há anos a ser cortejada pela imprensa americana e sabia lidar com fotógrafos e demais buscadores de glamour. Era só uma questão de se tornar uma princesa francófona e monegasca, num processo muito parecido com o de Eliza Doolittle. [Fazendo uma pequena pausa a propósito dessa icónica personagem de “My Fair Lady” (peça que estava em exibição nos palcos da Broadway há vários quando a actriz se tornou princesa), este filme faz lembrar em muito “The Audrey Hepburn Story”: usa o lado humano de uma enorme actriz para nos fazer apaixonar por ela.] Misturando a situação política do protectorado, a relação com o seu príncipe, e a relação com a população, “Grace of Monaco” acaba por depender por completo de Nicole Kidman. As cenas em que não aparece contam-se pelos dedos de uma mão. As em que entra são dominadas por ela. Podia perfeitamente ter feito o filme num gigantesco monólogo de tão vital que é para a narrativa. Por isso era importante a escolha da actriz e apesar de não ser a escolha mais óbvia, acabou por se revelar a mais acertada. Desde o primeiro plano onde está visivelmente cansada, até à gigantesca operação de charme americano lançada contra os franceses, passando por processos de alegria familiar, transformação e traição, é constantemente uma actriz a conter todo o seu potencial. Sabemos que Nicole podia dar mais de si, mas sabemos que Grace estava numa representação mais longa do que qualquer série. Tinha escolhido um papel sem espaço para ensaios ou para descansos. Seria uma princesa sempre e para sempre. Por isso não estaria a princesa na verdade a fazer uma dupla representação, tentando criar uma segunda máscara enquanto ainda envergava a primeira?
Por comparação com a protagonista, todos saem mal na figura com excepção de Frank Langella, tanto actores como pessoas reais. O filme é sobre uma actriz e para uma actriz, ninguém mais podia ser visto, ninguém mais podia ficar com os louros da vitória naquela fria guerra.
Principalmente por isso o filme desilude. Sabemos que a história dela tinha muito mais. Falam da excelente relação com a Cruz Vermelha e com o povo, mas omitem que as mulheres ganharam o direito de voto precisamente nesse período do cerco. Grace do Mónaco foi muito mais do que uma princesa. Se o antes faz parte da lenda de Hollywood, o durante podia ter sido muito melhor explorado. O outro ponto terrível do filme é o final. Já tinha passado de forma aprazível pelos olhos. Tinha fechado como chave de ouro com um monólogo fenomenal que faria qualquer amante do cinema colocar-se perante os tanques franceses para defender esta figura divina. E estraga-se tentando dar um toque artístico na altura em que bastava manter a classe, lançando no ar um desejo de revolta. Até ao fim acreditei que podia gostar do filme, e se terminasse a longa mediania com algo magnífico seria o suficiente. Mas tentar melhorar hora e meia da princesa americana que conquistou a Europa com planos desnecessários, só serve para desvanecer o efeito.
Grace of MonacoTítulo Original: "Grace of Monaco" (Bélgica, EUA, França, Itália, Suíça, 2014)
Realização: Olivier Dahan
Argumento: Arash Amel
Intérpretes: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Parker Posey, Milo Ventimiglia, Paz Vega
Música: Christopher Gunning
Fotografia: Eric Gautier
Género: Biografia, Drama, Romance
Duração: 103 min.
Sítio Oficial: https://www.warnerbros.co.uk/en/movies/grace-of-monaco

11 de janeiro de 2015

Vencedores dos TCN Blog Awards 2014

Mais um ano que passou, mais uma cerimónia dos TCN para a história. Com um número recorde de espectadores (como a entrada era paga antecipadamente, quem reservou foi e teve sala cheia), de prémios (14!) e um número muito baixo de convidados externos, foi uma festa dos bloggers.
Desde os almoços de convívio anteriores até aos jantares after party, deu para conviver com alguns daqueles bloggers/amigos com quem falamos a toda a hora mas que vemos poucas vezes ao ano. Ficou no ar (mais uma vez) a intenção de fazer mais vezes e em mais sítios para reforçar estes laços. Só assim teremos uma blogosfera mais unida e mais forte.


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Rubrica
Posters Caseiros, do blogue Brain-Mixer

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Reportagem/Cobertura
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Entrevista
Entrevista a António-Pedro Vasconcelos, por Rui Alves de Sousa, do blogue Espalha-Factos

Crítica de Cinema
A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2, por Catarina D'Oliveira, do blogue Close-Up

Crítica de Televisão
Band of Brothers, por Hugo Barcelos, do blogue Rick's Cinema

Artigo de Cinema
E o Netflix português?, por Pedro, do blogue CinemaXunga

Artigo de Televisão
Um Artigo Com Bolinha Vermelha: Uma História da Nudez e Sexualidade na Televisão, por Diogo Cardoso, do blogue TVDependente

Novo Blogue
Milímetro a Milímetro

Blogue Colectivo
TVDependente

Blogue Individual
Hoje Vi(vi) um Filme

Blogger do Ano
Rui Alves de Sousa

Prémio Memória
Francisco Mendes, do blogue Pasmos Filtrados

Parabéns a todos os vencedores e em especial aos nomeados.

