2 de maio de 2015

"Big Eyes" por Nuno Reis

Quem tem acompanhado a carreira de Tim Burton é capaz de o associar imediatamente ao fantástico, a nomes como Johnny Depp e Helena Bonham Carter e ao padrão zebrado entre vários tons escuros. Pois "Big Eyes" é quase a antítese de tudo isso. Na verdade há uma camisola às riscas pretas e brancas. E há algumas breves cenas ligeiramente psicadélicas. E participam nomes habituais como Danny Elfman e Colleen Atwood. Mas tirando isso é um filme com um pouco de romance, um pouco de comédia, muito cor-de-rosa... Surpreendidos? Não estejam. Afinal, Burton é senhor para fazer o que lhe der na cabeça e neste caso, convinha-lhe ser brando na introdução de uma história tão negra e fascinante como aquelas a que nos tem acostumado. O filme não era para ser realizado por ele, mas como era um velho admirador de Margaret Keane, depressa assumiu as rédeas do projecto, para nossa satisfação.
"Big Eyes" é a história de uma mulher numa altura em que não era fácil ser mulher, o final dos anos 50. Margaret fugiu de um marido abusivo para a vibrante San Francisco, terra de artistas e liberdade cultural. A vida era difícil, mas tinha de sustentar a filha e por isso trabalhou como decoradora de mobília. Nos dias livres, era artista de rua, criando caricaturas de quem passasse. Foi aí que conheceu Walter Keane, um pintor bon vivant e entusiasmado com tudo na vida. Depressa casaram e a iniciativa de Keane colocou-os em exposição num clube da moda onde depressa começaram a vender. Só que como ambos assinavam Keane, ele foi ficando com o crédito pela obra dela, e ela, menos dotada para a promoção, deixou-o continuar na mentira. Os anos foram passando e a mentira foi crescendo tão depressa como a fama. Margaret quis acabar com a farsa e revelar-se ao mundo, mas Walter não o permitia.
Sendo um filme de Burton e sobre pintura, a cor é de enorme importância. Tentei fixar as mais relevantes, perdoem qualquer falha ou imprecisão. A primeira cor no filme é o verde. Quando Margaret deixa o primeiro marido e a moradia nos subúrbios, partindo rumo ao desconhecido. Simboliza a felicidade, liberdade e esperança. Depois surge o rosa, o mundo de sonho para onde Walter a levou. Mas é um rosa forçado, enjoativo, a fazer recordar “Charlie and the Chocolate Factory” e os seus excessos de cor. As cores vão perdendo importância e os quadros começam a surgir. Cada um com a sua história. Cada um com uma nova mentira. O império vai crescendo, o dinheiro vai entrando, Walter está delirante e Margaret destroçada. Lentamente, a cor dominante é o amarelo. Tal como naquele quadro da rapariga loira com o gato com o qual as mentiras começaram. É a cor da dor, da traição, do fogo. Finalmente vem o azul, como o céu e o mar do Havai. Cor da liberdade. Cor de uma nova fase de progresso como Picasso poderia dizer. Todas essas cores podem ser vistas em vários adereços, mas o fundamental é o vestido da filha, Jane. Ela é o farol que guia Margaret e a cor que enverga diz muito sobre o estado de espírito de ambas. O branco normalmente é um novo começo.
No elenco temos os inconfundíveis olhos de Amy Adams, uma das actrizes mais adoradas de Hollywood e que nos tem trazido inúmeras interpretações de pessoas reais com quem simpatizamos imediatamente. A forma como equilibra emoções como o medo e a felicidade são fabulosas e como normalmente interpreta personagens frágeis tem sempre o carinho e apoio do espectador. Quase do lado oposto estava Christoph Waltz, um dos nossos vilões favoritos. Mesmo quando é mau gostamos dele, por isso não é nada difícil gostar dele quando aparece bem-disposto a recordar o tempo que viveu em Paris. A sua progressão para um manipulador agressivo é gradual e com momentos bipolares, algo que só grandes actores conseguiriam fazer e Waltz faz brilhantemente. Mesmo depois de tudo revelado e de sabermos quão perigoso é, ainda não é fácil antipatizar com ele. A acompanhar a dupla estão Delaney Raye e Madeleine Arthur, respetivamente como a pequena e a não tão pequena Jane, criança entediada, maravilhada ou aterrorizada. Há ainda um momento do grande Terence Stamp, convidado de luxo de Burton para desestabilizar a mentira estabelecida. Com actores assim, é tão fácil fazer grandes filmes.
Sintetizando, "Big Eyes" é a escolha perfeita para quem não apreciar o estilo único de Burton. A sua história simples e já conhecida, assim como os rostos conhecidos em personagens simpáticas, são uma excelente forma de ficar a conhecer o realizador mais ousado da actualidade. Depois poderão passar para “Big Fish” e seguir por aí em diante até aos títulos mais pesados. Para quem não for estranho ao Burton mais estranho, será uma surpresa ver este lado “normal” dele (ainda que o cineasta ocasionalmente aproveite para nos surpreender com uns olhos grandes). É preciso ver sem pensar que é de Burton, mas seguramente depressa ficarão arrebatados e esse exercício será tão natural como perder a noção da respiração.
Big EyesTítulo Original: "Big Eyes" (Canadá, EUA, 2014)
Realização: Tim Burton
Argumento: Scott Alexander, Larry Karaszewski
Intérpretes: Amy Adams, Christoph Waltz, Danny Huston, Kirsten Ritter, Terence Stamp, Jason Schwartzman, Delaney Raye, Madeleine Arthur
Música: Danny Elfman
Fotografia: Bruno Delbonnel
Género: Biografia,Drama
Duração: 106 min.
Sítio Oficial: http://bigeyesfilm.com/

