13 de outubro de 2011

"Twixt" por António Reis

Coppola - Twixt satisfaz duas vezes

Quando me disseram de véspera que “Twixt” estava completamente esgotado e não havia forma de entrar parecia um exagero. Verificou-se que era verdade e estavam 1200 pessoas mais ansiosas por ver o filme do que eu. Isso não incluía as centenas de jornalistas que madrugaram para o ver às 8 da manhã.
Ficando o bilhete para a terceira sessão reservado desde o primeiro minuto em que me foi permitido, “Twixt” não tinha como escapar. Nem passar dois dias a ouvir apenas comentários negativos foi suficiente para desfazer a ansiedade de ver o que o criador de “Bram Stoker’s Dracula” faria no seu regresso à temática vampírica.
Nuno Reis


Um filme de Coppola tem de ter sempre um atractivo suplementar porque nunca é uma vulgar de cinema. Desta vez é o 3D que Coppola manipula com uma ironia subtil, intercalando-o apenas em duas sequências do filme. Numa época em que o cinema parece rendido à tecnologia do 3D, Coppola domina a besta demonstrando que cinema é cinema e tecnologia é apenas mais um gadget para ser usado com moderação. Em filmes convencionais de 3D o espectador sabe que esse adereço o acompanha ao longo de todo o filme. Em “TRON Legacy” sabe-se que os óculos são para entrar no mundo virtual. Em “Twixt” o ecrã convida a colocar ou retirar os óculos para momentos especiais.

“Twixt” não é Coppola no seu melhor e a desilusão de muitos é insistirem num Coppola parado no tempo e em “O Padrinho”. Mas quem ama Coppola sabe que a cada filme ele incorpora momentos únicos de magia que o tornam num autor de cinema: o peixinho vermelho de “Rumblefish” ou os neons de “One From the Heart”. Mesmo quando se possa pensar que a realização é preguiçosa, a preguiça de um génio acaba sempre por ser genial.

Colocando-se sobre a égide de um Edgar Allan Poe inspirador nos momentos de sonho do protagonista, o cineasta cria uma ficção onde os clichés da história de vampiros – a trilogia sexo, sangue e morte – se misturam com a temática do autor em busca de inspiração ou da juventude inquieta e o universo dos gangs que tinham feito a glória de “Rumblefish/Juventude Inquieta”. Criando sucessivas ficções dentro da ficção, enredando o argumento com linhas que se cruzam, “Twixt” é a menos convencional história de vampiros que se podia esperar. Um fascínio pela beleza enquanto jovem, uma pulsão constante pela morte e uma reflexão sobre o acto de escrever com uma ironia subtil de uma realidade demasiado trivial. Compreende-se que a reacção a este filme seja negativa. As referências e a análise literárias são inteligentes, a ironia é demasiado fina e o terror é coreografado como espectáculo. Mas uma segunda visão do filme, mais cuidada e mais liberta da expectativa de um “Drácula 2” fará justiça a “Twixt”. O tempo fará dele uma obra-prima menor, mas mesmo assim prima.

O casting é excepcional, cada actor cria um personagem tão distinto que poderia tornar o filme inverosímil, quando afinal as suas diferenças criam um puzzle complexo e fascinante de personalidades secretas, obscuras e únicas. Todas demasiado reais, mas sempre no limiar do possível. Um realce muito especial para a música inconfundível de Tom Waits.
Tecnicamente como todos os de Coppola é soberbo nos enquadramentos e nos planos e uma nota final para o genérico que os espectadores apressados em abandonar a sala dificilmente perceberão que é um suave 3D. Até no fim Coppola ironiza com o espectador num genérico que prolonga o 3D para além do necessário, quando o espectador apressado está a abandonar a sala.

TwixtTítulo Original: "Twixt" (EUA, 2011)
Realização: Francis Ford Coppola
Argumento: Francis Ford Coppola
Intérpretes: Val Kilmer, Elle Fanning, Ben Chaplin, Bruce Dern
Música: Dan Deacon, Osvaldo Golijov
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Género: Thriller
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: http://www.twixtmovie.com/

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