28 de dezembro de 2014

"Unbroken" por Nuno Reis

Como em qualquer obra biográfica, partirei do princípio que já sabem bastante sobre a personagem e que portanto, não há spoilers. Caso não saibam quem é Louis Zamperini e queiram ser completamente surpreendidos, vejam o filme antes de ler este texto. è provável que não se arrependam e o homem merece. Se preferirem ir informados e pensar no assunto antes de gastar o dinheiro, então leiam.
A definição de herói diz que é uma “pessoa de grande coragem ou autora de grandes feitos”. A mitologia e a ficção estão recheadas de figuras assim que aprendemos a reconhecer. As da vida real costumam ser um pouco menos óbvias e ou demoramos muito a reconhecer, ou demoramos pouco a esquecer. Todavia, há alguns heróis que teimam em permanecer nos livros de História pelas suas variadas acções. Um daqueles que os Estados Unidos mais deviam aplaudir é o seu atleta, soldado, e orador inspiracional, Louis Zamperini.
A vida de Zamperini foi tão completa como a de qualquer criação imaginária que alguém tivesse num dia de muita inspiração. Não só ao nível dos desafios, como na forma como os superou, elevando-se a ele e aos que o rodeavam.


Não me alongarei a falar do homem. Para isso há vários livros escritos pelo próprio e por terceiros. Falando apenas do filme, estamos perante uma obra que nasceu para ser enorme. Escrita pelos irmãos Coen. Realizada por Angelina Jolie. Um elenco jovem e conceituado com nomes como Jack O'Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund e Jai Courtney. Produzido por meia dúzia de pesos pesados de Hollywood com todo o género de backgrounds. Fotografia de Roger Deakins, onze vezes nomeado a Oscar, quase sempre em filmes assim, sobre pessoas. Música do seis vezes nomeado Alexandre Desplat, quatro delas por heróis reais. A posição da família assegurada pelo genro que faz parte da história do cinema, Mick Garris. O que podia correr mal com tal equipa de sonho? Foi mesmo a única coisa que não podiam mudar, a história ser demasiado grande para ser traduzida em filme.
Zamperini teve uma vida completa. O filme foca-se na juventude, ignorando a menos apelativa fase como orador, e mesmo com esse pouco não tem mãos a medir. Notam-se três partes distintas que funcionam quase como filmes independentes, não fossem retratos de uma só personagem.


A narrativa não é cronológica, mas a vida dele pode ser vista assim:

Acto I - o atleta
Italianos recém-chegados à terra das oportunidades, os Zamperini tinham dificuldades de expressão em inglês. Vendo que o irmão se metia em confusões, Pete decidiu pô-lo a fazer desporto. Ao ver que bem corria, levou-o mais longe, tornando-o o mais rápido atleta da cidade, do estado e um corredor olímpico (então o mais jovem na história do país). Alguns dos recordes feitos nos anos 30 permaneceram até aos anos 50.
Esta faceta é usada para dar o estatuto de herói/celebridade ao protagonista. É o retrato do sonho americano que vai ser destruido pela guerra.

Acto II - o soldado
Zamperini não pôde participar nos Olímpicos seguintes por causa da Guerra Mundial que suspenderam a competição e recrutaram todos os jovens fisicamente aptos para um outro tipo de confronto de nações menos pacífico. Como parte da tripulação de um bombardeiro, eram frequentes as missões sobre solo inimigo. Uma delas acabou em tragédia e apenas três soldados sobreviveram à avaria do avião. Zamperini e os colegas vão atravessar uma dura odisseia onde lhes faltam comida, água e esperança.
Será um entrar brusco na vida adulta. Com a morte a espreitar em cada esquina e onde a vontade de viver de cada um é testada ao limite.

Acto III - o prisioneiro
Como todos os tormentos são relativos, nada como ser salvo do alto-mar pelos japoneses e ir parar a um campo de concentração. E logo aquele gerido por um dos que viria a ser listado no top 40 dos piores criminosos de guerra de então, Mutsuhiro "Bird" Watanabe. É aqui que Zamperini se transcende. A sua resiliência e coragem serão uma inspiração para todos e relativirizarão o sofrimento que os seus camaradas de confinamento atravessariam ao seu lado. Pois ninguém sofreu mais do que o atleta olímpico que ele tentaram vergar. E sempre que tentavam, ele ficava ainda mais forte e brilhava mais intensamente, fazendo com que os opressores desesperassem.