22 de abril de 2015

"Paddington" por Nuno Reis

Nada é tão fofo com um urso trapalhão e educado

Se não conhecem o urso Paddinton, perguntem aos vossos pais. Avós? Decerto alguém se lembrará deste ursinho que há muitos anos era uma figura tão recorrente no merchadising infantil como hoje em dia será uma Kitty, Violeta ou Spider-Man, especialmente em terras britânicas. Com duas dezenas de livros publicados desde 1958 e traduzido para mais países do que seria de esperar, as desaventuras do urso peruano atingiram um estatuto quase lendário. É incrível como a adaptação a cinema demorou tanto. Verdade seja dita, as adaptações para televisão foram várias e espaçadas, tendo tido séries nas décadas de 70, 80 e 90. Este filme tem sido comentado desde 2007 e só em 2014 estreou (2015 para Portugal) o que revela a preocupação que tinham em fazer algo em condições. Se há coisas com que não se brinca, é o urso favorito de milhões.
Esta versão cinematográfica foi entregue ao relativamente desconhecido Paul King, que co-escreveu o argumento com Hamish McColl, outro desconhecido (escreveu as sequelas dos filmes de Rowan Atkinson). O elenco vocal era muito forte, com Imelda Staunton, Michael Gambon e Ben Whishaw, complementado pela presença física de Sally Hawkins e Hugh Bonneville como o casal Brown. O pequeno cameo de Jim Broadbent desilude, mas depressa esquecemos esse detalhe e nos perdemos de riso.
Para o filme a inspiração não foi uma qualquer história entre a panóplia existente. Nem sequer um livro pois são histórias muito pequenas e independentes que nunca dariam uma longa metragem. Em vez disso usaram as primeiras quatro histórias do primeiro livro para o apresentarem, juntaram uma explicação razoável para a sua origem, arranjaram uma trama empolgante para ficar suficientemente longo, e usando (penso que) apenas mais dois contos de Paddigton, deram-nos uma história com patas e cabeça.
A origem de Paddington é tão incrível como esperaríamos para um urso vindo do Peru que vai parar a uma estação no meio de Londres. Como não podia deixar de ser, explica a sua obsessão por marmelada, de onde vem o icónico chapéu e porque se deve guardar sempre uma sandes para as emergências. Absolutamente delicioso. A aventura londrina com os Brown (diferentes dos que conhecemos nos livros) está bem construída para filme infantil. As participações de Nicole Kidman como a malvada taxidermista que quer um urso na colecção, de Peter Capaldi como o metediço vizinho Mr. Curry, ou de Julie Walters como Mrs. Bird, podem ser um chamariz para o público mais velho, mas no fim o que vai interessar é o que pensa a vossa criança interior. O filme "Paddington" é basicamente o urso Paddington e ele vai usar todas as armas para agarrar os corações e os apertar com muita força. Meio século depois o seu jeito trapalhão continua a ser irresistível.
Do ponto de vista técnico a animação CGI já nos deu filmes semelhantes. Basta recordar "Ted" que está quase de volta e onde o charme de um urso também foi eficaz, apesar de não ter a mesma educação do primo peruano. Se querem fazer uma sequela para "Paddington", estão à vontade. Pela amostra deste primeiro filme, será muito difícil conseguirem fazer algo que não seja adorado pelos pais e (talvez) também pelos filhos. Não se esqueçam é da primeira regra e "Por favor tomem conta deste ursinho. Obrigado."


