12 de julho de 2011

"Peeping Tom" por Nuno Reis

Vimos diversas vezes o Cinema ser retratado como escape da realidade e como paixão exacerbada. Também já serviu de salvação, mas quantos se lembrarão do Cinema como objecto de obsessão e motivo de crime? Foi precisamente por ninguém esperar isso, que “Peeping Tom” teve tanto sucesso quando foi lançado. Tanto sucesso que o seu realizador, depois de dezenas de filmes, de passar pelos três grandes festivais e de ser nomeado como argumentista tanto pela Academa americana como pela inglesa, teve de se retirar da indústria como um proscrito. Foi um filme demasiado violento e realista para a maioria.
Peeping Tom

Mark é o protagonista. Ele combina a paixão por ambas as utilizações de câmaras e vive disso. Oficialmente trabalha em cinema, mas faz uns biscates tirando fotografias eróticas numa loja. No mundo do cinema convive com a falsidade, no da fotografia com mulheres deselegantes. Esse descontentamento faz com que se isole do mundo e só por acaso conhece a vizinha de baixo. Helen estava a festejar o seu aniversário e viu-o passar. No espírito da festa convida-o, mas ele recusa. Isso será o início de uma relação quase normal entre os dois. O único problema é que ele tem de matar pessoas. Não é por gosto, é porque procura a expressão perfeita de medo. Helen começa a entrar no mundo dele e a compreender os traumas que Mark enfrentou na infância. Terá tempo de o transformar antes de se tornar na próxima vítima?
Peeping Tom

Pode o cinema levar à loucura? Muita gente diz que sim, mas acompanhar este sociopata na fase terminal é uma experiência única. Se ele apenas filmasse os crimes seria macabro, mas não relacionado com cinema. Aqui a questão é que ele assiste aos filmes projectados em tela. Através da câmara junta ao acto de encurtar uma vida, o de alongar a morte. Dá como último pensamento que a morte não será um acto privado. Está a ser vista e será vista eternamente. É esse toque de perfeccionismo na tortura que o torna num dos monstros mais memoráveis da história do Cinema. Isso, e o detalhe de saber como se tornou naquilo que é e como o Cinema lhe serve de refúgio numa sociedade na qual não sabe viver. Ele não tem culpa, não lhe foi ensinado como ser normal.
Peeping Tom

Para Powell "Peeping Tom" foi quase o último filme. Foi também a sua obra-prima. No mesmo ano em que Hitchcock se consagrou com "Psycho", também este inglês seguiu um rumo pouco convencional para a fama. Foi banido e escondido num espaço de dias, tanto no Reino Unido como nos EUA. Terão ficado assustados ao pensar que haveria um fundo de verdade na história? É que Powell, a esposa e o filho representam o jovem Mark e os pais. Até a câmara era do realizador. Percebe-se por que razão, filmes do mesmo argumentista não são sequer exibidos.
Pelo que se comenta a rodagem do filme roçou a loucura e a censura arruinou muitas das melhores cenas. Mesmo assim continua extremamente eficaz, por isso só resta imaginar como seria a versão hardcore.
Com o passar do tempo e a mudança das mentalidades, o filme recuperado por Scorsese acabou por conquistar um lugar de prestígio no panorama cultural. Precisou de vinte anos para ser digerível e moralmente aceitável, mas isso só se aplica a um primeiro visionamento. Ao rever, o choque será bem maior e a polémica voltará a ganhar força. Todos se tornarão "Vítimas do Medo".

Peeping TomTítulo Original: "Peeping Tom" (Reino Unido, 1960)
Realização: Michael Powell
Argumento: Leo Marks
Intérpretes: Karlheinz Böhm, Moira Shearer, Anna Massey, Maxine Audley
Música: Brian Easdale
Fotografia: Otto Heller
Género: Crime, Horror, Thriller
Duração: 101 min.

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