18 de fevereiro de 2011

"Winter's Bone" por Nuno Reis


Numa pequena aldeia do Missouri, junto à fronteira com o Arkansas, há uma quinta. Nessa quinta vive uma família como tantas outras da região, pobre, mas trabalhadora e honrada. Ree é a personificação desses valores, não só toma conta da mãe catatónica, como educa o irmão de doze anos e a irmã de seis. O pai está em parte incerta, o que e uma boa notícia atendendo ao seu historial de fabrico de metanfetaminas. Só que também a justiça o procura e a quinta faz parte da caução. Se Ree não o encontrar e levar à justiça perderão tudo. Por isso parte numa perigosa viagem pelas redondezas, fala com a família, os amigos indesejáveis do pai, todos os que a possam ajudar a obter pistas. Ree tem dezassete anos.

Por vezes o cinema traz-nos surpresas inesperadas. Fui ver "Winter's Bone" sem saber do que tratava, apenas guiado pelas nomeações e curioso pela não-publicidade. Encontrei um filme deslumbrante, com uma identidade forte e única. Jennifer Lawrence, a protagonista do filme tem um papel muito difícil que desempenha com perfeição. O conto de uma rapariga perdida num mundo adulto e marginal combina o que de melhor teve "Precious", com a atitude e confiança de uma "Juno". Encanta-nos a forma como tenta ser adulta e preparar os irmãos, primeiro para a vida, depois para a sobrevivência. Porque ela sabe que se está a meter com as pessoas erradas e corre risco de vida. É por isso que ensina uma criança de seis anos a disparar e obriga uma de doze a esfolar e estripar um esquilo. Porque a vida não lhes vai ser facilitada e se não for ela a prepará-los agora será demasiado tarde. Apela à amizade dos vizinhos, dos poucos amigos que tem, da família por mais distante que seja. Convicta de que se nada fez para merecer essa ajuda, também nada a fez para que lhe possa ser negada.

Este retrato tão cru da América profunda choca, mas simultaneamente apaixona. Porque não tenta ser agradável ao público ou ter um final feliz, esforça-se apenas por ser honesto. A parte mais surreal do filme é o exército americano apresentado como compreensivo e preocupado com os cidadãos. Sim, porque Ree está disposta a abdicar da juventude ao serviço do exército para garantir um salário. É nessa cena que percebemos como ela é inocente e quão mal informada e preparada está para ser uma adulta. No entanto não conseguimos deixar de a apoiar e acreditar nela, acreditar que conseguirá encontrar o pai e superar o desafio. E sabe bem esquecer que mesmo escapando a este problema, outros se seguirão. A vida é feita passo a passo.

Depois de imensas dificuldades a conseguir financiamento (e foi feito com apenas dois milhões de dólares e muitos actores amadores) o filme conseguir marcar posição em Berlin e Sundance, chegando aos Oscares como um dos grandes títulos do ano. O mínimo que merece é ser visto.

Winter's BoneTítulo Original: "Winter's Bone" (EUA, 2010)
Realização: Debra Granik
Argumento: Debra Granik, Anne Rosellini (baseadas no livro de Daniel Woodrell)
Intérpretes: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, Garret Dillahunt
Música: Dickon Hinchliffe
Fotografia: Michael McDonough
Género: Drama, Mistério, Thriller
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: http://www.wintersbonemovie.com/

7 comentários:

Por que você faz poema? disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Por que você faz poema? disse...

Ainda não entendi tanta celeuma em torno deste filme, achei-o mediano, somente. Mais interessante é "Blue Valentine", que foi descartado na corrida pela estatueta de melhor filme.

Nuno disse...

"Blue Valentine" também é muito apoiado na cruel realidade, nesse caso é sobre o desaparecer do amor. Não gostei tanto, mas admito que com a idade virei a gostar.

A nomeação de Williams surpreendeu-me, faz tantas vezes o mesmo papel... Acho que foi mais pela situação pessoal pré-rodagem e por a ter superado.

DiogoF. disse...

Pessoalmente, gostei muito do Winter's do Blue, mas mais do primeiro. Boa crítica.

King Mob disse...

"O mínimo que merece é ser visto"

Nuno, dizes muito bem, mas já reparaste na pobreza de número de salas que o têm em exibição? 4 salas em Lisboa (das piores em termos de condições), 1 sala no Porto, e outra em Coimbra. Que tristeza. É verdadeiramente vergonhoso o tratamento que o filme está a receber. Merece muito melhor que isto.

Nuno disse...

É um filme marginal e com condições correspondentes à publicidade que teve. Está a ser muito mal-tratado e por isso é que comecei a divulgação desde a estreia. imagino que num mês desapareça de cartaz.

King Mob disse...

Este número de salas não me chocava minimamente se o filme estreasse por cá antes da nomeação dos óscares, mas depois delas!!? Os óscares, com todos os seus defeitos, continuam a ser extremamente mediáticos. Com as nomeações, o filme ganha automaticamente outro perfil. Não entendo.