PaddintonTítulo Original: "Paddinton" (França, Reino Unido, 2014)
Realização: Paul King
Argumento: Paul King, Hamish McColl (baseados no livros de Michael Bond)
Intérpretes: Ben Whishaw, Sally Hawkins, Hugh Bonneville, Nicole Kidman, Imelda Staunton, Michael Gambon, Julie Walters, Peter Capaldi
Música: Nick Urata
Fotografia: Erik Wilson
Género: Comédia, Família
Duração: 95 min.
Sítio Oficial: http://www.paddington.com/

"The Rewrite" por Nuno Reis

recomeçar é preciso



Uma viagem de mil kilómetros começa com um passo. Da mesma forma um texto começa com uma palavra. Mas dizer que um texto chega à versão final com essa palavra - ou mesmo alguma palavra da versão original - é muito arriscado. Uma parte fundamental do processo criativo é a reescrita. Não deve ser usada de forma leviana, mas essa derradeira arma nunca pode ser esquecida. Este filme não chega a tais extremos. Nem sequer dá umas dicas sobre como retocar textos para os melhorar. Dá uma noções básicas de escrita de argumento e tenta explicar como se pode dar um novo rumo à vida.
Hugh Grant é uma figura única do cinema comteporâneo. Normalmente faz sempre de sacana com um fundinho de bom e todos se derretem. Em "The Rewrite" não foge a esse modelo. Muito próximo do que vimos há uns anos em "Music and Lyrics" (do memso argumentista/realizador) onde fazia de músico com um grande passado e nenhum presente, agora é um one hit screenwriter. Keith Michaels há uma dúzia de anos escreveu um filme que se tornou o favorito de milhões. Entretanto escreveu outros dois que foram fracassos de crítica e bilheteira, e hoje em dia não tem sequer o suficiente para pagar as contas. Por isso aceita um degradante - diz ele - emprego numa universidade como professor de Escrita de Argumento no qual pretende fazer o mínimo possível. Ao chegar começa logo bem, a engatar estudantes e a escolher os seus pupilos com base no aspecto, em vez avaliar os argumentos que ele enviaram. Ainda nesse dia, consegue entrar em conflito com uma colega ao insultar o feminismo e Jane Austen de uma vez. Se virem o trailer ficam logo com uma ideia de como o filme é. E como em imensos filmes antes destes, Marisa Tomei entra em cena para ajudar um homem na crise de meia idade a descobrir os prazeres e o significado da vida.
Ora se Grant e Tomei estão iguais ao que os temos visto fazer tantas vezes, o melhor será procurar quem faz coisas diferentes, como J. K. Simmons, por exemplo. Acostumou-nos ao seu lado mais sério e está divertido como em "Easy A". É que não há muito mais a destacar no filme. A não ser que seja fútil como Keith Michaels e comente a qualidade das jovens actrizes escolhidas a dedo para encher a turma, como Olivia Luccardi, Bella Heathcote, Annie Q., Emily Morden e mesmo as discretas Maggie Geha e Aja Naomi King (cujas falas se contam pelos dedos de uma mão), todas elas mulheres deslumbrantes.
Desde que não sejam estudiosos de cinema e tenham uma boa bagagem de títulos mainstream, vão conseguir apreciar o contexto de "The Rewrite". Se souberem de menos não vão apanhar todas as referências, se souberem demasiado vão achar que é demasiado superficial. A mesma sensação que os alunos estarão a ter ouvindo aquele professor que idolatram como argumentista, mas os desilude completamente enquanto pessoa.
Claro que há castigos e redenções. Mau era se um filme sobre argumentos não seguia a fórmula à risca. Podia ter sido um pouco mais óbvio para servir de exemplo ao que estava a demonstrar, ainda que isso fosse, talvez, cansativo. Mais uma vez, depende da bagagem de cada um reconhecer o que acontece na tela.
Será uma boa escolha para ver em várias etapas da vida. Até para ver múltiplas vezes caso passe na televisão. Mas não será uma prioridade para quem tem de escolher entre dezenas de filmes em cartaz a não ser que adorem algum dos protagonistas.
The RewriteTítulo Original: "The Rewrite" (EUA, 2014)
Realização: Marc Lawrence
Argumento: Marc Lawrence
Intérpretes: Hugh Grant, Marisa Tomei, J. K. Simmons, Allison Janney, Chris Elliott
Música: Clyde Lawrence
Fotografia: Jonathan Brown
Género: Comédia, Romance
Duração: 107 min.
Sítio Oficial: não tem

