16 de outubro de 2010

"The Wild Hunt" por Nuno Reis

Numa era em que os computadores permitem ter uma vida virtual em milhares de universos artificiais as pessoas começam a acreditar que tudo é possível. Mas antigamente para viver num mundo de fantasia, era preciso convencer umas centenas de pessoas mais. Nesta era de comunicação isso não é difícil e por isso novos mundos, fruto da imaginação de alguém, começam a ganhar vida. É chamado Live Action Role Play e enquanto cenários mais normais convivem connosco diariamente (simulação de incêndio/catástrofe, uso de uma situação real em entrevistas de emprego, etc) existem inúmeros campos de jogos como o do filme pelo mundo fora. Apenas uma cerca os separa do mundo real e das preocupações do dia-a-dia.

No mundo criado pelas personagens deste filme convivem diversas realidades. Existem guerreiros vikings, reis medievais, bruxos celtas e os imortais elfos, todos controlados por árbitros que têm a palavra final sobre o que pode ou não ser feito. Apesar dos combates é um jogo pacífico, as armas usadas são forradas para que ninguém se magoe e os "mortos" podem voltar mais tarde noutra personagem. Erik não entende o interesse desse jogo, mas, farto de saber que a namorada é um troféu na fantasia de outros, vai entrar no jogo para se reunir a ela. Só que a única forma de a levar é ganhando combates que moldam o rumo do jogo e da mesma forma que ele odeia o jogo, também os outros jogadores detestam perder e ficam descontrolados quando as regras são distorcidas. Realidade e imaginação enfrentam-se num combate de proporções épicas.

Esta incursão nos live action role play games é bastante curiosa. A fotografia deixa muito a desejar e falta-lhe um pouco mais de comédia para ser eficaz da forma pretendida. A nível de interpretação e dentro do género é surpreendentemente bom, vantagem de a maioria dos actores ter experiência e se terem cruzado de projectos variados. Quando o mercado é pequeno (Canadá) é fácil reencontrarem-se.
O factor humano aparentemente relegado para segundo plano é fundamental na narrativa. O jogo e as rivalidades entre egos são um interessante retrato da condição humana: sempre insatisfeito com o que tem, desejoso de tornar os sonhos em realidades, incapaz de aceitar quem é. Isso é especialmente visível no relacionamento dos irmãos, um que aceita a realidade e um que se refugia num mundo onde é rei. É um alerta para o risco de desumanização das pessoas cada vez mais solitárias, cada vez mais rodeadas para fazer de conta que estão bem.

Título Original: "The Wild Hunt" (Canadá, 2009)
Realização: Alexandre Franchi
Argumento: Alexandre Franchi e Mark Antony Krupa
Intérpretes: Mark Antony Krupa, Ricky Mabe, Trevor Hayes, Kaniehtiio Horn
Música: Gabriel Scotti, Vincent Hänni
Fotografia: Claudine Sauvé
Género: Drama, Thriller
Duração: 96 min.
Sítio Oficial: http://www.wildhuntfilm.com/

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