11 de agosto de 2010

"Kick-Ass" por Nuno Reis

O filme mais falado deste ano era sobre um jovem que decide armar-se em super-herói e combater o crime. Kick Ass é o nome dele e o título do filme. O que está para além da publicidade é um filme um pouco fora do vulgar, mas nada extraordinário.

Dave pertence ao estereótipo dos viciados em comics. Cresceu a ler BDs e a ver todo o género de super-heróis combatendo o crime. Alguns sentiam-se obrigados a isso porque com um grande poder vem uma grande responsabilidade. Outros apenas porque queriam fazer do mundo um lugar melhor, para si e para os outros. No caso de Dave é porque está farto de fazer parte dos oprimidos e acha que uma máscara pode mudar tudo. Mas a vida de um super-herói não é um mar de rosas e ao colocar a máscara vê-se mergulhado num mundo secreto onde os verdadeiros heróis existem. O problema é que como único rosto mediático de super-herói – efeito YouTube - ele é o alvo a abater pelos super-vilões.

Fazia falta um filme assim. Depois de termos os heróis clássicos convertidos para cinema e de terem gozado com o tema fazendo anti-heróis ("Hancock"), heroínas mal-humoradas ("My Super Ex-Girlfriend") e escolas de heróis (""Sky High"), a derradeira forma de inovar seria com os heróis "faça você mesmo". Tantas notícias de crianças que saltaram de varandas com uma toalha nos ombros porque "uma capa faz voar" e não havia um único adulto que tivesse tido a coragem de experimentar ser um herói? Em "Kick-Ass" também explicam porquê. A invencibilidade dos bons só acontece nos filmes, quando as pessoas normais desafiam o perigo morrem. Neste filme começam por dizer isso. É um esclarecedor "não tentem fazer isto em casa" que se torna desnecessário com o evoluir da narrativa para uma elaborada trama que só parece credível em cinema.

"Kick-Ass" é um filme de super-heróis. "Kick-Ass" é um alerta para a indiferença, problema cada vez mais gritante da nossa sociedade. "Kick-Ass" talvez seja um agradecimento aos heróis reais e mortais como bombeiros e polícias, que respondem a um apelo quando solicitados, que arriscam a vida diariamente pelos outros. Mas "Kick-Ass" não é um desesperado grito de alerta para humanização das pessoas, para que em conjunto façam do mundo um lugar melhor. Mark Millar encara a situação como natural e o filme de Matthew Vaughn reflecte o mesmo. Os feitos heróicos que fiquem para os outros, e os media que os acompanhem. A pessoa comum vai continuar sentada em frente à TV, indiferente aos gritos de ajuda vindos da porta ao lado.

Este é um filme para entreter, com muita acção e algumas sequências de luta invejáveis. Vê-se com prazer e a anunciada sequela será bem-vinda pelo humor e pela originalidade destas personagens. No entanto está longe de ser um grande filme, especialmente sem o efeito surpresa depois de tantas cenas terem sido divulgadas online. Cada vez se mostra mais pedaços de um filme como forma de promoção, mas quando se chega à sessão, a longa-metragem perde o valor pois já se sabe o que vai acontecer. Os estudos de marketing podem dizer que assim levam mais gente às salas, mas os que vão saem menos satisfeitos. Mais uma vez os interesses económicos ficaram acima da missão perante o espectador.

Título Original: "Kick-Ass" (EUA, Reino Unido, 2010)
Realização: Matthew Vaughn
Argumento: Matthew Vaughn e Jane Goldman (livro de Mark Millar e John Romita Jr.)
Intérpretes: Aaron Johnson, Christopher Mintz-Plasse, Chloe Moretz, Nicolas Cage, Lyndsy Fonseca, Mark Strong
Fotografia: Ben Davis e Mac Kenny
Música: Marius De Vries, Ilan Eshkeri, Henry Jackman, John Murphy
Género: Acção, Crime Thriller
Duração: 117 min.
Sítio Oficial: http://www.kickass-themovie.com/

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