19 de abril de 2015

"American Sniper" por Nuno Reis

Quando se trata de homenagear os mortos, temos de duvidar de tudo o que nos dizem. Segundo a internet, Chris Kyle dizia que se alguma vez fizessem um filme sobre ele, tinha de ser Clint Eastwood a realizar. Foi uma questão de sorte ver o seu desejo correspondido, ainda que as alternativas fossem muito interessantes. Para o papel principal acabou por ficar o até então produtor Bradley Cooper que se esforçou muito para ficar fisicamente parecido e adoptar todos os maneirismos de Kyle, tal como Sienna Miller para ser Taya. A qualidade do argumento estava assegurada pois os envolvidos receberam uma mensagem muito clara de todos os amigos militares de Kyle “se lixas isto estás morto”. Dizer que o filme tinha de honrar a memória de um homem morto era o mínimo. Seria um retrato do último grande herói de guerra americano e, no limite, do que vários milhares de soldados andaram a fazer durante anos, morrendo numa guerra horrível e sangrenta. Kyle foi o seu anjo da guarda enquanto vivo, eles zelariam pela sua memória até ao último homem.
Como deve ter ficado patente acima, a história é bem clara, ainda que não seja completamente fiel à realidade. Chris Kyle era um homem normal, um cowboy do Texas. Quis ser mais do que isso e entrou no exército, apesar de ser um bocado mais velho do que os colegas de treino. O seu treino de caçador ajudou-o a tornar-se um atirador, actividade para a qual demonstrou uma aptidão incrível. E à medida que as missões passavam, Kyle ia somando mortes e salvando vidas, cada vez morrendo mais um bocadinho por dentro. E enquanto ele matava pelos EUA, do lado oposto outro sinper fazia o mesmo para defender o Iraque dos invasores. Dois homens pacientes e mortais - lendários - que se procuravam com olhos de lince ainda que fossem invisíveis aos olhos de quem andava no solo.
Ao lado do herói é adicionado o lado humano. O stress de quem corre constante perigo de vida, quem tem uma missão a cumprir e vê os companheiros morrer desnecessariamente numa guerra sem fim. Do homem que não consegue deixar de ser soldado nem deixar o campo de batalha (como também vimos de forma magistral em “The Hurt Locker”). O olhar de Eastwood sobre a guerra foge sempre ao comum. A mensagem anti-guerra está suavizada. Ao início parece dar a impressão que apenas os fracos sofrem disso. Como também Kyle foi uma vítima, diz que é normal sentir isso, mas os fortes procuram tratamento e superam. Não era a melhor forma de o fazer, mas por uma questão de respeito pelos milhões que iriam ver o filme por causa do soldado, tinha de dar uma boa imagem da instituição Exército. Deixemos a política para outros filmes e que os militares tenham o seu momento de glorificação sem quezílias desnecessárias.
Longe de ser o melhor de Eastwood, ainda que tenha cenas brilhantes, é uma obra muito eficaz, incrivelmente directa e que toca nos pontos chave de uma lenda, sem manchar a imagem do homem. A sua duração acima das duas horas passa despercebida, mesmo num cenário de guerra que consegue tornar-se insuportável numa questão de segundos, por entre tiros, bombas e gritos. O momento final na tempestade de areia tornou-se um pouco repetitivo (e acabou por nem referir outro feito real de Kyle), mas a própria guerra tem instantes assim, infindáveis. É muito bom fazer a lenda desaparecer por entre o pó, como D. Sebastião no nevoeiro. A mensagem que fica é que Kyle deu o que podia pelo seu país, cumprindo a sua missão de forma inquestionável. O problema foi ter tentado salvar todos, mesmo quem não queria ser salvo.
American SniperTítulo Original: "American Sniper" (EUA, 2014)
Realização: Clint Eastwood
Argumento: Jason Hall (baseado no livro de Chris Kyle, Scott McEwen, James Defelice)
Intérpretes: Bradley Cooper, Sienna Miller, Ben Reed, Elise Robertson, Keir O'Donnell, Reynaldo Gallegos, Luke Grimes,
Fotografia: Tom Stern
Género: Acção, BIografia, Guerra, Thriller
Duração: 132 min.
Sítio Oficial: http://www.americansnipermovie.com/