Zamperini é isso e muito mais. O filme é incrível a mostrar tudo, faltando apenas uma melhor mistura das diferentes facetas. Foi como ver três bons filmes com a mesma personagem quando na verdade são a mesma história, dois dos acontecimentos foram consecutivos. Se é o mesmo filme, porque me senti como estando a rever “Chariots of Fire”, “Life of Pi” e “The Bridge on the River Kwai” em zapping?
Quando a etapa mais animada da vida de Louis termina, temos uns rápidos ecrãs a contar tudo o que não apareceu em tela. Era um tema mais delicado e não tão fácil de vender pelo que se percebe o cuidado com que se desviam da responsabilidade de o contar. Afinal, já iam com mais de duas horas e o público não ia querer ouvir uma história de redenção e de devoção. Assim pelo menos ficam com um filme sobre realização pessoal, sobre crença, sobre o quanto custa ser um herói e quais as vantagens de tudo isso. Pelo que o filme diz, os EUA renderam-se a este herói. Pelo que o filme não diz, é melhor ir ler o livro para saber tudo o que faltou contar sobre este homem.
UnbrokenTítulo Original: "Unbroken" (EUA, 2014)
Realização: Angelina Jolie
Argumento: Joel e Ethan Coen, Richard LaGravenese, William Nicholson (baseados no livro de Laura Hillenbrand)
Intérpretes: Jack O'Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Takamasa Ishihara, Finn Wittrock, Jai Courtney
Música: Alexandre Desplat
Fotografia: Roger Deakins
Género: Biografia, Drama, Desporto, Guerra
Duração: 137 min.
Sítio Oficial: http://www.unbrokenfilm.com/

27 de dezembro de 2014

Aquele que salva o Natal todos os anos

Young Adult. Será talvez uma das expressões chave neste novo milénio. Foi essa categoria que tornou a leitura novamente fixe. Foram as adaptações desses mesmos livros que deram as novas franquias multi-milionárias ao cinema. É esse o público-alvo de grande parte dos vendedores.
Ao contrário dos géneros tradicionais, esta pseudo-classificação etária pode ser um pouco discriminatória para aqueles que já não encaixam na etiqueta. Quando compramos um livro infantil todos pensam que é para oferecer, mas quando compramos um Young Adult não passamos assim tão incólumes pelos olhares. O mesmo com os bilhetes para o cinema. Experimentem pedir só um bilhete para ir ver as aventuras da Sininho e vejam os olhares que vos lançam! Com os Jogos da Fome pode ainda não ser assim, mas lá chegarão quando tiverem quarenta ou cinquenta. Por isso os Harry Potter tinham capas alternativas mais sóbrias e sérias, para os seus leitores crescidos passarem despercebidos no autocarro. O mesmo não se passa com os novos livros da moda, mas não receiem. Estou aqui para vos descansar e dizer que há um Young Adult eterno que todos admiram por igual e que podem usar como argumento quando vos disserem para lerem algo mais adulto e não quiserem fazer piadas sobre a literatura erótica tão em voga.

Quando se trata de salvar o Natal - repetidas vezes - não há muita gente em quem possam confiar. Uma das opções mais referidas será McClane, mas deveríamos pensar mais no McCallister. Quem? Kevin McCallister. Aquele miúdo que por duas vezes derrotou uma dupla de ladrões com tanto de estúpidos como de preguiçosos.
Se acham que deter terroristas é mais importante, pensem em tudo o que aprenderam com Kevin e aquilo a que ele dá valor.
Aprendemos o significado do Natal, a dar valor à família, a tratar todos com respeito. Aprendemos a defender o que é nosso e o que é das crianças. Aprendemos a dar o que temos e o que somos para ajudar quem precisa. “Home Alone” pode ter sido um filme de enorme sucesso no seu tempo e agora estar na categoria dos filmes obrigatórios de Natal para ver com a família em frente à lareira numa fria tarde de feriado, mas não devemos nunca esquecer a sua mensagem intemporal.
Se removermos a camada mais cómica e observarmos Kevin, é uma criança sozinha em casa (e em Nova Iorque) que é obrigada a crescer para defender o que é seu e o que é correcto. Tem momentos em que é uma criança livre de responsabilidades que come porcarias e esbanja dinheiro, e tem momentos em que é o mais parecido com ser “o homem certo no local certo à hora certa”, faltando apenas a parte do homem. Como bem recordamos naquela icónica cena, ainda nem barba tem. Por isso é que deixa o lado infantil de lado para se transformar no herói que é preciso nesse momento. Olhando para o filme vinte e quatro anos depois, Kevin continua a ter as qualidades que eu quero ter quando for grande. Porque aquele criança é mais homem que todos os adultos que por aí andam. E os “Home Alone” são os únicos filmes de Natal que toda a família pode ver todos os anos. Nem são demasiado violentos para os mais novos (os acidentes são todos cartoonizados para que não pareçam graves) nem são um pesadelo ao ver pela vigésima vez para os adultos (vocês sabem, já devem ter visto umas cinquenta vezes cada ao longo dos anos).