10 de fevereiro de 2011

"The Fighter" por Nuno Reis

Lowell foi o berço da revolução industrial americana. As décadas passaram e nos anos 90 já era uma terra como todas as outras, mas continuava a ter habitantes com pretensões de glória. A pior delas seria Alice, mãe do grande pugilista Dicky que uma vez derrotou Sugar Ray Leonard. Alice tem um total de nove filhos. Sete meninas, Dicky e Micky. Ocupações conhecidas? Micky é calceteiro e tenta ser pugilista, Dicky prepara o seu regresso ao boxe enquanto treina o irmão e fuma umas coisas. Se ter um filho boxeur é razão para uma mãe se preocupar, ter dois deveria ser duplamente mau. Excepto para Alice que quer ter ambos a lutar nos ringues.

Esta é a história de Micky Ward, um homem que teve muito que lutar para sair da sombra do irmão. Da mãe tem a pressão, do irmão tem o apoio, agora falta-lhe o resto. Vamos conhecer Micky quando ele conhece Charlene, uma barmaid invulgar. É pelos olhos dela que vamos saber como é a vida de Micky e essa perspectiva não é muito abonatória para a família. Dividido entre dois managers, dois treinadores e o amor por duas mulheres, Micky está prestes a enfrentar o maior desafio da sua vida. E aí não há luvas que lhe valham.

O filme é bastante fiel à realidade, mas por um longo período é difícil saber se estamos perante um drama ou uma comédia. A família Ward/Eklund (Alice tem descendentes de dois casamentos) não é normal. As irmãs de Micky são deveras assustadoras e pessoas sem nível. A mãe aparenta ser melhor, mas é apenas fachada. No fundo é tão má como elas. Dicky, que se atrasa para cada treino por estar numa casa de crack, tem umas saídas espectaculares. Todo ele é um espectáculo ambulante que merecia um filme próprio e por isso é que as câmaras o seguem. Até que as asneiras de Dicky começam a comprometer Micky. Primeiro quase o matam, depois arruínam-lhe a carreira... E aí começa o drama. Com Dicky afastado por uns tempos, Charlene tem uma oportunidade única de fazer do seu homem um campeão. É uma árdua missão ao estilo Rocky.

Excepto Micky, todas as personagens com direito a nome no parágrafo anterior estão nomeadas a Oscar. Se Bale não ganhar um desta vez como Dicky não sei o que tem de fazer para conseguir um. Uma nova redução de peso assombrosa, uma interpretação magnífica, uma personagem inesquecível e uma carreira sólida de trinta anos a garantir que não foi por acaso que chegou a este nível. Tem de ser desta. Melissa Leo como Alice está bem. Não é uma personagem brilhante, mas tem carisma. Já Amy Adams apenas prova versatilidade e é uma outsider para os prémios. Tem uma personagem aguerrida, mas banal. Mark Wahlberg consegue bastante empatia e junto com Bale aguentam o filme.

"The Fighter" tem uma filmagem preocupante. Começa com uns efeitos interessantes, subitamente a câmara parece mais preocupada em mostrar o decote de Adams do que em enquadrar a história. Após uns minutos volta ao normal. Há umas situações caricatas de troca actor/duplo descaradas, mas normalmente são durante uma gargalhada do espectador e passam despercebidas. A edição está fabulosa e deve ser isso que impede mais problemas. Meia dúzia de segundos maus num total de duas horas é pouca coisa. Para o olhar menos treinado ou quem ignore esses detalhes o filme é extremamente agradável de ver.
Terminar mostrando as pessoas reais que inspiraram esta história só dá mais vontade de aplaudir Bale.

The FighterTítulo Original: "The Fighter" (EUA, 2010)
Realização: David O. Russell
Argumento: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson, Keith Dorrington
Intérpretes: Mark Wahlberg, Christian Bale, amy Adams, Melissa Leo, Mickey O'Keefe
Música: Michael Brook
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Género: Biografia, Drama
Duração: 115 min.
Sítio Oficial: http://www.thefightermovie.com/

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