20 de junho de 2011

"Balada Triste de Trompeta" por Nuno Reis

Balada Triste TrompetaBalada Triste Trompeta


Algumas pessoas têm muito medo de palhaços. Depois de verem “Balada Triste” as outras também vão passar a ter. A mais recente proposta do grande Alex De La Iglesia consegue fazer com que qualquer palhaço seja encarado com o maior receio porque da primeira à última cena são mais as pessoas que eles matam do que as piadas que contam.
Balada Triste Trompeta

As ditaduras assentavam no princípio romano do pão e do circo. O regime franquista foi um pouco diferente porque nem o circo escapava ao serviço militar. Quando os soldados alistam um palhaço alegre para a matança desencadeiam uma série de eventos inimagináveis. Primeiro essa cena por si só é tão surreal e aterrorizadora que jamais se voltará a olhar para um palhaço com tranquilidade. Segundo porque Javier, o filho desse palhaço, não voltará a ser uma criança, vai crescer para se tornar um palhaço triste. Quando o pequeno tem quase quarenta anos finalmente tornou-se um palhaço. No circo para onde vai trabalhar fica imediatamente apaixonado pela equilibrista Natalia, namorada de Sergio, o palhaço alegre, seu superior e estrela maior do circo. Presenciando os abusos cometidos por Sergio contra aquela bela mulher, Javier vai-se revoltar e começar a ser protector, desafiando a autoridade e entrando numa espiral de loucura.
Balada Triste Trompeta

Nos contos por vezes há mulheres vítimas da obsessão de um monstro que são protegidas por um homem bom. Outras são perseguidas pelo homem e protegidas pelo monstro. Pois Natalia é perseguida e protegida por dois monstros e nem a família do circo com toda a dedicação consegue fazer algo para a proteger.
Tudo isto é essencialmente uma metáfora de Espanha e da luta entre facções por ela. Em simultâneo com a narrativa circense há o panorama histórico. O regime franquista e os seus símbolos estão presentes em tudo e os palhaços movem-se por momentos históricos marcantes para o nosso país vizinho. Nem tudo é contado. Se o filme construísse uma narrativa convencional será provavelmente de três horas. Em vez disso proporciona-nos uma manta de retalhos com momentos muito bem filmados e levemente ligados. O desfecho, por oposição, alonga-se demasiado e entra no previsível.
Balada Triste Trompeta

É um filme muito sombrio e violento ao extremo. Guerra, amor e loucura estão misturados com momentos de ridículo, comédia rápida e eficaz que causa um enorme contraste. E também por isso o terror é mais terrorífico, a loucura mais profunda e o amor mais apaixonado. A guerra espanhola contra os fantasmas da guerra em Espanha está longe de terminar. Por sorte vai-nos proporcionando grandes momentos de cinema. Só lamento não saber mais de história espanhola para poder compreender as nuances ocultas na narrativa.

Balada Triste de TrompetaTítulo Original: "Balada Triste de Trompeta" (Espanha, França, 2010)
Realização: Alex de la Iglesia
Argumento: Alex de la Iglesia
Intérpretes: Carlos Areces, Antonio de la Torre, Carolina Bang, Santiago Segura
Música: Roque Baños
Fotografia: Kiko de la Rica
Género: Comédia, Drama, Guerra, Terror
Duração: 107 min.
Sítio Oficial: http://www.thelastcircusmovie.com/

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