4 de abril de 2015

"Focus" por Nuno Reis

Os tempos mudam, os golpes não


Os vigaristas sempre foram o género preferido de criminoso cinematográfico para o grande público. Apesar de o seu alvo não ser exclusivamente nas grandes fortunas, não roubam a quem nada tem. E além disso, os planos são tão engenhosos que é quase como se merecessem uma recompensa pelo esforço. No entanto, também o argumentista terá de dar o seu melhor para nos apresentar uma história convincente, caso contrário será prontamente ignorado.
Temos assistido a diversos golpes memoráveis no cinema. “The Sting”, “Ocean’s Eleven”, “Inside Man”, em todos eles os criativos ladrões têm de lidar com problemas pessoais e profissionais em simultâneo. “Focus” segue precisamente o mesmo caminho. É a história de um vigarista profissional que cruza caminho com uma vigarista amadora e lhe ensina alguns truques úteis. Quis o destino que se encontrassem novamente e terão a oportunidade de trabalhar juntos. Conseguirão pessoas que ganham a vida mentir, confiar um no outro?
Começando pelos actores, o meu principal (único) motivo para ver este filme, foi a curiosidade de ver Will Smith e Margot Robbie juntos antes de “Suicide Squad”. Ao espreitar os actores previamente associados às personagens, diria que para o papel feminino haveria talvez uma alternativa, e para o masculino, não sendo perfeito, acabou por ser a melhor escolha. Margot Robbie caminha a passos largos para ser uma estrela em Hollywood e aqui esbanja charme, classe, inocência e humor com imensa candura, tudo o que a personagem precisava. É como se flutuasse enquanto rouba carteiras e relógios. Will Smith com a sua experiência consegue dosear os sentimentos, dando a impressão de ter sempre algo em mente, sempre com o próximo golpe em vista. Olhando para o par, acreditamos que ela tem algo a aprender e que depressa superará o mestre. E há ainda o Farhad (personagem de Adrian Martinez) que, mesmo aparecendo poucas vezes, é uma peça chave na relação e nos golpes. É a dose de realidade que nos puxa quando a mente começa a divagar e se esquece da catch phrase do filme “never drop the lie”. Porque tudo o que vemos é um golpe e todos podem ser actores, a única certeza que temos é que quando Farhad aparece, algo está a acontecer.
O filme peca numa coisa que é na ilusão de ter algo grandioso para nos mostrar, quando avisou ao início que não é no valor, mas no volume que está o ganho. Fazer algo grande só aumenta o risco, não aumenta a quantia. Quem estiver à espera de um grande golpe, poderá não dar valor às dezenas de milhares que eles arrecadam a cada vez. Um milhão é uma enorme quantia. Felizmente o romance que paira no ar ajuda a esquecer os criminosos manipuladores, e a focar no homem e na mulher que se deixam levar por algo que não controlam. Até que surja a próxima mentira e coloque imensa tensão na relação.
Mesmo sem estar ao nível dos antecessores no que a crimes diz respeito, é uma obra competente que pode ser vista sem problemas. Claro que no final podem pensar que algo não bate certo e até terão razão, mas o que num filme convencional seria registado como um erro, aqui pode querer dizer que ainda nem tudo está explicado e algum outro golpe está em preparação. Não é o caso, foi mesmo pouco cuidado, mas perdoa-se falhas menores quando é uma comédia.

