30 de agosto de 2010

"Inception" por Nuno Reis

I believe that a man lost in the mazes of his mind may imagine he is anything.
A frase acima vem do filme "The Wolf Man" de 1941 que revi a propósito do remake. Curiosamente ao ouvi-la recordei-me logo dos labirintos da mente criados por Christopher Nolan no seu mais recente projecto estreado.

Num futuro não tão distante como gostaríamos, é possível viajar para dentro dos sonhos das pessoas. É possível controlar o cenário onde as personagens se movem, mas não os actos de cada um. O sonho é comum e cada um é responsável pelas suas acções, dentro dos limites permitidos pela lei da gravidade e restantes regras da física. E nesse mundo Cobb é o melhor. Leva as pessoas a acreditar no que se passa para assaltar um cofre virtual e lhes levar os segredos melhor guardados. Até que um golpe lhe corre mal. Derrotado no seu próprio jogo por uma vítima sagaz, vai ser convidado a redimir-se dos seus pecados fazendo a operação inversa. A nova missão que não pode recusar será a de implantar uma ideia na mente de um jovem que se prepara para assumir o controlo da maior empresa do mundo. A ideia é desfazer a empresa de forma a permitir uma concorrência saudável entre todos. Para isso Cobb reúne uma equipa, os melhores dos melhores, e prepara-se para criar um sonho dentro de um sonho, dentro de um sonho...

(quem conhece as personagens aqui pode avançar meia dúzia de parágrafos)
Cobb é o chefe. O melhor a invadir os sonhos dos outros e mentor do plano, imaginou uma forma de usar sonhos dentro dos sonhos de forma a estender o tempo (cinco minutos no mundo real são uma hora no sonho, hora essa que vale doze horas no nível seguinte de sonho, que vale seis dias no nível seguinte). Perseguido pela justiça por um crime de que se considera inocente, tem de concluir este derradeiro acto de loucura para poder comprar a inocência. Enquanto isso é assombrado pelas memórias da esposa em todos os sonhos que tem, em qualquer nível.

Arthur é o parceiro de Cobb. Juntos há muito tempo, acabam por confiar apenas um no outro. Confiam a vida, mas não os segredos. Estão num negócio onde sabem o valor que tem manter algo apenas para si. Sem uma função definida, cabe-lhe a missão de estar lá e fazer o que for preciso para que saiam vivos do sonho.

Yusuf foi contratado especificamente para esta missão. Químico experiente, tem de preparar o composto que lhes permita adormecer e viajar quantos níveis forem precisos.

Ariadne é a mais jovem e estranha do grupo. Ela é a arquitecta que tem de imaginar os mundos onde se vão mexer. Pegar em detalhes de coisas que viu toda a vida e combiná-las em novas divisões, casas, prédios, ruas, cidades… A mente humana encarrega-se de a preencher com indivíduos aleatórios, vindos dos recantos mais escondidos da memória, mas ela tem de fazer tudo o resto. Tem um trabalho puramente teórico, no entanto compreende todo o jogo melhor do que os profissionais.

Eames é o mestre dos disfarces. Consegue entrar num sonho vestido a pele de alguém para os levar a contar coisas que contariam na vida real à pessoa real. Também ele tem problemas por ter feito muitas viagens à mente de quem não devia, mas não recusaria o trabalho que lhe foi proposto. Os grandes génios precisam de um desafio à altura e este é o maior desafio de sempre.

Finalmente temos Saito. Ele devia ser apenas o patrão, o homem do dinheiro, mas tem uma opinião diferente. Se vai pagar a viagem, porque não desfrutar dela? Tal como Ariadne ele já experimentou a viagem do subconsciente, desconhece a verdadeira complexidade do universo alternativo onde vão entrar, e no entanto tem uma habilidade nata para esse mundo secreto. Tem um espírito muito prático e uma visão superior a todos os outros. Comprar a companhia aérea para garantir os lugares que queria é das piadas mais simples, mas mais eficazes do filme e serve de exemplo de como funciona a sua mente.

O desempenho dos actores é fabuloso. A escolha deles a dedo, algo só permitido aos maiores entre os realizadores, pode tornar difícil o processo de selecção, mas torna demasiado fácil o trabalho de os dirigir. Não há dúvidas que DiCaprio, Cotillard, Page e Watanabe são dos maiores actores da actualidade. Murphy e Levitt apesar de um pouco mais protegidos da fama só serão desconhecidos para quem estiver alheado do que de melhor se faz em cinema por esse mundo fora. Mesmo nos figurantes encontram-se actrizes como Talulah Riley (é das minhas favoritas) pelo que o elenco está deveras bem recheado (e por pouco não referia que temos Tom Berenger e Michael Caine nos secundários...).

Este é o drama de um homem amargurado por um sonho que não terminou e que arrasta o seu pesadelo pessoal para todos os sonhos onde entra. A sua equipa, composta pelos melhores entre os melhores, tem de enfrentar esse super-inimigo num sonho labiríntico repleto de defesas mentais. O espectador vai ser levado para vários mundos em simultâneo. Em cada um tem diferentes personagens, diferentes missões e diferentes velocidades, quase como filmes dentro do filme. No entanto é possível seguir tudo o que se passa sem problemas porque o fio condutor da história se mantém, tal como a constante adrenalina. Exige muita atenção quando começam a cruzar acontecimentos, mas mesmo sem saber o porquê de algo estar a acontecer é possível desfrutar de grandes momentos de cinema. É como se "eXistenZ" tivesse sido refeito para um público mais alargado.

Como história no sentido plano é boa, diria mesmo que é muito boa, e tem detalhes fenomenais. A nível técnico é ainda melhor. Antigamente para fazer uma transformação desviava-se a câmara. Depois começou-se a trabalhar com fundos verdes e outros artifícios que alguma boa vontade tornava indetectáveis. E quando nada podia resolver, desviava-se a câmara para outro plano ou remendava-se a história. Pela primeira vez não é a realização que se adapta à tecnologia, mas a tecnologia que se adapta ao argumento. A história exige que a passagem rebaixada se erga enquanto lá caminham ou vice-versa? Feito! Exige que umas escadas obedeçam à ilusão de óptica de Penrose? Feito! Exige um elevador sem gravidade e lutas em corredores em rotação? Feito! O Cinema está finalmente no comando e arrebatador é a palavra mais próxima daquilo que quero dizer.
Criaturas robóticas, animações CGI de imagem real e filmagens em bullet time foram um primeiro passo desta magnífica reviravolta. Agora finalmente aos olhos do espectador tudo parece fazer parte do mesmo mundo conhecido como magia do cinema. O futuro trará muitos filmes assim, mas como tudo o que se vulgariza perderá o valor. Aproveitemos enquanto este grande poder está entregue a quem o usa com responsabilidade e transforma grandes ideias em grandes filmes.

Hesitei antes de dar as cinco estrelas a este filme. No entanto pelo trabalho de Nolan como argumentista de tantos filmes num só e por criar uma obra de culto que pode ser discutida por anos a fio com imenso prazer sem que alguém mude de opinião... as quatro e meia não seriam justas.

Título Original: "Inception" (EUA, Reino Unido, 2010)
Realização: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan
Intérpretes: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Marion Cotillard, Dilep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine
Fotografia: Wally Pfister
Música: Hans Zimmer
Género: Acção, Mistério, Ficção-Científica, Thrillr
Duração: 148 min.
Sítio Oficial: http://inceptionmovie.warnerbros.com/

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