26 de agosto de 2010

"Salt" por Nuno Reis

Numa época não muito distante foi escrito um guião sobre um agente secreto. Como não se arranjou um actor, mudou-se o sexo da personagem e encontrou-se uma actriz interessada. Se a moda pega podemos começar a ter problemas. Primeiro porque todo o desenvolvimento da personagem vai ser mínimo – para o caso de haver reajustes – segundo porque vamos começar a ver uma guerra dos sexos pelos papéis. Sou quase totalmente a favor da igualdade, mas ainda há casos onde convém distinguir homens de mulheres.

Salt é uma agente secreta da CIA. Um dia ao sair do trabalho para ir festejar o aniversário de casamento, pedem-lhe para fazer um biscate. São 20 minutos, é só mais um interrogatório. O dissidente russo que lhe apresentam traz uma complicada trama de intriga sobre a “quinta coluna” russa. Conhecidos como KA são agentes adormecidos, infiltrados em solo americanos desde pequenos, com identidade americana, com um treino que lhes permite chegar bem longe na hierarquia militar e política dos EUA para no dia X lançar um ataque imparável de dentro. Esta teoria em cinema tem como exemplo máximo "The Prize" de Mark Robson (1963, com Paul Newman) e noutro livro do mesmo Irving Wallace chegam a trocar a Primeira Dama ("The Second Lady", 1980) pelo que já conhecemos bem a teoria. A versão que Salt ouve diz que uma agente russa planeia matar o presidente russo para desencadear uma guerra. Essa agente chama-se Salt. Com os serviços secretos em alerta máximo por causa da visita da comitiva russa e esta possível ameaça vinda de dentro, Salt vai ter de fugir para conseguir respostas. Ela está disposta a tudo pelo seu país, mas qual será esse país?

Os filmes de acção com super-agentes secretos dão que falar. Sejam individuais como James Bond e Jason Bourne, ou equipas como a de Ethan Hunt, uma coisa garantida é que todos os anos há filmes em cartaz com a boa velha pancada. Faltava o equivalente feminino. Adaptar o potencialmente discreto "Salt" para ocupar esse lugar foi uma grande ideia, o único problema é que se houve uma mulher capaz de rivalizar com os machos de acção foi Lara Croft. Poucas conseguiriam ocupar este lugar, mas a escolha recorrente de Angelina Jolie começa a cansar.
Nos bons velhos tempos a divisão entre o bem e o mal era clara. Americanos contra Russos facilitava o trabalho do espectador. Hoje em dia complicam tudo com duas centenas de países, distribuídas por múltiplas alianças e organizações, constantes mudanças de posição e guerras de bastidores. É preciso estar actualizado politicamente para poder compreender um filme. Voltar ao cenário de um contra um era demasiado simplista. Os agentes infiltrados dão a complexidade desejada sem a complicação dos agentes duplos. Assim sabemos que cada uma das personagens é boa ou má, só não se sabe qual dos dois.

Podia ser um filme banal em todos os aspectos. O argumento é terrivelmente previsível e as cenas de acção são tão inacreditáveis como nos antecessores. Contudo a ousadia de o fazer (ou refazer) para uma mulher dá-lhe uns pontos extra e Jolie dá-lhe um pouco de classe. Nem ela está ao seu melhor nem o filme é extraordinário. É de destacar por ter marcado uma posição ao mostrar que alguns géneros não estão reservados para os homens. Agora nada de exageros nos próximos anos, o cheirinho a sequela bastou.

Título Original: "Salt" (EUA, 2010)
Realização: Phillip Noyce
Argumento: Kurt Wimmer
Intérpretes: Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor
Fotografia: Robert Elswit
Música: James Newton Howard
Género: Acção, Mistério, Thriller
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: http://www.sonypictures.com/movies/salt/

19 comentários:

Mariana & Roberta disse...

Ainda não vimos o film, talvez por não ser muito o nosso género. Nice review!

Nuno disse...

Obrigado pela visita!

Isa disse...

Machista!
Exageraram na acção mas o mesmo seria no caso de um actor masculino. O facto de terem escolhido uma actriz ‘magrinha’ como a Angelina, o que torna tudo mais inverosímil, tem uma explicação: dinheiro.
Ou pensa que: músculos = capacidade de voar?
Numa crítica de cinema não interessam opiniões sexistas, mas sim críticas objectivas.
Pense e evolua mais um pouquinho.

Ricardo disse...

Adoro os momentos SIC Mulher que a blogesfera nos proporciona.

Isa disse...

Portanto vê!?
‘Adoraria’ analisar o NÍVEL da sua comparação mas não vejo o tal canal.
Mas deve ser… interessante (para certas mentalidades).
“bonus apetite”

Nuno disse...

Gostava de saber se a leitora que tanto critica o meu texto se deu ao trabalho de o ler do início ao fim.

Disse que o filme foi arrojado por ter dado o papel a uma mulher, que a actriz em questão tem sido das poucas a fazer filmes deste género e que preferia que mantivessem os filmes deste género com homens.

As falhas deste filme seriam as mesmas com um homem no papel principal. A diferença é que com um homem seria mais do mesmo, aqui é diferente (isso é válido apenas para o primeiro filme).