FocusTítulo Original: "Focus" (EUA, 2015)
Realização: Glenn Ficarra, John Requa
Argumento: Glenn Ficarra, John Requa
Intérpretes: Will SMith, Margot Robbie, Adrian Martinez, Rodrigo Santoro, Gerald McRaney, BD Wong
Música: Nick Urata
Fotografia: Xavier Grobet
Género: Comédia, Crime, Drama, Romance
Duração: 105 min.
Sítio Oficial: http://focusmovie.com

"Annie" por Nuno Reis

Desnecessário, mas querido

Gosto de musicais. Em especial aqueles cujas músicas conheço e com sessões desertas para poder cantar a plenos pulmões sem medo de ser expulso da sala. Mas não gosto de remakes desnecessários, em especial quando não são o primeiro. Neste caso estamos a falar da quarta adaptação de um musical para filme, e a terceira para cinema. Talvez seja demasiado. Outra coisa que não gosto é a moda de refazer filmes com um casting minoritário só porque fica bem. Seja o "Ghostbusters" feminino, ou o "Karate Kid" negro, gostava que me explicassem bem o interesse de alterar só porque sim. Há coisas que funcionam num determinado tempo e lugar, e se não foram assim no original, não é preciso ser no remake. Com as devidas excepções que podem ser feitas antes de se ter um sucesso em mãos (veja-se o caso de tornar Salt uma mulher ou Nick Fury negro) é preciso muito cuidado. Por exemplo, este James Bond louro e que talvez na encarnação seguinte seja negro, sabemos que tal como Doctor Who é um papel temporário. Dentro de alguns anos virá outro actor e novas queixas quando à escolha como sempre houve. É normal. Mas quando dizem que as tartarugas ninja vão deixa de ser adolescentes e mutantes, alto lá, que isso não faz sentido. Nâo se metam com os clássicos.
Voltando ao filme que vos trouxe aqui, “Annie” era mais uma adaptação da família Pinkett-Smith apesar de esse apelido ser pouco visível no ecrã. A escolha de Quvenzhané Wallis para o papel principal podia ser inquestionável (afinal de contas, quantas na idade dela têm uma nomeação a Oscar?) e logo na abertura validam que há uma imagem estereotipada de Annie que é preciso afastar, mas o escudo de desconfiança fica no ar por algum tempo. Quando começam os acordes de uma música que conhecemos de outra época soam todos os alarmes. Não foi para isto que vim. Por sorte é passageiro e depressa chegam as músicas que conhecemos, com a sonoridade que conhecemos. Ainda que a linguagem de outrora tenha caído em desuso, funcionam.
Com o desenrolar da trama, já bem conhecida, vamos prestando mais atenção às diferenças do que às semelhanças. Há temas tocados demasiado ao de leve, há adaptações à nossa era tecnológica bastante curiosas (em especial a célebre cena da perseguição) e vários números musicais estranhos, onde a palavra assume dois sentidos. Ou é estranho porque as vozes foram demasiado trabalhadas para soarem bem, acabando a soar artificiais, ou é estranho porque a dança é tão ridícula que nem reparamos nas vozes. Por exemplo, “I Think I'm Gonna Like It Here” está tão desenquadrado do resto do filme que só funcionaria como videoclip promocional. E “Easy Street” que em alguma das versões chegou a ser a minha segunda música favorita do filme, aqui é para deitar fora. No fim, musicalmente, tudo o que veio depois de "It's a Hard Knock Life" foi para esquecer.
Quanto aos actores, Wallis consegue ser Annie e, tal como as antecessoras, faz-nos sofrer e sonhar. Jamie Foxx acabou por ser uma boa escolha nos momentos musicais, ainda que seja irregular no resto. Rose Byrne cumpre bem o estereótipo que lhe calhou e Cameron Diaz, que recordamos de momentos musicais em “The Mask” e “Charlie’s Angels”, simplesmente não funciona como vilã. Fomos formatados para gostar dela e esperamos ansiosos pela sua redenção.
Num instante passam duas horas. A impressão final é que funcionará bem com quem não trouxer uma imagem pré-concebida de outros filmes. Se não tiverem acolhido anteriormente outra Annie no vosso coração, esta versão provavelmente ficará com esse espaço. Se já lá estiver uma, será mais complicado, mas decerto ela não se importará de receber outra criança na mesma situação. Se há algo que Annie nos ensina filme após filme, é que podemos gostar de toda a gente.
AnnieTítulo Original: "Annie" (EUA, 2014)
Realização: Will Gluck
Argumento: Will Gluck, Aline Brosh McKenna (baseados no musical)
Intérpretes: Quvenzhané Wallis, Jamie Foxx, Rose Byrne, Camerin Diaz, Bobby Cannavale, , David Zayas
Música: Greg Kurstin
Fotografia: Michael Grady
Género: Comédia, Drama, Musical
Duração: 118 min.
Sítio Oficial: http://www.annie-movie.com