5 de abril de 2010

"The Lovely Bones" por Nuno Reis


Susie: My murderer was a man from our neighborhood. I took his photo once; he stepped out of nowhere and ruined the shot. He ruined a lot of things.

"The Lovely Bones" estreou com um estigma: já tinha sido baptizado como desilusão do ano.

Susie era uma adolescente como todas as outras. Um dia é convencida por um vizinho a ver um lugar secreto e nunca mais é vista. Iremos acompanhar o sofrimento da família que deixou, a indiferença do homem que a matou e a relutância da própria em deixar este mundo. O pai investiga toda a gente procurando em vão um suspeito que possa acusar. A mãe abandona a família por não suportar a dor. Ainda sobra tempo para ver como Susie, ou a memória dela, afecta o pretendente a namorado e uma rapariga que sentiu a presença dela.

Peter Jackson pode ser neo-zelandês, mas não é Vincent Ward e "The Lovely Bones" não é "What Dreams May Come". O cenário de purgatório em ambos os filmes é deslumbrante e muito semelhante. O tema é o mesmo: pessoas que morreram, mas não consideram que tenha chegado a hora de partir. Enquanto no filme de Ward Robin Williams tinha de ir ao Inferno para salvar a mulher, aqui Rohan tem de assistir impotente ao inferno que a família atravessa após a sua morte. As semelhanças são muitas, mas muitas delas eram obrigatórias pelo argumento. Jackson fez o que pôde e deixar-se influenciar pelo conterrâneo não é mau! É ser um anão a tentar trepar para os ombros de um gigante.

Os actores estão em grande. Susan Sarandon inicialmente rouba o espectáculo, mas para o final vai ficando mais discreta. Saoirse Rohan volta a aproximar-se do extraordinário. É um papel perturbador e os diálogos são difíceis, mas resume-o a um jogo de expressões e tons de voz o que é um trabalho fenomenal para alguém tão jovem. Tucci está irreconhecível e assustador desde que dá a primeira gargalhada. O seu pedófilo junta-se aos maiores do cinema como o de Jackie Earle Haley em "Little Children", se é que isso pode ser considerado honroso. Rachel Weisz tem um papel demasiado pequeno para a actriz que é e Mark Whalberg tem uma actuação consistente, para variar.

Um dos defeitos é não manter o estilo narrativo. Por vezes dramático, outras vezes divertido, deixa cada espectador confuso. Se no início sentimos pena da pequena, depois é pena da família seguido de receio pela irmã dela, a próxima na lista. Finalmente é revelada a verdadeira extensão do crime e acabamos por sentir ódio. Nada do que aconteça a Harvey será castigo suficiente pelo que ele fez.

Temos duas horas de história que se desenrola pelos nossos olhos. Apesar de não ter nada explícito o simples facto de assistirmos aos planos de Harvey por vezes é tão repugnante que apetece sair. Ninguém consegue ficar indiferente, mas quando termina fica a recordação de uma enorme beleza visual sem que tenha grande substância. Meia dúzia de filmes depois está esquecido. É o melhor filme falhado de que tenho memória.

Título Original: "The Lovely Bones" (EUA, Nova Zelândia, Reino Unido, 2009)
Realização: Peter Jackson
Argumento: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson (baseados no livro de Alice Sebold)
Intérpretes: Saoirse Ronan, Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Stanley Tucci, Susan Sarandon, Michael Imperioli
Fotografia: Andrew Lesnie
Música: Brian Eno
Género: Drama
Duração: 121 min.
Sítio Oficial: http://www.lovelybones.com/

3 comentários:

Tiago Ramos disse...

Visto do Céu desilude. Peter Jackson falhou. Mas se o fez foi porque a adaptação ao cinema era das mais complexas de sempre. E se falhou, fê-lo de cabeça erguida, porque Visto do Céu consegue despertar interesse no espectador. É como dizes "É o melhor filme falhado de que tenho memória".

Nekas disse...

O mundo que Jackson criou ao ser muito complexo condicionou a linha narrativa que se demonstra desequilibrada pois numas vezes é espectacular como no início mas vai perdendo a sua fasquia...

Abraço
Cinema as my World

ArmPauloFer disse...

Não me desiludiu. talvez porque o tenha visto já depois do hype (que se tornou negativo) e esse ruido gerado me ter criado nenhuma expectativa de obra maior.

"The Lovely Bones", adianto que achei muito interessante.
Tem um elenco bem escolhido, onde curiosamente todas as principais personagens têm algum espaço de construção nesta malha que se torna intrincada com a perda e a forma de lidar com ela.

Como filme, no seu todo é uma proposta que acaba algo fracturada, como se duas formas distintas de direcção artística estivessem em constante colisão durante grande parte desta obra muito peculiar. E a culpa é forma assumidamente computorizada que criativamente Peter Jackson escolheu para nos ilustrar visualmente este "mundo" surrealista, que melindra o filme no seu conjunto.

Tem ainda um bela banda-sonora de Brian Eno (e não só, pois também os Cocteau Twins, This Mortal Coil e outros pontuam esta produção), que potencia grandemente o constante feeling real vs intangível do filme, mas muito especialmente os momentos surrealisticos no campo metafisico.

"The Lovely Bones" um filme que bem poderá não agradar a todos mas que é uma experiência visual e narrativa muito interessante.