O Antestreia tem muitas leitoras regulares, algumas há sete anos. Gostava de saber se em algum texto meu viram um comentário que não gostassem, ou se neste digo mal do sexo feminino de alguma forma.

Ricardo disse...

O tempo de queimar soutiens já lá vai. E, com ou sem machismo (o que não é caso, para quem decidiu ler o texto desde o início), todo temos direito a exprimir a opinião. Feminismo de pacotilha já expirou o prazo.

Ricardo disse...

Ademais, feminismo latino é uma marca a registar.

Isa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isa disse...

Nuno, não critico textos que não leio.
Fui bastante directa, talvez demais, a dizer o que penso. Há tempo que leio algumas das suas críticas (gosto do seu blog) e nunca teci nenhum comentário e normalmente nunca o faço, seja positivo ou negativo.
Mas pareceu-me oportuno, desta vez, faze-lo. Não gostei do filme mas a forma como conduziu a sua crítica, começando pelo facto do actor protagonista passar de Cruise a Jolie, onde identificou o grande problema, deixo-me em completo desacordo. Trata-se de uma crítica sexista: “guerra dos sexos”, “convém distinguir homens de mulheres”, “alguns géneros não estão reservados para os homens”. Enfim…, onde é que eu já ouvi isto (?)
Espero que não seja seu objectivo obter sempre comentários favoráveis. Não interessa ter leitores que apenas gostem das suas críticas, mas sim leitores que tenham opinião própria.
Não esperava que os 2 responsáveis pelo blog me criticassem por ter uma opinião discordante, afinal comentar é o que se pretende, não?
Cumprimentos.

Isa disse...

Ricardo não pense que tenho 15 anos, e já teve o seu momento ‘rosa’. Aliás não conheço ninguém que veja a sic mulher…
Se o feminismo não está na moda, o machismo está sempre em alta. Tão típico…

Ricardo disse...

Ainda estou para descobrir o machismo neste texto. O que retiro do texto são considerações à profundidade da personagem visto ela ter sido escrita "ab initio" para um homem. Nada mais. E, aliás, não concordo com a crítica, dar-lhe-ia as mesmas 3 estrelas, mas por outros motivos.

O que não entendo é o facto de sempre que alguém diz alguma coisa relacionada com uma hipotética luta entre homens e mulheres, aparecer sempre alguém com uma bandeira feminista na mão, bradando descriminações e vendo machistas onde afinal estão moinhos.

Ricardo disse...

E aproveito para acrescentar que o que mais me levou a criticar o comentário, foi a postura do "pense e evolua um pouquinho". Concerteza que não preciso de aprofundar mais nada.

Isa disse...

Com certeza que não.
De qualquer forma apenas quis deixar a minha opinião, não era meu objectivo ferir sensibilidades.

Cris =) disse...

Bom dia

Não acho que haja machismo no texto mas concordo que seja realizados filmes em que há heroínas. No entanto concordo que mudem de actriz e apesar da Jolie ser das minhas favorita... gostaria de ser surpreendida.

Ainda não vi o filme mas quero ir ver.

Pati disse...

Boas!
Não considero que o texto do Nuno seja machista, agora quanto ao seu espirituoso comentário "SIC Mulher", Ricardo, efectivamente só há uma coisa a dizer:
"Pense e evolua mais um pouquinho".

Ricardo disse...

Fantástico.

Acho que o Nuno não me deixa mentir se eu disser que a última vez que tivemos tantos comentários foi numa questão semelhante.

Confessa, Nuno, fizeste isto para obter comentários, certo? Ou, num espírito voyeur, observares feministas a saírem das tocas?

Quanto ao texto, não me pronuncio mais. Quanto a não apreciarem o meu humor, há um bom remédio: não lerem o que eu escrevo. Ide em paz, mentes iluminadas, já que os outros é que têm que "pensar e evoluir".

Nuno disse...

Acho que a única forma de encerrar este assunto será com uns artigos totalmente dedicados às grandes mulheres do cinema.
Vou abrir Setembro com essa discussão que parece ser eficaz para fazer as leitoras comentarem. Aí gostaria que também os homens se pronunciassem...

(acreditam que este artigo foi o quinto mais lido no Antestreia esta semana?)

Maria disse...

Boas

Ao contrário de alguns eu vi o filme... eu gostei do filme... como o Nuno disse , nada de novo, totalmente previsível... quer dizer... quem no inicio estava à espera que ela não fosse ela mas outra... eu não estava... mas gostei. Podia ser melhor, mas não há nada que não possa ser melhor.
Segundo o que li do filme quase todas as cenas de pancada foram efectuadas pela actriz e comparando com filmes equivalentes (representados por homens) ela pareceu-me bastante verosímil no papel. E, claro está, não podemos esquecer que é um filme de acção, é previsto ter cenas exageradas na pancada. Foram poucos os filmes de acção a que assisti em que tal não acontece.
Único falta que, eu como leiga no assunto, poderei apontar é a actriz, não foi dos seus melhores momentos e como já mencionaram poderiam ter escolhido outra...
Quanto a feministas, machistas... não somos todos um pouco de ambos?
Continuem bem