10 de novembro de 2010

"A Serbian Film" por Diego Vázquez


Aproveitando toda a polémica em torno de "A Serbian Film", eis o que os nossos amigos da Sci-Fi World pensaram do filme.

Por fim foi apresentado o filme que mais tinha dado que falar a priori nesta edição do Festival de Sitges. Se a cada ano o festival tem um filme polémico, disposto a provocar confrontos de opiniões entre os espectadores e a reabrir o inacabável debate do que se pode ou não mostrar numa tela (debate absurdo como poucos), este ano o certame tinha uma aposta fácil com este porta-estandarte do cinema extremista sérvio (ontem comentei outro importante título exibido no festival desta cinematografia, "The Life and Death of a Porno Gang") que se permite inventar um novo termo dentro dos limites do cinema ultraviolento, deixando para trás o "torture porn": o "newborn porn".

Curiosamente este filme partilha muitos elementos de fundo com o seu companheiro sérvio, especialmente na utilização de uma personagem mefistoliana que serve de detonador para que o protagonista de ambos os títulos tome uma decisão difícil e com consequências marcantes; no seu retrato do submundo que é o mercado privado de filmes ultraviolentos que exploram os mais fracos, e que já se converteu, apesar de ter raízes profundas em situações reais, em todo um mito dos nossos tempos (cujo principal precursor pode ser encontrado em "Hostel", apesar de o modelo nesse ser um pouco diferente); e por último na inclusão de várias sequências fortes de violência extrema, que não conseguem em nenhum dos dois dois filmes ser tão perturbadoras como se possa ter imaginado.

Assim sem mais demoras vou dizer que a coisa não é tão má como a pintam. Ou dito de outra forma, sim, contém sequências muito duras e em que a violência é bastante explícita, pelo que evidementente não está destinada às almas sensíveis, mas o que pretendem essas cenas é romper com todos os tabus do cinema comercial. O potencial emocional que poderiam ter tido fica bastante ferido, tanto pela ineficácia do seu director em estabelecer um autêntico discurso sentido que não se aproxime demasiadas vezes de uma grande exposição de marionetes, que chega a roçar por momentos os terrenos da série Z (como em algumas frases "más" do filme em plenos momentos de violência ou na utilização de um planeamento e uma música mais grotescas e berrantes do que propriamente eficazes), como por decisões erradas do argumento nos momentos de criação de uma tensão progressivamente crescente ou manter um olhar credível sobre as suas personagens (que felizmente contam em quase todos os casos com interpretações de destaque).

Neste ponto, acho que é necessário salientar que Srdjan Spasojevic não é Michael Haneke (o nome mais citado nestas crónicas do festival), nem David Cronenberg, nem David Lynch, e a sua capacidade de provocar o espectador é mais superficial, enigmática e ardilosa do que realmente preocupante e dolorosa aos níveis mais profundos. Isso não significa que o filme não dê uma boa parte do que promove, ainda que curiosamente demore o seu tempo a revelar a violência extrema que guarda, e ao longo de uma grande parte da sua duração apresenta-nos a história estética e narrativamente de uma forma muito mainstream (ao contrário do filme sérvio comentado ontem).

Não podemos dizer que estejamos perante um filme mau ou sem interesse, mas podemos dizer que ainda que se trate de um projecto arriscado e cuidado, também resulta numa tentativa falhada. Existe um grande erro de guião quando o filme decide deixar de contar a história linearmente, perdendo muita da sua energia e tensão inicial, e a inclusão já referida de demasiados momentos caricaturescos ou fora de tom (menção especial para as últimas frases do filme) são pregos que com que fecha o próprio caixão e que causaram com que a abarrotada sessão de hoje decorresse com risos em vez de sufocos. Este filme não devia ser para rir.

Srpski FilmTítulo Original: "Srpski Film" (Sérvia, 2010)
Realização: Srdjan Spasojevic
Argumento: Srdjan Spasojevic, Aleksandar Radivojevic
Intérpretes: Srdjan Todorovic, Sergej Trifunovic, Jelena Gavrilovic, Slobodan Bestic, Katarina Zutic
Música: Sky Wikluh
Fotografia: Nemanja Jovanov
Género: Adulto, Horror, Thriller
Duração: 104 min.
Sítio Oficial:

1 comentário:

Miguel Reis (Knoxville) disse...

Nuno, responde-me ao e-mail que te enviei com pedido de filme para os videos dos nomeados o mais rápido possível sff.

3 filmes (blogger, blogue, e encontro de bloggers).

Abraço.